Desmascarados — Capítulo 1: CAPÍTULO 1 - Desmascarados

Desmascarados
Cap. 1
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Desmascarados

CAPÍTULO 1 - Desmascarados

Capítulo 1

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Desmascarados

Desmascarados

Meu próprio irmão, meu sangue, um desprezo que não cabe em nossa linhagem.

Fosse eu um maníaco, fosse eu um assassino, um perjurador, pergunto-me, se me odiaria tanto quanto já odeia agora. Meu pecado, antes fosse algum dos tais, pois, vejo agora, pior que todos estes é o amor.

Margarette, uma criatura de porte indescritível. Não como um dos devaneios de escrita limitada de Lovecraft, mas no sentido que quem quer que tentasse descrevê-la, perder-se-ia na memória, se não a visse, ou na paixão, se a presenciasse.

Eu, por vezes, perdia-me nos dois. Em sua presença, perdia-me em pensamentos e lembranças, de tempos que ainda não havíamos vivido, com uma família que não ainda existia, e experiências que talvez jamais teríamos. Era triste, quando por um segundo sequer, em meio à perdição daqueles belos lábios cor de romã, eu acordava, e me via novamente como um intruso. Como agora.

— … e por isso eu disse a ele que da próxima vez deveríamos te levar junto! — quão doce era sua voz, melodiosa, sempre acompanhada de um riso contido, que não forçado, parecia música em sua boca lacrada.

Pisquei, e, sem perceber que falava comigo, sorri. Seus olhos de esmeralda pareciam tão mais abertos hoje, mesmo abaixo daquela bela máscara veneziana, cujo preto sutil quase desaparecia junto aos seus cabelos para dar destaque às belas esmeraldas de suas pupilas. Esculpidas, talhadas, travadas em mim.

O silêncio que se seguiu à sugestão dela pareceu-me estranho, pois meu sorriso não parecia responder ao dela. Foi então que entendi, que ela realmente falava algo que precisava da minha resposta. Abri a boca, mas fui interrompido.

— Aqui pessoal, espero que não tenham sentido a minha falta.

Arthur chegou com uma taça em cada mão, um líquido amarelo e levemente borbulhante. Espumante caro, provalvelmente com toques de maçã, madeira, limão e outras dessas finezas que o estilo de vida dele tornou comum.

Peguei uma das taças, que ele estendeu a mim com um sorriso que correspondi, e engoli em seco. Devo me dar ao respeito, me ater aos pensamentos mais contidos, ao menos quando escrevo. Deus me perdoe.

Margarete tomou a outra taça que ele trazia antes que tirasse os olhos de mim, com um sorriso malicioso que curvava deliciosamente os seus lábios. Quão belos pareciam agora. Arthur tornou-se para ela com uma sobrancelha levantada e, vendo como ela ria provocativamente, riu também. Ele me fitou por um instante com uma expressão que me perguntava se aquilo havia realmente acontecido, e eu sorri de volta, desajeitadamente, e tomei um gole do meu espumante deixando os olhos irem ao chão.

Quando ergui de novo a minha visão, percebi como já estavam emaranhados. Arthur a havia envolvido com seu braço por sobre o ombro, e a olhava de um modo que parecia emular irritação, mas que claramente demonstrava encanto. Ele se aproximou do rosto de Margarette, que ainda tinha o mesmo sorriso arteiro, e selou os lábios úmidos de álcool com os seus própios. Desejei neste momento que os dois prezassem um pouco mais pela decência, pois com o afastamento de seu afeto, pude ver se desenhar entre eles uma fina linha de saliva.

Os olhos castanhos de meu irmão, então, me fitaram mais uma vez, dessa vez cheios de si, orgulhosos, mesmo por trás daquela máscara verde cafona. Ele achou que seria engraçado vestí-la, e insistiu em fazê-lo principalmente depois que eu o alertei que se pareceria com o traseiro de um papagaio.

Meus olhos viajaram do olhar apaixonado que ele dirigiu a ela, e revisitaram mais uma vez os outros convidados. Todos vestiam roupas tão belas, tão bem ajustadas e arrumadas que me faziam sentir deslocado. Não que eu fosse um mulambo, mas certamente não parecia tão chique numa paleta marrom, terno barato e máscara cinza que em nada combinava com meus cabelos negros.

Eu havia perdido a noção de tempo, tinha certeza que haviam se passado cerca de trinta minutos da minha chegada ao palacete Solar das Rosas ao momento em que encontrei Margarette e Arthur no saguão oeste. Depois disso, não me recordo de boa parte.

Antes de encontrá-la, vagueei pelos salões de festa observando os convidados. As pessoas aqui pareciam tão chiques. Suas roupas, sorrisos, gestos e até jeito de andar me mostravam que eu realmente não era parte desse mundo. Parecia tão automático pra eles, quase combinado, ao ponto que em certo momento da festa eu conseguia prever o momento em que uma dama iria rir, como o faria — quase sempre tapando os lábios com os dedos num gesto delicado — e quando parariam de fazê-lo. Foi minha diversão por alguns instantes fazer isso, descobrir em que momento se abraçariam, sorririam e se afastariam. Apesar de sentir a facilidade de prever, não sinto que seria capaz de ser igual a eles.

A alta sociedade tinha um jeito próprio e natural, que pareciam ter nascido para ter, e que, apesar de previsível, me causava estranhamento. Todos eram assim, por trás das máscaras, eu via.

Bem, Margarette não era. À minha mente, agora, chega a imagem do momento em que a encontrei na festa. Envolta de magia, repleta de graça. Esbarrei em um distribuidor de drinques que carregava em uma bandeja enquanto procurava por um banheiro, e, quando senti os olhares dos outros queimando as minhas costas enquanto ajudava o funcionário a recolher os vidros no chão, fui surpreendido por uma mão suave, delicada e sutil.

Ela surgiu no meu horizonte como uma flecha, mas no lugar de perfurar a minha mão, a confortou. As minhas costas, logo, pararam de queimar, e a sensação acabou escapando para o peito.

