Crônicas Dos Que Não Foram Escolhidos — Capítulo 1: CAPÍTULO 1 - 1 — Brumalva

Crônicas Dos Que Não Foram Escolhidos
Cap. 1
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Crônicas Dos Que Não Foram Escolhidos

CAPÍTULO 1 - 1 — Brumalva

Capítulo 1

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Capítulo 1 — Brumalva

Crônicas Dos Que Não Foram Escolhidos

Chovia sobre o vilarejo encolhido entre as montanhas. A água escorria como um lembrete: tudo ali apodrecia aos poucos. As gotas batiam nas estruturas de madeira podre e pedra lascada que resistiam como velhos bêbados — se recusando a cair. Os ventos colidiam, trazendo um ranger incessante.

Pedestres amaldiçoavam as ruas enlameadas que faziam o barro se agarrar aos sapatos. Os cavalos relinchavam em protesto contra seus condutores ao trafegar no local.

— Olha as frutas fresquinhas que temos aqui na barraca! — uma mulher acima do peso anunciou.

— Tenho temperos de todo tipo aqui! — disse outra, de cintura fina, dentes no lugar e peitos firmes. Parecia mais eficaz que a anterior em chamar atenção. Homens se reuniam no local.

A primeira torceu o nariz em desgosto, mas não podia fazer nada a respeito. Seus tempos de beleza haviam passado há muito tempo.

Cada um sobrevivia com as armas que tinha. Ali não era diferente.

Uma figura encapuzada caminhava entre as tendas. Os comerciantes o olhavam com certo receio.

— Esse desgraçado já veio de novo tão cedo — comentou um deles, cuspindo no chão.

— Ei, fala baixo! — retrucou outro. — Se ele te ouvir, a gente tá fudido!

— Porra… — o que tinha reclamado voltou rapidamente aos seus afazeres.

Um esforço em vão. O homem já caminhava em direção a eles. Logo retirou o capuz, revelando-se: um homem de coque malfeito e rosto coberto de cicatrizes.

— S-senhor Garran. O qu-

O soco veio antes do fim da frase. Depois, outro. E mais um. Ele caiu — Garran não parou.

— Verme imundo — cuspiu as palavras, chutando o velho caído no rosto, fazendo com que alguns dentes voassem. — Se você é um verme, aja como tal.

O sujeito tentava falar. O sangue acumulado na boca dificultava.

— N-nã— e, mais uma vez, um chute o silenciou.

— Eu — outro golpe. — não. Te dei. Permissão. Pra falar!

A cada pausa, ele desferia um chute.

Uma mulher então se pôs entre ele e o velho caído.

— Ele vai morrer! Por favor, pare! Tenha um pingo de misericórdia!

Garran parou e olhou-a nos olhos.

— Que porra você tem a ver com isso? — disse. — E daí se esse cuzão morre ou não?

— Eu pago! — prosseguiu a mulher, com a voz chorosa. — Pago dez ferrins. Por favor, seja misericordioso!

Garran então sorriu.

— Tá vendo? É só pagar. Era tão difícil? — Ajeitou o coque com calma, ainda com sangue na mão. — Diálogo é tudo, não é, dona?

Abaixou-se perto do sujeito caído e agarrou-o pelos cabelos, erguendo a cabeça do homem a fim de escutar melhor. O sangue escorria pela boca e apenas murmúrios podiam ser ouvidos como resposta.

— É. Eu acho que ele concorda — O sorriso ainda estava no rosto. Então estendeu a mão. — Pague. Agora.

— A não ser que queira pagar de outra forma? — a voz transbordava de lascividade, enquanto lambia os lábios.

A mulher recuou, enojada. Rapidamente se apressando em pagar.

As moedas tilintaram em sua mão como música.

— Sempre é um prazer fazer negócios com vocês — disse, cuspindo no rosto do velho antes de sair. — Voltem sempre.

Ali só se ouviam os gemidos de dor.

Garran deixou o sujeito sangrando na lama. Subiu a colina com passos pesados — cada um mais lento que o outro. Uma suntuosa residência o esperava no topo. Lá de cima era possível ver a região quase como um todo.

“Essa porra fede. Lugarzinho miserável”, pensou.

— Garran — disse um dos guardas à entrada, de maneira casual. — O senhor Varn o convocou. Pediu para avisar quando tu chegasse.

“Merda, era o que eu menos queria ter que lidar”, continuou seus devaneios.

— Ok, vou lá — respondeu. — Avise Martin que preciso falar com ele, se você o vir.

— Quando for, limpa o rosto. Tem sangue espirrado — comentou o guarda, liberando a passagem. — Se eu vir o sujeito, aviso.

Garran assentiu, limpando o rosto com a manga do gibão.

Ao adentrar o local, o calor o recebeu. Agradável. Contrastava com o frio de um dia chuvoso. O local ostentava peles de animais no chão e, nas paredes, cabeças emolduradas — troféus de antigas caçadas. Ao centro, uma bandeira vermelha com uma fênix dourada acima da lareira. Apesar do fogo, a sombra do cômodo parecia viva — não se deixava iluminar.

