Crônicas de um Deus Esquecido — Capítulo 128: CAPÍTULO 128 - 107 Mapa do Tesouro

Crônicas de um Deus Esquecido
Cap. 128
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Crônicas de um Deus Esquecido

CAPÍTULO 128 - 107 Mapa do Tesouro

Capítulo 128

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Capítulo 107 | Mapa do Tesouro

Crônicas de um Deus Esquecido

Semanas haviam se passado no reino dentro da cisterna. A umidade e o cheiro de mofo eram familiares, confortáveis. Eram o cheiro de casa.

O grupo estava reunido em volta de um caixote de madeira que servia de mesa. Lia alisava um pedaço de pergaminho velho e manchado sobre a superfície áspera.

— É aqui — disse ela, com o dedo para uma massa de terra desenhada de forma grosseira. — A Ásia. Dizem que as cidades lá são maiores que Therma. Dizem que ninguém passa fome.

Vareta e Tico olhavam com olhos arregalados, hipnotizados pela promessa de tinta.

— Podemos pegar um barco — continuou Lia numa empolgação que fez sua voz tremer. — Juntamos o que roubamos este mês, pagamos uma passagem barata e sumimos. Começamos do zero. Sem guardas conhecendo nossos rostos.

Magno, o adulto, observava do canto, encostado na parede fria de pedra. Ele sabia o que viria a seguir. Ele se lembrava daquele dia.

O pequeno Mag, sentado na cabeceira do caixote, fechou a cara.

— Não — disse o garoto, seco.

— Mag, escuta… — começou Vareta.

— Eu disse não! — Mag bateu a mão na mesa. — Therma é nossa. Conhecemos cada beco, cada telhado. Aqui nós somos reis. Lá fora? Lá fora seremos apenas ratos de novo. Ninguém.

— Já somos ratos aqui, Mag — retrucou Lia, firme. — Vivemos de restos dos quais os outros não dão falta e da pena de guardas e das sacerdotisas.

O garoto se levantou, o joelho resvalou no caixote e o derrubou. O mapa caiu na água suja do chão.

— Então vão! — gritou ele. O rosto estava vermelho de raiva. — Vão e morram no mar! Esquecidos! Vocês não duram um dia sem mim! Vocês são fracos!

O silêncio tomou conta da cisterna. Tico encolheu os ombros. Vareta baixou a cabeça. Lia apenas olhou para ele com decepção. O pequeno Magno bufou, virou as costas e correu para a saída do túnel, desaparecendo nas sombras. O grupo ficou para trás, imóvel.

Um soluço começou a quebrar o silêncio que antes era apenas tomado pelo estalo das chamas de uma tocha. Magno desencostou da parede.

Ele se agachou na frente de Tico. O menino tremia levemente.

— Ei — chamou Magno. Tico levantou o olhar. — Você não precisa dele para se esconder. Você é quase uma sombra, Tico. É o melhor e mais furtivo ladrão que essa cidade já viu.

Tico piscou, surpreso.

— T-tem certeza?

O gatuno sorriu como sempre fazia, largamente como uma raposa.

— Mas é claro. Fui eu quem te ensinou afinal! — deu um tapa no ombro do garoto e gargalhou.

Magno virou-se para Vareta.

— E você… você é a cola deste grupo. Você nos faz rir quando devíamos chorar. Isso é coragem, Vareta. Mais coragem do que eu tenho.

— Deixa eu adivinhar. Você me ensinou isso também? — Perguntou Vareta com os olhos semicerrados, desconfiados.

Magno sorriu de novo.

— Não. Eu jamais seria capaz de ensinar isso pra você, porque eu mesmo não sou assim…

A expressão de Vareta mudou para uma de surpresa. Magno bagunçou seu cabelo espetado, o que acabou não tendo grandes efeitos.

Por fim, ele olhou para Lia que recolhia o mapa molhado do chão.

— Você estava certa — disse Magno.

Lia o encarou.

— Sobre a Ásia?

— Sobre tudo — Magno tocou o ombro dela. — O sonho era válido. O plano era bom. Therma é um buraco e vocês mereciam mais.

Ela franziu o cenho.

— Como assim era?

Magno arregalou os olhos por um instante, então riu de forma desconcertada.

— Tem razão. Que tolice a minha. — O gatuno coçou o queixo. — O Mag… ele sabe disso. Ele só é orgulhoso demais para admitir que está com medo e, mais tarde ele vai perceber que você tinha razão.

Lia baixou os olhos para o mapa em suas mãos. Ensopado. Com um sorriso melancólico ela assentiu.

Magno se lavantou e, após se alongar escandalosamente, suspirou.

— Vou trazer o moleque de volta. De cabeça fria dessa vez.

Os três sorriram e assentiram.

A subida foi longa. Quando saiu no beco atrás do mercado de peixes, o sol de fim de tarde batia nos telhados de terracota.

Ele sabia o lugar exato, ou melhor, lembrava-se dele. Caminhou até o velho porto desativado, onde as vigas de madeira apodreciam na água salobra.

Seus olhos percorreram todo o solitário cais, até encontrarem uma pequena figura sentada à borda de uma plataforma de madeira, jogando pedras na água.

Magno se sentou ao lado dele. O garoto não o olhou.

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— Veio me dar sermão também? — resmungou o menino.