Ah, como me senti quando meus olhos se perderam nos seus, fundos e brilhosos como esmeraldas em uma mina. Ah, como me perdi quando seu sorriso gentil encontrou o meu, desajeitado. Ora, como poderia ter me mantido são, quando seus cachos negros, caídos sobre os ombros, me prenderam como o truque de um ilusionista com uma espiral

Ó, Deus, tem piedade de mim.

— … Então, meu bem. — Margarette estava abraçada no tronco de Arthur quando recobrei meus sentidos. — Estava contando ao Edgar sobre nossa viagem…

Sua expressão era a de uma garota sonhadora, agarrada ao seu amante, ela o olhava por baixo e sorria, enquanto ele, por algum motivo, não olhava de volta. Tendo tomado finalmente seu espumante de volta das mãos dela, golava agora um bom bucado.

— Só as partes boas, imagino. — finalmente respondeu, seus olhos viajavam pela festa, mas não pareciam fixar-se em nada específico.

Notei que o abraço de Margarett se apertou um pouco mais contra ele, e, ó Deus, notei também como seus seios se apertaram no sutil decote de seu vestido ombro a ombro. Desviei o olhar, e pedi perdão, mentalmente. Meus olhos, no entanto, voltaram ao seu rosto, e captaram logo como ela parecia aborrecida.

Teria meu irmão dito algo errado?

Dei outro gole em minha bebida, mas senti por algum motivo como se engolisse em seco.

Arthur fez gesto de erguer o braço, mais uma vez, só que Margarett o impediu, pousando delicadamente a palma de sua mão sobre a boca da taça. Ele a olhou, com uma expressão que não pude identificar graças à máscara, e ela rebateu com o que eu podia ver ser irritação. Seus belos lábios de romã estavam levemente curvados para baixo.

Ele suspirou, e abaixou a taça. Outra vez, ele olhou para mim e senti que forçava um sorriso.

— Pois é, Edgar, você precisava ter visto como estavam as praias de Atenas esse ano…

“Como se eu soubesse como elas eram em qualquer ano.”, pensei.

— Mas creio que lhe faria bem maior conhecer os templos de lá… — ele prosseguiu, e mais uma vez vi seus olhos viajarem por trás da máscara, como se procurassem alguma coisa. — Você sempre foi mais apegado a essas coisas chatas de história e museus e não sei o que mais…

Suspirei. Arthur teve um sobressalto e o que interpretei como uma careta de dor. Ele se virou para Margarette com olhos contrariados.

Ela não cedeu, e eu baixei os olhos, constrangido com a interação. Vi, então, ela recolher o próprio pé, calçado com um salto de cano alto, de cima do pé dele disfarçadamente. Ergui meus olhos, sem perceber que tinha uma das sobrancelhas erguidas suavemente.

Margarette olhava para mim, sorrindo como uma cumplice. Eu engasguei com o nada. Seu rosto estava um pouco angulado para baixo, de modo que seus olhos encontravam os meus de baixo para cima, e o sorriso que ela me mostrava, dizia muito, mas ao mesmo tempo, eu não cria que dizia nada. Eu sorri de volta, de novo, mais com os olhos do que com a boca, temendo parecer indecoroso.

— Como eu estava dizendo antes, — ela voltou a falar, e seus olhos fizeram um movimento circular, de mim até o rosto de Arthur que tinha o olhar perdido na taça que carregava. — teria sido ótimo que você fosse conosco.

Arthur bocejou, e levou a mão com a taça à boca.

— Não é, amor? — Margarette perguntou, e então o balançou com o peso do próprio corpo.

Meu irmão ergueu uma das sobrancelhas de repente, de um modo não calculado, e após um instante que trocou olhares com sua amada, voltou-se a mim e tossiu descaradamente. Seu sorriso se abriu de repente, mas não vi sinceridade nele.

— Sim, isso mesmo… — Ele respondeu — Teria sido ótimo, uma pena você não ter conseguido ir…

Que piada. Preso em casa, cuidando de nossa mãe demente. Ele age como se houvesse ocorrido algum imprevisto que me impedira de ir. Teria rangido os dentes, se isso me provocasse mais raiva que amargura.

Eu sorri, sem qualquer alegria, enquanto meu indicador desenhava o contorno da taça em minha mão. De que modo eu responderia a isto?

Por que motivo eu havia aceitado esse convite, em primeiro lugar? Por que diabos eu permiti que Arthur me tirasse de casa tão facilmente, depois de uma mera carta com três linhas, depois de tudo o que eu passei enquanto ele se divertia?

Enfurnado naquele maldito quarto, dia após dia, noite após noite, ao tempo em que ele viajava, curtia e brindava com figurões, marqueses e barões.

Cada vez que minha mãe delirante perguntava sobre seus filhos, eu me questionava se ele realmente acreditava que pagar aquela pensão e visitar de três em três meses eram suficiente?

Ele sempre me dizia que eu deveria ter estudado, que eu devia trabalhar e que ele pagaria alguém para cuidar de nossa mãe. Como se isso fosse servir. Como se ela precisasse de algo além dos próprios filhos nesse estado. Ele sempre foi egoísta, pensava em si mesmo e em mais nada. Estudou, se formou, trabalhou e, enfim, me abandonou.

Eu me acostumei tanto ao cenário decadente que vinha sendo a minha vida nos últimos anos que não conseguia me lembrar mais o que era sorrir sem estar segurando o choro. Ainda, toda vez que eu recebia dele uma carta com uma foto em algum santuário histórico europeu, acompanhado pela legenda “Só faltou você.”, mordia o lábio até sentir o gosto de sangue.

Toda vez que eu ouvia ele bater naquela porta, e via ele ficar dias perambulando pela casa enquanto perguntava sobre como estavam as coisas com aquele olhar triste e compadecido dirigido a mim, me perguntava se o doente que ele estava vindo visitar era a nossa mãe, ou eu mesmo.

E agora, ele tinha aquela mesma expressão no rosto enquanto lamentava que eu não pudesse acompanhá-los. Será que sentia prazer em me desgraçar?

Dessa vez, não sorri. Margarette deve ter percebido o peso que restou no lugar da conversa, pois logo chamou a atenção de um dos garçons. O olhar de Arthur e o meu acompanharam o aceno gracioso dela, mas ele pareceu ter visto algo a mais, pois se esticou sobre a multidão no mesmo instante. Margarette pareceu incomodada com o modo que ele a puxava para tentar ver algo por cima do exército de máscaras.

