A Melodia Do Nosso EncontroCAPÍTULO 1 - A Melodia Do Nosso Encontro
Capítulo 1A Melodia Do Nosso Encontro
A Melodia Do Nosso Encontro
A madeira do chão era iluminada pela luz de um tom dourado, que vinha das janelas do auditório. No centro do palco, o piano brilhava, mas Yuna não se importava com nada disso.
Seus dedos praticamente deslizavam sobre as teclas, fazendo uma melodia impecável, cada nota absolutamente perfeita, sem falhas.
Mas ainda assim…
…Sem alma.
A música ecoava pelo auditório deserto, um tipo de um reflexo distante de algo que ela não conseguia alcançar.
“Por que isso soa tão… ruim?”
O pensamento surgiu rapidamente em sua mente, antes que suas mãos parassem no mesmo instante. Yuna olhou para os próprios dedos, como se esperasse uma resposta. Mesmo sabendo que eles não dariam.
“Por quê?”
Aquela frustração que ela conhecia bem voltava.
Foi então que um som suave tirou aquele silêncio do auditório.
Palmas…?
Ela ergueu a cabeça, levemente assustada. Na entrada do auditório, um garoto observava com um leve sorriso no rosto. Os cabelos bagunçados levemente brilhando pela luz das janelas, junto de um violino que repousava ao seu lado.
— Incrível. Execução impecável — disse ele, caminhando na direção de Yuna.
— O-obrigado… — ela murmurou, fixando os olhos nas teclas, levemente quente.
— Realmente é bom. Só que parece que você está tocando para alguém… que não é você.
Yuna corou levemente e franziu a testa, desviando o olhar.
“Por que isso do nada…?”, ela pensou.
— Eu só estou tentando fazer o melhor que posso.
— Tá, mas e quem disse que o melhor é só técnica? — Ele se aproximou, estendendo a mão. — Kaito. E você deve ser Yuna, a pianista prodígio de que todos falam.
— Hah… Prodígio… — Ela soltou uma risada curta sem humor. Quase rindo dela mesma. — Eu só pratico muito, nada mais que isso.
Kaito inclinou a cabeça, observando a sua expressão. Então, sem pedir licença, sentou-se ao lado dela no banco, pousando o violino no colo.
— Música não é só sobre acertar as notas — disse ele, com um brilho tranquilo no olhar. — É mais sobre… sentir.
Ele ergueu o arco, e sua voz baixou, como se estivesse sussurrando.
— Olha só.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Kaito ergueu o violino e deslizou o arco sobre as cordas.
O som preencheu o auditório vazio rapidamente, fluindo sem esforço nenhum, e sem partitura. Cada nota vibrava com emoção, pulsava com algo livre.
Algo… que ela estava tentando alcançar durante todo esse tempo.
Enquanto isso, Yuna permanecia imóvel, fascinada com aquele som. Era como se ele estivesse contando uma história sem palavras, e, de alguma forma, ela sentia cada cena.
A doçura de um reencontro.
A tristeza de uma despedida.
O brilho de algo novo e desconhecido.
Tudo ao mesmo tempo.
Quando a última nota se desfez no ar, o silêncio pareceu ainda mais intenso.
Kaito abaixou o violino e olhou para ela, um sorriso tranquilo nos lábios. O silêncio do momento parecia, de certa maneira, mais intenso do que o anterior.
— Viu? — Sua voz era suave, mas cheia de certeza. — Música não é sobre acertar. É sobre sentir, e se você não sentir, ninguém mais vai.
Yuna manteve o olhar nele por um instante, algo inquieto se agitando dentro de si.
Ela nunca conseguiu fazer algo assim, como ela poderia sentir a música… de verdade?
— Mas… e se eu não souber como fazer isso? — murmurou baixo.
Kaito inclinou a cabeça, seus olhos brilhavam como se aquilo fosse um desafio pra ele.
— Então vamos descobrir juntos!
Yuna voltou para casa com a cabeça girando, enquanto andava pelas ruas calmas da tarde.
As palavras de Kaito, a forma como ele tocava, a sensação que ele criou… tudo era novo e esquisito, de algum jeito.
Chegando em casa, tentou sentar ao piano na sala de estar, os dedos ainda frios das teclas do auditório, mas a melodia não vinha.
Nada tinha mudado.
