A Ordem Espiritual — Capítulo 321: CAPÍTULO 321 - 305 - Fim indigno, mas libertador...

A Ordem Espiritual
Cap. 321
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A Ordem Espiritual

CAPÍTULO 321 - 305 - Fim indigno, mas libertador...

Capítulo 321

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Capítulo 305 - Fim indigno, mas libertador...

A Ordem Espiritual

— Por que está chorando, Zuri? Você não é mais uma garotinha… — disse um velho, olhos calejados como pedras sob a aurora, pele negra como o ébano queimado pelo tempo, mãos em frangalhos que pareciam feitas de casca seca. Vestia um chapéu de palha desbotado, torto pela idade e pelos ventos. Estavam em meio à colheita — ou melhor, ao que sobrava dela: uma terra rachada, cruel, ressequida como os lábios dele, e um jumento magro que mal conseguia manter-se em pé, a sombra de si.

A enxada em suas mãos tremia, mas não pelo esforço — e sim pela raiva contida de gerações.

— Mas… — a pequena, os olhos grandes como estrelas já há muito tempo mortas, a voz ainda tingida de esperança, — por que não posso chorar?

— Porque sua mãe morreu por ser fraca. Veja seus irmãos… eu… estamos vivos. Assim como Nṯr canta: aos fortes, o amparo. Pois, na falta de lágrimas nos olhos, concedo a força! — disse, pela enésima vez, como se cada palavra fosse uma pedra lançada para esmagar a emoção.

Era a doutrina.

Era a tradição.

Era a maldição.

A mesma que derrubou gerações e impôs uma guerra étnica eterna: a fé.

Aos homens, nunca foi salvação — mas arma.

Para oprimir, para dizimar.

Digo “homens”, pois a fé, assim como a verdade, jamais se curva à compreensão daqueles que apenas desejam controle.

Por fim, a jovem ouvia aquela prece que queria o fim de seu coração.

Não era gritada.

Não era suplicada.

Era como veneno escorrendo pelas frestas dos lábios daquele que ela chamava de pai.

Fraca…

Fraca!

FRACA!

— Então era essa a merda que me travou por toda essa vida? — murmurou, agora adulta, mordendo os próprios lábios com tanta força que o gosto de sangue invadiu sua língua. Viu a cena diante de si como se fosse uma pintura antiga, rachada… um espectro preso no tempo. Um vendaval ergueu a poeira, o passado e os gritos sufocados.

E então, os rostos: Nataly em prantos. Yoshida, silencioso, olhar perdido. Sofie e Ethan… até eles. Os que ela julgava insensíveis demais para se importar com a morte… também choravam.

— Idiotas…

POR ESSES FRACOS QUE EU MORRI?

Sério?

Vão mesmo lamentar a morte de alguém tão falsa como eu?

A voz rasgava a própria garganta como vidro.

Não gritava para o mundo que deixava para trás — gritava para dentro, onde tudo apodrecia há anos.

O que deixei para eles?

O que eu fiz por eles?

Imagens despedaçadas passavam diante de seus olhos: um sorriso forçado, uma promessa quebrada, uma ausência nunca reparada.

Qualquer um teria feito o que eu fiz… qualquer um…

— Eu não sou especial… — sussurrou, afundando-se no chão vazio daquele espaço mental. — Nunca fui. Nunca serei.

Lágrimas caíram-lhe ao rosto — quentes, pesadas, libertas.

Mas… aquilo não era um purgatório.

Nem o limbo de sua existência.

Uma luz suave envolveu suas costas, como um afago que ela nunca recebeu.

— Que clichê… — disse, num tom de desprezo irônico, fechando os olhos. Um lapso se seguiu. Um silêncio tão absoluto que parecia um mergulho.

Seria o paraíso?

— Qual é, Elum… o que eu fiz pra merecer essa bosta de paraíso? Fui tão covarde… não fui eu…

— Você foi forte… antes… e depois… — disse uma voz doce, familiar.

Ela virou-se. E ali estava.

Ela mesma. Com dez anos. Os pés sujos de barro seco, os olhos marejados, mas firmes.

— Quê? Do que você sabe, pirralha? — riu com amargura. — Nessa época… você ainda mijava na cama…

Uma risada.

O sorriso era tênue, mas o suficiente para congelar o ar.

A figura diante de si — a sombra distorcida de um ser que não podia ser tocado — olhou para si mais velha com um olhar que não era de julgamento. Era de compreensão.

— Do que tá vendo graça? — resmungou, com os dentes cerrados. — Isso é… fraqueza!

Fraqueza.

A palavra que a persegue.

Que a moldou.

Que a definiu.

A sombra sorriu — e o sorriso não era zombador.

Era um reflexo das próprias dúvidas que habitavam no âmago de sua alma.

Um espelho de tudo o que temia, mas não ousava admitir.

— Você é forte… Não se esqueça disso… tá?

Era ela mesma.

Como aquela criança do passado.

A mesma frase. As mesmas palavras.

A voz que ressoava nas paredes de sua alma, tentando ressuscitar algo que acreditava ter perdido.

Ela era a raiz.

A base de tudo.

Era o que restava quando tudo ao redor morria.

Fechou os olhos, o peso daquelas palavras caindo como um fardo sobre os ombros.

A luz que a envolvia começava a pulsar — lenta, constante — como se tentasse reacender o que julgara perdido.

Ela sempre pensou que a fraqueza era algo impiedoso. Algo a ser banido, esmagado, escondido.

Mas ali, naquela sombra, algo estava diferente.

A fraqueza não a havia destruído.

Ela a havia esquecido.

E essa era sua verdadeira punição.

Não ser capaz de se lembrar de sua própria força.

Era um reflexo.

Uma verdade que ela tinha tentado enterrar:

A força não estava na ausência de dor, mas na capacidade de suportá-la, de crescer nela.

Então abriu os olhos novamente. O vazio ainda estava lá,

mas a sombra — não estava mais sozinha.

— Então… o que faço agora? — murmurou, quase inaudível, como se tivesse encontrado finalmente uma pergunta que merecia ser feita.

A sombra a observou, silenciosa.

E ela sentiu que, talvez, a resposta estivesse em algo mais simples do que jamais imaginara.

E estava.

Já estava liberta.

Sua alma, enfim, se desprendia —

não como fuga,

mas como retorno à sua essência.

Ascendia ao campo de batalha, onde o corpo jazia imóvel, enquanto o caos seguia desenfreado.

Mas como luz…

No horizonte da guerra, o demônio escapava dos ataques com brutalidade e leveza — como um animal ferido que ainda se agarra à fúria para sobreviver.

Será que encontrou seu propósito?

Se perguntava, de algum lugar dentro de si — ou além.

E, enquanto feixes de luz cruzavam os céus como lâminas divinas, sentiu algo…

No peito.

Como se o toque de um sentimento esquecido ainda ecoasse.

Mas era a luz rasgando sua pele.

Será que encontrou uma resposta?

E então — sumiu.

No ápice do caos.

No instante onde vitória e ruína se confundiam.

Do nada.

Derrotado… mesmo tendo vencido.

Mas deixando para trás um rastro de ódio espesso, quase tangível.

O tipo de presença que não desaparece — se infiltra.

Reapareceu a quilômetros dali.

Arrastando os pés.

Cada passo, um lamento.

Em um milésimo de segundo…

Um instante tão pífio que nem o tempo se incomodou em registrar.

Fim da leitura

Capítulo 321 concluído

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