Quando o garçom chamado por ela chegou, Arthur tinha um novo brilho nos olhos e outro sorriso no rosto, como o de alguém que achou o que buscava. Ele se virou para ela e, com algumas poucas palavras se despediu, dizendo que havia reconhecido um amigo que não via há certo tempo, e que iria encontrá-lo por um momento. Com um murro fraco no ombro — que me incomodou por ter doído mais do que deveria —, ele pediu que eu ficasse de olho em Margarette por ele, e me chamou de algo como ‘campeão’ ou, ‘amigão’.

Não me lembro bem de suas palavras pois minha mente se concentra no fato seguinte, ao qual tornei-me consciente de maneira demorada e custosa. Eu estava sozinho com Margarette.

Percebi como ela olhou o meu irmão se afastar, por cima de meu ombro, e o modo como mordeu o lábio inferior, irritada. Ela pressinou os olhos levemente, e eu quase pude traçar sua próxima reação, como fazia com os outros convidados. Parecia certo pra mim, ela iria torcer o nariz, crivar as sobrancelhas e então xingá-lo, como eu mesmo tinha vontade de fazer toda vez que o via. Mas, ela sorriu.

Sua expressão que parecia caminhar para a rigidez, de repente, suavizou, e seus olhos que espreitavam o espaço atrás de meus ombros, encontraram os meus, sem que ela virasse a cabeça. A forma como ela me olhava, com seu queixo baixo, meio sorriso e olhos fundos e profundos…

Ah, eu sabia e não sabia. Eu entendia e não. Sentia e não. Como eu queria, como eu queria.

Balancei a cabeça suavemente, e dei um passo em direção a ela. A multidão crescia mais a cada instante e arriscava tomar o espaço entre nós dois. Mais de perto, vi como ela agora erguia o rosto para me encarar, nunca desviando os olhos dos meus, e ainda guardava o meio-sorriso contido no rosto. Seus olhos esmeralda brilharam por trás da máscara preta, e eu deixei que meu queixo caísse.

— Ah. — A voz escapou de minha boca sem permissão para que eu a contivesse.

Fechei a boca, timidamente, e desviei o olhar.

Ó, Deus, tem piedade de mim.

Não sei para onde olhei, pois minha mente já não processava mais isso. No lugar, estava ela, seu vestido cor de mel, seus belos ombros desnudos e seu sorriso, ornamentado por duas belas e profundas esmeraldas.

Ó, Deus, tem piedade de mim.

Meus olhos, que lembro-me agora estarem fechados nesse momento, abriram-se de pronto em resposta ao toque que senti em minha barriga. Margarette me oferecia uma taça, provavelmente pega do garçom que eu a via dispensar agora mesmo.

Peguei a taça enquanto ela já dava seu primeiro gole na bebida. A que eu carregava antes foi tomada da minha mão sem que eu percebesse, provavelemente durante meu episódio de divagações.

Encarei-a por um instante silencioso e, sentindo-me pressionado pelo seu olhar e sorriso nunca vacilantes, bebi um pouco do conteúdo da taça. Meus olhos se abriram um pouco mais em reflexo. Não notei o gosto de Álcool — o que eu em muito apreciava —, e carregava um tom de frutas vermelhas bem carregado, com uma leve acidez cítrica que ficava no final do paladar. Bebi mais um gole antes que o sabor escapasse à língua.

Notei com os olhos por cima da taça que ela me encarava e tapava a boca com uma das mãos. Seus olhos um pouco pressionados e a forma como seus ombros subiam e desciam me diziam que ela havia achado graça na minha reação.

Envergonhado, eu abaixei a taça e o meu olhar.

— Gostoso? — ouvi-a perguntar, e tive um sobressalto.

Meu olhar encontrou o dela mais uma vez, perguntando se eu havia escutado corretamente.

— O vinho de maçã deles… — Ela continuou, e ergueu a sua taça suavemente. — É muito gostoso, não é?

Sem tirar os olhos dos meus, ela inclinou o rosto para o lado, e bebericou sua própria bebida. Talvez eu já tivesse bebido demais, pois senti nesse momento um calor preencher meu corpo, começando pelo peito, até chegar ao rosto. Tive medo de que estivesse corado, então levei a mão à máscara que vestia, e aproveitei para abaixá-la um pouco.

Um sentimento estranho se apoderou de mim. Uma imagética estranha se interpôs entre nós na minha mente. Parecíamos tão próximos naquele instante. Dois ou três passos e estaríamos colados, mas ainda assim…

Ainda assim eu via um mundo de distância entre eu e ela. Uma parede invisível que bloqueava o mero pensamento de dar mais um passo.

Percebi, então, que ainda não a havia respondido.

— É… Eu gostei. — Minha voz pareceu retida a princípio, como se estivesse desacostumado a usá-la. Limpei a garganta. — Quase não senti o gosto de álcool nele.

Os olhos dela se estreitaram, e um dos cantos de seus lábios se ergueu levemente.

— Então você prefere as não-alcoólicas?

Desenhei o apoio da taça com um dos dedos, e suspirei.

— Só quando estou mal acompanhado…

Percebi tarde demais o peso que essa fala carregava.

Pude ver as sobrancelhas erguidas de Margarette acima da máscara. Meu coração pulou uma batida, e eu me apressei para levantar as mãos e me explicar, mas para minha surpresa, ela riu. Alto.

Contive-me a observar enquanto ela, de olhos fechados, tremia gargalhando de um modo que, não fosse a quantidade de convidados conversando naquele cômodo, chamaria muita atenção. Meus lábios entreabertos ainda ponderavam a decisão de me desculpar, ou não.

— Ai… — Ela ofegou entre os risos — Você é uma graça Edgar. Nunca pensei que tivesse esse tipo de senso de humor.

Ela ergueu levemente a máscara e limpou os olhos úmidos, antes de se virar para mim de novo. Antes que ela percebesse minha falta de tato, sorri disfarçadamente.

— Então… — tornei a quebrar o silêncio. — Quando vocês voltam pra Europa?

A expressão risonha de Margarette ainda sumia aos poucos do rosto quando ela golou mais um pouco de seu vinho.

