Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na MesaVolume 3 – Jogo 44 – Jogo 44: Praia Nublada - Dia 1/2/3/4-8/Ex3 (parte 2)
Capítulo 8.2O céu noturno cintilante não oferecia apenas uma bela visão, mas também um benefício prático: era possível medir a passagem do tempo pelo movimento das estrelas. Como não havia nada dentro da cabana que funcionasse como relógio, durante a noite as jogadoras usavam as estrelas para gerenciar os turnos de vigia. Era um método curioso de marcar o tempo — ao mesmo tempo romântico e primitivo. Enquanto permanecia no ar gelado, o único desejo de Yuki era que, por algum capricho do destino, as estrelas começassem a se mover mais rápido pelo céu.
Cortando essa linha de pensamento tola, Yuki voltou a se concentrar em suas funções.
Ela manteve os olhos atentos à área ao redor da cabana. Não viu Essay — nem qualquer outro sujeito suspeito, aliás. Yuki fez mais do que apenas observar; ela também patrulhou os arredores, mantendo-se alerta a qualquer anomalia. Depois de completar dez voltas ao redor da cabana, já não precisava pensar conscientemente em caminhar, então usou sua capacidade mental livre para refletir sobre outras coisas.
Era o fim do quarto dia. Como o jogo duraria apenas uma semana, restavam apenas três dias. Para ser mais precisa, como o jogo havia começado pela manhã, ainda faltavam pouco mais de três dias. Elas já tinham passado da metade.
No fim das contas, nada havia acontecido durante o dia. O que Essay estaria fazendo? Estaria elaborando um plano de ataque após descobrir que quatro jogadoras estavam unidas? Ou teria ido atrás de Maguma, julgando irrealista enfrentar o grupo em número, e as duas estariam lutando naquele exato momento?
Yuki esperava que fosse a segunda opção.
“…………”
Ela continuou vigiando. Tirando a temperatura, seu tempo do lado de fora foi tranquilo. Os muitos eventos que haviam ocorrido nos últimos dias passaram por sua mente como uma estrela cadente.
Pensando bem, Yuki não tinha muito do que se orgulhar naquele jogo. No segundo dia, Mitsuba fizera dela uma tola; no terceiro, ela caíra em uma armadilha de Maguma. Também não havia percebido a existência dos implantes por conta própria, precisando que Airi praticamente desenhasse a resposta para ela. E, embora estivesse na melhor posição possível para perceber que Essay estava viva, a ideia sequer lhe passara pela cabeça até o quarto dia.
Em um jogo repleto de veteranas experientes, Yuki vinha ficando para trás o tempo todo.
E então havia Essay — sua colega pupila, uma jogadora experiente em seu quinquagésimo jogo.
Yuki não tinha escolha senão reconhecê-la. Não conseguia reprimir completamente o pensamento que surgia em sua mente.
Por favor, não me faça lutar contra a Essay.
Ela esperava que Essay tivesse como alvo Maguma. Mais do que isso, esperava que a teoria de que Essay era a assassina estivesse errada. Idealmente, uma terceira parte seria a culpada, e o jogo já teria terminado pelo simples fato de três jogadoras terem morrido.
Esses pensamentos passaram por sua cabeça.
“…Eu sou patética”, murmurou Yuki.
Esperar e rezar para que tudo dê certo? Não é assim que uma jogadora age. Não foi você mesma que estava preocupada com o fato de as coisas estarem fáceis demais até alguns dias atrás? É assim que você reage diante de uma oponente um pouco mais formidável? Não seja ridícula. Você está ignorando completamente os ensinamentos da Mestra.
Por que não aprender com sua colega pupila?
Aprenda com a pessoa que abriu o próprio corpo—
“……?”
Yuki franziu as sobrancelhas.
(5/22)
A partir daí—
Para a ansiedade de Yuki, o tempo continuou a passar sem incidentes.
O quinto dia chegou. Tirando o fato de que a convivência em grupo começava a ficar um pouco desgastante, não houve problemas.
O sexto dia chegou. Maguma não apareceu na reunião da manhã. Será que Essay a havia matado, ou Maguma simplesmente não viu necessidade de comparecer? Como Maguma poderia ser a verdadeira culpada, ela poderia ter faltado de propósito para atrair o grupo para fora; assim, as quatro jogadoras continuaram entrincheiradas na cabana.
O sétimo dia chegou. O grupo começou a se perguntar se havia entendido as regras do jogo de forma errada. Será que, no primeiro dia, estavam certas sobre precisar construir uma jangada para escapar da ilha? Será que estavam caindo exatamente na armadilha de Essay ao permanecerem juntas como um grupo de quatro? Embora uma discussão acalorada tenha surgido entre elas, no fim o grupo decidiu manter o estado atual das coisas. Raciocinaram que, já tendo chegado ao sétimo dia, não seria tarde demais agir depois de ver o que o dia seguinte lhes reservaria.
Fora essa discussão, nada aconteceu.
E, finalmente, as jogadoras alcançaram a marca de uma semana.