A frente, uma armadura completa. O calor do fogo o permitia ver seu reflexo claramente através dela.

Seu cabelo estava uma bagunça. Fios soltos. O sangue ainda continuava lá. Suas antigas cicatrizes eram um lembrete do que não poderia ser apagado, mesmo com o passar do tempo.

“Porra…”,pensou, ajeitando tudo em um coque de novo. “Eu tou cansado dessa merda.”

Antes de prosseguir ao destino deu uma última olhada em si. Não gostava do que via.

A madeira do chão rangia sob seus pés. Quanto mais se aproximava, mais quente ficava.

Seu coração palpitava.

Logo chegou em frente a uma porta, batendo com a mão para anunciar sua chegada.

— Entre — uma voz grave do outro lado. Reverberou pelo lugar.

E então entrou. Uma figura já o esperava sentada. Seus olhos o encaravam fixamente, como se pudessem ler sua alma. E talvez pudessem.

— Senhor Varn — mansamente Garran disse, fazendo uma reverência, engolindo o orgulho. — A que devo a honra?

O homem não respondeu de imediato.

Uma mão tamborilava no trono. A outra segurava a cabeça. A luz da lareira revelava cabelos escuros, com fios de prata. A barba, espessa. Um leão velho. Ainda perigoso.

Quatro paredes e duas pessoas. Um assento. Um de pé. Nada mais precisava ser dito.

— Como está sendo a coleta de impostos?

Poucas palavras, peso enorme. Garran sentia-se sufocado. Não era apenas uma pergunta, mas um teste.

— Estou fazendo meu melhor, senhor, mas os habitantes estão se mostrando cada vez mais indispostos.

O crepitar do fogo parecia ser a única coisa a quebrar o silêncio.

— Você sabe o motivo de ter esse cargo, Garran?

Ele não sabia responder. Apenas balançou a cabeça negativamente. Suor frio escorria por suas costas.

— Não? — Varn continuou. — Bem… é porque você é útil. — Em seguida, apontou para a lareira com a mão. — Olhe ali. O que vê?

Garran então olhou em direção ao fogo. Além do calor que proporcionava, não entendia nada.

— Vejo fogo, senhor. Produz calor — respondeu, engolindo em seco.

Varn parecia desapontado. Como se explicar o óbvio fosse um incômodo.

— Você não está errado — disse o homem. — O fogo, de fato, produz calor. Esse calor serve a diversos propósitos… mas, pra continuar aceso, precisa de combustível. — E então murmurou algumas palavras inaudíveis, conjurando uma poderosa fênix.

O enorme animal circulava graciosamente pela sala. Apesar de feito de fogo, os móveis e o conjurador não se afetavam minimamente.

Garran, por outro lado, sentia um calor intenso.

— Um sistema que envolve pessoas funciona da mesma forma — Varn continuou. — Pra se manter vivo, precisa de combustível… Dinheiro é um forte combustível.

O homem não era idiota. Sabia o que Varn queria dizer.

— Não o desapontarei, senhor.

— Mas é claro que não vai — disse Varn. — Afinal, não tenho serventia pra gente inútil.

Garran sentia suas pernas vacilarem. Sabia que, quando Varn brincava com fogo, alguém saía queimado.

— Mas eu não posso esperar muito de você também — continuou Varn, sem se importar em mascarar seu desprezo. — Vou falar com Roderick a respeito. — Ao dizer isso, a fênix sob seu controle dirigiu-se a uma pequena abertura na parede, sumindo do local. — Agora vá. Está liberado.

Mais palavras não eram necessárias. O homem sumiu rapidamente.

Ainda na mesma residência, ao passo que o dia ia se pondo, três jovens estavam em um quarto. Uma bola frequentemente caía e subia até o teto, repousando em uma mão.

— Tãooo chato… — disse um menino entre bocejos. — Ficar sem fazer nada o dia todo.

Tac. Tac. Tac.

Ele continuava jogando e pegando a bola. O som era abafado pelas peles de animais enroladas rusticamente na esfera.

— Para com essa merda aí, caralho — manifestou-se uma voz do outro lado da sala. — Você ficou a tarde toda jogando essa porra.

— O que tu disse?!

— É surdo agora? — a outra voz continuou com um sorriso irônico. Levantando as mãos, chamando-o com os dedos.

Então o menino largou a bola e se pôs de pé. Passos furiosos em sequência. A outra figura não se intimidou, se preparando para o conflito. Sorria ainda mais.

— Parem — ordenou uma jovem que folheava um livro. — Vocês estão atrapalhando.

Ambos pararam. Punhos se abaixaram. Apenas isso foi o suficiente.

Os dois tinham cabelos negros e olhos castanhos. Eram gêmeos.

— Desculpa, irmã — disseram em sincronia.

Sentada, folheava o livro sem realmente ler. De repente, fechou-o. Olhou para o fogo. Os olhos refletiam a chama — mas eram mais frios.

Transmitia uma calma impassível, um contraste com todos naquela residência. Ainda assim, emanava um risco sutil.

Ela refletiu por um instante. Então decidiu:

— Vamos sair. Será bom pegar um pouco de ar fresco.

