A Caixa Vazia e a Zerézima Maria — Capítulo 2.2: Volume 1 – Parte 2 (parte 2)

A Caixa Vazia e a Zerézima Maria
Cap. 2.2
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A Caixa Vazia e a Zerézima Maria

Volume 1 – Parte 2 (parte 2)

Capítulo 2.2

3.692 palavras~16 min de leitura

Posso ouvir essa voz tanto a frente de mim quanto vindo da minha mochila. Maria saiu do caminhão e remove o fone de ouvido com Bluetooth e assim nossa chamada é interrompida.

‘O’ está olhando para Maria, que está a nossa frente sem guarda-chuva.

— Então você ouviu toda a nossa conversa. Em outras palavras, não estava interessada nessa operação toda desde o início. É uma pena, teria amado ver o Kazuki ficar desmotivado com o resultado dessa estratégia.

— Pensei seriamente em usá-la quando você a propôs. Mas parece que o Kazuki sabia da sua verdadeira forma desde o início e estava me deixando no escuro.

Embora isso não tenha sido de propósito. Apenas não sabia o momento certo para dizer isso a ela. Mas fiz o Haruaki cooperar e escolhi o momento para falar efetivamente com ele.

— Mas no final essa foi a decisão certa. Porque se estivesse do lado dele, você poderia ter continuado a se fingir de desentendido.

— Você se afastou de propósito, roubou o caminhão para mostrar que estava longe? Muito bem, obrigado pelo seu esforço. Mas por que tenho que me fazer de desentendido quando você está aqui? Você pode ser uma ‘caixa’, mas isso não significa que é capaz de fazer qualquer coisa.

— O que, você não sabia? Então meus esforços foram inúteis. Muito bem, então me deixe perguntar. Você sabe sobre a minha ‘Flawed Bliss’, certo?

— Sim, sei sobre ela. E também sei que você não pode fazer nada contra mim usando ela.

Maria riu de ‘O’.

— Fufu, você realmente nunca vai compreender nós humanos. Você entende quando coloco dessa maneira? ‘Eu já fiz as preparações para me livrar de você’.

‘O’ reage com um sorriso fraco ao ouvir as palavras dela.

— Você pode apenas amontoar os outros em sua ‘caixa’, não é mesmo? Então como você vai fazer o que você acabou de dizer?

— Parece que você ainda não sabe o motivo de eu estar interessada no Kazuki.

Ela subitamente chama meu nome. ‘O’ olha para mim. Apesar de que esses olhos deveriam ser gentis, eles eram assustadores. Eles parecem os olhos de alguém que olha para um porco e pensa em como prepará-lo.

—......entendo.

‘O’ sorri.

— Então você entendeu afinal. Kazuki tem um talento para usar ‘caixas’. Ele pode ser capaz de usar perfeitamente até mesmo minha ‘Flawed Bliss’. E ele certamente desejaria isso. Ele desejaria que o dia a dia dele continuasse. Que o cotidiano normal continue pacificamente sem seres como você ou as ‘caixas’ que o destroem.

Maria olha ‘O’ com uma expressão assustadora ao declarar isso. ‘O’ não estava impressionado por essas palavras, nem estava surpreso, nem interessado. Ele apenas deixou seu olhar cair tristemente.

— Entendo. Então você não mudou nada.

‘O’ responde assim. Ele se referiu a ela, que viveu 27.755 loops, assim.

— Se você fizer isso, você também vai desaparecer, já que é uma ‘caixa’ personificada.

Maria nem hesita diante dessas palavras.

— Eu sei disso.

— Imaginei.

Contudo, ‘O’ ainda parece triste. Ele não parece nem ao menos se preocupar com a possibilidade de ele mesmo ser apagado.

— Você ainda não pode viver pelo seu próprio bem, huh? Você pode apenas se mover pelo bem dos outros. Tenho pena de você do fundo do meu coração por sua miserável maneira de viver!

— Sua pena não pode nem mesmo ser usada como isca para peixe.

— No começo estava interessado nessa característica incomum, mas ela não vale nada. Um humano que não tem desejos é o mesmo que uma máquina. Tão interessante quanto observar um aspirador de pó. Para mim, você é a existência mais entediante que existe!