Na manhã do oitavo dia, Yuki foi acordada com um sacolejo.
(6/22)
Yuki saltou da cama, lançando o cobertor com força para o ar. Aquilo bloquearia a visão de quem quer que a tivesse sacudido para acordar. Usando apenas a força das pernas, Yuki se levantou sobre a cama compartilhada pelas quatro jogadoras e adotou rapidamente uma postura de combate.
No entanto, seus esforços foram inúteis, pois a pessoa ali não era Essay.
“Q-qual é a ideia?”
À frente de Yuki estava alguém se remexendo sob o cobertor que ela acabara de arremessar. Após um breve momento, a garota conseguiu tirá-lo, revelando o rosto.
Era Mozuku.
“…Bom dia”, Yuki cumprimentou. No mesmo instante, um alívio tomou conta dela.
Yuki havia baixado a guarda. Como pôde não acordar antes de a garota tocá-la? Embora não fosse a primeira vez naquela semana que alguém a acordava de surpresa, aquilo era um novo fundo do poço. Ela havia se tornado descuidada demais nesse período sem incidentes.
Ela examinou a cabana. Não havia ninguém lá dentro além dela e de Mozuku. Como o grupo havia adotado um sistema em que sempre havia uma pessoa do lado de fora de vigia, não era estranho faltar alguém, mas onde estava a outra? Trancada no banheiro, talvez?
“Eu, ah… foi mal”, Yuki se desculpou com Mozuku. “Já é a hora do meu turno? Desculpa ter feito você me acordar.”
“Oh, não, não é isso…”
Mozuku fez uma expressão aflita, aparentemente tentando se lembrar do que precisava dizer. Dois segundos depois, como se fosse substituir todo o ar do corpo, os olhos, as narinas e a boca de Mozuku se abriram ao mesmo tempo.
“Ah, é mesmo! Eles vieram nos buscar!”
Essas palavras dissiparam instantaneamente o resto da sonolência de Yuki.
(7/22)
Yuki correu para fora atrás de Mozuku, seguindo a liderança da garota enquanto ela escalava a parede externa da cabana até o telhado.
Airi e Koyomi já estavam lá.
“Finalmente acordou?”, Koyomi perguntou.
Sem sequer cumprimentar, Yuki pressionou Koyomi por respostas. “É verdade? Nosso transporte para fora da ilha realmente chegou?”
“Sim. Olha ali.”
Yuki se virou na direção que Koyomi apontava.
O telhado da cabana oferecia uma visão mais ampla do mar ao redor. Yuki conseguia até enxergar além da floresta, o oceano do outro lado da ilha. Embora ainda não pudesse ver nenhum sinal de terra, havia algo no horizonte que não estava lá uma semana antes.
Um navio.
Da posição de Yuki, ele parecia não ser maior que uma semente de papoula, mas era inconfundivelmente um navio.
“Você tem que agradecer à Airi”, disse Koyomi, agora apontando para ela. “Ela estava de vigia esta manhã e ficou observando daqui do telhado. Concluiu que um navio teria que vir pelo outro lado da ilha.”
“As águas deste lado são rasas”, explicou Airi. “Nenhum navio conseguiria se aproximar. Faz sentido que ele venha pelo lado oposto à praia.”
Yuki manteve o olhar fixo no barco. Ele parecia seguir diretamente em direção à ilha. Não havia chance de um navio aleatório e sem relação alguma estar passando por ali naquele momento, o que significava que tinha sido enviado pelos organizadores.
“Então, no fim das contas, nada aconteceu”, comentou Koyomi. “Será que a gente só estava se enganando achando que a Essay ainda estava viva?”
“Difícil dizer…”, respondeu Yuki.
Era inegável que um navio havia vindo buscá-las. No entanto, o jogo ainda não havia terminado. Talvez Essay estivesse planejando eliminar alguém no momento em que todos baixassem a guarda, a poucos passos da linha de chegada. Elas precisavam continuar atentos.
“Será que deveríamos mesmo estar aqui?”, perguntou Mozuku. A pergunta podia soar bastante profunda, dependendo de como fosse interpretada. “O navio não consegue chegar até esta área, certo? Isso quer dizer que não seremos resgatadas a menos que vamos para o outro lado?”
“Não… Eles certamente vão mandar um bote salva-vidas ou algo assim, não vão?”, Airi apresentou um argumento contrário. “O outro lado é cheio de penhascos, então também seria difícil para eles desembarcarem lá. Aposto que usarão um bote para chegar até nós.”
“A Essay ainda está à solta”, acrescentou Koyomi. “Eu ficaria apavorada de sair desta cabana. Seria prudente esperar um pouco e ver como as coisas se desenrolam.”
Yuki tinha a mesma opinião. Se estivesse no lugar de Essay, atacaria no momento em que as jogadoras tentassem sair da cabana em direção ao navio. Como já haviam decidido há muito tempo adotar uma estratégia de esperar para ver, Yuki relutava em deixar a área antes da última hora.
