Crônicas de um Deus Esquecido — Capítulo 148: CAPÍTULO 148 - 127 A Vontade de Can

Crônicas de um Deus Esquecido
Cap. 148
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Crônicas de um Deus Esquecido

CAPÍTULO 148 - 127 A Vontade de Can

Capítulo 148

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Capítulo 127 | A Vontade de Can

Crônicas de um Deus Esquecido

Magno estava em um quarto nos fundos de uma taverna de baixa categoria, trocando sua túnica habitual por uma veste de linho grosseiro e sujo. O cheiro de suor antigo e serragem impregnava o tecido. Ele ajustou uma faixa de pano na cabeça para esconder parte do rosto e calçou botas de couro cru, reforçadas para o trabalho pesado.

Seu objetivo era simples: observar a floresta de dentro, sem os olhos da guarda real sobre ele. Ele conseguira a vaga através de Elpenor, o guarda com quem conversara no dia anterior.

Quando terminou de se vestir, encontrou Elpenor no pátio dos fundos. O guarda o observou de cima a baixo e soltou um suspiro.

— Não cause problemas, “Hilal” — disse Elpenor, usando o nome falso que haviam combinado. — Se você for pego fazendo algo que não seja derrubar árvores, eu não te conheço.

— Tinha um nomezinho melhor, não? — Magno fez um bico de nojo.

Elpenor deu de ombros e o conduziu até os limites da muralha leste, onde um grupo de doze trabalhadores se preparava para o turno da noite. Tochas de resina estavam espetadas em suportes de ferro, iluminando as lâminas de machados e serras.

— Este aqui é o Hilal — anunciou Elpenor ao representante dos trabalhadores, um homem de pele curtida e braços do tamanho de troncos. — Ele precisa trabalhar. A esposa está grávida e como todos estão vendo, os tempos estão difíceis.

Magno forçou um sorriso amarelo e assentiu com a cabeça, tentando forçar uma faceta humilde. Os trabalhadores o avaliaram em silencio. O representante, no entanto, não demonstrou simpatia. Ele pegou um machado de cabo longo que estava encostado em uma carroça e o arremessou na direção de Magno de forma súbita e perigosa.

Magno estendeu a mão e pegou o cabo de madeira no ar, a poucos centímetros de seu peito, sem vacilar. O impacto produziu um som seco. Houve um instante de silêncio entre os homens.

— Não faça corpo mole, novato — rosnou o representante. — Se não produzir, não recebe.

Magno equilibrou o peso da ferramenta sobre o ombro com um sorriso de olhos semicerrados e olhou para o grupo.

— Para onde é a floresta? — perguntou ele.

Os trabalhadores se entreolharam com expressões de desconfiança. Um deles apontou com o queixo para a escuridão além das luzes das tochas. Eles iniciaram a caminhada.

Uma hora depois, o som rítmico de metal contra madeira ecoava na margem da mata. Magno estava suado e seus músculos ardiam. Ele havia se afastado propositalmente do grupo principal, ocupando-se de um tronco grosso de carvalho que já estava quase completamente cortado.

— Eu não fui feito para o trabalho honesto — resmungou Magno, limpando o suor da testa com as costas da mão.

Ele parou para recuperar o fôlego e olhou para trás. O representante dos trabalhadores estava parado a cerca de vinte metros, vigiando-o com um olhar fixo. Magno voltou sua atenção para a árvore e paralisou.

Os galhos que ele havia cortado e empilhado no chão minutos atrás haviam sumido. No lugar deles, pequenas brotações verdes já rompiam a terra. Mais do que isso: o corte profundo que ele fizera no tronco do carvalho, que deveria ter deixado a árvore prestes a cair, agora estava reduzido à metade. A seiva escura escorria pela fenda, endurecia e fechava a madeira como se fosse uma ferida a cicatrizar.

Magno jogou o machado no chão de terra e soltou um xingo baixo.

— Inútil. Isso é completamente inútil.

Ele pegou a ferramenta de volta e retornou para perto do grupo principal.

— Não dá para fazer muito sozinho daquele lado — reclamou Magno para o representante. — A madeira é dura demais.

O homem resmungou algo ininteligível, mas apontou para as carroças.

— Então ajude a carregar os troncos que já caíram. Movam-se!

Magno aproximou-se de dois trabalhadores que carregavam um poste de madeira e começou a acompanhá-los. Ouviu-os falar sobre o que fariam quando chegassem em casa. Um deles falou que passaria no templo, o outro que não teria vigor pra isso. Magno tossiu perto deles e chamou-lhes a atenção.

— Vocês viram algo estranho por aqui hoje? — perguntou Magno, tentando manter a voz casual.

— Estranho? — respondeu o mais velho, sem parar o serviço. — Além das plantas que crescem enquanto a gente as corta? Nada.

— E animais? — insistiu Magno. — Caminhamos bastante e não ouvi um pássaro ou vi o rastro de um javali.

Os homens pararam por um momento, concordando com a cabeça.

