Cobras, Cartas e Cultivo — Capítulo 33: CAPÍTULO 33 - XXXIII (33) - A Verdadeira Wen Qishu Mei (Parte 1)

Cobras, Cartas e Cultivo
Cap. 33
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Cobras, Cartas e Cultivo

CAPÍTULO 33 - XXXIII (33) - A Verdadeira Wen Qishu Mei (Parte 1)

Capítulo 33

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Capítulo XXXIII (33) - A Verdadeira Wen Qishu Mei (Parte 1)

Cobras, Cartas e Cultivo

Eu observava tudo na minha forma de águia etérea. Lefkó estava em controle e posse do meu corpo humano, e isso era muito ruim. Se eu a deixasse entrar em combate, violaria uma ordem tomada por unanimidade do conselho.

Voei em linha reta até o meu próprio corpo e me choquei contra ele.

Tudo ficou escuro, e uma dor lancinante explodiu dentro da minha cabeça, como a dor de uma ressaca matinal após uma longa noite de bebedeira.

Senti meu corpo humano cambalear. Abri os olhos, a visão turva.

— Um momento… — disse, ao levar a mão à boca para bloquear contra o reflexo involuntário.

Não consegui.

Inclinei-me sobre o cais e vomitei na água escura do mar. Um gosto ácido queimava a minha garganta.

— Que foi, Thomas? — Lefkó se enrolou em meu pescoço, uma certa preocupação na voz.

— Odeio a sensação após uma projeção astral. — Consegui falar entre um espasmo e outro, antes de vomitar novamente.

— Ela fala! — O ancião assustou-se na hora. — Você… você tem uma besta espiritual com você esse tempo todo?

Atrás de mim, Wen Qishu Mei também me encarava. O susto em seu rosto rapidamente deu lugar a uma raiva direcionada a mim.

— Já respondo… — Levantei o dedo indicador, como se pedisse silêncio, e voltei a vomitar.

Atrás de nós, um dos guardas sobreviventes se inclinou na direção dos outros e murmurou, em voz baixa, embora não o suficiente para que eu não o escutasse:

— Quem é esse sujeito? É aquele… Nasha Lyu?

Cuspi o restante do gosto amargo na água e limpei a boca com o dorso da mão.

— Primeira coisa — falei, ao erguer a cabeça e olhar para eles —, eu não sou um velho caquético, com um rosto calejado de rugas pra ser chamado de “Senhor”. Segunda coisa, meu nome é Thomas Nyrzyr — enfatizei o som do r, de propósito. — Se eu ouvir mais uma vez alguém pronunciando isso como se fosse o Cebolinha, eu juro que essa pessoa perde a língua.

— Você nem consegue ficar de pé, acha mesmo que pode nos ameaçar? — rebateu o ancião.

Suspirei fundo, e me concentrei, havia um imenso peso de uma profunda exaustão que pressionava o meu corpo.

— Infelizmente para você… — Abri os braços, e preparei para invocar o poder da carta. — Mestre das Marionetes.

A névoa negra saiu de dentro do meu casaco e se espalhou pelo porto. Mãos começaram a surgir do chão, e do meio da névoa. Ninguém conseguia enxergar nada a sua frente, apenas os gritos distantes de dor e agonia dos que estavam ao redor deles.

Quando a névoa desapareceu, não havia mais ninguém ali, exceto por mim e Wen Qishu Mei, em pé atrás de mim.

Por um breve instante, tudo ficou silencioso.

— Merda…

Foi a única coisa que consegui falar, antes de sentir minha consciência se esvair totalmente.

Abri os olhos como um recém-nascido.

A primeira coisa que inebriou os meus sentidos foi o cheiro de um incenso forte, que quase me fez engasgar. Logo depois do cheiro, a sensação do tato, a cama era de uma seda macia, mas ainda assim, barata. As luzes eram fracas, e vinham de uma vela amarela de cera de abelha.

Na minha frente, deitada em um leito colado à parede, estava Mei, os olhos fechados e cansados. Seu braço ferido estava enfaixado, e ela estava com roupas novas, uma túnica branca e verde que cobria o seu corpo. Logo abaixo dela, sua espada apoiada na parede.

Demorei alguns segundos para entender onde estava. O quarto era pequeno, abafado, com paredes de madeira escura e cortinas grossas que isolavam o som do lado de fora. Havia risadas distantes, uma música desafinada e passos ritmados no andar inferior.

— Lefkó… — chamei, em busca de respostas do que havia acontecido..

Todavia, não houve resposta, minha voz ecoou no ar.

Olhei para baixo. Onde estavam minhas roupas?

