Crônicas das Terras dos PortaisContos Avulsos – O Ofício de Todo o Paladino
Capítulo 1392ANO 1392
O aeroplano estava partido ao meio, com o casco virado e a madeira lascada espalhada ao redor do núcleo exposto. No centro dos destroços girava um cristal rosado, comprido e retorcido, do tamanho de um mastro, como se ainda procurasse algo onde se sustentar.
— Vocês aí! — a voz veio do convés pirata, satisfeita. — Ainda tem gente respirando nos destroços!
— Não, por favor! — um dos pendurados se debatia, tentando puxar o corpo pra cima. — A gente não tem nada. Já pegaram tudo!
— Não quero o que vocês têm. — O pirata ajustou a mira. — Só preciso que essa rota continue perigosa.
Um segundo pirata ergueu um bastão marcado com inscrições mágicas e conferiu os entalhes na madeira.
— Esse pau de fogo primo só tem um disparo.
— Que seja.
O estalo do disparo ecoou entre os destroços. As bestas vieram logo atrás, numa sequência seca, quase preguiçosa.
— Vamos sair daqui — o pirata disse, já virando as costas pros corpos — quem sobreviveu não vai durar muito nesse Etherdoorium exposto.
Quando o eco sumiu, restava só o giro lento do cristal, e os corpos, agora todos quietos, balançando presos aos cabos.
O terreno não deixava correr direito. Pedra solta, fendas e raízes grossas cobriam o chão irregular.
— Phong! Acho que não vamos conseguir chegar a tempo! — disse o jovem de cabelos roxos metálicos e orelhas pontudas, sem parar de correr.
— Eu sei — respondeu o de cabelos vermelhos, mantendo a voz calma apesar da respiração ofegante.
— Cadê o Meo quando a gente precisa dele? Um voo agora ia ajudar.
— Ou o Kang. — Phong lançou um olhar para o aeroplano. — Um portal e isso estaria resolvido.
— Os dois devem estar ocupados com coisas importantes enquanto a gente corre atrás de pirata.
O aeroplano pirata já ganhava altura à frente, o casco cortando o vento entre os picos.
O caçador parou de correr e ergueu o arco.
— Markko?
— Já sei a distância.
A flecha saiu num risco de luz dourada, atravessou o espaço entre os dois pontos e cravou fundo no casco distante.
A corda presa à haste se estendeu para baixo, ainda frouxa.
O arqueiro a prendeu ao cinto e puxou o segundo gancho.
— Segura, Phong.
O rapaz de armadura também prendeu o gancho ao cinto logo atrás dele.
O sol baixo pintava o casco de um dourado sujo, quase alaranjado. A flecha vibrava presa na lateral esquerda, com a corda esticada entre a haste e Markko.
À frente, o chão sumia num abismo entre as rochas.
— Isso vai funcionar? — Phong perguntou, olhando para o abismo.
Markko continuou correndo.
— Se não funcionar, a gente vai descobrir muito rápido.
Os dois saltaram juntos.
A queda esticou a corda com um puxão seco. Os dois foram lançados por baixo do casco, o vento carregando poeira e fumaça junto deles.
— Agora! — chamou Phong.
A lateral do convés se aproximou rapidamente.
O caçador soltou o gancho e caiu sobre as tábuas.
— Vamos torcer para essas botas terem valido o preço.
Phong soltou o próprio gancho logo atrás.
O convés os recebeu com sangue seco entre as tábuas, restos do massacre que já tinham visto de longe.
Markko olhou para baixo por um instante e ergueu o arco.
O primeiro pirata nem chegou a completar o giro. A flecha já estava onde ele ia parar.
Phong avançou logo atrás. A lança abriu caminho entre os piratas, e dois deles caíram antes que o primeiro corpo tocasse o chão.
Um terceiro ergueu a besta.
A flecha já estava no ar.
— Por que eu ainda uso arco? — Markko perguntou, sem parar de mirar. — Se você vai me ensinar as três técnicas lendárias, não seria mais fácil começar a usar uma lança?
Phong girou a arma, derrubando um pirata que tentava correr.
— Uma das técnicas exige lança.
— E já não é hora de eu mudar?
— Ainda não — respondeu Phong, calmo, puxando a lança de volta. — Sabe que eu seria a última pessoa a mentir para você.
Markko disparou outra flecha.
— Isso não responde minha pergunta.
— Eu sei. Mas vamos nos focar na missão. Esse pirata precisa ser julgado.