Essa relutância certamente não vinha do medo de Essay — ou pelo menos era isso que ela dizia a si mesma.
(8/22)
Dentro do navio, a agente de Essay balançava de um lado para o outro, acompanhando o movimento da embarcação.
(9/22)
A agente de Essay estava a bordo do navio de resgate enviado pelos organizadores do jogo. A embarcação avançava a toda velocidade em direção à ilha isolada onde Cloudy Beach estava sendo realizado, para recolher as jogadoras sobreviventes.
Normalmente, navios de resgate eram pequenos e leves, priorizando a velocidade, mas aquele que transportava a agente de Essay era consideravelmente maior. Isso porque precisava cumprir várias funções além de simplesmente resgatar jogadoras. Por exemplo, o navio estava equipado com instalações médicas, para garantir a sobrevivência de jogadoras que tivessem sofrido ferimentos graves, além de botes infláveis para alcançar as águas rasas da ilha. Também havia soldados armados a bordo, aguardando para executar Essay caso ela falhasse em completar sua missão.
Havia agentes no navio também, prontos para receber de volta suas jogadoras ao fim do jogo.
A agente de Essay caminhava por um corredor da embarcação. Enquanto estava em sua cabine mais cedo, fora informada de que o navio chegaria em breve e recebera instruções para cumprir suas funções. Assim, com um colete salva-vidas por cima do terno preto, ela apressou o passo em direção ao local designado. Os outros sete agentes a bordo provavelmente faziam o mesmo.
Ao chegar a um cruzamento de quatro corredores, a agente parou subitamente. Um grupo de pessoas havia alcançado o caminho que ela pretendia seguir antes dela. Vestidos inteiramente de preto, com capacetes, óculos de proteção, luvas, botas e diversas outras peças de armadura, eles exalavam uma aura ameaçadora. Eram os soldados armados encarregados de executar Essay.
Enquanto aguardava que eles passassem, a agente murmurou para si mesma:
“Isso aí não vai servir pra nada.”
Ela se referia às armas robustas que cada soldado carregava. Eram submetralhadoras de aparência sinistra — do tipo que alguém pensaria que arrancaria um dedo se fosse tocada com a mão nua; do tipo que valeria uma fortuna mesmo como arma de modelo; do tipo que faria as pessoas morrerem de choque só de apontá-la para elas, sem sequer disparar.
Essas armas são inúteis, pensou a agente. Vocês só vão precisar usá-las se a Essay falhar. E, sinto muito, mas isso não vai acontecer. Não existe nenhuma jogadora viva que tenha chance contra ela. Ela é mais determinada, mais talentosa e mais cautelosa do que qualquer outra. Um mundo em que ela cai em chamas é um mundo podre.
Havia muita coisa que ela gostaria de dizer, mas, por estar apavorada demais para verbalizar qualquer pensamento diante de um grupo de soldados armados, manteve suas opiniões afiadas para si mesma. O único comentário que havia feito em voz alta fora aquele murmúrio anterior, abafado pelo som das botas dos soldados e que provavelmente não chegara aos ouvidos de ninguém.
Era isso que ela pensava — mas, ao contrário—
“Não. Eu vou usar uma.”
A resposta ecoou depois que os soldados desapareceram do campo de visão da agente.
A voz vinha de trás dela.
“Hã…?” Ela se virou.
Ali estava Essay.
(10/22)
“O qu—?!”
Antes que a agente pudesse gritar, uma mão cobriu sua boca.
“……???”
A agente observou atentamente a pessoa à sua frente enquanto murmurava.
Era Essay. Embora as bandagens enroladas em seu corpo dificultassem a identificação, o físico, o cabelo despontando do topo da cabeça e a voz de antes pertenciam claramente a ela.
“Silêncio. As coisas vão ficar complicadas se eu for pega.” Era, sem dúvida, a voz de Essay vindo debaixo das camadas de pano. Com a mão livre, ela ergueu um dedo até a boca enfaixada e fez “Shhh”.
A agente assentiu. Depois que Essay retirou a mão, a agente perguntou em voz baixa:
“É… então… o que você está fazendo aqui?”
Essay estava viva. Isso era esperado e nada surpreendente. Ainda assim, a agente não conseguiu deixar de se chocar com o fato de Essay ter aparecido diante dela parecendo uma múmia — e, mais ainda, por ter conseguido embarcar no navio antes mesmo de ele chegar à ilha.
“Tenho alguns assuntos para resolver aqui, então tomei a liberdade de embarcar mais cedo”, respondeu Essay.
Seu corpo estava completamente seco. Isso significava que ela havia remado até ali em uma jangada? Será que ela tinha mesmo embarcado em um navio em movimento sem sequer uma escada? Não restava dúvida na mente da agente de que sua jogadora era um monstro.
“Bem, é… acho que devo lhe dar parabéns por concluir cinquenta jogos”, disse a agente.
“……?” Essay inclinou a cabeça, confusa. “Ah, não. Isso ainda não aconteceu. Até agora, matei apenas duas jogadoras, então ainda não completei o jogo.”
