Crônicas das Terras dos PortaisContos Avulsos – Pão de Essência Solar
Capítulo 1377ANO 1377
— Nunca comi um pão desse.
O homem sorriu enquanto cortava outra fatia.
— Essa costuma ser a primeira frase de quem prova.
A mulher mastigou devagar, fechou os olhos por um instante e voltou a encará-lo.
— O gosto muda — disse ela. — Primeiro parece um pão comum... depois...
Ela procurou a palavra.
— Parece que esquenta por dentro.
O comerciante assentiu.
— Sim. É esse o sabor que faz ele ser tão procurado.
Um senhor que passava diminuiu o passo.
— Foi isso que ela disse?
— Pão de Essência Solar — respondeu o comerciante. — Receita de Jillar.
O velho ergueu as sobrancelhas.
— De lá mesmo?
Outro homem se aproximou da banca, curioso com a pequena roda que começava a se formar.
Sobre a mesa de madeira descansavam dezenas de pães redondos, de casca dourada e levemente rachada, ainda soltando fios de vapor.
— Pensei que isso só existisse por lá.
O comerciante pegou um dos pães.
— Agora a senhora os verá mais vezes por aqui.
A mulher que ainda segurava a fatia olhou para os outros.
— Vale cada moeda.
O segundo homem cruzou os braços.
— Você veio mesmo de Jillar? Nunca imaginei encontrar alguém de lá numa cidade dessas.
O comerciante deu de ombros.
— Nem eu imaginei terminar aqui.
Alguns riram.
— E por que sairia de Jillar? — perguntou o velho. — É a maior cidade do mundo.
O comerciante entregou outro pedaço de pão ao homem.
— Experimenta primeiro.
O velho aceitou.
Mastigou.
Demorou alguns segundos antes de falar.
— Agora entendi por que cobram tão caro nisso.
— Lá não cobram tanto.
— Então por que aqui custa uma fortuna?
— Porque vocês não me conheciam antes.
Mais risos.
O comerciante apontou para os pães.
— Minha esposa trouxe a receita de lá. Enquanto ela tiver mãos para amassar farinha, não preciso importar nada de Jillar.
O segundo homem pegou uma moeda.
— Me vê um.
O comerciante embrulhou o pão num pano fino e recebeu o pagamento.
— Ainda não respondeu.
— Responder o quê?
— Por que saiu de Jillar.
O sorriso do comerciante diminuiu um pouco.
— Minha família queria paz.
Os curiosos ficaram em silêncio.
— A situação com os druidas piora a cada ano. Toda semana aparece uma atrocidade nova.
O velho assentiu.
— Então veio para a Aliança.
— Ouvi dizer que aqui as pessoas eram livres.
— E são. Trouxe quem com você?
— Minha esposa e nossos três filhos.
— Vai abrir uma padaria?
— Primeiro preciso juntar dinheiro. Estamos numa pensão. Quando conseguir, alugo um ponto.
Outro cliente estendeu duas moedas sobre a banca.
— Então me dá dois. Quero ver se minha mulher acredita quando eu contar que comi pão de Jillar.
O comerciante pegou os dois maiores da pilha.
— Ela vai acreditar quando sentir o cheiro.
Entregou os pães, recebeu as moedas e agradeceu com um leve aceno.
Uma nova voz surgiu atrás dos clientes.
— Bom dia.
O comerciante ergueu os olhos.
O homem usava uma túnica escura com um selo bordado sobre o peito.
Esperou o último cliente guardar a compra antes de continuar.
— Agora que concluiu sua atividade comercial desta manhã, preciso falar com o senhor.
— Claro.
O homem fez uma pequena reverência.
— Antes de tudo, permita-me dizer que é uma honra receber alguém de Jillar. Faz muitos anos que não vejo um Pão de Essência Solar.
O comerciante sorriu.
— Minha esposa vai gostar de ouvir isso.
— Imagino que sim.
O homem de túnica escura abriu um pequeno caderno de capa rígida com o selo da Coroa.
— Agora preciso registrar sua Contribuição para a Defesa do Reino.
O comerciante assentiu com naturalidade.
— Entendi.
O agente permaneceu em silêncio.
O comerciante soltou o ar.
— Então... acho que houve um engano.
O agente ergueu os olhos.
— Perdão?
— Não precisamos de proteção.
O silêncio durou um instante.
— Como disse?
— Em Jillar funciona assim também. Existem várias companhias. Algumas protegem mercadores, outras caravanas. A gente escolhe uma... ou nenhuma.
Um dos clientes franziu a testa.
— Vocês podem escolher?
— Claro.
O comerciante deu de ombros.
— Se eu achar caro, não contrato ninguém.
Outro homem entrou na conversa.
— E se roubarem sua banca?
— Eu fiz minha escolha.