O convés já estava quase vazio. Só corpos, poeira, e o vento levando embora o que restava da luta. Poucos piratas ainda separavam os dois do resto do convés.
Phong abriu caminho com a lança, sem pressa.
— Essas técnicas vão acabar morrendo comigo — disse Phong, estocando um pirata pelo meio. — Preciso te ensinar antes da minha hora.
— Mas eu recém estou aprendendo os caminhos da Ordem. Não seria melhor ensinar para um paladino de lá?
— Não necessariamente. Não basta força para isso. E conhecimento sem alguém capaz de sustentá-lo não serve de muita coisa.
— Então você não confia nos seus colegas? — perguntou Markko, depois de disparar contra um pirata no cesto.
— Confio. Mas você, eu conheço como lida com o poder. Eles, não. — Phong girou a lança, atravessando mais um pirata que tentava fugir. — Ou não sabia que o poder corrompe?
— E isso importa tanto assim?
Phong derrubou outro pirata com um golpe curto.
— Infelizmente. Mais do que deveria.
Do outro lado do convés, uma figura de chapéu e sobretudo avançava na direção deles. Um papagaio repousava imóvel sobre seu ombro, enquanto tudo ao redor desabava.
— Capitão Corvane! — Phong gritou. — Se renda. Somos a Ordem dos Paladinos de Jillar. Chegou o dia do seu julgamento.
O capitão não respondeu. Apenas levou a mão ao sobretudo e puxou um pau de fogo primo.
Markko disparou antes que ele pudesse apontá-lo.
A flecha atravessou o peito. O corpo desabou.
O papagaio saltou do ombro e abriu as asas.
— Madeira e palha? — Markko abaixou o arco. — Então onde está o verdadeiro Corvane?
— Ah, isso foi rude.
A voz saiu do próprio bicho, fina e divertida.
— Eu gostava daquele boneco.
O papagaio cresceu no ar. As penas se alongaram em grandes plumagens esverdeadas, as garras se estenderam e o corpo aumentou até ficar grande o bastante para arrancar a cabeça de um homem com a facilidade de quem tira uma semente de uma fruta.
— E ainda vieram sozinhos? — Corvane perguntou, a voz agora grave.
Ele avançou antes que o paladino reagisse. As garras cravaram no escudo, e o impacto o arrastou para trás.
O papagaio gigantesco inclinou a cabeça, abrindo o bico a poucos palmos do rosto de Phong.
— Droga! — Phong ergueu o braço a tempo. A braçadeira se rompeu, levando parte da pele junto.
Corvane avançou com todo o peso do corpo e o empurrou para fora do aeroplano.
O paladino desapareceu no vazio.
— Um de cada vez, então. — Corvane já estava pequeno outra vez, voando acima do convés. — Vamos ver quanto tempo vão manter essa pose de durão.
Markko ergueu o arco. A flecha passou de raspão.
— Você atira mal pra alguém tão ousado assim.
— E mesmo assim eu ainda controlo seus movimentos.
— Fugir é opcional. — Corvane cresceu por um instante para escapar de outra flecha e voltou à forma pequena antes de completar o movimento. — Acho que estamos nos divertindo.
Piratas começaram a subir pelas laterais do convés, usando as escadas de corda.
Markko girou apenas o suficiente para derrubar o primeiro e voltou os olhos para o céu antes que o corpo tocasse as tábuas.
Corvane já vinha descendo outra vez.
— Você não perde tempo — Corvane comentou, voando em círculo. — Mas confesso que mata como uma besta ensandecida.
— E você será o próximo.
Corvane riu.
— Você realmente não sabe quando recuar.
O arqueiro derrubou os piratas que alcançavam o convés sem perder o capitão de vista.
O papagaio gigante mergulhou sobre ele.
Markko rolou entre as caixas e disparou de baixo para cima.
Corvane encolheu no último instante. A flecha passou onde seu peito estivera um segundo antes.
— Está ficando previsível — disse Markko.
A ave colorida voltou a crescer já atrás dele.
Markko girou.
Foi nesse instante que o casco tremeu.
Um feixe de luz atravessou o aeroplano de lado a lado, saindo pelas tábuas do convés e cortando o ar exatamente onde Corvane estava.
— Lança da Presciência? — Markko se levantou. — Phong!
A luz atingiu Corvane em cheio. Uma asa inteira desapareceu no impacto.
O feixe não parou ali. Atravessou o casco e atingiu uma câmara escondida no centro do navio, destruindo o enorme cristal rosado oculto dentro dela.