— Não — respondeu Magno. — Vim dizer que entendo.

O garoto parou com a pedra na mão.

— Eles não entendem — disse o pequeno, a voz embargada. — Meu pai morreu aqui como um ninguém. Eu cresci aqui. Se eu sair, vou ser só mais um órfão sujo. Aqui, eles precisam de mim.

— É verdade — concordou Magno. — O orgulho é uma âncora pesada. Faz a gente se sentir seguro, firme no lugar.

Ele olhou para o horizonte, onde o mar encontrava o céu.

— Mas me diga uma coisa, Mag. O que vale mais? Ser o rei do lixo sozinho, ou ser um ninguém ao lado deles?

Um momento de silêncio se assentou entre os dois, antes que o jovem Mag deixasse a pedra que segurava cair na água abaixo de seus pés.

O menino fungou e limpou o nariz na manga da túnica suja.

— Eu não queria ter dito aquilo — sussurrou o garoto. — Eu não acho que eles são fracos. Eu é que sou. Eu não duro um dia sem eles.

Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos como na abertura de uma fonte. Ele, no entanto, permaneceu em silêncio.

Magno sorriu. Ele passou o braço pelos ombros magros de sua versão mais jovem.

— Eu sei — disse ele. — Eu sei bem disso…

O choro aumentou aos poucos, ao ponto de incomodar as almas que se faziam presentes naquele lugar preterido. Mag abraçou Magno e deixou escapar um choro desesperado, acumulado e esquecido.

Após alguns minutos, o garoto se acalmou.

— Vamos voltar agora. Eles estão te esperando. — Disse o gatuno.

O menino assentiu e limpou o rosto.

Eles se levantaram e caminharam de volta para a cidade. O sol estava se pondo, pintando as ruas de laranja e roxo. Pássaros cantavam e pescadores riam, tumultuando o final da tarde na costa de Therma.

Mas à medida que se aproximavam da entrada da cisterna, o som mudou. Mag franziu o cenho. Pareciam gritos, não de alegria ou festejo, mas de lamentação. Ao longe, uma nuvem densa de poeira branca subia para o céu.

O pequeno Magno arregalou os olhos.

— Não… — ele disse.

O garoto começou a correr. Magno o seguiu, mas num passo calmo, medido.

Eles chegaram ao beco.

Um prédio velho, um armazém de grãos que ficava acima da cisterna, havia desabado. Pilhas de tijolos, madeira e telhas bloqueavam a entrada.

Uma multidão se aglomerava ao redor, tossindo na poeira.

O pequeno Magno gritou o nome de Lia. De Vareta. De Tico.

Ninguém respondeu. A multidão estava repleta de olhos julgadores para o garoto das vielas, alguns pesarosos, mas quase sempre, aliviados por não estarem naquela situação.

O garoto se jogou contra os escombros. Ele começou a puxar pedras com as mãos nuas. Ele chorava, gritava, rasgava as unhas e a pele tentando abrir um buraco, qualquer buraco, para chegar aos seus amigos.

— Me ajude! — gritou o menino, olhando para trás. — Por que você está parado aí? Me ajude a tirar eles de lá!

Magno estava parado a dois metros de distância. Ele olhava para a cena com olhos pesarosos, mas enxutos.

— Não — disse Magno.

O menino parou e seu rosto coberto de poeira e lágrimas se contorceu em ódio.

— O quê? Eles vão morrer! Precisamos salvá-los!

— Eu não posso salvá-los, Mag — disse Magno, a voz calma. — Nem se eu quisesse muito.

— Por que não?! — berrou o garoto.

— Porque eles já estão mortos — respondeu Magno. — Eles morreram anos atrás. Neste desabamento.

O pequeno Mag soltou a pedra que segurava.

— Eu sabia — continuou Magno, uma lágrima escorreu pelo seu rosto adulto numa linha irregular, embora sua voz não tremesse. — Desde o momento em que pisei nesta cidade, eu sabia. Era tudo mentira. Uma mentira doce, mas uma mentira.

O menino olhou para as próprias mãos sujas. Depois olhou para os escombros. Aos poucos, a expressão de pânico e dor desapareceu. O rosto do pequeno Magno suavizou-se. Ele deu um sorriso compreensivo, quase adulto.

— Entendo — disse a criança. — Você ficou tempo demais aqui.

— Fiquei — admitiu Magno. — E creio que não posso ficar mais. Não pude salvar eles, mas tenho amigos pelos quais ainda posso lutar lá fora.

— Então o que está esperando? — perguntou Mag.

Magno assentiu, e viu no canto de sua visão o mundo esmaecer, perder o brilho e a definição. Ele se virou, com o rosto neutro, e encarou uma massa de nada que engolia as montanhas atrás de Therma avançando, tomando tudo e tornando aquilo, mais claramente que sempre fora, numa memória.

— Adeus, Mag.

Magno fechou os olhos.

Quando os abriu novamente, já sentia o cheiro de sal.

Ele estava deitado de costas. O chão não era pedra, mas areia grossa. O céu não tinha prédios, apenas as estrelas e a lua sobre as ruínas de uma muralha antiga.

Ele estava de volta a Tróia. Sozinho na praia, com a mão fechada sobre a adaga em sua cintura. Quando seus dedos tocaram a maçã do rosto, percebeu que chorava.

Fim da leitura

Capítulo 128 concluído

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