ECO — Capítulo 53: CAPÍTULO 53 - 49 - Papo sério

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Cap. 53
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CAPÍTULO 53 - 49 - Papo sério

Capítulo 53

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Capítulo 49 - Papo sério

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Cael acabou por ceder ao cansaço e caiu no sono, o peito subindo e descendo devagar, como se todo o peso que carregava tivesse se dissolvido por um instante.

O salão ficou em silêncio, quase desconfortável, quebrado apenas pelo som irregular da respiração dele.

Os dois permaneceram ali por longos minutos, talvez horas, ninguém sabia dizer. O ar parecia suspenso, cheio de coisas não ditas, até que Ananit decidiu, enfim, levantar a voz.

— Eu…

— Vai mandar ele de volta? — cortou-a no meio da palavra, a lâmina da voz atingindo antes que pudesse erguer qualquer defesa.

O som quebrou o ar estático como vidro, espalhando estilhaços ao redor.

— Como…? — ergueu os olhos devagar, surpresa pelo tom. Ou talvez apenas fingisse bem demais; o olhar era sereno, mas algo vibrava ali, oculto.

Ananit deu um riso breve… seco, meio amargo, que morreu antes de alcançar os olhos. Um som curto demais para ser conforto e longo demais para ser só deboche.

— Assim me deixa sem graça…

Agora mentiu com força.

— Ninguém iria me procurar para saber se estou bem ou não… — comentou, balançando a mão no ar, ele mesmo afastando a própria importância; não por drama, mas por um certo fatalismo — Mas já? — ergueu as sobrancelhas, deixando escapar um fiapo de surpresa — Achei que, ao menos, iriam esperar meu aval…

Seu aval?

Hm…

Ele está mesmo imerso nisso…

Será? Será que mudou um pouco por causa dele?

— E então? — dedilhou a madeira com impaciência, preenchendo o espaço — saia da sua mente e diga, como teu eco, a verdade!

— Daqui a algumas semanas… — a voz dela saiu hesitante, um sussurro que parecia temer ser ouvido, quase fugindo antes de alcançar o ar.

— Por quê? Não estamos em guerra? — sua mão estava pesada o suficiente para quase rachar a madeira velha, a mesma que nunca cedeu a nada, nem ao tempo — Por que vão dispensar ele? Você não estava gostando?

Ela desviou o olhar, mordendo o lábio inferior, quase envergonhada de admitir.

— Estava… estou! — suspirou fundo, como quem carrega algo que não pode explicar — É que… Elyah estava ignorando, mas o julgamento foi refeito. Elohim mandou ele para a Terra… para treinar lá.

— Com terrestres? — arregalou os olhos, um riso nervoso escapando antes que pudesse contê-lo — Sério? Elohim? Certeza que isso foi decisão do conselho… só pode!

— Tem preconceito? — Rebateu, lançando-lhe um olhar de canto, afiado como lâmina.

— Não… — desviou o olhar para o teto, como se as respostas estivessem escondidas entre as sombras — … é que ninguém lá tem força suficiente para fazê-lo um guerreiro de verdade

— Mas guerreiros não nascem de tempos difíceis?

— Não! — Rebateu com força, fechando os olhos e balançando a cabeça, como quem quer afastar um pensamento perigoso — Disciplina e tática não se ensinam em meio a guerra e desespero… quantos guardiões terrestres ascenderam ao cargo? Nenhum!

— Argumento fraco! — riu, sem qualquer medo de parecer tola — O que garante que ele não seja… uma anomalia?

— Raio? Duas vezes? — Cobriu o rosto com a mão, suspirando com frustração — E… você está disposta a jogar tão alto assim?

— Eu? Você está me dando tanta importância… — Apoiou as mãos nos próprios ombros e sorriu boba, quase teatral — Sou tão incrível assim? Hihi…

— Não incrível… — Estalou a língua com desdém leve — mas terrivelmente manipuladora, igual a uma serpente.

— Uma serpente aficionada em um humano?

— Guardiões não têm prazeres e desejos comuns… — enfim se levantou, a voz já sem o peso de antes — Bem, se não posso mudar nada… vou tentar fazer ele aprender tudo antes de ir. Tá?

O clima morreu ali. E, junto com ele, o calor da discussão também se dissipou, deixando no ar apenas um silêncio estranho.

— Ah…

— Que foi? — Ergueu o olhar, desconfiado, mas sem hostilidade.

Era estranho vê-la daquele jeito.

Afinal… quando animais frios chegavam ao tédio? Quando criaturas feitas de puro cálculo e veneno paravam para bocejar diante do mundo?

Nunca!

— Nada… — respondeu, pousando os dedos sobre a mesa; sentiu um fio de eletricidade correr pela pele, breve demais para ser susto, forte o suficiente para arrepiar — …Você é mais interessante do que parece… hm…

— Não! Não sou! — disparou, a voz ecoando um pouco mais do que deveria.

E deixou o lugar. Os últimos pés a se afastarem naquela noite, sumindo entre sombras e frio.

Dizem que, depois, houve sussurros ao redor… lábios sedutores roçando o silêncio das redondezas.

Mas só boatos.

Terminava mais uma noite.

Bem, nem todos iriam dormir ou seduzir corpos adormecidos. O velho… Hayashan Beyoter ainda caminhava pelas terras vazias sem ao menos bocejar, deixando atrás de si um rastro de caos sem nem ao menos suar.

Sombras reduzidas a pedaços. Não eram duas, nem dez… eram centenas de milhares de manifestações, despedaçadas e lançadas para além — rasgadas do próprio tecido em que existiam.

Se fosse brasileiro, estaria sem aposentadoria.

Suspirou, firme, tão fundo que fez as veias saltarem no pescoço e nas têmporas.

Que estranho…

Pensou ao erguer os olhos para o horizonte, algo lá longe chamando mais atenção do que deveria, como um convite silencioso e incômodo.

Não disse mais nada.

Mas viu, com um estrondo, o horizonte ser tragado por uma escuridão infindável. Atrás de si, as sombras que antes caminhavam foram desfeitas em pó.

Tudo aconteceu rápido demais…

Mal teve tempo de entender o rompante de caos que o atingiu: um corte violento rasgou-lhe a perna, dilacerando-a e espalhando sangue quente pelo chão.

Tão fervente que chegava a queimar, igual a chama em álcool derramado pelo chão.

Eu pretendia matá-lo… A voz ecoou em todos os cantos, firme, estafada, mas onipresente.

Ele, no entanto, não se abalou.

— Na perna? — Cuspiu — Pela voz, é jovem… e pela forma como fala e se afirma, é precoce e burro! — riu — Mas admiro sua habilidade em me enganar…

Desviou dos próximos quatro golpes, vindo de todas as direções ao mesmo tempo.

Saltou para cima, rápido, e freou o avanço ao alcançar a copa de uma árvore, galhos estalando sob seus pés antes de silenciarem.

— Velho maldito!

Dali, ele via tentáculos negros tomando todo o horizonte, desde as planícies gélidas até a selva dos ladrões de amores.

Sim, esse era o nome brega mesmo.

— E estou errado?

O olhar dele se conteve no instante em que falou… e, dos tentáculos, começou a surgir um rosto — denso, viscoso, como águas de esgoto misturadas a óleo velho.

— Ahn? — escapou, mais reflexo do que pergunta.

Mas, em vez de se revelar por completo, a coisa se moveu: um dos tentáculos disparou, líquido que se enrijeceu no ar, convertendo-se num golpe perfurante que veio direto contra seu braço.

Era uma cilada, Bino.

Fim da leitura

Capítulo 53 concluído

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