— Droga! — Markko saltou pelo buraco aberto no convés.
Corvane foi lançado para fora do navio, rodopiando no ar, enquanto o sangue salpicava as tábuas.
Markko encaixou outra flecha e mirou.
O convés inclinou de repente, arrastando corpos e destroços para o mesmo lado.
— Vai cair.
Markko baixou o arco.
— Tudo isso vai cair.
O convés de madeira se rompeu de vez.
Markko correu enquanto as tábuas cediam atrás dele. Saltou uma fenda, usou uma corda solta para mudar de direção no ar e alcançou a borda antes que o restante do convés desabasse.
O chão sumiu.
Markko caiu entre pedras e destroços, rolou algumas vezes e parou no chão rochoso.
Atrás dele, o restante do aeroplano se espatifou numa nuvem de poeira e fumaça.
Markko tentou se levantar.
Uma mão tocou seu ombro.
— Fica parado.
Phong apoiou a outra mão sobre o peito dele. O calor se espalhou pelo corpo, e a dor foi cedendo pouco a pouco.
Markko respirou fundo antes de tentar se levantar novamente.
— Revidou rápido.
— Acontece. Foi uma boa abertura — respondeu Phong.
Markko se levantou, ainda massageando o ombro.
— E agora? O que fazemos com o capitão papagaio?
Corvane rodopiou no ar, sem controle, misturado aos destroços que despencavam ao redor. O chão veio rápido demais.
O corpo bateu contra as pedras, quicou uma vez e parou entre madeira quebrada.
— Não... — ele engasgou, a voz presa na garganta.
As penas recuaram pela pele, revelando escamas escuras por baixo. As garras encolheram, dedo por dedo, até se transformarem em mãos.
Do ombro esquerdo, só restava um coto cauterizado, no mesmo lugar onde a luz cortara a asa.
Corvane ergueu o rosto. Duas silhuetas se moviam ao longe, entre a poeira ainda no ar.
— Vocês vão pagar... — ele sussurrou, levando a mão boa até o braço ferido. — Só mais um pouco.
Um clique baixo. A pequena besta se soltou do esconderijo junto ao braço e caiu na mão.
Phong caminhava devagar, a postura relaxada. Markko vinha ao lado.
Nenhum dos dois acelerou o passo.
— E agora? Pegamos o cara. O que um Paladino faz depois disso? — Markko perguntou, os olhos fixos na silhueta caída à frente.
— Vamos julgar o caso — respondeu Phong, a lança apoiada no ombro.
— Então... depois de tudo, vamos prender esse vagabundo?
Phong inclinou a cabeça, uma sobrancelha erguida.
— Prender? O que é isso?
— Cadeia. — Markko riu, baixo. — Um lugar fechado onde você tranca os criminosos.
— Nunca vi isso.
— Se não tem cadeia, então como vocês punem os criminosos?
— De forma proporcional ao crime.
— Isso é bizarro. De onde eu vim, várias coisas te colocavam na cadeia. Dependendo do crime, você ficava mais tempo.
— E funciona? — Phong perguntou. — Prender resolve o crime?
— Não sei. — Markko deu de ombros. — Pelo menos o criminoso fica fora de ação por um tempo. Às vezes há chance de arrependimento ou mudança.
— Aqui a gente resolve o crime na hora. Indenização, quando dá. Morte, quando não há outro jeito.
— E quem decide isso?
— Nós — respondeu Phong. — Paladinos não podem mentir. E ninguém consegue mentir para um Paladino.
Um clique. Um silvo curto no ar.
Markko ergueu a mão. O virote parou entre seus dedos e caiu no chão enquanto ele continuava andando.
— Sem o Kang aqui, não temos barreira deflexiva.
— Nem tanto.
Chegaram diante de Corvane.
— Espera! — Corvane se arrastou para trás, erguendo a mão boa. — Eu tenho ouro. Muito ouro. Digo onde está escondido. É de vocês. Só... só me deixem ir.
Nenhum dos dois respondeu.
— Vocês não entendem quem eu sou! — ele gritou. — Ainda tenho amigos. Gente que vai atrás de vocês!
Phong deu um passo à frente.
— Por favor — a voz do capitão baixou, quase um sussurro. — Eu posso mudar. Juro.
— Capitão Corvane. — Phong manteve a voz calma. — Pelas vidas que você tirou hoje naquele aeroplano, não há outro destino senão a pena capital.
Corvane fechou os olhos e virou o rosto.
— Markko... faça.
Markko ergueu o arco.
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