Maria range os dentes, contrariada ao ouvi-lo dizer isso. É justo. O inimigo sente pena dela ao invés de percebê-la como uma oponente.

— Tudo bem! Não quero desaparecer. Vamos fazer um acordo. Entrego a ‘caixa’. Em troca quero que você me deixe em paz. O que você acha?

—...hmpf, bem egoísta para quem está para ser eliminado.

— Você deveria estar agradecida que respondi a sua ameaça duvidosa. Não existe garantia de que Kazuki Hoshino realmente usaria sua ‘caixa’. E não quero nem pensar em quão pequenas são as chances de eu desaparecer se ele usar a caixa. Estou fazendo uma conciliação desnecessária aqui para expressar meu respeito por Kazuki-kun ter me descoberto, entende?

— Conciliação? O que você vai nos entregar é uma gaiola velha que você usou para prender o Kazuki. Você pode preparar gaiolas novas o quanto quiser, não é mesmo? Você perdeu interesse nessa e ia trocar ela por uma nova de qualquer forma, não ia?

— Deixo isso para a sua imaginação.

— Hmpf... Kazuki, você concorda com isso?

Maria pede a minha opinião. Eu assinto. Se nós pudermos fazer algo sobre a ‘Rejecting Classroom’, estou bem com isso.

— Kazuki Hoshino-kun. Posso te dar um conselho?

‘O’ me pergunta.

— Você é alguém que não deseja mudança. Mas a maioria dos ‘portadores’ desejam alguma mudança quando eles obtêm a ‘caixa’. Eles querem algo. Eles querem se tornar algo. Eles querem se livrar de algo. Eles tentam realizar desejos desses tipos. Consequentemente, você está se opondo a eles.

Franzo minha testa porque não entendo o significado por trás dessas palavras.

— Kazuki Hoshino-kun. Você se considera como anormal?

Ele me pergunta.

—...Sou alguém comum.

Ouvindo minha resposta, ele sorri.

— Entendo. Mas sinto dizer que você é anormal! Mas você sabe, se você não gosta disso, fique tranquilo. O tempo que você tem para ser anormal não é longo. Pessoas como você, no final, acabam ou sendo isoladas ou perdem sua anomalia, se adaptando a sociedade. Fique calmo! Você sem dúvida está no segundo grupo. Ele diz sem deixar de sorrir.

— Portanto, você realmente tem muito azar.

Diz, com uma expressão satisfeita.

— O que quero dizer é, você descobriu que essa irregularidade existe. Toda vez que você passar por momentos difíceis você vai pensar «Se apenas tivesse aquela ‘caixa’...». Não importa quanto você chacoalhe sua cabeça para esquecer sobre isso, infelizmente a ‘caixa’ existe. A ‘caixa’ que garante qualquer desejo. Você nunca vai ser capaz de esquecer a existência dela. E então, enquanto você viver sabendo sobre a existência da ‘caixa’, você definitivamente vai um dia precisar da ‘caixa’!

Ele continua sorrindo. Aah, entendo... Devolvi a ‘caixa’. Mas foi inútil. Já estava manchado com a maldição do ‘O’.

— No momento em que você precisar da ‘caixa’, você pode ter perdido sua anomalia. Assim, você não será mais capaz de usar a ‘caixa’ perfeitamente. Isso vai aumentar o meu interesse um pouco. Portanto vou continuar interferindo um pouco com você e o ambiente aonde você vive de agora em diante, assim você terá um interesse na ‘caixa’.

O que deveria ter feito para prevenir que fosse amaldiçoado?

--Provavelmente, não podia ter feito nada contra isso.

Não, nós já perdemos no momento em que nos encontramos com o ‘O’.

— É claro, mesmo que você perca sua anomalia, ainda vou te dar uma ‘caixa’ quando precisar. Isso é o bastante para mim. Enquanto você me deixar ouvir o seu som.

—...som?

— Sim, gosto de qualquer tipo de tom que vocês humanos produzam, mas tem um som que gosto mais. Se possível gostaria que você me deixasse ouvir esse som. ...Mh? Que som é esse você pergunta? Meu interesse é completamente comum, então acho que você já sabe. É--

--o som de corações rangendo.