— É verdade — disse o segundo trabalhador. — Mas ainda estamos na margem. Há duas semanas, aqui não existia uma árvore sequer. Era campo aberto. Não é tão estranho que não haja bichos.

— E vozes? — perguntou Magno, baixando o tom. — Boatos sobre pessoas se perdendo ou gritos entre as árvores?

Os homens desviaram o olhar imediatamente. Eles voltaram a carregar a madeira e desconversaram, focando no esforço físico. Magno percebeu pela troca de olhares deles que era um assunto proibido.

Pouco antes da meia-noite, um grupo de guardas reais surgiu da estrada. Eles escoltavam um homem de aparência distinta. Ele vestia um manto de lã vermelha e usava uma coroa de louros dourados sobre os cabelos pretos e curtos. Seu rosto era jovem, um tanto arredondado demais, mas seus olhos eram fundos.

A comoção foi imediata. Os trabalhadores largaram as ferramentas.

— Já trabalharam o suficiente por hoje — disse o nobre com uma voz mansa e diplomática. — O rei se preocupa com a saúde de seus súditos. Vão para casa e descansem. Retornem apenas amanhã.

O representante dos trabalhadores deu um passo à frente, retirando o chapéu de feltro.

— Senhor, se pararmos agora, a floresta terá avançado dez passos antes do amanhecer. Os moradores dos arredores das muralhas correm perigo se não mantivermos o corte.

O porte gracioso do nobre desapareceu imediatamente quando seus olhos se fixaram nele. Ele endireitou a coluna e encarou o trabalhador com um olhar de desprezo.

— Eu dei uma ordem. Saiam daqui imediatamente — replicou num sussurro que era quase um rosnado. — E não contem a ninguém sobre este ato de generosidade. Se eu souber que espalharam que estive aqui, as consequências serão severas.

Os guardas que o acompanhavam deram um passo à frente, e levaram as mãos aos punhos das espadas. Os trabalhadores recuaram, intimidados pela ameaça direta. O representante rangeu os dentes, mas assentiu e deu o sinal para a retirada.

Magno observava a cena escondido, agachado atrás de uma das carroças. Ele memorizou o rosto do nobre e a forma como ele olhava para a floresta sem medo, e com certo brilho estranho.

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De volta à cidade, Magno retornou à taverna e trocou as roupas de trabalhador por sua cota de malhas e o chlamys negro. Ele encontrou Elpenor em um canto escuro do bar.

— O que houve lá fora? — perguntou o guarda, curioso.

— Um sujeito de manto vermelho e coroa de louros apareceu — disse Magno. — Mandou todo mundo para casa e disse para ficarmos de boca fechada. Sabe quem é?

Elpenor empalideceu e desviou o olhar para o balcão.

— Não sei de nada sobre isso — murmurou o guarda, de forma pouco convincente.

Magno colocou uma dracma de prata sobre a mesa. Elpenor não se moveu. Magno colocou mais duas moedas.

— Não insista, Magno. Eu não posso te ajudar com esse tipo de informação. É perigoso.

Magno retirou um saco de couro pesado de dentro do manto e despejou vinte moedas de prata de uma vez sobre a madeira da mesa. O tilintar do metal atraiu alguns olhares, que Magno afastou com um olhar ameaçador.

O queixo de Elpenor caiu. Ele olhou para o dinheiro e depois para Magno.

— Como você conseguiu tanto dinheiro? Quem é você de verdade? — perguntou o guarda, assustado. Ele rapidamente balançou a cabeça. — Quer saber? É melhor eu não saber.

Ele puxou as moedas para perto de si e falou em um sussurro rápido.

— Aquele era Can, o irmão mais novo dos três príncipes de Pérgamo. Com o desaparecimento do primogênito, Átalo II, ele se tornou o segundo na linha de sucessão.

— E o irmão do meio? — questionou Magno.

— Há boatos de que ele está ilhado em Creta desde que o pai adoeceu. Ninguém sabe se ele não consegue voltar ou se alguém está impedindo que ele receba as mensagens — explicou Elpenor. — Se o rei morrer logo e o irmão do meio não aparecer, o caçula será coroado.

— E por que ele impediria os homens de cortarem a floresta? — Magno estreitou os olhos.

— Eu não sei — admitiu o guarda. — Mas eu apostaria minha vida que isso tem a ver com a sucessão. Ele quer que a cidade se sinta sufocada, talvez para aparecer como o único salvador, ou para impedir que alguém saia ou entre para mudar o jogo político.

Magno assentiu, levantando-se.

— Obrigado pela conversa, Elpenor.

O guarda estendeu a mão.

— Você já sabe meu nome. Se precisar de mais alguma coisa em Pérgamo que não envolva ser executado por traição, me procure aqui.

Magno apertou a mão do homem e saiu para a noite fria, com a mente trabalhando na nova peça do quebra-cabeça: Can, e seu comportamento estranho. Átalo ouviria sobre isso.

Fim da leitura

Capítulo 148 concluído

CAPÍTULO 148 - 127 A Vontade de Can