Os meninos pareceram se alegrar com a ideia, mas não sem antes demonstrarem preocupação.

— E o pai? — perguntou um deles.

— Ele não precisa saber — Respondeu. — E, mesmo se soubesse, não se importaria. Ele nunca se importa… — a frase final foi dita mais para si mesma do que para eles, que a olhavam com confusão.

— Não é nada. Vamos — continuou, percebendo os olhares dos irmãos.

Então abriram a porta do quarto. Já haviam passado por ali tantas vezes que conheciam cada canto do local — desde onde costumavam brincar quando mais novos, até o campo de treinamento que agora eram obrigados a frequentar.

A jovem sentia falta de tempos mais simples.

Agora tudo era escuro e frio. Só restava o poder do fogo para aquecê-la.

Enquanto andavam, as sombras se misturavam entre si. Dançavam enquanto a luz das tochas iluminava o ambiente. Um dia ela sentiu medo disso, mas não mais.

Mas, ao fundo do corredor, uma sombra ainda tremeu de maneira incomum.

Não demorou muito para chegarem à entrada. Ainda que magnífica em relação ao resto do vilarejo, a residência tinha um tamanho modesto. Quando a jovem foi abrir a porta, ela se abriu antes.

— Eleanor, Marcos e John… — uma voz ríspida cruzou o ar assim que os avistou. — Estão indo para algum lugar?

A postura era inconfundível: a de um militar. A mão repousava sobre o cabo da espada ao lado da cintura.

Olhando para cima, os três só podiam ver o rosto de um homem severo. Cabelo curto, olhos semicerrados. Um corpo esculpido para o combate.

— Sim, estamos — respondeu Eleanor, a jovem, a única dos três que não parecia intimidada. — Não podemos, Roderick?

O homem não parecia surpreso pela arrogância que a jovem demonstrava.

— Está de noite — A voz embargada pelo álcool. O cheiro da bebida pairava no ar.

— E daí? — indagou Eleanor, fitando-o nos olhos. — Não vai nos deixar passar?

Roderick então abriu espaço na porta. Os irmãos saíram logo em seguida.

Ele apenas os observou descendo a pequena colina. Um guarda na entrada tinha observado toda a situação junto.

— Ei, você — disse Roderick, chamando a atenção do sujeito. Então botou a mão sobre o ombro do rapaz. — Você vê eles… certo?

— Não entendi, senhor?

— Tô falando pra você olhar eles, caralho… — ordenou Roderick. — Cuida pros moleques não se foderem por aí, entendeu? — Seus olhos azul-acinzentados o olhavam de cima a baixo. — Você não precisa ser visto…

— Sim, senhor!

Depois disso, ele entrou, restando apenas o guarda confuso — que logo se apressou em cumprir as ordens.

Roderick não sabia se era por causa da bebida, mas a cabeça empalhada de um alce o olhava fixamente com um sorriso macabro.

— Que foi, cretino! Hein?!… — jogou as palavras entre tropeços, se aproximando da parede. — Você ta olhando o quê?!

Piscou algumas vezes. O sorriso do alce não aparecia mais.

— Porra… tenho que parar de beber.

Ele estava jogado no campo de treinamento. Tinha bebido e depois ficado balançando sua espada contra um boneco de treino até cair. A areia do lugar havia se grudado na saliva da boca, fazendo-o limpar com o dorso da mão.

Teria continuado apagado lá até de manhã, como de costume, se não fosse uma fênix o acordando. Varn o convocava.

Cambaleava enquanto tentava manter sua postura militar habitual antes de abrir a porta que levava ao aposento de Varn sem rodeios.

— Cheguei — anunciou, sem qualquer classe. — O que foi?

— Se eu não te conhecesse, teria perdido a cabeça pela petulância — comentou Varn.

— Mas conhece — continuou Roderick. — E me matar seria um favor.

— Sim, eu sei. Mas não vou atender seu desejo.

Roderick apenas o olhava sem entender nada.

— Seus filhos saíram.

…

— Eu sei — respondeu Varn. — Deixe-os. Não foi por isso que te chamei. Serei direto: separe dois homens e os ceda a Garran.

O homem estreitou os olhos ao ouvir o nome do sujeito.

— Esse porco não consegue fazer nem o mais simples dos trabalhos sozinho — resmungou. Sua expressão, azeda. — Agora ele precisa de alguém pra cuidar do rabo dele?

Silêncio.

— Ok — resmungou. A falta de resposta de Varn o desconfortava. — Farei isso.

— Aproveitando, Roderick, como vão as ruas ultimamente?

— Como sempre: estão imundas. Se não for urgente, não nos envolvemos.

— Continue assim — ordenou Varn. — Deixe o submundo funcionar como tem que funcionar. Dá mais lucro. Agora vá, está liberado — disse, gesticulando com a mão.

Roderick saiu, e Varn permaneceu no trono, imóvel. O fogo crepitava, indiferente ao destino da vila. A noite estava apenas começando — e algo se movia nas sombras.

Fim da leitura

Capítulo 1 concluído

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