Fighters WorldCAPÍTULO 52 - 51 - O Despertar do Príncipe
Capítulo 52Capítulo 51 - O Despertar do Príncipe
Fighters World
O som ecoou por toda a instalação.
Grave. Metálico. Inconfundível.
“Atenção a todos os lutadores do Projeto Fighters World.”
Corredores silenciaram.Portas se abriram.Passos começaram a convergir.
“Reúnam-se imediatamente no Salão Principal.”
O nome por trás da voz não precisava ser anunciado.Todos sabiam.
Daizen Takatora.
O Salão Principal foi tomado por presença.Dezenas de lutadores alinhados, uniformes impecáveis, auras contidas por respeito — ou por medo.
No centro, Daizen estava parado, mãos para trás, expressão neutra demais pra ser confortável.
— A partir de hoje — começou, a voz amplificada pelos alto-falantes internos —, o Projeto Fighters World passará a operar sob um novo sistema de medição de força.
Um murmúrio baixo atravessou o salão.
— OsRanks. — ele continuou. — DeE a S.Cada um representa não apenas poder bruto, mas impacto real no equilíbrio do mundo do Sen.
O silêncio voltou a dominar.
— Em consequência disso — Daizen ergueu a mão —, as lutas previstas para daqui a doze horas foramadiadas.
Alguns rostos se fecharam.
— O novo prazo é dequarenta e oito horas.
A informação caiu pesada.Tempo extra nunca era um presente no Fighters World.
Daizen deu um passo para o lado.
No centro do salão, o chão se abriu em linhas precisas.De dentro, umaesfera negrase elevou lentamente.
A superfície parecia absorver a luz.Em volta dela, umaaura roxapulsava, viva, instável.
— Esta é aEsfera de Classificação. — explicou Daizen. — Toquem nela.
— Ela irá analisar o Sen, o corpo e a existência de cada um de vocês.— O Rank revelado…não pode ser alterado por vontade própria.
Um por um, os lutadores avançaram.
QuandoSan Ryoshitocou a esfera, a aura explodiu em roxo intenso.
RANK: A+
O salão reagiu com respeito imediato.
Mitsuya Drakofoi o próximo.
A resposta foi quase idêntica.
RANK: A+
Os olhares começaram a pesar.
Shidou Akiratocou a esfera.A aura oscilou, firme.
RANK: A
Renji Asakuraavançou em seguida.
A esfera vibrou.
RANK: A
A linha entre os monstros e o resto do mundo ficava clara.
Saka Senroutocou a esfera, respirando fundo.
RANK: B+
Naki Senrouveio logo depois.
A aura reagiu de forma semelhante.
RANK: B+
Kaede Shizumaencostou a mão com calma.
RANK: B
Genjiro Okabetocou a esfera, expressão firme.
RANK: B
Tsubasa Hayashifoi o penúltimo.
A esfera demorou um segundo a mais do que o esperado.
RANK: B-
Alguns cochichos surgiram.
Então, restou apenas um.
Ryuji Arata.
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
Ele caminhou até a esfera sem pressa.Sem aura.Sem intenção de impressionar.
Quando a mão dele tocou a superfície negra…nada explodiu.
Nada brilhou.
A aura roxa apenas pulsou uma vez.
O visor apagou.
Rank C.
Nada mais.
Ryuji ficou parado alguns segundos a mais que o normal.Não foi raiva. Não foi choque.Foi um vazio seco, daqueles que fazem o peito afundar.
As vozes ao redor viraram ruído.Rank A comemorando. Rank B suspirando aliviado.E ele ali, sentindo que algonão encaixava, mas sem saber explicar.
Quando virou o corpo pra sair…o mundoesticou.
Um arrepio subiu da base da coluna até a nuca.Não era medo.Era reconhecimento.
O ar ficou pesado.O Sen ao redor delese ajoelhou, mesmo que ninguém percebesse.
Então a voz veio.
Não alta.Não agressiva.Absoluta.
“Ryuji Arata.”
O coração dele bateu uma única vez. Forte.
“O mundo decidiu o seu valor.”“Mas o mundo erra.”
A realidade pareceu desacelerar.
