ECO — Capítulo 16: CAPÍTULO 16 - 15 - Método científico

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Cap. 16
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CAPÍTULO 16 - 15 - Método científico

Capítulo 16

1.312 palavras~6 min de leitura

Capítulo 15 - Método científico

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— Vamos logo…

Murmurou Asael, impaciente.

Screeeee! Enquanto o chiado agudo das garras daquela coisa arranhando o piso arrancava a paz de Cael.

Para alguém acostumado a bailes e caixas de som explodindo o tímpano aos domingos, isso deveria ser tranquilo. Mas não – claro que não! Quando o barulho vem com risco de morte, a experiência sonora muda um pouco.

— Espera! — Ainda mantinha os olhos fechados, a testa brilhando de suor frio — Calma… eu… vou!

— Então vá! Mate-o!

Sem paciência.

Sem piedade.

Sem tempo pra mais drama ou dilemas morais.

— Mas…

— Mas nada! — cortou, como quem já ouviu desculpas demais.

— Cacete, véi… — bufou, abrindo um olho devagar, como quem acorda de ressaca — Pra que essa pressão toda? Eu já ia conseguir…

Misturava-se à ansiedade do momento aquela tensão sufocante que a criatura exalava.

— Ia? — Arqueou uma sobrancelha. E, sinceramente, não era errado duvidar, sua postura gritava “não tô pronto” em todas as línguas possíveis — Sem nem ao menos emanar sua aura? Você tá literalmente parado aí, tremendo, esperando que o bicho morra de tédio. Nada de expressão, nada de manifestação… diria que está um tiquinho nervoso, está?

— Ehr… talvez…

Ao olhar para as próprias mãos, trêmulas e vazias.

— Isso é receio por essa sombra… ou só medo?

— Sombra? — franziu o cenho, tentando parecer ofendido — Por que você a chama assim?

— Porque é isso que ela é — Lançou à criatura um olhar de desprezo e ódio por sua maldita raça — Uma sombra. Um ser do mundo profundo, reflexo dos pecados humanos. Vive às costas do que vocês chamam de civilização. E cresce… na sujeira da sua alma!

— Ehr…

— Não é só pra bater em deuses de moral duvidosa que somos guerreiros!

Estreitou os olhos com aquela cara clássica de tio velho que já viu padawan demais travar no tutorial.

— E por mais o quê?

— É por causa delas, ué. As sombras. Essas desgraçadas não ficam escondidinhas no seu mundinho, não! Elas rastejam até a superfície do Intermédio como baratas. E, de vez em quando, metem o pé no mundo humano. E devoram tudo. Tudo mesmo!

— Tá, tá! — retrucou, revirando os olhos com a audácia de quem tenta parecer valente, mesmo tremendo mais que gelatina.

— E nem pense em subestimá-la! — Virou-se de frente, o semblante naquela seriedade incômoda — Aquela coisa ali… sozinha, já tem poder suficiente pra derrubar um exército bem armado. Sem esforço. O poder dela não vem de Eco, nem de alma, nem de intenção. Vem do próprio caos!

— Cacete…

— Entendeu?

— Entendi… o bicho é do mal e tem que virar churrasco — Soltou um suspiro que queria ser piada, mas saiu com gosto de oração — Vamos lá… só preciso matar…

Só…

…Bem fácil, né?

— Depois eu que sou dramático…

— Não fode! — bufou, limpando o suor da testa com as costas da mão — Antes entregava pizza… agora tô aqui, matando cachorro do capiroto… vida que segue, né?

Grrrnn… À frente, o ranger de dentes soava como trilha sonora do inferno. Pela coloração entre vinho escuro e ocre, dava para ver que aquilo já estava corroendo até o esmalte, de tanto triturar ossos e carcaças.

— É mais feio quando você encara, viu… Grr… que merda… nunca pensei que sentiria tanto cagaço assim… de frente para um monstro de verdade…

— É porque você nunca viu quem põe uma dessas… na coleira.

A frase caiu como pedra no estômago.

— É angustiante!

E, junto, um déjà vu amargo o congelou por um instante.

— Já invadiram aqui…?

Só sorriu de canto – não um sorriso reconfortante, mas daquele tipo que vem junto com um aviso silencioso: “tem coisa que é melhor você não saber”.

— Não… mas, de vez em nunca, rolam expedições de extermínio além da muralha. Sempre aparece um peixe grande…

— Entendi… — engoliu seco.

Duas sombras em uma moto?

Pensou. É… ele não mudaria tão cedo.