“Hã? Então por que você está aqui…?”
“Naturalmente, para garantir que eu mate mais uma. Você não me ouviu? Eu vou ‘usar uma para mim’.”
Essay tinha dito isso. E a agente intuiu o significado por trás daquelas palavras.
“Não me diga… você veio a bordo para obter uma arma?”
“Sim”, respondeu Essay, com naturalidade.
“Você não pode fazer isso! Esses soldados estão aqui para te executar, sabia? Se descobrirem que você embarcou no navio sem cumprir as condições para concluir o jogo—”
“Não vejo problema. O jogo deve terminar depois que uma semana se passar e as jogadoras forem resgatadas. Como isso ainda não aconteceu, esses soldados não têm motivo para me matar, mesmo que me vejam. Não é assim?”
Talvez seja verdade…, pensou a agente. “Ainda assim, será um problema se você puser as mãos em alguém que trabalha para os organizadores.”
“Não acredito. As jogadoras são livres para usar qualquer coisa presente no local do jogo como bem entenderem. E, neste caso, podemos considerar o local não apenas a ilha, mas também as águas ao redor. Como este navio entrou na área do jogo, ninguém a bordo pode razoavelmente se opor a qualquer coisa que lhes aconteça.”
A agente ficou sem palavras. Seu silêncio indicava tanto a incapacidade de formular um contra-argumento quanto a incredulidade diante das intenções de sua jogadora.
“Estou com pressa, então, com licença.” Essay fez um pequeno aceno de cabeça.
“C-claro, tudo bem…” A agente assentiu de volta. “…Você realmente bolou um plano insano, hein?”
Quem, afinal, pensaria em roubar armas dos organizadores para tentar concluir um jogo?
Os lábios de Essay se moveram sob as bandagens. Embora sua expressão estivesse coberta, ela certamente estava sorrindo.
“É do meu estilo contornar as regras em vez de segui-las.”
(11/22)
Yuki perdeu o navio de vista atrás da floresta à medida que ele se aproximava da ilha. O grupo desceu do telhado da cabana e aguardou a chegada da equipe de resgate.
Pouco tempo depois, um bote inflável surgiu de uma das extremidades da praia, provavelmente lançado a partir do navio maior. Ele seguia diretamente em direção à cabana onde Yuki e as outras aguardavam.
Yuki observou atentamente o bote. Aparentemente, alguns botes modernos eram equipados com motores, mas aquele que se aproximava da ilha era operado manualmente. A pessoa que remava estava vestida inteiramente de preto, mas não usava o traje característico dos agentes do jogo; a roupa era mais robusta, semelhante ao uniforme de uma força especial militar. O capacete impedia as jogadoras de confirmar sua identidade.
“Mostre o rosto!” A voz de Koyomi ecoou pela praia. “Não nos trate como crianças. Não vamos sair com um estranho!”
Os braços do remador pararam por um breve instante. Mas foi só isso. Ele continuou a remar, como se nada tivesse acontecido.
Ao perceberem aquela reação claramente suspeita, as quatro jogadoras se afastaram umas das outras, preparando-se para o que estivesse por vir. Dependendo da arma empunhada pelo oponente, todas poderiam ser abatidas de uma só vez se permanecessem juntas.
“Vamos deixar que chegue um pouco mais perto”, disse Airi. “Se ainda assim não mostrar o rosto, fugimos para a floresta.”
As outras três assentiram em concordância.
O grupo acompanhava atentamente cada movimento do remador. Embora todos estivessem com os olhos fixos na figura misteriosa, a pessoa não olhou de volta. Apenas continuou remando em silêncio, sem demonstrar qualquer intenção de remover o capacete e revelar o rosto.
No exato momento em que Yuki sentiu o perigo…
…a pessoa de preto fez seu movimento.
Ela retirou um objeto da parte traseira do bote, que estava coberto por um pano. Arremessou-o para a frente com tanta força que o tecido voou, revelando a identidade do objeto por baixo.
Mesmo à distância, era imediatamente reconhecível como uma arma de aparência sinistra. E, claro, o cano estava apontado para a cabana.
Com a coronha apoiada no ombro, o remador se posicionou para atirar.
As quatro jogadoras reagiram ao mesmo tempo.
(12/22)
Yuki saltou para o lado. Airi se protegeu atrás de um canto da cabana. Koyomi se agachou onde estava. Mozuku entrou pela janela aberta.
Vários disparos ecoaram.
Só isso? Yuki se perguntou ao tocar o chão. Armas semelhantes em mangás e filmes sempre disparavam em rajadas rápidas, com um ratatatatatá, então ela havia esperado — e, em parte, até desejado — vivenciar algo assim. Pelo visto, porém, ser alvejada não era tão exagerado na vida real. E, como aquilo era o mundo real, ninguém havia se ferido. Yuki recuperou o equilíbrio e, ao disparar em direção à floresta, viu que Airi, Koyomi e Mozuku já estavam fugindo.
“Eu não acredito nela!”, Yuki gritou enquanto corria. “Ela pegou essa arma do navio?!”
