A Ordem Espiritual — Capítulo 347: CAPÍTULO 347 - 329 - Amém

A Ordem Espiritual
Cap. 347
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A Ordem Espiritual

CAPÍTULO 347 - 329 - Amém

Capítulo 347

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Capítulo 329 - Amém

A Ordem Espiritual

— Então é isso…

De Yokohama, Seiji sorria satisfeito ao ver a árvore rasgar o céu como uma lança, crescendo até engolir nuvens.

Galhos torciam-se como veias, derramando uma seiva negra que parecia contaminar o próprio ar.

Esta… era uma das pragas que espalhava. Uma semente pútrida, capaz de vestir a pele dos mortos, roubar-lhes o nome e pisotear a memória que restava deles. Um espectro que devorava o que ainda palpitava de vida — deixando para trás só cascas vazias e lembranças.

— O firmamento está sendo rasgado… como uma virgem… — Respirou fundo, arfando como um animal em cio — Eu sinto o cheiro da virgindade sendo tirada… é… tão saboroso!

De seus lábios grossos escorria uma baba espessa, misturada com o hálito acre de quem se embriagava no próprio delírio.

Seus olhos, vidrados, refletiam o clarão púrpura que a árvore emanava. Cada pulsar era um orgasmo podre em sua mente, a consumação de anos de planos e traições.

O prazer de um servo das trevas não era carnal — era o gozo abissal de corromper tudo que ainda respirava pureza.

Atrás dele, Javier observava com as mãos nos bolsos, a cabeça levemente inclinada. Seu sorriso era um corte torto, tão frio quanto a lâmina que carregava embaixo de seu peito.

— Seu velho nojento! — disse, cuspindo cada sílaba como se fosse veneno. Um meio sorriso se formou em seu rosto, mas seus olhos, vazios de remorso, eram os de um predador entediado — Quer mesmo fazer isso?

O velho virou-se, passando o dorso da mão na boca para limpar o fio de baba. Seus dentes amarelados surgiram num sorriso demente.

— Quero… Não há porque manter possíveis traidores por perto. Eles não entenderiam… Eles jamais entenderiam o que é ver o mundo sangrar pelo buraco que abrimos!

Elenergueu uma sobrancelha, como quem brinca com a própria presa.

— Inclusive Hugo?

Respondido por uma risada sibilante, tossindo em seguida.

Pequenos coágulos escuros mancharam o lenço que tirou do bolso.

— Principalmente Hugo! — Seus olhos faiscando — Ele se acorrentou àquela garota… aos luxos humanos… ele não entenderia o quão próximos da paz nós estamos! Ele se agarrou à falsa moralidade… à esperança! Mas eu? Eu sou livre! Eu sou o arauto do novo solo fértil, regado com sangue!

O careca avançou um passo, pesado, chutando uma pedra que ricocheteou pelo piso rachado até parar aos pés do velho.

O meio sorriso em seu rosto se abriu num escárnio largo, dentes à mostra, como se fosse um cão prestes a morder a mão que o alimentava.

— Mas eu não sou nenhum nobre, Seiji. Não dou a mínima pra paz…

No fundo, sabia. Abria-se ali para o único que o aceitaria, como um filho.

Watanabe já criara tantos assim — psicóticos, assassinos, fanáticos. Monstros sem lugar no mundo, que encontravam abrigo embaixo de suas asas.

O velho riu.

— Não… mas a paz… a paz é o fim que você tanto almeja, Javier — Ele estendeu a mão, trêmula, mas firme na convicção — Subjetivo? Sim… mas é intrínseco! Nós estamos do mesmo lado! O lado que renega tudo… tudo que apodrece sob a luz mentirosa!

O vento trouxe o fedor da árvore que se erguia. Javier inspirou fundo, deixando que o cheiro de podridão queimasse suas narinas.

— Que seja, velho… — Murmurou, a voz arrastada, como se saboreasse cada sílaba.

— Fará?