Cada nota ainda parecia vazia.
Ela tocou as escalas que sempre tocou, as peças que sempre praticou, mas o som… era o mesmo vazio de antes, mas só então ela entendeu que estava vazio.
Sua mãe passou pela sala, parando na porta por um instante.
— Yuna, querida, lembre-se do recital do próximo mês. Precisamos polir a Sonata ao Luar. Impecável, sem erros, certo?
Yuna assentiu, com os olhos baixos.
— Sim, mãe.
O som da voz de sua mãe era como uma partitura daquelas bem duras, cada instrução uma nota que não podia ser alterada. O peso do piano só parecia ter aumentado, e a música que Kaito havia mostrado, a música que sentia, parecia um sonho distante, inatingível…
Algo que ela nunca alcançaria.
“Por quê?”
Ela se deitou na cama naquela noite, encarando o teto completamente escuro acima dela. A imagem do sorriso de Kaito, o brilho em seus olhos enquanto tocava, e aquela melodia… indomável do violino ecoavam em sua mente. Aquilo era como um contraste com a sua própria música.
…Seria possível?
Será que ela conseguiria sentir a música, mesmo que apenas um pouco?
— Eu espero que sim… — ela murmurou para si mesma.
A promessa de Kaito, de descobrir juntos, era uma pequena chama em meio à escuridão de suas dúvidas.
A curiosidade era maior que o medo.
Ela não sabia o que viria a seguir, mas, pela primeira vez em muito tempo, Yuna sentiu uma leve, quase imperceptível, vontade de descobrir algo novo.
No dia seguinte, ela estava indo para a escola quando avistou alguém encostado no portão.
Kaito.
Ao que parecia, ele olhava ao redor, provavelmente esperando alguém. Foi só então que quando eles cruzaram os olhares que a face dele se iluminou.
— Ei! Yuna!
Ela olhou ao redor e para trás, tendo certeza que era com ela. Logo Kaito se aproximou, sorrindo suavemente. Um sorriso que fazia algo em Yuna se acender.
— Vamos logo! — Ele a puxou pelo braço, rindo.
E assim começou. Logo os dias seguintes foram preenchidos por ensaios.
Mas muitos ensaios mesmo.
No auditório vazio, Yuna e Kaito passavam horas explorando sons, misturando o clássico com o contemporâneo, o estruturado com o livre, aula após aula, intervalo após intervalo.
A cada sessão, Yuna sentia algo mudar lentamente. Seus dedos já não se prendiam tanto às partituras. Sobre o olhar atento de Kaito, ela começou a se permitir errar, a buscar sentimento na música.
Não apenas a precisão, ensinada pela sua família.
Em um desses ensaios, Kaito parou de tocar de repente, baixando o instrumento.
— Yuna, tenta essa parte de improviso. Sem pensar demais, só deixa fluir. Tipo, só vai.
Yuna engoliu em seco, hesitante.
— Hã!? Eu… eu não sei. Vou acabar errando… eu… não sei improvisar.
— E daí? — ele sorriu, balançando a cabeça. — A música é sua. Erre. Mas erre bonito.
— Mas e se…
— “Mas” isso e “mas” aquilo… — Ele suspirou, abaixando a cabeça. — Olhe para o auditório.
Yuna parou e olhou ao redor, o auditório completamente deserto.
— Está vazio…? Não entendi.
— Correto. Existe alguém aqui que vai te julgar por errar uma única nota?
— …
Ela respirou fundo, os dedos congelados sobre as teclas por um segundo.
Então, tentou.
Algumas notas saíram desajeitadas, outras soaram estranhas, completamente fora do que ela considerava certo. Yuna se encolheu, quase parando, mas Kaito riu. Um sorrido com um som leve e encorajador.
— É isso! Sentiu? Foi você ali. — Ele olhou para Yuna, que tinha um olhar com um misto de excitação e hesitação. — Agora, tenta de novo. Sem pensar tanto, só o que sentir!
Ela continuou, as notas ainda um pouco incertas, mas com uma leveza nova. E ele tocou junto, improvisando um acompanhamento que transformava seus erros em algo inesperado, quase proposital.
Algo… incrível.
Yuna se pegou sorrindo. Uma risada que não vinha de anos de prática, mas de um momento genuíno de surpresa e liberdade.