— Bem… tá na hora de parar de enrolar… e subir de nível, né?

Até sentiu um arrepio – era tipo a hora do intervalo na escola, parecia o fim dele.

— Verdade… — firmou os pés no chão, tentando parecer mais confiante — Agora vai!

Sem esperar mais nada, sua aura explodiu – fraca, trêmula, como uma vela tentando resistir a um vendaval. Mas estava lá. Vibrando. Carregada de algo que não se mede, mas se pede… a intenção.

— Isso!

Quase dava pra esquecer que, algumas horas antes, tinha assinado o atestado de óbito do moleque com um tapinha nas costas e um “boa sorte”. Mas tudo passa, né? Como um bom mestre estoico que era – sereno, impassível… e, claro, convenientemente sem culpa.

O que importava, no fim das contas, era que o guiava para o progresso.

Ou para a cova. Depende da perspectiva.

Vamos lá, Cael… vamos lá!

A mão se ergueu, firme – ou tentando parecer. Apontava direto para a criatura, que do outro lado se debatia com fúria animalesca, golpeando as barras com tanta força que elas começavam a ceder, amassadas como lata de refrigerante.

— Não fecha os olhos!

Ordenou assim o que ele mesmo estava prestes a fazer.

Era isso. Encarava… ou afundava de vez no pântano da própria covardia.

Ah, a coragem… essa desgraçada linda.

Sempre tão… cruel.

— Tá… — mordeu o lábio com força, como se sangue fosse ajudar a pensar.

Então, liberou a primeira etapa do seu Eco. Fraco, dissonante… mas real. O suficiente pra fazer o ar vibrar. O suficiente pra ser o começo de algo.

Que fosse deliberado, com aquela rara – quase mítica – vontade de acertar…

O impacto veio no silêncio. Nada de explosão, nem raios tempestuosos. Só uma onda de vento sutil rasgando o ar e, num estalo seco, atingiu a criatura.

Por pouco não acertou as grades.

Felizmente, foi no peito da besta.

A fissura se abriu pequena, tímida, do tamanho de uma agulha. Mas começou a crescer no mesmo instante. E crescer. Até chegar ao tamanho ideal para causar desconforto: já cabia uma bola no peito bem ali, onde seria fatal a um humano.

O uivo veio na hora. Agudo. Canino. Daqueles que fazem o tímpano querer pedir as contas. O sangue espirrou como tinta, manchando um chão seco demais pra absorver qualquer líquido.

Enquanto a criatura se debatia com brutalidade…

As patas cambaleavam, tentando encontrar um equilíbrio que já tinha largado o emprego fazia tempo.

— Cacete… por que tem que sofrer tanto?

Murmurou, enquanto o canino sombrio clamava por vida num último surto de desespero… e, do nada, morreu.

Simples assim.

Sem fanfarra.

Só… caiu.

Deu pra sentir o peso. A poeira ao redor da prisão levantou num salto.

— Finalmente…

Mas, claro, não podia acabar fácil.

Agora vinha a ciência.

O corpo começou a colapsar e se decompor bem diante deles – rápido o suficiente pra deixar seus olhares naquele meio-termo entre “será que vi isso mesmo?” e “tô pirando?”.

Em segundos, a carne apodreceu, virou uma carcaça, depois derreteu os ossos e, por fim, evaporou daquele mundo.

O que sobrou?

Nada! NADINHA! Nem um farelo pra contar história.

Três piscadas.

Foi só isso que Cael precisou pra ver tudo – a morte, a decomposição e o fim absoluto dos restos mortais.

— Como…?

Ele murmurou, genuinamente surpreso, encarando as próprias mãos. Não via apenas carne e osso — via puro poder.

Assustadoramente, poder.

— Eu desintegrei ele?

Asael finalmente tinha sua tese comprovada; aquele instante provava tudo.

— Não… Você… impôs a morte a ele. Foi tão rápido que nem deu tempo da criatura entender o que estava acontecendo. Ela foi forçada a passar pelos estágios da morte… tudo de uma vez. É pior que desintegrar… é tipo obrigar a alma a assinar o atestado antes do corpo cair.

Seu olhar estava afiado e não no sentido poético. Era o tipo de olhar que cortava mais que uma espada.

— I-isso… é possível?

— Aparentemente, agora é. Parabéns, Cael… você é oficialmente um problema maior do que imaginei!

— Como?

— Como isso é possível, ainda não sabemos… Mas uma coisa é certa: a morte em si… é o seu Eco.

Fim da leitura

Capítulo 16 concluído

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