A identidade da agressora era óbvia — Essay. Ninguém mais lançaria um ataque daquele tipo.
Ela só podia ter obtido o equipamento no navio de resgate que haviam avistado. Se a culpada tivesse acesso a uma arma dessas desde o início, certamente a teria usado antes. Havia apenas uma explicação plausível para ela começar a usá-la naquele momento: a arma não estava na ilha até instantes atrás. Os organizadores provavelmente a trouxeram para executar a culpada, e Essay deve tê-la roubado do navio de resgate.
Mais disparos soaram atrás delas.
Yuki não conseguiu evitar olhar para trás. Felizmente, ela e as outras três estavam ilesas. A areia levantava fumaça em vários pontos. Não era que Essay fosse uma péssima atiradora; ela simplesmente estava longe demais. Como o grupo se mantivera cauteloso, Essay não conseguira se aproximar o suficiente para ter um bom alcance.
“O-o que a gente faz agora?!”, Mozuku gritou. A garota carregava algo nas mãos, que devia ter pego na cabana.
“O que mais podemos fazer além de correr?!”, respondeu Koyomi. “Mesmo em maior número, não temos chance contra uma arma! A partir de agora, nosso time está dissolvido!”
Koyomi balançava os braços, correndo a toda velocidade. Como havia se agachado na água há pouco, as mangas de seu casaco curto estavam encharcadas, espalhando respingos ao redor.
“Quem for o alvo, sem ressentimentos! Fechado?!”
(13/22)
Depois de saltar do bote inflável, Essay atravessou a praia em disparada, com a submetralhadora em mãos.
Idealmente, ela teria preferido matar uma jogadora ali mesmo na areia, mas sabia desde o começo que isso seria improvável. Aquelas quatro eram veteranas de jogos mortais. Se fossem do tipo que cairia numa emboscada surpresa como aquela — que, aparentemente, mal havia sido uma surpresa —, o jogo teria sido fácil desde o início.
Seus alvos quase certamente haviam percebido a chegada do navio. Por isso tinham fugido para a floresta. Se conseguissem atravessar as árvores até o outro lado da ilha, seria o fim para Essay. Ela não permitiria que isso acontecesse.
Essay avançou pela floresta atrás das quatro. O terreno trazia vantagens e desvantagens. Como não faltavam obstáculos capazes de bloquear balas, a ameaça de sua arma diminuía bastante. Por outro lado, como era difícil se mover em silêncio, Essay podia determinar facilmente as rotas de fuga das outras. Além disso, ela não vestia nem traje de banho nem fantasia de múmia — estava totalmente equipada. Em comparação às quatro, que estavam praticamente nuas e precisavam se desviar de cada galho no caminho, Essay tinha vantagem em agilidade. Não seria difícil alcançá-las.
A questão era — quem atacar?
Ela não precisou pensar — Mozuku.
A garota estava em seu décimo jogo, sendo a menos experiente do grupo. Presumivelmente, isso também a tornava a mais fácil de matar. Muito provavelmente, Mozuku ainda não aprendera a se esquivar de balas ziguezagueando entre as árvores, nem desenvolvera a técnica de detectar hostilidade e prever com precisão o momento dos disparos. Claro, com o equipamento atual, Essay quase certamente poderia matar qualquer uma que encontrasse, mas a prática padrão era ir atrás do alvo mais fácil. Quando ainda contava com os implantes, Mozuku não era prioridade — mas isso não se aplicava mais. A vida da garota seria dela.
Essay alcançou Mozuku rapidamente.
Mas, ao contrário do que supusera, a garota parecia capaz de detectar a presença de outros; ela se virou para encarar a perseguidora.
Aproveitando o instante em que o ritmo de Mozuku diminuiu, Essay apontou o cano da arma para a garota —
— e abriu fogo.
Agora que estava perto o suficiente, mudou a arma para o modo totalmente automático. Mozuku se jogou atrás de uma árvore grande próxima, mas não antes de Essay confirmar que uma bala havia atingido sua perna.
“……!!”
Mozuku soltou um grito incoerente.
Essay havia acertado. Mozuku não podia mais fugir. Nessas circunstâncias, finalizar o trabalho seria moleza para Essay. Ela chegou a se sentir confiante o bastante para desviar o olhar e trocar o carregador vazio, mas…
…foi forçada a parar ao sentir hostilidade vindo da sua frente.
Essay ergueu o olhar. Mozuku espiava por trás da árvore, expondo cerca de 70% do corpo. As mãos estavam juntas — mas não em oração.
Elas envolviam um objeto com formato de arma.
O dedo de Mozuku no gatilho se contraiu.
(14/22)
Essay desviou por reflexo.
Sua mente ficou presa no quão pouco barulho a arma fizera no momento em que disparara. Por curiosidade — e também pelo impulso gerado ao se esquivar do ataque —, Essay girou parcialmente o corpo e viu o que havia atingido a árvore atrás dela.