“Se você aceitar o desafio:O Despertar do Príncipe,você caminhará por um sistema que não pertence a este mundo.”
Silêncio.
“Você ficará mais forte, Ryuji Arata.”“Não por hierarquia.”“Mas por direito.”
A última pergunta caiu como um veredito:
“Você aceita?”
Ryuji não sorriu.Não tremeu.Não hesitou.
Os olhos ficaram frios, focados — diferentes.
— …Aceito.
No mesmo instante, algose moveu.
Não dentro dele.Masacima.
Como se o mundo tivesse acabado de reconhecerque um trono…finalmente tinha dono.
O mundo voltou ao normal.
Ninguém gritou.Ninguém percebeu.Nenhum alarme tocou.
Só uma única linha queimou na mente de Ryuji, limpa, sem emoção, sem ornamento:
DESAFIO ACEITO.TÍTULO INICIAL CONCEDIDO: PRÍNCIPE.O SISTEMA DO REI FOI ATIVADO.A PARTIR DE AGORA, O CRESCIMENTO É OBRIGATÓRIO.
Nada mais.
Sem números.Sem explicações.Sem misericórdia.
Ryuji sentiu o peso daquilo cair nos ombros como uma coroa invisível.
Ele saiu dali em silêncio.
Chegou ao quarto.Trancou a porta.Encostou as costas nela.
— …Sistema. — disse baixo. — Como eu fico mais forte?
Nenhuma resposta.
Por um segundo, achou que tinha sido loucura.Cansaço. Pressão. Frustração.
Então o chão umedecceu.
O cheiro veio primeiro.Terra molhada. Ferro. Algo antigo.
A luz apagou como se nunca tivesse existido.
Quando Ryuji piscou…não estava mais no quarto.
O chão era escuro e encharcado, como areia depois de uma chuva impossível.Cada passo afundava um pouco.O céu não existia — só um vazio pesado acima.
Ele entendeu antes mesmo da voz falar.
“Você entrou no Domínio Interno.”
A voz não vinha de lugar nenhum.Vinha de tudo.
“Desafio Diário disponível.”
O coração de Ryuji acelerou.
“Você aceita?”
— …Aceito.
No instante em que a palavra saiu, o mundo mudou.
A água sumiu.O chão se desfez em areia, infinita, seca, viva.
O vento cortou.
E então…a areia se moveu.
Um corpo gigantesco rompeu o solo com violência.Escamas negras como obsidiana.Olhos verticais brilhando como lâminas.
Uma serpente colossal, mais de vinte metros de puro ódio silencioso, ergueu-se diante dele.Cada respiração dela fazia o chão vibrar.
A voz voltou. Fria. Justa.
“DESAFIO DIÁRIO: PROVA DO CORPO.”“OBJETIVO: DERROTAR O MONSTRO.”“RESTRIÇÕES ATIVAS:”— Kidou: BLOQUEADO.— Sen Externo: BLOQUEADO.— Auxílios: NEGADOS.
Silêncio.
“Aqui, Príncipe…”“Só a sua vontade luta.”
A serpente abriu a boca.Presas do tamanho de espadas reluziram.
Ryuji fechou os punhos.
Sem aura.Sem poder.Sem atalhos.
Só carne, instinto…e um trono distante demais pra ser alcançado sem sangue.
— …Então é assim que começa.
A serpente atacou.
E o Sistema do Reiobservou.
A serpente veio como um deslizamento de mundo.
O corpo colossal cortou a areia num arco violento, rápido demais pra algo daquele tamanho.Ryuji mal conseguiu rolar antes das presas rasgarem o espaço onde sua cabeça estava.
O impacto fez o chão tremer.
— Droga… — ele cuspiu areia, se levantando cambaleante.
A cauda veio logo depois.
CRACK.
O golpe acertou em cheio o torso dele e o lançou longe, o ar sendo arrancado dos pulmões.Ryuji caiu rolando, o corpo queimando.
Sem Kidou.Sem Sen.Sem truque.
Só dor.
Ele tentou avançar, acertar um soco no corpo da criatura — e sentiu os nós dos dedos gritarem.Era como bater em pedra viva.