Deixando essas palavras, ‘O’ que possuía a aparência de Usui Haruaki desaparece. Uma pequena caixa cai sobre o lugar em que ‘O’ estava. Quando vou pegá-la, ela começa a se expandir automaticamente.

Logo em seguida, todo o cenário começa a se dobrar. Posso ver as paredes desse mundo. O papel de parede branco começa a virar pó. A sensação doce que estava em minha pele desaparece, e um puro e entorpecente desconforto ataca meu corpo. Meus canais semicirculares ficaram loucos e começaram a virar ao contrário. O som da destruição. O som da destruição. O som da destruição. Nós estamos no interior do desespero. No interior do desespero inegavelmente.

O fundo falso foi apagado e nós estávamos dentro de uma câmara escura. Uma pequena, pequena câmara na qual começaria a me sentir mal se ficasse apenas metade de um dia preso nela. Isso provavelmente é dentro da ‘caixa’.

Dentro dessa câmara que parece uma cela, ela estava sentada, abraçando suas próprias pernas e com sua testa encostada nos joelhos. A garota que amei.

—......Mogi... san.

Ao ouvir minha voz, ela ergue o rosto lentamente.

— Ah--

Uma luz se acende em seus olhos que antes pareciam quase sem vida.

— Não posso acreditar! Não tem como isso funcionar tão convenientemente!

Lágrimas rolaram pelo seu rosto. Algo parecia estranho para mim, mas logo percebi o que era.

— Você realmente veio me salvar.

Entendo. Então ela pode derramar lágrimas novamente.

— Mogi-san, me desculpe. Mas planejo destruir a ‘Rejecting Classroom’.

—...sim.

Ela assente ainda derramando lágrimas.

— Vou deixar você morrer no acidente.

—......sim.

Ela limpa as lágrimas de seu rosto.

— Você pode destruir a ‘caixa’. Você pode até mesmo acabar com a minha vida. Mas por favor, espere só um momento. Tem algo que preciso te dizer.

Dizendo isso, ela começa a procurar por algo em sua mochila. Ela tira algo de dentro dela e esconde atrás de seu corpo. Maria franze a testa por causa do comportamento da Mogi-san.

— Mogi... não me diga, que você ainda...

Ela ignora Maria e se aproxima de mim com as mãos escondidas atrás de suas costas.

—...espere, Mogi! Nesse ponto você ainda quer--

— Não é isso, Maria.

Repreendo a Maria. Não posso ver o que a Mogi-san está escondendo. Mas já sei o que é.

Maria reage com uma expressão duvidosa às minhas palavras e dá a volta para ver o que a Mogi-san está segurando. Após ver o que é, impressionada, ela sorri ironicamente.

— Kazu-kun, você acredita que existem sentimentos que não mudam?

Mogi-san me pergunta isso. Tenho uma resposta na ponta da língua. Mas não era uma resposta satisfatória para ela. Por isso tenho problemas para dizer. Acho que minha resposta seria diferente se não tivesse vivido na ‘Rejecting Classroom’. Mas a experimentei. Experimentei esse mundo próximo a uma eternidade. Portanto não posso pensar de outra maneira. Sentimentos que nunca mudam--

— Não existe algo assim, eu acho.

Mogi-san ouve minha resposta pacientemente.

E então ela sorri.

— É, também acho.

Olhei nos olhos dela. Ela continua sorrindo como se tivesse previsto essa reação.

— Meus sentimentos por você não se mantiveram iguais. Você deixou de ser querido para mim. Passei a não gostar de você, te odiei, te considerei como um incômodo. Estava até mesmo prestes a te matar. Mas você sabe? Isso significa que era dependente de você o tempo todo. Porque estava sempre esperando que você fosse me salvar desse lugar. Sempre, sempre... não pude ignorar você. Sei que é o pior e mais egoísta sentimento possível. Mas você sabe? Não conseguia mudar, mesmo sabendo que estava sendo egoísta. Sei o nome desse sentimento. Mesmo que você não acredite em sentimentos que não mudam, por favor, acredite apenas nisso. Durante toda a ‘Rejecting Classroom’--

Ela me abraça reservadamente. Coloca o objeto que ela estava escondendo em minha mão. Seus lábios tremeram ao lado do meu ouvido.