À noite, em casa, enquanto Yuna tentava seguir as aulas de Kaito sozinha no piano, uma memória a atingiu.
Ela, pequena, os joelhos quase não alcançando o pedal, sentada em frente a um piano muito maior que ela. A professora de piano, impecável e bem severa, batia levemente em suas mãos com uma régua de madeira cada vez que uma nota saía imperfeita.
Mesmo que fosse só um pouco.
“A perfeição é a base da arte! Sem ela, é apenas ruído desagradável aos ouvidos.”
“Repita novamente!”
“Novamente!”
Sua mãe, sentada na sala de estar, não perdia um segundo, observando cada movimento, cada correção, com aquele olhar sério de aprovação que Yuna tanto buscava.
“Você é nossa prodígio, Yuna. Tem que ser a melhor. O piano é sua chance de mostrar o seu valor, de honrar nossa família.”
Logo, a memória se desfez, deixando um gosto amargo na boca de Yuna. Ela olhou para os próprios dedos, que pareciam pesados, de algum jeito.
Ela entendeu que a perfeição que buscava não era sua, mas a de outros.
Mas, no momento, Kaito estava ali, mudando tudo.
Em outra tarde, durante uma pausa em uma das sessões no auditório, o sol se punha, criando um tom meio amarelado no ambiente por ali. Kaito estava sentado ao lado dela no banco, junto do seu violino que estava em seu colo.
Não havia música, nem conversas nem nada do tipo.
Só… um silêncio.
Mas não era um silêncio desconfortável.
Ela se pegou observando a luz suave no rosto dele, o jeito como ele olhava para o teto, pensativo.
Ela nunca havia sentido uma tranquilidade tão profunda em um auditório.
Um lugar que sempre… foi sinônimo de pressão.
A presença de Kaito era um conforto silencioso, quase como uma melodia sem notas, se é que isso existe.
Era mais como… uma harmonia que não precisava de som para ser sentida.
Sim, exatamente isso.
Eles ficaram ali, sem pressa, apenas existindo naquele lugar.
Yuna pensou, e sabia que a mudança não seria fácil. Tentou praticar as lições de Kaito sozinha, e se frustrava, às vezes, voltando aos velhos hábitos daquela precisão mecânica.
A precisão sem alma.
O vazio ameaçava voltar. Mas então, ela se lembrava do sorriso dele, daquele som incontrolável do violino, e de uma sensação nova, e um pequeno calor que se acendia em seu peito. A promessa de Kaito, de descobrir juntos, era uma pequena chama em meio à escuridão de suas dúvidas.
Novamente…
…A curiosidade era maior que o medo.
Os dias se transformaram em semanas, preenchidas por sons que Yuna sequer sonhou em tocar.
Kaito não era um professor comum. Ele não dava aulas, ele guiava.
Guiava para um lugar que Yuna nunca imaginou chegar.
Durante uma pausa em uma das sessões, Kaito quebrou o silêncio com um comentário casual:
— Yuna… por que você começou a tocar piano?
Ela parou. Os olhos caíram sobre as teclas, como se a resposta estivesse escondida entre elas.
— …Minha família sempre esperou muito de mim. O piano era a única maneira de… corresponder. De provar que eu era boa o suficiente. — A última frase saiu num sussurro. — Eu… só quero que eles se sintam orgulhosos de mim.
Kaito permaneceu em silêncio, apenas a olhando, sentindo compreensão. Até que Yuna continuou segundos após:
— E você? Por que o violino? Existem tantos instrumentos… — O tom em sua voz era diferente. Talvez, quisesse mudar de assunto. — Violino não é, tipo, o instrumento mais difícil que tem?
Kaito não respondeu de imediato. Ele sorriu de leve e girou o arco entre os dedos, olhando para o próprio violino.
— Hmmm… minha mãe era violinista. Ela me ensinou a tocar quando eu era pequeno. — Sua voz tinha um tom mais baixo naquele momento, quase como um tom de saudade. — Depois que ela partiu, o violino se tornou minha maneira de mantê-la perto de mim.
Yuna sentiu o peito apertar.
— Ah, Kaito… eu não queria…
Ele sorriu, mas havia algo contido em seu olhar, algo como uma saudade que não podia ser dita em palavras.