A situação era constrangedora. Eu estava apenas de cueca, deitado numa cama que mais parecia a de um motel barato. Meu baralho permanecia no bolso do meu casaco, e, sem ele, eu estaria completamente indefeso contra qualquer ameaça externa.

Só não me considerava totalmente perdido porque mantinha a carta do Louco sempre ativa. Para momentos como aquele, ela era perfeita.

Girei a cabeça, e examinei o quarto com mais atenção, à procura do meu casaco e do uniforme. Suspirei aliviado ao encontrá-los dobrados sobre uma pequena mesa no canto. Sobre as roupas, Lefkó permanecia adormecida e enrolada.

Levei a mão à testa. A dor ainda insistia, profunda e constante. Minha mente não era preparada ou adequada para sustentar uma projeção astral como a da habilidade do Ás de Espadas; a tontura e a enxaqueca eram provas claras disso.

Relaxei os ombros, baixei a guarda e me preparei para me levantar e me vestir.

Quando ergui o olhar, arregalei os olhos.

Para minha surpresa, Mei estava acordada, de pé na frente da cama. A ponta da espada pairava a poucos centímetros da minha testa.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou-me ela, a voz carregava ódio e tristeza.

Eu a encarei com uma certa suspeita da sua pergunta. E também, ela realmente achava que ia tentar um interrogatório contra mim?

— Essa pergunta devia ser minha — respondi, ao erguer levemente a sobrancelha. — Como vim parar aqui?

— Eu o carreguei até aqui. — Ela não baixou a lâmina. — A dona é uma velha amiga do meu pai. Devia alguns favores a ele. Eu apenas os cobrei.

O nome, o ambiente, os sons abafados do andar inferior. Tudo se encaixava.

— Por que um bordel? — Levei a mão ao rosto e esfreguei os olhos, um tanto cansado.

— Bem… é que… — Mei hesitou, visivelmente sem saber como explicar.

— Quer saber, nem se dê ao trabalho — interrompi. — Já estou indo embora.

Levantei-me da cama ainda só de cueca.

Ela manteve a espada apontada por um instante a mais, o rosto levemente corado, antes de se virar de costas, e cruzou os braços com uma certa impaciência.

Balancei a cabeça com desaprovação pelo comportamento dela.

— Você me despiu e agora vai reclamar? — comentei, ao caminhar até a mesa onde estavam Lefkó e minhas roupas.

Acariciei de leve a cabeça da cobra e a acomodei ao redor do meu pescoço.

— Você simplesmente vai embora? — perguntou ela, ainda de costas, enquanto eu vestia o uniforme.

— Claro, tenho um navio para pegar.

— Mar do Dragão? — A voz dela se elevou um pouco. — Depois de toda a desgraça que você causou e trouxe consigo, vai simplesmente dar as costas para nós?

— Sim — respondi, sem entender o que ela queria de mim.

— Você sabe o que você fez?

— Não. Eu não fiz nada — Dei de ombros. — E tem outra coisa: por que diabos você está de costas? Eu poderia atacar você agora mesmo.

— Eu… — Mei hesitou outra vez, as palavras quase não saiam da sua boca. — Você não ousaria.

— Por que tem tanta certeza disso? — indaguei, enquanto colocava meus sapatos.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, sem coragem de se virar para mim.

— Se você não quer responder, não precisa. — Coloquei as mãos na gola do casaco, e comecei a ajustá-lo.

Ela deu uma olhadinha de canto, e quando viu que eu estava vestido, virou-se, e me encarou, com as bochechas ainda meio vermelhas.

— Suas roupas são estranhas.

— Você já repetiu isso muitas vezes nessa semana…

Apesar de chamarem a atenção mais do que deviam, aquele uniforme me dava identidade, e eu não iria tirá-lo por nada nesse mundo.

— Então, você confia em mim? Estou certo? — Sentei-me na borda da cama, e sorri debochado para ela. — Se não, porque me traria para cá.

Ela fechou os punhos. Estava claro para mim suas intenções, ela queria me socar, e descontar toda a sua raiva.

— É apenas uma troca de favores. — Mei falava, mas não olhava de volta para os meus olhos, encarava o chão o tempo todo.

— Irei fingir que acredito nessa sua desculpa. — Apoiei o queixo na minha mão. — E como você está? Está bem?

A pergunta transformou sua expressão.

Uma lágrima escorreu por seu rosto. Os dedos se fecharam com tanta força no cabo da espada que parecia que ele iria se partir.

— Bem? — a voz saiu trêmula. — Você ainda tem coragem de me perguntar se eu estou bem?

As pernas dela cederam, os dedos que antes seguravam a sua arma perderam sua força. Ela caiu de joelhos no chão e, enfim, desabou em prantos.

Fim da leitura

Capítulo 33 concluído

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