— Estive apaixonada por você, Kazu-kun.

Os lábios dela se aproximam do meu. Quando eles estavam para se tocar, ela para. Após um tempo, ela afasta seus lábios sem ter tocado os meus. No começo quis perguntar porque ela parou, mas reconsiderei. Porque vi o que ela tinha colocado em minha mão.

— Ah--

Era a razão pela qual ela não pode fazer nada. Entendo e mordo meu lábio. É algo diferente do que tinha esperado. É um Umaibō. Isso ainda é o que esperava. Mas não é de milho, o meu sabor preferido. É sabor de Teriyaki Burger. O sabor que não gosto muito. Ou seja -- é o que a Mogi-san me daria originalmente.

Por que ela me abraçou tão reservadamente? Por que ela não me beijou? Essa não era a confissão de Kasumi Mogi que já havia feito para mim várias vezes, a que me beijou e passou pela ‘Rejecting Classroom’. Essa era a primeira confissão de Kasumi Mogi antes da ‘Rejecting Classroom’, a que apenas podia me chamar de ‘Hoshino-kun’.

‘Eu quero refazer o dia 02 de Março’. O maior arrependimento do dia 02 de Março que ela queria refazer. Ela acaba de repetir esse arrependimento. Então -- devo respondê-la como respondi no verdadeiro 02 de Março...?

Olho para Mogi-san. Ela está sorrindo gentilmente. Esperando minha resposta com um sorriso gentil, apesar de saber o que vou dizer.

— Eu--

Não posso. Não quero dizer isso. Quer dizer, amei a Mogi-san. Mesmo que esses sentimentos tenham sido implantados pelo ‘O’, isso não torna os meus sentimentos falsos. Por que não tenho outra escolha a não ser dizer as palavras que vão machucá-la?

Aah, isso é óbvio. ‘Rejeitei’ essa ‘caixa’. Neguei o desejo da Mogi-san. Vou deixá-la morrer em um acidente. Não tenho o direito de dizer palavras gentis a ela. Abro minha boca. Ainda sim, é difícil dizer. Abro e fecho minha boca várias vezes, hesito várias vezes, mas então senti um liquido salgado percorrendo minha boca, o que me deixa assustado no começo. Mas não consigo pensar em outras palavras para dizer a ela.

— Por favor, espere até amanhã.

Mogi-san olha para baixo com uma expressão triste. Não tem como minhas palavras não terem machucado ela. E mesmo assim, ela muda sua expressão instantaneamente. E me diz:

— Obrigado.

Com um sorriso. Com um sorriso vindo do fundo de seu coração.

Aah-- Por causa desse sorriso, finalmente me lembro. Uma conversa que aconteceu a algum tempo atrás. A conversa que fez me apaixonar por ela. A conversa que foi o início desse amor, que logo irá desaparecer. Uma lembrança importante.

«Hoshino-kun. Você pode me chamar de Kasumi, por favor...?»

«Eh? M-Mas assim tão subitamente?»

«Pode parecer súbito para você, mas estive esperando que você me chamasse assim a um bom tempo, sabia?»

«É... verdade?»

«Então... tudo bem para você, certo?»

«C-Certo...»

«E-Então, err, bem -- posso te chamar de Kazu-kun?»

«Err... sim, não me importo.»

«C-Certo, então tente me chamar pelo nome.»

«......Kasumi.»

«...por favor, mais uma vez.»

«Kasumi.»

«...obrigado.»

«O qu...! P-Por que você está chorando...?!»

«Mh? Estou chorando?»

«Sim...»

«Então... é porque estou muito feliz, Kazu-kun.»

E então Kasumi ri, ainda com lágrimas em seus olhos. Nunca a vi rir desse jeito antes. É um sorriso cheio de felicidade verdadeira. Foi a primeira vez que fiz alguém ficar tão feliz. Essa sensação era totalmente nova para mim, e isso me deixa muito feliz. A felicidade é trazer felicidade para alguém.