O brilho assassino em seus olhos parecia cintilar.

— E acha que não? — Como se não fosse óbvio — Matar uns idiotas? Por favor… não é nada mais! — Lambeu os lábios, tique de predador — Na verdade… — deu de ombros, puxando o ar como quem respira fumaça de vísceras queimadas — É até divertido!

— E eu sou o nojento?

Ergueu o olhar, agora sério, com um toque de ironia venenosa.

— É… enfim, Myazaki me ajudará?

— Ajudará! Mas seja rápido… quanto mais demorar, mais fracos ficamos… o firmamento está rasgando… precisa ser agora!

— Serei — Virou-se de costas, puxando o casaco como se fosse capa de carrasco — Aproveite o cheiro, velho… vou trazer mais cadáveres pra sua festa!

— Amém…

Assim, em falsa fé, selaram o pacto silencioso de sangue. Não havia santos — apenas blasfêmia vestida de devoção. E Javier partiu, os passos ecoando como sinos de uma missa, rumo a mais um de tantos massacres.

Oh, vida…

Por que tanta escuridão levaste teus filhos?

Por que deixaste que abraçassem o abismo como se fosse colo?

Onde está a paz que deveria repousar sobre tanta amargura?

Mas ali não havia respostas. Só a sombra que crescia, alimentada por orações vazias e sorrisos manchados de sangue.

E… mancha.

Era o que mais havia colado à reputação, ao coração e à determinação daquele que um dia fora imperador.

Manchas que não saíam nem com guerra, tempo ou lágrimas.

Sentava-se na varanda de piso em barro cru, onde o vento soprava morno e indiferente. Encarava a maldita — a árvore, o céu, o fardo, o mundo — como se fosse nada.

Nada demais.

— A senhora é religiosa? — perguntou de repente, com a voz rouca, como quem cutuca feridas.

A mulher não respondeu de imediato.

A seus pés, a criança brincava, alheia à escuridão que se estendia como uma praga no horizonte.

E assim sempre fazia — brincava como se o mundo não estivesse desmoronando à sua volta.

— Não — respondeu por fim, sem olhar para ele — Não o suficiente para temer isso.

Ele sorriu de canto, amargo.

— Então vê como eu vejo? Cinza?

— Sim… — Assentiu devagar, quase num sussurro — Na verdade… o senhor agora vê o sofrimento cobrindo seus olhos.

Fez uma pausa, o olhar preso no firmamento, outrora, vagando em seus pensamentos, sempre esteve assim?

— E, meu bom senhor… não há nada que o sofrimento não mascare. Nem mesmo mais sofrimento!

— É… tô começando a perceber isso… — murmurou, a mão pousando no próprio ombro, como se tentasse segurar o peso que sempre escorregava — Mas acho que ainda não mereço dizer que entendo você…

A mulher desviou o olhar para ele, olhos calmos, mas cheios de algo antigo.

— Por quê? Acha que sofrimento tem tamanho?

— E não tem?

— Trava no peito, às vezes?

— Sim…

— Aquele vazio que parece que vai te engolir?

— Sim…

— E você olha pro amanhã e ele parece… sem forma? Sem cor?

— Sim…

Ela sorriu — não de alegria, mas de compreensão. Daquele tipo que só quem já afundou sabe oferecer.

— Então somos iguais.

Fez-se silêncio por um instante.

— Somos…

— Pronto! Não dê pesos aos sentimentos. Sinta-os. Valorize-os…

Independente dos valores que os outros dão a eles.

Não respondeu de imediato.

Apenas respirou fundo e, pela primeira vez em muito tempo, o ar entrou inteiro.

— Certo…

— E quando você entender o que digo… o cinza vai sumir. Não que vá se sentir feliz…não exatamente. Mas vai enxergar… uma esperança. Pequena, talvez, mas viva… Em algum lugar.

— Se você diz… Eu… acredito.

Ainda era escuro… mas não totalmente.

Fim da leitura

Capítulo 347 concluído

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