— Ela sempre dizia que a música é a linguagem da alma. Acho que é por isso que gosto de improvisar. — Ele deslizou o dedo sobre as cordas, tirando um som suave, olhando para o teto do auditório. — Quando eu toco, é como se estivesse conversando com ela. Estranho, né?
Yuna observou o jeito que ele falava, a forma como o violino parecia ser parte de seu corpo. Pela primeira vez, sentiu que alguém entendia o que significava se perder, e se encontrar, na música.
— Você… acha que ela estaria orgulhosa de você? — perguntou, baixinho.
Kaito soltou uma risada leve, o brilho voltando aos olhos.
— Quem sabe? Acho que provavelmente diria que eu preciso parar de ser tão teimoso e ouvir mais os outros…
Yuna sorriu, e logo o peso sobre seus ombros parecia um pouco mais leve.
Dias depois, enquanto ambos caminhavam pelo corredor da escola, passando por alguns alunos que os olhavam e cochichavam, um folheto colorido colado no mural chamou a atenção de Kaito.
“Festival Escolar – Inscrições Abertas Para Apresentações!”
Ele parou e arrancou o folheto com um sorriso grande, os olhos brilhando.
— Ei, olha isso! A gente tem que se inscrever! — A empolgação na voz dele era contagiante, mas Yuna sentiu um frio na barriga.
— O quê? Tocar… na frente de todo mundo? — A preocupação se instalou em seu rosto.
Yuna estava… com medo.
Para ela, o palco sempre foi um lugar de julgamento, não de liberdade.
Ela logo se imaginou diante de seus pais no palco, errando. Desapontando-os.
Kaito a olhou, a expressão compreensiva, mas firme.
— Não é sobre eles. É sobre a música que a gente tá encontrando. — Ele olhou no fundo dos olhos dela. — Imagina, Yuna, sentir a música com tudo ali, no palco! …É a chance de mostrar o que você sente, não o que esperam de você!
Ele estendeu o folheto para ela, a mão aberta. Yuna hesitou, os olhos fixos na palavra Festival, no peso das expectativas, mas também na promessa de… algo novo.
Naquele momento, viu não só um folheto, mas uma ponte.
Uma ponte que Kaito construiu, apenas para ela.
Ela pegou o folheto, o papel um pouco amassado nas mãos dele, e, então, suspirou.
— Tudo bem… Eu vou participar…
Kaito riu, um som leve e feliz.
— É isso!
Então, ambos continuaram se dedicando incansavelmente aos treinos. Dia após dia, eles persistiram, refinando cada detalhe, até que o tão esperado grande dia finalmente chegou.
O dia do festival havia chegado.
O auditório estava lotado, e Yuna sentia cada batida acelerada de seu coração ecoar em seus ouvidos. As conversas, as risadas, os sussurros ansiosos da plateia, tudo parecia distante, abafado pelos pensamentos que rodavam dentro dela.
No corredor dos bastidores, ela apertou os braços contra o corpo, tentando controlar o tremor das mãos.
— E-eu… não sei se consigo — murmurou, baixo.
Kaito, ao seu lado, inclinou a cabeça, observando-a com atenção.
— Você já tocou essa música mil vezes. Vai dar tudo certo!
Yuna balançou a cabeça.
— Não é isso. Eu… e se eu estragar tudo? Se a minha família odiar? Se todo mundo perceber que eu não sou tão boa assim…? Eles acham que eu sou uma prodígio, mas e se eu…
A angústia crescia, apertando seu peito. A ideia de pisar naquele palco era sufocante. Por um momento, a vontade de fugir foi quase irresistível.
Então, ela sentiu.
O toque quente de Kaito, seus dedos tocando de leve os dela antes de segurá-los com firmeza.
— Ei. Respira…
Yuna piscou, surpresa com o calor que se espalhou em seu peito. Ela obedeceu, puxando o ar com dificuldade.
— Você lembra, não é? Não é sobre ser perfeita — ele disse, olhando diretamente nos olhos dela, sua voz baixa, mas segura. — É sobre ser você.
Aquela sensação em Yuna não desapareceu completamente, mas algo na certeza de Kaito acalmou a tempestade dentro dela. Ela fechou os olhos por um instante.
O medo ainda estava ali, mas não precisava controlá-la.
Uma voz ecoou pelo auditório:
— Agora, uma apresentação musical de piano e violino! Palmas para Kaito da turma 2-C, e Yuna da turma 2-A!