— Ora, está nos mandando embora?

Meu sorriso se abriu levemente, e eu balancei a cabeça.

— Talvez o Arthur. Às vezes é meio difícil ter ele por perto.

Ela deixou escapar um riso curto, e eu vi seus olhos divagarem na multidão.

— Eu sinto muito pelo que ele falou mais cedo. Sabe, sobre os museus e…

— Não se preocupe. — Eu a interrompi.

Num movimento automático, levei a taça à minha boca mais um vez. Talvez fosse o nervosismo, pois só então percebi que ela já estava vazia.

Margarette notou minha falha e se aproximou. Seus olhos pareceram mais profundos naquele momento para mim. Um mar de escuridão entre a máscara e o verde das pupilas. Ah, como me perdi, como aquele instante durou séculos em minha mente, e como eu vi aqueles olhos em mil outras circunstâncias em um único segundo.

Maldito era eu, e maldita era a minha mente.

Mais baixa que eu, mais próxima de mim, ela me olhava de baixo agora, com o queixo um pouco levantado, mas não muito. Seus olhos ainda encontravam os meus mais por esforço deles próprios que de seu pescoço. Margarette insistia em me olhar de baixo, com suas pupilas no ponto mais alto dos olhos, de um modo que invadia meus sentidos sem deixar espaço para formular explicações lógicas.

Agora, eu via aquele muro, que se perfazia em minha mente e se colocava entre nós dois, apresentar suas primeiras rachaduras.

— Tá ficando meio cheio aqui… — Ela falou. — Desse jeito, vamos acabar ficando separados logo, logo…

Senti uma coceira na ponta do meu nariz, mas contive a vontade de saná-la.

— Espero que não se importe, aproximei-me um pouco para não esbarrarem em mim… — a voz dela, suave, doce, gentil, perfurou o meu peito como uma flecha disparada por Apolo.

Eu engoli em seco e desviei o olhar, envergonhado. Que ideia tinha em minha cabeça?

Rachaduras? A barreira estava firme, erguida, pronta.

Enquanto isso, eu a encarava lânguido, rendido e derrotado.

Quais sinais eu interpretava, e como os interpretava tão errado?

Como eu vi aquele mundo entre nós diminuir se, nesse instante, ele parecia tão enorme?

Ó, Deus, apiedate de mim, pois minh’alma se condena por si. Que ideia, que ideia!

— Poxa…

A voz dela me tirou dos lamúrios mais uma vez, e acordou minha tristeza imagética para a real tragédia. Margarette encarava sua taça com o beiço de baixo sobre o de cima, numa expressão que crianças fazem quando o brinquedo quebra.

— Acabou o meu também… — Ela completou, fintando-me de canto.

Eu cocei o queixo e senti os pelos que aparei nessa tarde umedecidos. O relógio que tirei do bolso em seguida parecia um pouco menor que eu me lembrava, talvez fossem já os efeitos do vinho de maçã distorcendo a minha perspectiva.

— Bem… — suspirei. — Já são quase nove. Logo começarão a dançar e não seria nada agradável para nós ter conteúdo nas taças para derrubar.

Ainda desgostoso pelo meu próprio tormento, tentei forçar um sorriso enquanto guardava o relógio de volta no bolso do paletó.

— Ora! — Ela exclamou, e meus olhos se abriram com o susto. — Como pude esquecer. A dança!

— Sim… — assenti, um tanto desconfortável com o entusiasmo dela.

Arthur ainda não havia voltado, então considerei que ele também havia esquecido. Meu olhar vagueou pela multidão buscando qualquer sinal daquela maldita máscara verde, mas encontrou nada. Ele provavelmente havia ido para outro cômodo.

— Bem. Então acho que deveríamos nos livrar dessas coisas.

Demorei a perceber, ainda distraído no horizonte de máscaras, que a voz que ouvia era a de Margarette e que era, ainda, dirigida a mim.

— Como? — Percebi muito tarde que talvez fosse rude mostrar como eu não estava prestando atenção nela.

Ela não pareceu se importar.

— As taças. — seu sorriso amplo era realmente contagiante. — Vamos guardá-las na mesa de quitutes.

— Ah. Claro.

Com um aceno, eu varri os arredores mais uma vez e, sem encontrar quaisquer sinais de meu irmão, gesticulei para que ela me acompanhasse. Na frente, abri caminho na multidão com alguma dificuldade. As pessoas não abriam espaço quando eu verbalizava e me lançavam olhares afiados quando tocava em seus ombros para que me dessem passagem.

Atrás de mim, eu checava constantemente, Margarette me acompanhava e, sempre que meus olhos iam para trás, encontravam os dela, entreabertos e, claro, rosto levemente inclinado para baixo.

Quando chegamos à mesa, avistei uma pilha de outras taças vazias de pessoas que claramente haviam tido a mesma ideia que nós. Alguns dos funcionários do evento passaram por nós e esbarraram no meu ombro de maneira rude, para depois recolher uma leva daquelas taças abandonadas. Quando um deles passou por mim com uma bandeja meio cheia, eu aproveitei e pus as duas taças sobre ela. Ele me fitou por um instante e se despediu com um aceno de cabeça.

Olhei para trás e vi, mais uma vez, a bela Margarette. Tinha as mãos entrelaçadas à frente do corpo e ombros balançantes. Meu nariz coçou, mais uma vez, e dessa vez eu o correspondi. Busquei no bolso do paletó o meu relógio mais uma vez e agora o ponteiro marcava nove e vinte e cinco. Suspirei.

— Veja, Margarette, faltam cinco minutos para o início das danças. — Meu olhar subiu ao dela e eu percebi que o sorriso não havia sumido de seu rosto, assim como seus ombros não paravam de balançar. Eu engoli em seco. — E… Eu vou correr atrás do Arthur o trarei de volta pra você com toda certeza.

Com a promessa, virei-me de pronto para seguir ao arco que dava acesso ao corredor principal, onde provavelmente haveria de achar meu maldito irmão.

Qual foi a minha surpresa quando encontrei-me impedido de dar um passo, de repente, por um agarrão no meu braço.

Por cima do ombro, encarei Margarette, abraçada a mim com uma expressão contrariada.