Eram os dispositivos do tamanho de pílulas que haviam sido implantados nos corpos das jogadoras.
Embora apenas um disparo tivesse ecoado, dois implantes haviam sido lançados. Fios se estendiam a partir de cada um deles, ligando-os à arma nas mãos de Mozuku.
A arma era um taser.
Não só isso — era do tipo que disparava eletrodos. Essay não havia recebido um desses como culpada, nem existia qualquer item parecido no navio de resgate. Considerando que a arma utilizava os dispositivos implantados, ela só podia ter vindo de um lugar.
“— Você fez isso?”
Mozuku não respondeu à pergunta surpresa de Essay.
Observando melhor, dava para ver que a arma havia sido montada de forma bastante rudimentar, sem qualquer refinamento artesanal. Era, sem dúvida, feita à mão. As cabanas da ilha tinham fornecimento de eletricidade, além de vários eletrodomésticos. Para alguém com o conhecimento adequado, não seria impossível fabricar algo assim do zero.
Essay se lembrou do que Mozuku fizera durante o jogo. Embora não tivesse observado a garota diretamente, ela acompanhara o movimento de seus transmissores. Durante todo o segundo e o terceiro dia, Mozuku permanecera em sua cabana. Essay chegara a se perguntar por que a garota não estava fazendo nada, mas agora tudo fazia sentido. Mozuku havia se trancado ali para construir aquela arma. Como ela fora feita usando os implantes, a garota só podia tê-la concluído no quarto dia ou depois disso — mas provavelmente concebera a ideia de criar uma arma muito antes, talvez logo após o início do jogo.
Enquanto Essay permanecia ali, paralisada pelo choque, Mozuku jogou sua arma de lado — e sacou uma segunda.
Antes que ela pudesse mirar, Essay se moveu. Não para frente, mas para trás. Ela imitou a ação anterior de Mozuku e se protegeu atrás de uma árvore. Mozuku aparentemente percebeu que atingir Essay naquela posição seria impossível, então nenhum disparo soou, e Essay não foi atingida na perna como Mozuku fora.
Essay não havia antecipado esse desdobramento. Como Mozuku poderia ter feito uma arma daquelas? Essay se considerava bastante inteligente, mas nem mesmo ela seria capaz de algo assim. A situação foi um lembrete brutal de que não se deve julgar um livro pela capa.
Em seguida, Essay se perguntou o quão poderosa aquela arma realmente era. Enquanto armas de fogo improvisadas geralmente eram inferiores às produzidas em massa, o oposto costumava valer para tasers. Os modelos comerciais, voltados à autodefesa, eram propositalmente limitados em potência, mas a arma nas mãos de Mozuku provavelmente não fora criada com esse cuidado. Um único disparo poderia causar morte instantânea. Embora Essay tivesse modificado seu corpo com grande cautela, ele não era um isolante perfeito. Um choque elétrico poderia ser tão letal — ou até mais — para ela quanto para uma pessoa comum.
Concluindo que não havia outra escolha, Essay recuou ainda mais.
Ela se afastou cada vez mais, fugindo da cena. Com sua razão para atacar aquela garota completamente anulada pela descoberta de que Mozuku tinha uma arma, Essay decidiu que o mais sensato era cortar suas perdas.
Ela não sentiu pânico. O jogo ainda não havia terminado. Havia mais do que tempo suficiente para caçar outra jogadora.
(15/22)
A presença hostil de Essay desapareceu.
Em resposta, Mozuku desabou no chão. Ela já estava sentada, mas agora escorregou ainda mais, até ficar caída de bruços.
Seus olhos se voltaram para o “revólverzinho” em sua mão esquerda. Ela puxou o gatilho de forma displicente. Com um fraco pew!, dois pequenos dispositivos que antes estavam implantados em seu corpo voaram para fora.
“…Ainda bem…”, murmurou Mozuku, saboreando a alegria de estar viva.
Então, ela jogou fora seu trunfo — uma arma de brinquedo que não fazia nada além de disparar dispositivos.
Tudo não passara de um enorme blefe. Um taser em forma de arma de fogo que disparava eletrodos? Embora Mozuku tivesse desejado desesperadamente criar um, seus esforços haviam fracassado. Ela havia estudado engenharia elétrica na faculdade, mas abandonara o curso no segundo ano, carecendo do conhecimento especializado necessário para construir algo assim. Nunca havia se arrependido tanto de não ter estudado mais quanto naquele momento.
Sem outra opção, Mozuku decidira blefar, criando um objeto que se parecesse com um taser. Como Essay usara choques elétricos para paralisar e matar suas vítimas, ela precisava estar, ao menos subconscientemente, ciente do perigo que os implantes representavam. Foi por isso que Mozuku apostara que Essay recuaria — e, felizmente, o cenário se desenrolara exatamente como planejado. Nem mesmo uma jogadora do clube dos cinquenta jogos conseguia ler a mente de suas inimigas.
