As Guerras da NévoaCAPÍTULO 226 - 219 Um erro básico
Capítulo 226Capítulo 219: Um erro básico
As Guerras da Névoa
Ao retornar, percebi os olhares se voltando para mim. Havia espanto em suas faces, como se não tivessem notado minha breve ausência. Bom sinal. Niana e Pandora já se recolheram, e eu mesmo estava pronto para deitar quando a voz de André me chamou de volta.
— Por que você está brilhando, Lior?
— Hein?
Baixei os olhos e o choque veio. Um leve fulgor azulado, quase como fósforo em brasa, emanava da minha pele. Não era apenas meu corpo. As roupas, os cabelos, até o chão que eu havia pisado, tudo deixava rastros luminosos. Segui com os olhos o arco que havia desenhado pelo céu noturno, e lá estava: um fio prateado, como uma estrela cadente suspensa, denunciando cada passo, cada movimento meu.
O coração afundou no peito.
— Os esporos… — murmurei, lembrando daquelas hastes fúngicas sendo agitadas de forma febril pelas criaturas, espalhando poeira viva no ar. Não era um ataque qualquer. Estavam me marcando.
— Rápido, preparem-se! — exclamei, o tom mais alto que o pretendido. A sensação de segurança que o congelamento dos esporos me dera havia evaporado num sopro. — Chamem Pandora e Niana também!
A questão já não era se seríamos atacados, mas quando.
A tensão se espalhou pelo grupo como veneno. O ar parecia engrossar, pesado como uma corda de cânhamo esticada ao limite. Ninguém falava, mas os olhos se cruzavam em silêncio, confirmando aquilo que todos já sabiam.
O ataque não tardou. Quinze minutos após meu regresso, ouvimos primeiro o trote. Um ritmo irregular, metálico, ecoando na margem. Então surgiu: uma criatura de forma equina, mas deformada pelo fungo que lhe devorava a carne. Cogumelos brotavam do dorso, e os olhos vazios, cheios de micélio, nos fixaram como se nos conhecessem. Quando ergueu a cabeça e soltou um guincho agudo, que dilacerou o silêncio da noite, senti o estômago revirar.
O som não era apenas um brado. Era um chamado.
E o chamado foi atendido.
Em menos de meia hora, a margem do lago se coalhava de formas. Primeiro dezenas, depois centenas. Silhuetas cambaleantes, humanoides consumidos pelo fungo. Animais com espinhas arqueadas, membros multiplicados, costelas expostas e cobertas por crostas esbranquiçadas. Cada um carregava a mesma assinatura: a infecção fúngica transformando vida em carniça viva.
Olhei para meus companheiros. Pensar em uma incursão agora era impossível. Era uma onda. Um mar de podridão prestes a se chocar contra nós. A única vantagem era que hesitavam em entrar no lago. Ainda.
Até que um rugido rouco fez a água tremer.
Do meio da turba, surgiu algo maior, uma forma grotesca lembrando um besouro de carapaça rachada. Ele empinou o abdômen e disparou um jato que vibrou contra o nosso campo protetor. O ar tremeluziu. A barreira resistiu, mas senti a drenagem da mana. Pouca energia a cada impacto, mas o suficiente para nos desgastar com o tempo.
Pandora e Niana trocaram um olhar rápido e balançaram a cabeça. Ao redor, Marreta, André, Alissande, Cassiopeia, Karel, Germano, Cris, Calmon, Gus e Milena também assentiram em silêncio.
Eu respirei fundo e concordei. Não podíamos apenas esperar, presos em defesa, como ratos no fundo de um buraco.
— O que tiver de ser, será — murmurei, e envolvi a todos com minha telecinese. Em segundos, levantamos voo, atravessando o lago como um único corpo, até alcançar a margem oposta. O impacto da aterrissagem reverberou no solo úmido. À frente, um espaço mais amplo nos dava alguma mobilidade. Ali, poderíamos lutar.
— Lembrem-se — avisei, erguendo a espada. — Eles são fracos contra fogo.
O odor nos atingiu primeiro. Uma mistura pesada de terra úmida, podridão e um doce azedo que se agarrava ao paladar, como fruta apodrecida. O estômago se contraía involuntariamente. Então vieram os sons: guinchos, estalos de carapaças, respirações roucas. Uma orquestra dissonante de horrores se aproximando, coordenados por uma mão invisível.
Eles não vinham apenas para matar. Vinham para nos enterrar sob a quantidade.
— Atenção! — ergui a lâmina, sentindo-a pulsar com minha mana. — Gus, Milena, vocês ficam atrás. Quero fogo caindo neles sem cessar. Protejam nossos guerreiros e reforcem quem precisar. Guerreiros, não se deixem isolar. Unidos somos fortes. Se nos separarem, estaremos mortos.
Um instante de silêncio, como a inspiração antes do grito.
E então, num rugido uníssono, eles responderam:
— LUTA!
O som reverberou dentro de mim. Não éramos apenas um grupo improvisado, éramos um exército pequeno, mas decidido. E diante da maré fúngica que se movia, isso teria que bastar.
A primeira onda veio correndo. E nós fomos ao encontro dela.
O chão tremeu quando a primeira onda investiu contra nós. Eram rápidos, mas não disciplinados. Seres de corpos retorcidos, fungos brotando em veios verdes e alaranjados, dentes manchados de bile.
— Avançar! — gritei.
Alissande foi a primeira a se lançar, sua lâmina riscando um arco prateado que partiu uma criatura ao meio. Germano ergueu sua estranha arma e disparou, impedindo a carga de um humanoide corrompido, empurrando-o para trás com a força da explosão, abrindo espaço para que Karel atravessasse o peito de outra criatura com sua lança.
À nossa retaguarda, o céu se acendeu quando Gus e Milena começaram a lançar colunas de fogo. As chamas se espalharam pelo campo, iluminando as formas retorcidas e arrancando gritos agudos. O cheiro de carne queimada misturou-se ao fedor de mofo.
André golpeava com a precisão de um açougueiro experiente, cada movimento calculado, sem desperdiçar energia. Já Marreta esmagava inimigos em uma cadência brutal, ossos quebrando a cada impacto.
Por alguns instantes, funcionamos como uma máquina de guerra. Cada ataque, cada defesa, se encaixava. O campo virou uma sinfonia de aço, fogo e gritos.
Mas a harmonia começou a rachar.
Calmon se adiantou demais, sua respiração pesada denunciando que o fôlego já falhava. Dois inimigos o cercaram, e seu grito foi mais de desespero do que de guerra.
— Protejam o flanco! — bradei, enquanto Pandora saltava à frente para afastar os atacantes.
Germano também vacilava; seus tiros eram certeiros, mas cada impacto parecia abalar mais a ele do que ao inimigo. A resistência não era a mesma dos que tinham seus sois de mana. Logo, percebi que a confiança de que todos poderiam aguentar não era real.
Niana se aproximou de mim, o olhar sério.
— Eles não vão resistir muito tempo. Alguns são fortes… outros serão apenas alvos em algum tempo.
Antes que eu pudesse responder, um guincho mais profundo e vibrante atravessou o campo. O chão tremeu. Das trevas, novas silhuetas começaram a surgir. Criaturas maiores, carapaças brilhantes cobertas de fungos pulsantes.
O primeiro embate mal havia começado, e já estava claro: a noite ainda ia se alongar, e muito.
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