— Ora. — Ela reclamou. — Se você está aqui comigo e pronto para dançar, por que haveria de ir atrás dele?

O calor de seu corpo contaminou o meu através do terno, e novamente eu o senti caminhar de meu peito ao rosto. Margarette me olhava amuada com cenho franzido, eu podia dizer pela proximidade.

Com uma tosse mais seca do que eu pretendia, assenti positivamente e gesticulei para que voltássemos ao centro do salão. O mundo distorceu à minha volta, as pessoas agora, mais próximas umas da outra, nem precisavam abrir espaço para que passássemos e, para completar, de modo a evitar que nos separássemos na volta, Margarette havia insistido que eu a segurasse pela mão.

Temo não ter notado a tempo mas minha expressão, neste momento, certamente era a mais vil e asquerosa felicidade. Digo pois sinto que meu sorriso neste instante foi, de certo, o mais corrupto e abjeto ato de maldade, e eu, sem perceber, marchava a todo vapor para o olho de uma tempestade.

Quando alcançamos o centro do salão, Margarette não soltou a minha mão, na verdade, ela se aproximou de meu corpo e, ainda com aquele sorriso encantador e enloquecedor na face, puxou a outra mão para perto de si.

— Veja, você terá que me conduzir hoje. — Ela falou. — Pois eu não me sinto muito bem após tantas taças de vinho…

Engoli em seco quando o cheiro doce de seu perfume de rosas invadiu o meu olfato e contaminou todos os outros sentidos com sua intensidade. Meus olhos reviraram e minha boca se abriu. Quando percebi a estranheza na expressão que fazia, me endireitei e limpei a garganta numa tentativa de romper com o silêncio inercial ao que eu havia dado lugar.

Lembrei-me de respondê-la, ainda concentrado em evitar as divagações sensoriais.

— Droga… Eu estava pensando no mesmo… — Zombei.

Eu a ouvi rir, então dei-me a liberdade de prosseguir.

— Darei o meu melhor para não te atrapalhar.

Margarette soltou uma curta lufada pelo nariz com um sorriso, então, entrelaçou meus dedos um pouco mais, tão delicadamente, tão decididamente. Ora, que devia ter eu sentido quando ouvi o aparelho que tocava músicas ambientes parar de repente, que surpresa não me tomou quando as conversas tão frequentes e mixórdias deram lugar a um coro de saxofones que preencheu todo o ambiente. Oh, que sentimento tive quando Margarette, a doce e perfumada Margarette, deu outro passo à frente e colou seu seio no meu, seu rosto no meu ombro.

Eu não sei, não sei, não sei. Ó, pai, eu não sei pois, naquele momento tão oportuno, tudo que cabia em minha mente era o algoz, o odor tãodulcee o aspecto tão fino de seus cabelos. Ah, quando o ar me faltou no peito e dei-lhe um profundo inalar que inquilinou minha imaginação com as mais belas imagens de santuários floridos.

Por um instante, não me via em meio a maçons, barões e marqueses, nem a vinhos, azuis ou turqueses, mas sim rodeado do amarelo de girassóis, do vermelho de rosas, do branco de margaridas. Eu, que nem botânico sou, senti tamanha conexão com a essência daquelas flores, eu próprio agarrado a uma estava, que podia ver o seu interior, a sua formação, o seu onto, seu axio.

Ó, Deus, terá sido neste instante que enlouqueci eu?

Terá sido neste momento que me entreguei à ilusão, que mais tarde levaria à minha desgraça completa?

Que diferença faz agora? Mas que diferença fez naquele instante?

Eu digo, pois, que foi a diferença entre os degrais da sacristia, e os degrais do purgatório.

— Faremos assim… — A flor que eu carregava, enfim me acordou. — Direi-lhe o que fazer, e você enfim me conduzirá.

Sem forças para conversar amplamente, assenti. Os casais na periferia de meu olhar já valseavam, abraçados e sorridentes. Suas máscaras, por certos segundos, desapareceram para mim, e eu não consegui prever seus movimentos. Que efeito tinha a flor em mim, que efeito tinha a dor em mim.

Tendo dado seu recado, Margarette se afastou de mim meio passo, e com um sorriso no rosto e olhos um tanto caídos, sugeriu com o queixo. Entendi pelo modo como apertava meus dedos que desejava que eu erguesse nossos braços, o meu direito e o seu esquerdo. O fiz, e assim que terminei o ato, senti-a encurtar novamente a distância, dessa vez apenas com o tronco.

— Caminha para o lado, de pés inclinados, passo sim, passo não. — ela explicou e eu, que de tão pouco sabia, escutei. — Dois para dentro, e um para fora.

Então, ela me conduziu, sem tirar os olhos dos meus, por dois passos para dentro, e dois passos para fora. Tão perdido eu estava em seu olhar que, nessa curta demonstração, em nada pude me concentrar se não no brilho que vinha por trás de sua máscara. Quando ela me perguntou se eu havia entendido, engoli em seco, pois não havia sequer captado. Ela percebeu e sorriu.

— É difícil mesmo. — parte da sua voz era doçura, e parte era troça. Ergui uma das sobrancelhas e sorri, desafiado. — Ora, não te ofendas comigo. Estou tão ébria que certamente se faz mais difícil de dançar enquanto oriento.

Minha boca se abriu em um meio-sorriso exortado, com o qual a puxei para mais perto de mim. Ouvi-a exclamar, aparentemente de espanto, e então rir contra meu peito. Então, pus-me a conduzir, mais confiante que competente, a valsa.

Passeava para dentro, no centro do salão, passeava para fora, entre os espaços deixados pelos outros convidados, mas ainda timidamente controlado, a passos curtos e temerosos de que pudesse tropeçar ou derrubá-la. Quão frágeis eram as flores.

Minha visão periférica captava por vezes passos mais complexos, giros e, por Deus, jurei ter visto um mergulho. No centro do salão, um casal animado dançava e balançava, em passos complexos e um tanto desmedidos. Alguns dos outros convidados abriam espaço para eles, não irritados, mas encantados com suas capacidades. Posso dizer que, naquele instante, em ver a sintonia, a proximidade, a confiança, tive inveja, tive admiração.