Mozuku virou-se de costas e colocou a mão sobre o coração acelerado. O que sentia era, em sua maior parte, medo — uma reação natural após enganar uma jogadora muito acima do seu nível. Ao mesmo tempo, porém, Mozuku não podia negar uma certa sensação de euforia. Sua alma parecia flutuar, tomada por algo que só podia ser descrito como uma descarga de dopamina. Ela havia tropeçado em algo que sempre lhe escapara. Depois de abandonar a faculdade e a sociedade em geral, fora arrastada inexoravelmente para a indústria dos jogos mortais, mas só agora, naquele momento, descobrira algo que podia chamar de seu ponto forte — um estilo de jogo baseado em “trapaça”.
Enquanto refletia sobre isso, seu pulso voltou ao normal. Ela se apressou em direção ao navio de resgate, arrastando atrás de si a perna ferida.
(16/22)
Tiros.
Yuki foi tomada pelo terror enquanto corria pela floresta.
Ela os ouviu com muita clareza, o que significava que Essay tinha de estar perto — extremamente perto. Alguém tinha sido atingido? O que havia acontecido? Essay tinha conseguido matar uma jogadora? O jogo tinha acabado?
Os tiros poderiam ter cessado por inúmeros motivos, mas Yuki continuou correndo. Ir em direção ao navio era a melhor estratégia. Ela vinha seguindo o caminho mais curto até o lado oposto da ilha, mas o som dos disparos a fez mudar de rota e fazer um pequeno desvio. Continuou avançando na direção do navio, ao mesmo tempo em que se esforçava para se afastar do barulho.
E, ainda assim…
“……!!”
Pouco depois, Yuki sentiu uma malícia no ar.
Ela saltou instantaneamente para uma manobra evasiva.
Desviou por um triz. Algo passou zunindo por seu cabelo em alta velocidade, vindo de trás. Para proteger o corpo, ela se agarrou como um besouro-veado à maior árvore que conseguiu encontrar.
Yuki ficou impressionada consigo mesma. Sempre confiara em sua capacidade de detectar hostilidade, mas, para sua própria surpresa, descobriu que também conseguia desviar de balas. Tentou acalmar o coração acelerado, sem saber se o pulso elevado vinha da alegria ou do medo.
Ela espiou rapidamente ao redor do tronco da árvore, na direção de onde o tiro viera. Essay não estava em lugar nenhum. A garota estaria longe demais para ser vista ou estaria escondida? De qualquer forma, aquela bala não fora um tiro perdido. Yuki sentira uma intenção assassina direcionada diretamente a ela, cortando o ar com mais ferocidade do que qualquer projétil.
“…Acho que vou ter que fazer isso…”, murmurou Yuki, encostando a testa no tronco da árvore.
Ela tivera um pressentimento de que tudo acabaria assim. Não era o desfecho que desejara, mas sabia que seu destino era inevitável.
O jogo não terminaria sem um confronto entre Yuki e sua colega de tutela, Essay.
(17/22)
Essay estalou a língua, irritada. Sua presa não estava cooperando em ser caçada. Ela esperava ocultar sua presença o máximo possível, mas a garota havia desviado do disparo por um fio.
Yuki fora treinada por Hakushi, assim como a própria Essay. A garota não cairia facilmente.
Ainda assim, a ideia de mudar de alvo não passou pela mente de Essay. As outras duas jogadoras, Airi e Koyomi, também eram adversárias claramente habilidosas, e mesmo que ela fosse atrás delas, não havia garantia de que conseguiria alcançá-las antes que chegassem ao navio. Além disso, havia algo naquela situação que parecia predestinado. Aquele encontro com sua companheira de tutela não era nada menos que uma mensagem da deusa do destino, ordenando que ela esmagasse Yuki de uma vez por todas.
Considere isso feito, pensou Essay.
(18/22)
Durante toda a semana, algo ficara preso na mente de Essay: a verdade tremendamente difícil de engolir que ela aprendera com Koyomi no primeiro dia do jogo.
Koyomi era uma amiga jurada de Hakushi, uma jogadora de jogos mortais da era anterior a Candle Woods. Por isso, Essay não conseguiu conter sua curiosidade. No início do jogo, após ser guiada até a cabana de Koyomi, Essay perguntara como Hakushi a avaliava.
“Um gênio, em um sentido negativo”, Koyomi respondera. “Uma jogadora que se destaca em inteligência, mas que, talvez por isso mesmo, tem mal-entendidos surpreendentemente estranhos de vez em quando. O tipo que desfruta de sucessos temporários, mas que eventualmente implode — ou pelo menos é isso que ela diz.”
“…Entendo”, respondeu Essay.
“Não leve para o lado pessoal. Ela sempre teve a língua afiada.”
A falta de reconhecimento de sua mentora foi dolorosa. Contudo, o que feriu Essay ainda mais foi o assunto que surgiu logo depois.
“Ah, isso me lembra”, disse Koyomi. “Havia outra jogadora como você naquele grupo que vimos mais cedo. A garota que parecia um fantasma. Será que era a Yuki?”
Essay tinha visto o outro grupo de quatro jogadoras na praia enquanto era conduzida à cabana de Koyomi. Yuki, de fato, estava entre elas.