Os clientes se entreolharam.
Quando o burburinho diminuiu, o agente respondeu calmamente.
— Já ouvi dizer que em Jillar funciona dessa forma.
O comerciante abriu um sorriso satisfeito.
— Então pronto. Ficou fácil de entender.
Apontou para a rua.
— Ainda nem aluguei uma loja. Se aqui vocês cobram pela defesa, prefiro seguir viagem. Não quero tomar o tempo de ninguém.
O agente fechou o caderno por um instante.
— Creio que ainda existe um mal-entendido.
Abriu o caderno novamente.
— Não estou oferecendo proteção.
Um dos clientes franziu a testa.
O comerciante piscou algumas vezes.
— Não? Então... essa contribuição é para quê?
— Para a Defesa do Reino.
— Mas eu acabei de chegar.
— Sim.
— Nem moro aqui ainda.
— Ainda assim.
O comerciante soltou uma pequena risada.
— Acho que continuo sem entender.
O agente manteve o mesmo tom sereno.
— O senhor realizou atividade comercial em território da Coroa. Passou a contribuir para a manutenção do Reino.
O comerciante apontou para os pães.
— Eu só vendi pão. Não usei soldados. Não pedi escolta. Não pedi proteção.
— Eu compreendo.
O comerciante abriu as mãos.
— Então agradeço, mas vou recusar.
O agente respirou fundo.
— Receio que o senhor ainda não compreendeu.
Os clientes voltaram a fazer silêncio.
— Esta contribuição não é um serviço que possa ser aceito... ou recusado.
O comerciante permaneceu imóvel.
— Como é?
— Ela decorre da atividade comercial.
— Então basta eu parar de vender.
— O senhor pode parar quando desejar.
O comerciante sorriu, aliviado.
— Ótimo.
Começou a recolher os pães da banca.
O agente observou o movimento por um instante.
Então falou, quase com pesar.
— Infelizmente, isso não altera o registro que preciso fazer.
O comerciante franziu a testa.
— Registro de quê?
— Da atividade comercial.
O comerciante apoiou as mãos sobre a caixa.
— Então vou embora da cidade.
— O senhor é livre para partir quando desejar.
— Do reino.
— Também.
O comerciante encarou o agente por alguns segundos.
Depois sorriu, como quem enfim encontrara a solução.
— Então esqueça os pães. Fique com a praça. Não volto mais.
O agente balançou a cabeça.
— Não preciso da praça.
Abriu novamente o caderno.
— Preciso recolher a Contribuição para a Defesa do Reino.
O comerciante fechou a tampa da caixa.
— Já disse que não vou pagar.
O agente anotou algumas linhas.
— Nesse caso, preciso registrar sua recusa voluntária.
O comerciante cruzou os braços.
— Registre o que achar melhor.
O agente voltou a escrever.
— A recusa gera uma multa.
— Também não vou pagar.
O agente ergueu os olhos do caderno.
Pela primeira vez, fechou o caderno com mais cuidado do que antes e fez uma pausa antes de continuar.
— Senhor... peço que reconsidere.
— Não posso pagar por uma obrigação que nunca aceitei.
Uma voz feminina surgiu do outro lado da praça.
— Trouxe mais uma fornada.
Os dois se viraram.
Uma mulher atravessava a rua carregando um cesto coberto por um pano branco. Três crianças vinham logo atrás, espremendo-se entre as pessoas para acompanhar a mãe.
Ela sorriu ao ver a banca quase vazia.
— Vendeu tudo isso?
O sorriso desapareceu quando o silêncio se instalou ao redor. Olhou para o marido, depois para o homem da túnica escura.
— O que está acontecendo?
O comerciante respirou fundo.
— O reino quer que eu pague para vender pão.
Ela olhou para o agente.
— Então vocês são os donos da praça.
O agente manteve a mesma serenidade.
— Não, senhora. Apenas a contribuição prevista para toda atividade comercial exercida em território da Coroa.
Ela voltou os olhos para o marido.
— É só isso?
Ele assentiu.
— É.
— Então paga.
O comerciante balançou a cabeça.
— Hoje é uma moeda. Amanhã serão duas.
Ela deu mais um passo.
Falou mais baixo.
— Nós precisamos recomeçar.
Um dos clientes, o mesmo que havia comprado um pão minutos antes, limpou a garganta.
— Amigo... faz o que ele pediu.
Outro assentiu.
— Você tem esposa.
Um terceiro olhou para as crianças.
— E três filhos.
O comerciante permaneceu imóvel.
O agente fechou o caderno.
— Lamento, senhor.
Fez uma pequena reverência.
— Diante da recusa, preciso apreender a mercadoria até que a dívida seja satisfeita.
O comerciante passou a mão pela tampa da caixa de madeira.
— Chamem um paladino.
O agente sustentou seu olhar.