— Não faça como eles, por favor… — A voz de Margarette trouxe meus olhos de volta do espetáculo. — Não me sinto propriamente bem para tal.

Seu rosto estava virado para o centro, mas os olhos fixados em mim, e de novo, a maneira como aquela pose, como aqueles olhos entreabertos me viam, me expunham, fez meus joelhos implorarem para ceder. Mas eu perseverei.

— Ora. — Rateei, — Que parceira fui arrumar, então. Logo eu que tão ansioso estava para emular tais passos…

Inflei o lábio inferior, num gesto amuado que somado às sobrancelhas pressionadas em tristeza denunciava óbvia sátira.

Ela riu, mais uma vez, e seu rosto se inclinou para baixo, escondendo de mim seu belo sorriso.

Quando ela ergueu novamente o rosto, pude perceber um brilho reflexo em seu olho. Sem me dar conta, soltei uma de suas mãos e, numa ousadia desmedida, sequei seu olho com meu polegar. Com a boca entreaberta, ela me encarou, até que sorri, e a peguei pelo braço novamente. Ela sorriu, e voltamos a valsear.

Curtos foram aqueles minutos, que pareceram meros segundos. Rápidos foram aqueles movimentos, que tanto me esforcei para manter compassados. Quão forte fora sua respiração, repousada em meu ombro, direcionada ao meu pescoço, quando a música parou. Ofeguei, também, apesar de não estar cansado. Os pares conversavam alto, riam e se reuniam para prosear sobre o instrumental.

Ao ponto mais alto da música, ela avançou na curta distância que mantinhamos e se agarrou ao meu torso, deitou o rosto em meu ombro e suspirou. Meu rosto tomou a direção dela, e eu notei que seus olhos lacrimejavam, fechados.

Ó, Deus, como meu coração doeu.

Minhas mãos, até então livre desde o seu avanço e o fim da música, encontraram suas costas com leveza, e em movimentos calmos e tenros, contornei-as carinhosamente. Posso entender agora como fui descarado neste momento, mas recordo pela serenidade em sua respiração que Margarette não deve ter sentido o mesmo que sinto.

Meu rosto preocupado buscou, mais uma vez, na multidão, por sinais de meu irmão e nada encontrou. Bufei, inseguro.

— Ele não vem, não é? — ouvi-a perguntar, e, ao direcionar-lhe o olhar, percebi que encarava o meu pescoço com olhos distantes. Quão doloroso foi para mim, achar tão belo aquele olhar.

Engoli em seco.

— Creio que não…

Seus olhos se fecharam, mais uma vez, e ela suspirou profundamente. Senti o ar frio viajar no espaço entre meu pescoço e suas narinas, e um arrepio ouriçar-me os pelos, dos braços ao queixo. Uma batida foi pulada em meu peito, e mais uma vez me reprimi. Quão bela parecia, mesmo abatida, quão abalado me deixava. Maldito Arthur, como pôde?

— Que bom… — Ouvi-a sussurrar.

Meus olhos se arregalaram.

— Assim dançaremos mais uma…

De queixo caído, fitei-a mais uma vez em suas belas jóias viridianas. Ela sorria, cansada, sobre meu trapézio, e tinha seus olhos ainda fixos no meu pescoço. No instante seguinte, senti que ela iria beijá-lo, pois se levantou em um arco, mas logo se afastou. Pediu-me desculpas, disse que já estava cansada e um tanto atordoada. Sem palavras, eu assenti.

Quando a música voltou, em curtos acordes introdutórios de uma harpa, Margarette puxou minhas mãos para perto de si e, com delicadeza, as repousou sobre a própria cintura. Sua visão percorreu-me de baixo para cima e, quando chegou aos olhos, se estreitou. Um meio sorriso surgiu em seu rosto quando ela percebeu meu rosto, certamente rubicundo, e meu queixo levemente caído. Seja como for, não fez menção a isso.

— Agora, vamos mudar os passos… — Ela afirmou. — Faremos Polka.

Seu sorriso cativante me disse tudo que eu precisava saber. Ela me conduziria novamente. Quão estranho me foi descobrir de que se tratava essa tal Polka. Uma dança colada, que em pouco se assemelhava à valsa, cujos passos se davam em pequenos saltos e que em muito me lembrou o sapateado. Minha falta de prática estava clara, pois temo haver tropeçado uma ou duas vezes antes que estivesse seguro o suficiente para conduzí-la pelo salão.

Quando sentiu que eu era confiável o suficiente, Margarette suavizou o seu aperto e preencheu sua expressão com outro sorriso, dessa vez um que mostrava os dentes claramente, contente e satisfeita.

— Você aprende rápido…

Eu sorri de volta.

— Seria uma ofensa de outro modo, tendo tal professora…

Seus olhos se fecharam em um sorriso incerto. Seguimos em silêncio pelo resto da dança, minha atenção estava dividida. As mãos, presas à cintura de Margarette, tremeriam se não estivessem tão firmemente postas, por orientação dela própria. Mesmo por cima do vestido, havia no gesto certo nível de intimidade que eu jamais esperaria conhecer, o toque, o calor, a maciez de sua pele abaixo do tecido. Talvez, o principal motivo dos meus tropeços não tenha sido, afinal, o despreparo para a dança.

Em dado momento, confundi-me e, num passo que deveria ser para trás, conduzi-o para frente. Margarette, coitada, acompanhou a lógica do que deveria ser, e veio de encontro ao meu peito. Sua maciez encontrou a minha rigidez, sua suavidade encontrou a minha rudeza. Assustei-me com o choque, e a afastei prestes a me desculpar, mas a vi rir amplamente.

— Desculpe. — Ela soltou entre uma risada e outra. — Acho que já não estou mais apta para ser conduzida.

Fiquei sem palavras. Sua doçura, sua delicadeza, seu respeito. Suspirei e senti, finalmente, como meu rosto ardia por baixo da máscara. A Harpa, então, alcançou uma nota alta e longa em um Tremolo. Estávamos quase abraçados, minhas mãos não ousavam sair de sua cintura, e as suas não vacilavam de meus braços. Enquanto trocávamos olhares com meios-sorrisos, a música acabou.

As conversas recomeçaram à nossa volta.

— Pode me dizer as horas? — Margarette rompeu o silêncio, soltando as mãos de meus braços, finalmente.