O auditório explodiu em aplausos, e Kaito se virou para Yuna, firme.
— Vamos lá — disse, finalmente, tentando sorrir.
No palco, a luz os envolveu como se estivessem em um mundo à parte. O piano diante dela parecia mais pesado do que nunca.
Ela pousou os dedos sobre as teclas, sentindo as pontas geladas, o coração batendo forte.
E se não fosse suficiente?
E se ainda estivesse vazio?
A dúvida veio como uma onda forte, ameaçando a puxar para o fundo de um mar.
Então, o som do violino preencheu o espaço.
Suave no início, como se fosse algum sussurro. Depois, crescendo, chamando-a para dentro daquela melodia.
Yuna ergueu o olhar para Kaito. Ele tocava de olhos fechados, entregue ao momento, como se o mundo ao redor não existisse. O coração dela ainda estava acelerado, mas em outro ritmo, acompanhando todas aquelas notas que dançavam pelo ar do auditório.
Ela inspirou profundamente.
Fechou os olhos.
E tocou.
Desta vez, não havia medo. Não havia aquelas técnicas frias ou cálculos precisos.
As notas fluíam, naturais, assim como um rio que finalmente encontrava seu curso e fluía. Pela primeira vez, ela sentia.
Yuna sentia a música dentro dela, vibrando, contando uma história que só ela poderia narrar.
Aquilo que ela sempre buscou.
Onde Kaito a levou.
E ela contou.
Na plateia, uns estavam concentrados, outros de boca aberta.
— Ei, esse som… não é incrível!?
— É a prodígio, afinal de contas…
— Né? Mas o garoto do violino é sensacional!
— Verdade!
Eles continuaram. Tocaram belamente, impressionando cada pessoa ali dentro.
Então, a última nota pairou no ar, suspensa no silêncio. Por um instante, tudo ficou imóvel, quase como se todos ali estivessem prendendo a respiração ao mesmo tempo.
Por um instante, começou com um pequeno som de palmas, até que outra pessoa a seguiu, e outra. Foi então que os aplausos explodiram com mais força, ecoando por todo auditório, até assustando pessoas do lado de fora.
O som trouxe Yuna de volta, mas algo dentro dela havia mudado. Ela encontrou o olhar de Kaito, e ele sorriu.
Dessa vez, ele não precisou dizer nada.
Ela já sabia.
Yuna se levantou, e após ficarem juntos e se curvarem diante da plateia, que respondeu com ainda mais aplausos.
Kaito olhou para ela de canto, o rosto levemente suado, mas junto de um sorriso grande. Ela olhou de volta, rindo, uma risada contagiante e leve.
Ambos estavam… felizes.
Após os aplausos diminuírem, e o apresentador voltar, eles se retiraram do palco. Nos bastidores, a luz era mais fraca, e o burburinho da plateia parecia abafado.
Enquanto Yuna guardava seus materiais, avistou sua família se aproximando. Seu coração deu um salto, misturado com ansiedade e esperança pela aprovação deles.
Sua mãe foi a primeira a falar:
— Yuna… aquilo foi… diferente.
Havia uma hesitação em sua voz, e por um breve momento, Yuna viu algo em seu olhar, surpresa, talvez até admiração. Mas então, sua mãe desviou os olhos, como se não soubesse exatamente o que dizer.
— Esperávamos algo mais tradicional — completou, a voz mais contida.
Yuna sentiu um aperto no peito, enquanto encarava o chão.
— Desculpa. Eu… eu só queria tentar algo novo.
Seu pai suspirou, cruzando os braços.
— Novo nem sempre é melhor.
Mas ele não disse isso com a frieza absoluta habitual. Sua expressão era séria, mas seus olhos pareciam avaliá-la de uma forma diferente. Como se, pela primeira vez, ele estivesse vendo não apenas a pianista prodígio de sempre, mas a filha também.
Talvez, só talvez…
Algo estivesse mudando neles também.
Enquanto se afastavam, Yuna ouviu a voz de seu pai para sua mãe, um sussurro, mas claro o suficiente para ela captar:
— Nunca a vi tocar assim… Foi diferente, num bom sentido. — A frase ficou ali, trazendo um pequeno alívio para Yuna.
Mas, o peso da incerteza ainda era gigante.