— Tá de sacanagem… — murmurou, respirando pesado. — Isso aqui tá sendo pior do que enfrentar o Ayumi e o Kaede juntos…
A serpente não reagiu às palavras.Só atacou de novo.
Mordida.Cauda.Areia voando.
Ryuji errou o tempo por um segundo — e isso custou caro.As presas atravessaram seu ombro de raspão, rasgando carne. O sangue escorreu quente.
Ele gritou.Não de medo.De raiva.
Caiu de joelhos, a visão tremendo.
— …Então é isso? — pensou. — Eu vou morrer aqui igual um idiota?
A serpente se ergueu mais uma vez, sombra cobrindo tudo.O golpe final vinha.
Ryuji não pensou em técnica.Não pensou em honra.Não pensou em vitória bonita.
Pensou em sobreviver.
Quando a boca da criatura se abriu, ele se jogou pra frente, direto pra zona mais perigosa.O corpo dele foi engolido até a cintura.
As presas atravessaram o chão atrás dele.
Por dentro, tudo era quente, apertado, pulsando.
Ryuji cravou os dedos nos olhos da serpente.
Ela rugiu. Um som que rasgou o domínio inteiro.
Ele socou, mordeu, rasgou.Não com força perfeita — com desespero.
A criatura se debateu.O corpo gigantesco se contorceu.
Ryuji escorregou, caiu na areia, coberto de sangue que não sabia se era dele ou dela.
A serpente tentou se erguer…e falhou.
O corpo caiu pesado, a areia engolindo aos poucos aquela massa absurda.
Silêncio.
Ryuji ficou deitado, olhando pro vazio, o peito subindo e descendo como se fosse explodir.
Nenhuma pose.Nenhum grito de vitória.
Só cansaço.
— …Vencer assim é uma merda… — sussurrou. — Mas vencer é vencer.
A voz voltou. Não fria. Justa.
“DESAFIO DIÁRIO CONCLUÍDO.”
O mundo começou a se desfazer em areia.
“AVALIAÇÃO: INEFICIENTE.”“RESULTADO: APROVADO.”
Antes de tudo desaparecer, a última frase caiu como uma sentença:
“UM REI NÃO PRECISA LUTAR BONITO.”“PRECISA VENCER.”
E Ryuji apagou.
O corpo da serpente virou poeira.
A areia parou de se mover.
Ryuji ainda estava no chão quando a voz voltou — não solene, não cruel. Exata.
“RECOMPENSA CONCEDIDA.”“TODOS OS ATRIBUTOS: +10.”
As palavras ficaram suspensas por um instante.
Ryuji franziu o cenho.
— …Atributos?
O mundo não respondeu.
Mas algo clicou dentro dele.
Não foi empolgação.Foi estranhamento.
— Espera… — murmurou, a respiração ainda pesada. — Isso é igual um jogo…
O pensamento veio acompanhado de um desconforto profundo.
Ele não tinha recebido força por mérito espiritual.Nem por despertar de Sen.Nem por talento.
Ele tinha sido recompensado.
Como uma ação bem-sucedida.Como um sistema avaliando desempenho.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, o chão desapareceu.
Ryuji acordou de repente.
O teto do quarto voltou com tudo, a realidade batendo forte demais.
O corpo inteiro doía.
Não uma dor específica — várias.Costelas latejando.Ombros pesados.Músculos queimando como se tivessem sido espancados por horas.
Ele tentou se mexer… e gemeu baixo.
— …Droga…
A sensação era clara:não tinha sido sonho.
Cada movimento confirmava.O corpo lembrava da luta mesmo que a mente quisesse negar.
Ryuji ficou deitado, encarando o teto, o peito subindo devagar.
— Então é assim… — pensou. — Eu fico mais forte… pagando com o corpo.
Um silêncio pesado tomou o quarto.
E pela primeira vez desde que o Sistema falou com ele, Ryuji não sentiu empolgação.
Sentiu medo.
Porque agora ele sabia:o caminho pra ficar forte não ia pedir talento.
Ia pedir sobrevivência diária.
E o Sistema do Reinão dava recompensas de graça.
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