Estou tão feliz por ter descoberto esse lado meu que não conhecia, e ela, que me mostrou esse sentimento, se tornou uma existência especial para mim. Talvez seja simples demais. Mas aquele sorriso conseguiu me mudar, sem dúvida alguma.

E mesmo assim vou destruir essa memória.

Vou destruir esse sentimento que acabei de descobrir.

Isso é demais para mim. Não acho que precisava ter esse tipo de coisa preparada para mim no último minuto. É cruel demais me fazer destruir isso com minhas próprias mãos. Mas mesmo assim, já fiz minha escolha. Já fiz essa escolha a muito tempo. Afinal de contas, até mesmo esses pensamentos enlouquecedores vão ser apagados pela ‘Rejecting Classroom’ logo em seguida, não vão?

— Maria, você pode me fazer um favor?

Por isso só quero que ela me dê um empurrão enquanto estou hesitando.

— Diga.

— Você deve saber o que vou fazer agora.

— Sim, porque te observei por mais tempo que qualquer outra pessoa no mundo.

— O que vou fazer agora? Só quero que você me diga isso.

Maria assente com uma expressão séria. Ela sem dúvida sabe por que estou pedindo isso.

— Você vai pisar em cima disso!

Mas ela não usa palavras gentis.

— Você vai pisar em cima desse ‘desejo’ bobo feito por outra pessoa pelo bem do seu próprio ‘desejo’! Você não vai desistir desse ‘desejo’ por nada, Kazuki.

Sim. Acredito que está certo.

— Portanto Kazuki, você vai--destruir a ‘caixa’.

Concordo com as palavras dela. Limpo minhas lágrimas usando meu braço esquerdo.

— É como você diz.

Paro de frente para a parede. A parede cinza que nos cercava era fina como se fosse feita de papel. Essa ‘caixa’ não tem mais poder. Ela está apenas protegendo minhas lembranças e garantindo que elas se mantenham por mais algum tempo.

Quero me virar e ver a expressão da Kasumi. Mas sinto que não devo fazer isso. Ergo meu punho direito. Para destruir a ‘caixa’, o desejo da ‘Kasumi’ e as minhas lembranças, ergo meu punho.

— Obrigado. Então no final, foi realmente você quem me salvou, Kazu-kun.

Por favor, pare com isso! Você não tem nenhum motivo para me agradecer. Estou apenas pisando em cima disso tudo. Apenas estou pisando em cima do seu desejo estragado, Kasumi. Me desculpe. Por favor, me desculpe por não poder salvar você. E então ignoro a voz dela. Mas mesmo assim, obrigado. Porque ela sorri no final, e finalmente posso acreditar em mim mesmo.

— UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Grito usando todo o ar do meu pulmão e acerto a parede com o máximo de força que posso. Ela se quebra fácil como se fosse de vidro, e com um som alto. Dentro de um dos pedaços quebrados, posso ver a mim mesmo e a Kasumi. Nós estávamos sorrindo um para o outro. Esse pedaço cai, se quebra e vira pó.

Uma luz branca começa a brilhar do lado de fora. Quanto mais a parede se quebra, mais a escuridão dessa câmara fica corrompida pela luz. Essa luz sobrepôs tudo, exceto nós.

Está brilhante demais, não posso ver nada. Mas, cruelmente, a Kasumi está ali. A verdadeira Kasumi está claramente ali. A Kasumi está caída na rua. Manchada de sangue. É tão doloroso que quero desviar meu olhar. Mas a Kasumi está sorrindo. Ela está sorrindo com todas as suas forças para mim. Sua boca se abre.

— Adeus.

E então nós fomos cobertos por um branco puro e desaparecemos. A luz branca entra no meu corpo. A luz procura violentamente por aberturas e me invade. Meu interior, meu sangue, meu coração, meu cérebro, tudo é pintado em branco. Minhas falsas, mas valiosas memórias. Aquele sentimento novo que tinha descoberto. As palavras que acabamos de trocar.

Tudo se torna branco.

Tudo se torna branco.

Tudo se torna branco--

1ª vez

— Meu nome é Aya Otonashi. Prazer em conhecê-los.

