Ceifadores e Aberrações — Capítulo 13: CAPÍTULO 13 - 13 - Mãe A Lembrança

Ceifadores e Aberrações
Cap. 13
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Ceifadores e Aberrações

CAPÍTULO 13 - 13 - Mãe A Lembrança

Capítulo 13

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Capítulo 13 - Mãe: A Lembrança

Ceifadores e Aberrações

Anayê estava sonhando com seu vilarejo.

Era incrível como nos sonhos o local se tornava tão vívido. As casas simples de madeira pintadas de amarelo, verde ou castanho, cores consideradas abençoadas por seu povo.

Todo ano, durante a festa do solstício de verão, eles pintavam o rosto com essas cores.

— Celebramos a vida com essas cores — seu pai explicara várias vezes — Morte, vida, sonhos, desilusões, transcendência, bem, mal. Embora desconexos, são esses fatores que fazem a vida como ela é. Nessa existência, apreciamos a vida porque existe morte, valorizamos os sonhos porque existem desilusões.

Em seu sonho, tinha oito anos e participava de sua última festa antes do ataque dos maggs.

Enfeites feitos de bambu adornavam as portas e colares de ostra eram deixados nas janelas.

Todos no vilarejo usavam muitas jóias, pulseiras e pinturas, e as mulheres trajavam vestidos longos e coloridos.

Naquele ano, Anayê fizera questão de pintar o rosto sozinha e, por questões óbvias, deu tudo errado. Sua pintura acabou borrada.

No fim, ela recebeu o socorro de sua mãe.

— Você deveria ter me esperado, Anayê. Nós chegaremos atrasadas na cerimônia.

— Desculpa, mãe.

Ver os cabelos volumosos, os olhos pequenos e profundos, e o rosto moreno de sua mãe brilhando diante de seus olhos era infinitamente significativo.Há dez anos não a vejo assim.

De alguma forma, dentro do sonho, tinha consciência de que sua mãe estava morta. Na verdade, quando se deu conta disso, lembrou da tragédia prevista para o fim daquela semana.Eles vão matá-la.

Os maggs atacariam durante a madrugada porque o povo estava embriagado e cansado demais para revidar. Arrancariam a cabeça de todos os homens mais velhos do vilarejo, inclusive de seu pai, e fariam coisas terríveis com as mulheres antes de matá-las.

E um destino sinistro aguardava os jovens, a escravidão.

Todo o vilarejo saqueado e queimado pelos maggs. Os sobreviventes destinados a um destino tão amargo quanto a morte.Preciso avisá-la antes que seja tarde.

Anayê tentou agarrar sua mãe, mas de repente, estava segurando um punhado de cinzas.O quê? Mãe? Mãe, cadê você?

Ao erguer os olhos, vislumbrou as casas sendo incendiadas. Risos sarcásticos, gritos desesperados. As cores desvanecendo em vermelho alaranjado e preto.Não, não pode ser.

Voltou ao punhado de cinzas.Eu… não consegui… não consegui avisá-la a tempo. Eu não consegui!Soltou um grito de profunda angústia e segurou as cinzas de sua mãe como se ainda restasse alguma vida ali.Me perdoa, eu não consegui!

— Mãe!

Ela despertou com o chacoalhar da carroça e quase caiu para fora, mas Boyak segurou seu braço. Levou alguns segundos para processar tudo o que estava acontecendo.

Limpou a testa molhada de suor e fitou Boyak e Grekz ao seu lado. Os rostos de ambos variando entre a dúvida e a preocupação.

O cenário ainda era a devastação, mas o dia prestes a raiar espalhava pequenos fachos de luz pelo terreno.

Suspirou angustiada.Foi tão real. Ela estava a meu alcance.

— Pesadelo? — Boyak perguntou.

Ela assentiu colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ainda podia sentir o peso do punhado de cinzas em suas mãos. Suas entranhas queimavam de dor. A dor da perda e do fracasso.

— Você chamava por sua mãe — Grekz apontou.