Busquei o relógio outra vez, no bolso do paletó.

— Já são dez horas.

Por outro instante, o silêncio reinou, e os olhos dela saíram dos meus, perdidos atrás de mim. Busquei à minha volta por sinais de Arthur, temendo que ele finalmente estivesse de volta. Tendo constatado que ele não estava presente, suspirei e me voltei para Margarette outra vez. Seu olhar estava baixo e seus lábios estavam curvados em um sorriso triste.

— Edgar… — Ela me chamou, sem me olhar. — Pode me levar para casa?

Ó, Deus, apiedate de mim.

A mera sugestão, tão simples e inocente, pegou-me com tamanha intensidade e despreparo que me vi em silêncio por um instante que temo ter durado bem mais do que me lembro. Creio ter ofegado, perdido controle da minha respiração, creio ter sorrido, maquiavelicamente.

Ela me olhou por baixo e, por alguns instantes pareceu analisar a minha expressão. Senti-me como um livro sem capa, um quadro exposto, um manequim despido.

— Não quero te causar problemas…

— Nunca. — Eu corrigi, balançando a cabeça. — Desculpe, senti-me um pouco tonto depois de tantos giros.

Sorrimos.

— Então, por favor, nos tire daqui. — Ela sugeriu e ergueu seu braço arqueado à frente, para que eu o cruzasse com o meu próprio.

Depois de entrelaçar-nos, conduzi-a em meio à multidão num caminho de que pouco me lembrava. Quando cheguei ao corredor, percebi que poderia ter o azar de encontrar meu irmão entre todos, e com isso em mente, abaixei a cabeça. Que estava eu pensando, que espécie de maquinação vilanesca era essa que eu executava?

Ergui o rosto. Por que estava me escondendo? Não havia nada a esconder, não havia nada pelo que me desculpar.

Que erro cometi? Que pecado não paguei? A ele ainda? Não era ele merecedor de toda minha angústia?

Minha decisão de encará-lo de frente, no entanto, não pôde ser cumprida, pois não o encontrei. Atravessamos o mar de marqueses e baronetes até que finalmente cheguei à entrada. Alguns já se aprontavam para ir, também, recolhendo seus pertences. Vi aquele casal que tão bem bailava no mesmo salão em que estávamos há pouco, e eles se despediam.

— Que triste, não? — a voz de Margarette chamou-me a atenção. Seus olhos estavam fixos no casal que se aprontava para partir caminhos, com sorrisos melancólicos nos rostos. — Estarem tão unidos e íntimos em sua dança, e agora terem já de partir caminhos.

Outra vez, vi-me sem respostas. Não podia ser, eu tinha compreendido algo que não existia, sentido onde não havia. Quando ela se voltou para mim mais uma vez, talvez buscando por uma resposta, pressionei meus lábios e assenti, em silêncio.

— Bem, vamos? — seu sorriso cansado se mostrou em seguida.

Novamente, assenti. Ela passou pela recepção e deu aos funcionários informações sobre a bolsa que havia deixado com eles. Após alguns instantes, eles a trouxeram e a entregaram, então pusemo-nos para fora do lugar.

A noite lá fora parecia bela, recordo-me, mas não tão bela quanto ela. Os ladrilhos pedregosos pareciam negros à escuridão soturna, mas brilhavam em pontos específicos espelhando os lampiões das portas das casas. As estrelas, inúmeras e bem distribuídas, acalentavam a caminhada silenciosa que fazíamos como se contemplássemos a Capela Sistina, num mundo em que Michelangelo pintou o céu. Meus olhos, contudo, só guardavam um foco, a bela flor amarela que caminhava ao meu lado. Margarette tinha passos suaves e comedidos, um controle supreendente, eu pensava, dado que ela usava saltos para caminhar naquele terreno irregular.

As janelas estavam vazias, as casas, abertas. Senhoras, as quais eu ocasionalmente saudava, proseavam e observavam o movimento com a atenção de quem havia dormido o dia inteiro. Alguns olhares se fixavam em Margarette, normalmente dos senhores, e eu não os culpava, ela estava estonteante. A cada dois passos, eu fitava disfarçadamente a sua figura ao meu lado, presa a mim pelo braço, que não perdia o sorriso no rosto por um instante sequer. A máscara preta tapava metade de suas feições, mas ainda assim eu sentia que a via por completo. Seu rosto ruborizado, seus olhos brilhosos e realçados, fundos e bem maquiados. Seus lábios rubros em formato de pêssego.

Ó, Deus, que tanto me castigas. Como pôde permitir, que numa dessas olhadas, eu encontrasse seus olhos? Como pôde permitir que nesse encontro, todo o meu mundo girasse? Como pôde permitir que eu quase a levasse ao chão?

Num tropeço, senti o corpo de Margarette girar contra o meu, e desesperado, avancei, ainda preso a ela por um dos braços, fixei meu pé adiante como apoio, e a segurei com o braço restante pelas costas. Com os olhos bem abertos, e o lábio inferior caído, ela me encarou. Eu não sei que expressão tinha, mas sei que sentimento sentia, e era o mais puro terror. Quase a derrubara.

Nesse instante que pareceu durar um milênio, eu a tive em meus olhos, seu brilho, seu calor, seu ar. Para meu espanto, ela riu de olhos fechados, e levou a mão livre à frente da boca, divertindo-se.

— Podia ter feito algo assim enquanto dançávamos. — Seus olhos se entreabriram para mim, daquele mesmo jeito provocante de sempre, e sua expressão, por um mínimo instante, me pareceu extremamente dissimulada.

Não sabia se sorria, ou se respirava, e acabei por fazer os dois. O ar escapou de meu nariz enquanto eu a erguia daquela pose.

— Temo ter sido advertido justamente para o contrário.

Amuada, ela inflou seus lábios em troça.

— Bem. Não é como se fosse nossa última chance. — sua voz não me tranquilizou, visto que soou muito mais como uma provocação, por algum motivo. Talvez fosse sua expressão.

Eu assenti, e ela novamente se voltou para frente. Quando me dei conta, já encontrávamo-nos no quarteirão de sua casa. O pesar me acometeu no momento da ciência desse fato. Suspirei profundamente, e percebi que ela fez o mesmo. Estava exausta, a pobre flor.