Diz a estudante transferida com um sorriso fraco. Vendo a aparência deslumbrante dela, as garotas começam a fofocar entre si enquanto os garotos estavam impressionados demais para dizer qualquer coisa.

É claro que não sou exceção. Nunca vi alguém tão bonita antes. Mesmo querendo desviar meus olhos, eles estão fixados nela. Nossos olhares se encontram. Fico facilmente fascinado pelos olhos dela. De alguma maneira ela pareceu estar acostumada com olhares como o meu e sorri para mim.

Quase fico atordoado. Me apaixonar por ela é provavelmente impossível. Nossos níveis são muito diferentes. Tenho a sensação de que nós não vivemos no mesmo planeta. Isso pode soar um pouco cruel, mas acho que qualquer um concordaria ao vê-la.

— Primeiro, gostaria de fazer uma rejeição.

Diz Aya Otonashi com seu sorriso perfeito.

— Por favor --não façam amizade comigo.

Apenas com isso ela consegue silenciar a classe toda que está em alvoroço. Quase como mágica.

— Por favor, não se sintam ofendidos. Se pudesse, adoraria fazer amizade com todos. Contudo, isso é impossível. O motivo disso é que -- a existência de Aya Otonashi tem que ser uma ilusão.

Ainda não compreendo, mas por alguma razão engulo em seco.

— Em primeiro lugar, nós não combinamos. Nós somos fantasmas do ponto de vista um do outro. Afinal de contas, sou a ‘estudante transferida’. Não conheço ninguém, ninguém me conhece e vou voltar a essa situação constantemente. Vou ter que aguentar essa condição de não ter relações por um longo tempo. Acho que vocês podem dizer que minha existência é a mesma de um fantasma. Mas mesmo sendo um fantasma, ainda tenho uma identidade. E também sinto que isso é triste. Mas não tenho outra escolha se não aceitar isso. Quando deixar de aceitar que eu sou uma ilusão, quando não puder mais aguentar isso, vou me perder nessas falsas repetições.

Ainda não entendo. A única coisa que Entendo é que ela está falando sério e não permite que ninguém tire sarro dela.

— Para me tornar uma ilusão, abandonei meu nome verdadeiro dentro dessa ‘caixa’. Se usar meu verdadeiro nome, vou restringir a mim mesma. Desisto do meu nome porque sinto que essa barreira irá surgir. E quando me perder nessas repetições, provavelmente todos vocês vão sumir.

Ela continua dizendo com uma voz forte.

— Portanto, tenho que continuar sendo um fantasma, sendo Aya Otonashi.

Entendo. Bem, não entendo realmente, mas pelo que parece, ela ainda não é «Aya Otonashi». Ela vai se tornar «Aya Otonashi». Acho que ela não quer realmente isso. Não é o que ela desejou. Mas ela não tem outra escolha a não ser se tornar «Aya Otonashi».

— Mas não sou forte.

Ela diz amargamente.

— Acredito que vão ter momentos em que vou querer reclamar. Mas a partir de agora, se reclamar deixarei de ser «Aya Otonashi». Portanto, para garantir que não vou reclamar no futuro, vou fazer isso agora. Eu--

É coincidência. Sim, acho que é só coincidência. Mas sem dúvida alguma ela está olhando para mim quando diz o seguinte.

— Quero alguém para ficar ao meu lado.

E então eu sorrio.

— Então, por favor, deixem me apresentar mais uma vez.

Ela diz como se estivesse se apresentando pela primeira vez.

— Sou «Aya Otonashi». Espero que possamos nos dar bem durante o longo tempo que virá.

Aya Otonashi se curva profundamente. Todos nós ainda estamos em silêncio, sem saber como reagir. Portanto, aplaudo. O som das minhas mãos batendo uma contra a outra é o único barulho dentro da sala. Finalmente alguém se junta aos aplausos. Depois dele, outra pessoa também começa a aplaudir. E o som dos aplausos se torna mais alto.

Quando todos os alunos finalmente aplaudem, ela ergue seu rosto novamente. Ela não está mais sorrindo. Está com os punhos cerrados firmemente e olha para frente de uma maneira imponente.

Nota:

1 – Felicidade Falha

Fim da leitura

Capítulo 2.2 concluído

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