As Sombras do Imperador — Capítulo 2: CAPÍTULO 2 - 2 — Livro Estranho

As Sombras do Imperador
Cap. 2
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As Sombras do Imperador

CAPÍTULO 2 - 2 — Livro Estranho

Capítulo 2

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Capítulo 2 — Livro Estranho

As Sombras do Imperador

Naquela sala mal iluminada, Leonard estava sentado em uma velha banqueta de madeira, inspecionando o estado de cada exemplar usado que a última remessa trouxe.

No teto, um painel plafon de LED iluminava o pequeno cômodo abarrotado de pilhas e pilhas de livros.

— Tô vendo que hoje será um longo dia… Por que vêm tantos de uma só vez? Eles podiam buscar aos poucos… — murmurou.

O cheiro característico de páginas amarelas e brancas impregnava o ambiente, transmitindo uma nostalgia agradável. Na pilha de livros à frente de Leonard, ele reconheceu alguns clássicos canadenses, como O Desgarrado e Brian, o Caçador Solitário.

Ao avaliar o estado de cada livro, suas mãos tocaram em um livro familiar. Era um exemplar de O Processo, de Franz Kafka, que estava em péssimas condições, mas ainda assim despertava lembranças.

— Esse livro me lembra ela… — disse baixo para si, fazendo-o recordar de Sophie, sua mãe, que adorava aquela obra.

Leonard jogou o livro em outra pilha, a dos que haviam passado na verificação, e continuou com os próximos exemplares.

Perto dos últimos oito livros, Leonard encontrou um pequeno volume encadernado. Era discreto, mas sua aparência o diferenciava dos demais. A capa e a contracapa eram de couro preto envelhecido, sem título, sem autor, sem qualquer vestígio de origem. Ele deslizou os dedos sobre a superfície áspera e marcada pelo tempo, sentindo uma leve resistência, como se a pele do livro respirasse sob seu toque.

Uma sensação desconfortável rastejou por sua espinha.

— O que é isso? — murmurou, sem esperar resposta.

O livro parecia pulsar em suas mãos. Não literalmente — ou talvez, sim, em um nível que ele não compreendia. Era uma intuição irracional, algo primitivo e profundo, como o pressentimento de que se está sendo observado no escuro.

Com hesitação, Leonard o abriu.

As páginas eram antigas, amareladas e manchadas pelo tempo, mas estavam vazias. Virou uma, depois outra. Nada. Nenhum sinal de tinta, nenhuma palavra esquecida, apenas o silêncio impresso no papel.

Até que, ao chegar à penúltima folha, algo tingido de vermelho manchava a última página.

Ele arregalou os olhos.

O símbolo ali desenhado parecia pertencer a algo que jamais deveria ter sido registrado.

Era um emaranhado de curvas e ângulos impossíveis, como se cada traço negasse as leis da geometria. No centro, algo que era, ao mesmo tempo, um olho e uma espiral, expandia-se para o infinito. Em torno dele, quatro figuras pontiagudas — lâminas, setas, garras — apontavam para os quatro pontos cardeais, como se estivessem aprisionando ou libertando algo.

Leonard não sabia dizer se aquilo lhe causava fascínio ou repulsa.

— Isso é tão… lindo? — sua voz vacilou no próprio absurdo.

Mas era verdade. Havia uma beleza terrível naquela imagem. O traçado, a precisão, os detalhes minuciosos — era uma obra de arte feita à mão com um talento que desafiava a compreensão. E, no entanto, havia algo errado. Como uma pintura que não deveria existir, um rosto visto num pesadelo, uma nota musical que ressoava errada no ouvido, embora não soubesse dizer por quê.

Virando a página novamente, ele observou a assinatura com uma única palavra: “Voynich”. O nome soava familiar, embora ele não soubesse o motivo.

“Acho que ninguém vai se importar se eu comprar esse livro antes de colocá-lo à venda. Não há conteúdo algum, e dificilmente alguém se interessaria por um livro assim.”

Ele separou o livro de capa preta na mesa e voltou à análise dos restantes. Sua intuição finalmente voltou ao normal, e o frio que o incomodava desapareceu.

“O sono continua… Será que ficarei o dia inteiro desse jeito? Que coisa mais estranha…”

Ao fim da inspeção, a enorme pilha de livros havia se transformado em duas caixas: uma com os livros que estavam em boas condições e outra com os que estavam danificados. Esforçando-se, Leonard levou a caixa dos livros bons até a livraria e organizou-os na seção de usados.

Meia hora após finalmente completar a ida e vinda, ajeitando os livros em bom estado e os que não estavam tão bem, finalmente poderia descansar, já havia passado do meio-dia e ainda não tinha tirado o seu horário de almoço, então decidiu fazer isso.

De volta ao pequeno cômodo, sentou-se na mesma banqueta e almoçou em silêncio. Percebeu, entretanto, que o livro que havia deixado separado já não estava na mesa.

“Será que já o pegaram? Me esqueci de separá-lo… Bom, já foi.”

Após o almoço, Leonard auxiliou os outros vendedores. Era algo que fazia com prazer, pois gostava de conhecer pessoas e descobrir seus gostos literários, que revelavam muito sobre elas.

“Onde já se viu! Como a pessoa não gosta de Hamlet e Dom Quixote? Que tipo de monstro são essas pessoas de hoje em dia?!”

Olhando pela janela, observou o dia tranquilo. O sol espreitava timidamente entre as nuvens, enquanto a tarde corria como se as horas voassem. Faltava pouco para o expediente terminar, e nada de extraordinário havia acontecido.

“Aquele livro… Seria muito intrusivo perguntar quem o pegou? Ah… Melhor não, deixa quieto, não quero arrumar nenhum tipo de discussão nem nada, afinal é só um livro qualquer que me chamou a atenção mesmo…”

A monotonia foi quebrada quando, faltando pouco mais de meia hora para o fim do expediente, o sino da porta soou. Emma e Aria estavam ocupadas atendendo outros clientes, então Leonard observou o recém-chegado.

O homem portava-se bem-vestido, com meio fraque cinza com tons esverdeados, um cinto ajustado na cintura e uma gravata discreta. Na cabeça, usava um fedora preto. Seu cabelo era loiro e comprido, e seus olhos azuis chamavam a atenção.

Leonard teve a impressão de estar diante de alguém extremamente organizado e cuidadoso.

Aproximou-se do cliente com a tranquilidade de sempre, disposto a ajudá-lo.

— Estou à procura de Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, sabe me dizer se teria?

— Temos, sim. Caso não tenha novo, pode ser uma versão seminova?

— Sem problemas… Só espero encontrar esse livro aqui… Passei na outra livraria, mas não tinham exemplares…

— Entendi… Bom, vou procurar e logo te trago aqui!

Leonard foi até a seção de livros novos, mas voltou de mãos vazias após alguns minutos.

— Infelizmente, os novos já foram levados, mas lembro que chegou um ou dois exemplares na remessa de livros usados, tem algum problema?

— Não… Sem problemas.

— Certo, irei lá buscar.

Leonard se dirigiu para as prateleiras e mesas de livros usados e ficou por ali procurando o livro.

Fim da leitura

Capítulo 2 concluído

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