Em um silêncio enlutado, conduzi-a até a porta de sua casa, onde as grades jaziam trancadas por um grosso cadeado. Em silêncio, também, ela buscou em sua bolsa pela chave, com a qual destrancou o cadeado. Senti um aperto no peito, quando ensaiei a nossa despedida. Um nó na garganta, quando me imaginei falando que esperava vê-la outra vez.

Mas quando aquele portão rangeu e se abriu, quando ela se virou para mim com aquele sorriso cansado, e olhos fundos, quando ela retirou sua máscara e guardou em sua bolsa, eu tremi, e as palavras morreram no meu peito como se o caminho da garganta estivesse fechado.

— Eu… — As palavras escaparam sem que eu pensasse. — Sinto muito que isso tenha que acabar.

Os lábios de Margarette se distanciaram por um instante, e seus olhos se abriram levemente. Ela olhou para os lados lentamente, como se contemplasse a rua, e então, voltou-se para mim que a encarava em silêncio, temendo ter dito demais.

— Você… — foi como se sua voz soletrasse cada silaba em meu ouvido, como se o movimento de seus lábios fosse tudo que existisse em meu mundo naquele momento. — Quer entrar um pouco?

O vento soprou, causando um o farfalhar nos galhos acima de nós, e um suave levantar da barra de seu vestido amarelo. Quando o assovio da brisa cessou, minha expressão de choque se foi, minha boca aberta se fechou em um sorriso, meus olhos se estreitaram como os de uma raposa, e minha voz rasgou seu caminho do peito, garganta até meus lábios.

— Sim. Eu adoraria…

Seu rosto avermelhado se inclinou para o lado e para baixo, e mais uma vez ela me deu aquele olhar baixo e provocante. Seu sorriso, neste instante, me pareceu diferente, muito menos inocente. Ela lambeu o lábio inferior e gesticulou para que eu entrasse. Eu obedeci.

A noite ficou para trás.

Ó, céus, quando me lembro. Ó, infernos, a que dei lugar em minha alma naquela noite. Em que instante teria eu me perdido, entregue?

Quando Margarette trouxe aquela taça de vinho tinto para mim, e prometeu ser a última da noite. Quando Margarette disse que era a última taça que tinha. Quando Margarette bebeu daquele vinho e logo em seguida me ofereceu, do mesmo recipiente que ela havia acabado de beber. Ó, céus, em qual destes momentos eu deveria ter parado? Em qual destas provações eu seria capaz de me erguer?

Que cruz me fazes carregar, pai?

Tão fraco que sou, com uma cruz tão grande…

Ora, quem busco enganar?

Em nenhum destes atos eu tentei não ceder. Em nenhum destes atos eu queria me reter. Quando ela passou por mim e contornou meus dedos com os seus, quando tomou aquela taça da minha mão, quando ela sentou-se no sofá e bateu com sua palma no assento ao seu lado. Quando eu sequer pensei em recusar?

Ah, desgraçado sou. Lembro-me de ver aquele fio de vinho escorrer de seus lábios no instante em que me sentei, de segurar a sua mão quando ela a erguia para secar os lábios, de aproximar meu rosto do seu sem lembrar sequer de respirar. De selar seus lábios com os meus.

Ó, Deus. Ó, Deus. Ó, Deus.

Que fiz eu, Que fiz eu, que fiz eu?

Os eventos que se seguiram nesta noite não ouso narrar, pois a vergonha me consome apenas de lembrar. O erro que cometi após isso comigo morrerá, pois o pecado a mim pertence e somente a mim deve perturbar.

Faz dois meses desde esta noite, e isso certamente gera incertezas acerca das minhas motivações para registrar este fato tão depois de tê-lo cometido. Margarette e Arthur voltaram para a Europa uma semana depois da noite da festa, e o fizeram sem se despedir. Arthur prometeu que passaria aqui para ver a mim e à mãe, mas não o fez, e eu não esperava que fizesse. Margarette, por outro lado, não mais me dirigiu a palavra desde então. Não a vi um dia sequer, e não sabia se era sua intenção ou mero acaso.

Hoje, no entanto, temo ter descoberto.

Arthur bateu à minha porta sem aviso, vindo da Itália. Suas palavras soaram apressadas quando entrou em casa trazendo suas grandes malas, mas foram longas o suficiente para causar-me rançoso descontentamento.

Em suma, Arthur está de volta em casa. Definitivamente. Margarette alegou ter descoberto uma traição que ocorrera no aniversário de casamento dos dois no momento em que estavam na Grécia. Arthur negara as suspeitas de Margarette quando ela as apontou no dia, o que a fez se acalmar no momento, visto que careciam de provas. Mas tudo voltou a tona no dia da festa. Aparentemente, notícias voaram de um canto da cidade para o outro, e chegaram aos ouvidos de Margarette dizendo que meu irmão havia sido flagrado dançando com uma dondoca pessimamente conhecida e piormente mal falada da região em algum dos cômodos que não visitamos. Margarette o confrontou, dizendo que essa havia sido a gota d’água para ela.

Agora, Arthur chora sentado no sofá, tendo me dito estar contente de ao menos ter a mim e a nossa mãe, pelo menos. Pois, aparentemente, isso é tudo que lhe sobrou. O pai de Margarette, um juiz renomado e cheio de bons contatos na Itália, conseguiu que ele fosse condenado infidelidade e decretou a anulação do casamento sem direito qualquer a repartimento de bens, que ficaram todos sob a guarda de Margarette a título de compensação pela honra ferida e pelo ‘intenso dano mental causado’.

Minhas lágrimas caem sobre as palvras que permeiam essa folha, condenadas a jamais se revelarem pois eu desgracei a minha família e não tenho sequer coragem de contar a meu irmão do erro maldito que cometi.

Escrevo essa confissão ao lado do leito de minha mãe, em nosso quarto, enquanto ela delira e murmura sobre seu marido, meu pai, chamando e chamando o tal “Amor”.

Ó, pai, é este o meu suplício?

Se assim queres, assim insisto.

Fim da leitura

Capítulo 1 concluído

CAPÍTULO 1 - Desmascarados