— Não há paladinos na cidade. Todos foram lutar no fronte. Até eles percebem o quanto é importante essa luta de liberdade contra o império de Yosefaalin.
O comerciante respirou fundo.
— Eu também entendo. Sustento minha família.
O agente fez uma breve inclinação de cabeça.
— E o Reino pede apenas a contribuição correspondente.
— Eu nunca concordei com isso.
— Ainda assim, preciso cumprir minha função.
Estendeu a mão para a caixa.
— Senhor, entregue a mercadoria.
O comerciante segurou a alça antes que ele a alcançasse.
— Não.
O agente não forçou. Voltou-se para dois guardas que patrulhavam a praça e fez um discreto aceno.
Os dois atravessaram a multidão em silêncio.
A mulher apertou o cesto contra o peito. As crianças se esconderam atrás dela.
— Por favor, querido... faz o que ele pediu.
O comerciante não desviou os olhos da caixa.
— Se eu entregar hoje, amanhã entrego de novo.
Um dos guardas parou ao lado do agente.
— O que houve?
— Recusa em cumprir a Contribuição para a Defesa do Reino e resistência à apreensão da mercadoria.
O guarda assentiu. Deu um passo à frente.
— Senhor, solte a caixa.
O comerciante balançou a cabeça.
— Ela é minha.
— A apreensão é prevista em lei.
— Eu nunca aceitei essa lei. Você não pode transformar o que é meu em seu.
Os clientes se entreolharam.
O homem que havia comprado dois pães deu um passo à frente.
— Amigo... acaba com isso.
Outro apontou para as crianças.
— Não vale a pena. São só algumas moedas. Se você estivesse no Império, pagaria muito mais.
A mulher aproximou-se do marido.
Os olhos já brilhavam.
— Por favor.
Ele a encarou por um instante.
Depois voltou a olhar para os guardas.
— Eu só queria vender meu pão.
O primeiro guarda segurou uma das alças da caixa, mas o comerciante não soltou. O segundo avançou para imobilizá-lo. O comerciante girou o corpo, puxando a caixa para junto do peito.
O guarda recuou um passo.
— Ele vai reagir!
Num único movimento, levou a lança à frente.
A ponta atravessou o peito do comerciante.
O silêncio caiu sobre a praça.
O comerciante olhou para baixo. A madeira da caixa escorregou de seus braços. Os dedos afrouxaram lentamente sobre a alça.
— Pare... — murmurou a mulher, sem conseguir avançar.
O guarda permaneceu imóvel, ainda segurando a haste da lança.
— Eu... pensei...
O agente ergueu uma das mãos.
— Afaste-se.
O guarda puxou a lança para trás e recuou dois passos.
A caixa caiu sobre as pedras.
O som seco ecoou pela praça.
— Não! — gritou alguém na multidão.
Os Pães de Essência Solar rolaram pela rua. Alguns se partiram. O vapor quente subiu lentamente pelas rachaduras da casca dourada.
Ninguém disse uma palavra. A mulher caiu de joelhos ao lado do marido. As três crianças permaneceram imóveis, olhando ora para os pães no chão, ora para o pai, como se ainda não tivessem entendido o que significava aquilo.
— Ele resistiu ao confisco — disse o guarda, ainda com a mão na lança.
O agente manteve o olhar no chão por um instante.
— Registre que o emprego da força decorreu da resistência ao confisco.
O guarda ainda em choque assentiu.
O salão permanecia silencioso.
A viúva aguardava ao pé dos degraus com os três filhos ao seu lado. O menor segurava sua mão com força. Dois guardas permaneciam imóveis nas extremidades da escadaria.
No alto, um homem desenrolou um pergaminho marcado com o selo da Coroa.
— Por determinação de Sua Majestade, em razão do lamentável incidente ocorrido durante procedimento oficial de arrecadação da Contribuição para a Defesa do Reino, fica concedida à família do comerciante uma pensão vitalícia, custeada pelos cofres da Coroa.
A viúva permaneceu em silêncio.
O funcionário continuou a leitura.
— Fica também concedida isenção permanente da Contribuição para a Defesa do Reino, bem como autorização para exercer atividade comercial em qualquer cidade pertencente à Aliança do Leste.
Dobrou o pergaminho.
Desceu um único degrau e o estendeu à mulher.
Ela o recebeu sem dizer uma palavra.
O funcionário aguardou alguns instantes.
— Há mais alguma dúvida?
Ela olhou para os três filhos.
Depois tornou a encará-lo.
— Posso voltar para Jillar?
O homem fez uma pequena inclinação de cabeça.
— Naturalmente.
Ela dobrou o decreto.
Segurou a mão do filho menor.
Voltou-se para a porta.
As crianças a acompanharam em silêncio.
O salão permaneceu vazio.
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