Mesmo assim, eles se afastaram, deixando Yuna sozinha. Ela sentou-se em um banco, segurando as mãos trêmulas. Obviamente, não sabia o que passava na cabeça de seus pais.
Apenas imaginou que, no fundo, eles estariam decepcionados com ela.
“Que droga, eu estraguei tudo.”
O pensamento ecoava em sua mente enquanto ela permanecia sentada nos bastidores, o coração ainda pesado. Foi então que passos suaves se aproximaram.
— Ei… — a voz de Kaito soou baixa, como se estivesse sussurrando, enquanto ele se sentava ao lado dela. — Você foi incrível lá fora!
Yuna soltou um riso fraco, sem humor.
— Acho que sim, mas… minha família não pensa dessa forma.
Kaito ficou em silêncio por um instante, depois perguntou, sem desviar o olhar:
— Sério? Depois daquilo tudo? — Ele suspirou. — Isso é uma pena, mas e você? O que você achou? — continuou, com ênfase no “você”.
No que ela sentia. Não na família, mas ela.
Yuna abriu a boca para responder, mas hesitou.
Então, se lembrou.
Daquela música fluindo livremente.
Daquela sensação de finalmente pertencer ao próprio som.
Aquele sentimento de finalmente ter encontrado algo que, por tanto tempo, buscou.
Ela respirou fundo, enquanto seus olhos brilhavam suavemente.
— Eu… gostei.
Um sorriso suave surgiu nos lábios de Kaito.
— Então é isso que importa! A música é sua, Yuna, sempre foi.
Ela virou o rosto para ele, surpresa com o peso que aquelas palavras tiravam de seus ombros. Um leve calor se espalhou pelo peito.
— Obrigada, Kaito. — Seus olhos brilharam. — Por tudo que… você fez por mim.
Ele inclinou-se ligeiramente, até que suas testas se tocaram.
Um gesto leve e… íntimo, sem pressa.
Uma conexão, entre duas almas.
— Sempre.
E, naquele momento, Yuna soube que não estava mais sozinha.
A noite envolvia a escola em um silêncio acolhedor, interrompido apenas pelo som das folhas e pelo vento suave que passava entre as árvores. Nos degraus da entrada da escola, Yuna e Kaito observavam o céu cheio de estrelas, um mundo inteiro acima deles.
O violino repousava ao lado dele, e Yuna desenhava notas invisíveis no ar, os dedos tocando um piano que só ela podia ver.
— Então… o festival já acabou, o que você vai fazer agora? — perguntou Kaito, sua voz baixa, quase um murmúrio.
Yuna demorou-se antes de responder, observando o céu, como se quisesse sentir o peso das palavras antes de deixá-las partir.
— Eu vou continuar tocando. Mas, desta vez, do meu jeito.
Kaito sorriu, satisfeito com a resposta de Yuna.
— Isso parece música pra mim.
O silêncio que se seguiu não era vazio. Pelo contrário, carregava um entendimento que não precisava de palavras.
Então, ela virou-se para Kaito, seu olhar curioso.
— Kaito… você acha que a música pode unir as pessoas?
Ele inclinou levemente a cabeça, refletindo, antes de encontrar seus olhos. O brilho fraco dos postes criava algumas sombras suaves em seu rosto, enquanto um sorriso leve surgia na sua face.
— Claro… — Ele olhou para ela suavemente. — Na verdade, eu acho que já nos uniu.
O coração de Yuna bateu mais rápido, mas, dessa vez, não havia receio.
Apenas uma certeza tranquila.
Ela se inclinou e pousou um beijo leve em sua bochecha, rápido como uma nota suspensa no ar.
— Obrigada.
Kaito foi pego de surpresa.
— Obrigada por me mostrar o que é ser livre de verdade, Kaito.
Kaito piscou, surpreso, antes de rir suavemente. A vermelhidão discreta em seu rosto era quase imperceptível, mas Yuna notou isso.
— Sem problema, sempre estarei aqui, Yuna. Para o que você precisar.
Ela fechou os olhos e sorriu.
Dessa vez, a música não pertencia a ninguém mais.
Era dela.
E, sabendo que a aprovação da sua família era algo que talvez nunca chegasse da forma que esperava…
…Yuna ainda estava pronta para tocá-la, para o que quer que viesse.
Comentários do capítulo 1
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.