Anayê não soube como responder. Na verdade, não desejava comentar sobre o sonho, não tinha intenção de dividir suas emoções com eles, não agora.

Entretanto, ter tal companhia era novidade e ela sentia uma espécie de dívida para com Boyak.

Mesmo assim, só o fato de pensar em sua mãe fazia todo seu corpo estremecer.Sua mãe virou um punhado de cinzas, menina fraca, disse a voz inconsciente de seu irmão em sua mente.

— E pelos céus! Você ronca mais alto do que o maquinário de Astaroth — Boyak ironizou.

Novamente seu comentário a surpreendeu. Era como se virasse uma chave em sua cabeça e conseguisse sair daquela zona amargurada para uma visão mais clara a respeito do mundo e das pessoas.

Ele piscou para ela e outra vez notou a sutileza do comentário do ceifador.Percebeu que eu não queria falar sobre isso e mudou de assunto.

— Oh, ela ronca mais do que qualquer gor, e somos conhecidos por roncar — Grekz entrou na brincadeira. — Na verdade, não roncar pode trazer má sorte. Assim nós acreditamos.

— Viu só? — Boyak deu uma cotovelada leve no braço dela. — Você já é bem vista pelos gors. Nunca pensou que um ronco proporcionaria isso, hein!

Ela abriu um sorriso tímido.

— Você devia estar honrado, Boyak — Grekz falou. — Ter alguém roncando em seu ombro é uma grande honra.

Anayê enrubesceu e baixou a cabeça.Dormi no ombro dele? Meu Deus!

— Uma honra com gosto de saliva — seu tom jocoso não ofendeu.

— Me desculpe — ela disse.

— Sem essa! Você estava merecendo um descanso e sabemos como meu ombro musculoso se parece com um travesseiro — o ceifador flexionou os braços em exibição.

— É sério que você falou isso? — Grekz perguntou fazendo cara de nojo.

— Ora, não fique com inveja, posso te passar a receita do fortalecimento dos músculos.

O gor deu de ombros, mas depois de alguns instantes disse:

— Está bem, você venceu — pausou dramaticamente. — Qual é a receita?

O rosto transpirava curiosidade e sua careta quase fez Anayê começar a rir.

— Anote — Boyak esticou o braço e virou a manga da camisa. — Sempre use roupas com a marca do senhor Touji!

Na barra da camisa havia um kanji marcando a autoria da roupa. Grekzi quase perdeu o controle da carroça com aquela declaração aleatória enquanto Anayê franzia a testa para ler o nome.

— São feitas com material colhido ao pé do Sinai e tem um efeito maravilhoso no corpo.

— Está me dizendo que o segredo para ter braços malhados é comprar uma roupa? — o gor perguntou boquiaberto.

— Comprar e usar uma roupa — disse o ceifador como se aquele fato fosse a coisa mais importante do mundo.

Grekz agarrou um pedaço da camisa para sentir o tecido.

— É de boa qualidade mesmo.

Anayê procurava compreender como a conversa havia tomado aquele rumo.

De repente, Grekz ficou um pouco acanhado e suas orelhas baixaram.

— Vou revelar um fato sobre mim — engoliu a saliva. — Eu… adoro costurar.

Boyak e Anayê ficaram sem reação com a revelação.

— Tecidos e agulhas são tão bons! — sua voz tomou um tom animado. — Já viu a textura e complexidade de um tapete ornamentado? É tão lindo!

— Isso é uma coisa que nunca imaginei ver — o ceifador cochichou para sua colega.

— Hoje estamos vendo muitas situações estranhas…

No mesmo momento, o semblante do gor assumiu o aspecto sério e astuto de sempre.

— Se contarem isso para alguém…

— Tudo bem, seu segredo está seguro com a gente — Boyak garantiu.

Grekz balançou a cabeça.

— Mas isso foi bem esquisito — o ceifador acrescentou.

O gor não respondeu, porém, esfregou o tecido entre os dedos uma última vez rapidamente.

Fim da leitura

Capítulo 13 concluído

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