“Sim, mas por que mencioná-la?”
“Hm? Ela não é outra das pupilas de Hakushi? Você não sabia disso?”
Essay já havia se encontrado com Yuki em vários jogos no passado, mas era a primeira vez que ouvia aquilo. Provavelmente Yuki também não sabia.
“Fico pensando como ela é. Hakushi parece ter grandes expectativas em relação a ela…”
— No instante em que essas palavras chegaram aos ouvidos de Essay, um sentimento indescritível brotou em seu coração.
“Como assim?”, perguntou Essay por impulso.
Num tom casual, que demonstrava total alheamento ao desconforto de Essay, Koyomi respondeu: “Aparentemente, porque ela é um fantasma. Já está morta, então não há como morrer, ou algo do tipo…”
Essay ficou sem palavras. Seu torpor deve ter durado pelo menos dez segundos. Ao finalmente notar o estado anormal de Essay, Koyomi disse: “Ah, mas não é como se Hakushi tivesse poucas expectativas em relação a você, sabe. Você concluiu mais jogos, certo? Isso significa que ela deve esperar ainda mais de você.”
Isso não é nada reconfortante, pensou Essay.
Pelos encontros passados, Essay conhecia muito bem as capacidades de Yuki como jogadora. Aos seus olhos, a garota tinha talento para os jogos, mas jamais alcançaria o nível de Essay.
Por que minha mentora me considerou um ‘gênio que implode’, enquanto deposita ‘altas expectativas’ nela? Não seja ridículo. Eu me recuso a aceitar isso.
Então, sua mente atônita se fixou numa única direção.
Minha mentora não sabia absolutamente nada. Depois de um ano e meio aposentada, até o olhar afiado dela se deteriorou. Eu estou seguindo o caminho certo. Este é o jeito correto. Não há absolutamente nada de errado com a minha forma de agir.
É por isso que vou concluir cinquenta jogos. É por isso que agora tenho vantagem neste jogo. Não existe chance alguma de eu acabar abaixo daquela garota fantasma.
E vou provar isso esmagando-a.
(19/22)
Nos últimos dias, uma coisa não saíra da mente de Yuki: a estratégia de Essay para o jogo. No primeiro dia, Essay havia desmembrado o próprio corpo em sua cabana para fingir a própria morte. Todas as jogadoras caíram no truque — mas Yuki se surpreendeu por Essay ter recorrido a isso. Em sua concepção, uma pupila de Hakushi jamais deveria ter adotado tal tática.
Hakushi era uma jogadora lendária que havia concluído noventa e cinco jogos. Ainda assim, esse recorde não tinha para ela mais valor do que o de um cachecol que abandonara pela metade. Hakushi tinha apenas um objetivo: concluir noventa e nove jogos. Com apenas quatro jogos a separando dessa meta, ela encontrou um fim prematuro. Embora parecesse que Hakushi não tivesse realmente morrido, sua aposentadoria implicava que ela não conseguia mais retornar a um estado em que pudesse participar novamente. Os danos acumulados após quase cem jogos a impediam de alcançar seu desejo mais profundo.
Essay deveria saber como a carreira de Hakushi havia terminado. Sendo assim, deveria saber que não se deve adotar voluntariamente uma estratégia que prejudique o próprio corpo. E, ainda assim, foi exatamente isso que ela fez. Foi a falha máxima de julgamento, uma pequena fissura em uma atuação que, de resto, fora dominante.
E por causa disso, Yuki acreditava que podia revidar. Aquela era sua justificativa para desafiar uma veterana experiente, com cinquenta jogos concluídos.
Exatamente, pensou ela. Essay não é perfeita. Ela comete erros. Aposto que, às vezes, deixa as emoções tomarem conta. Talvez tenha cometido ainda mais falhas do que eu imagino. Não há necessidade de ter medo. Não coloque sua oponente num pedestal. Você pode vencê-la se fizer as coisas do jeito certo.
Ela pode ter um corpo imortal, mas não possui a força sobrenatural de um vampiro ou zumbi. Tudo o que esse corpo faz é afastar a morte. O fato de ela ter arrastado o jogo até o final e conseguido uma arma prova isso. Ela tem medo de combate direto. Terei chance de vencer se conseguir lidar com aquela arma. Mesmo que eu não possa matá-la, posso ao menos incapacitá-la e fugir para o navio.
Yuki deixou a sombra da árvore.
Com o destino em mente, disparou em velocidade máxima.
(20/22)
Yuki precisava continuar correndo. Se parasse por sequer um segundo, seria atingida.
Ela também não podia correr em linha reta. Se Essay decifrasse seus movimentos, ela seria baleada.
Assim, ora usando árvores como cobertura, ora se movendo de forma imprevisível e, em alguns momentos, farejando a hostilidade no ar, Yuki desviou dos ataques por um triz. Ela continuou a escapar das rajadas de balas por vários minutos, realizando uma façanha que poderia alterar o próprio futuro da guerra terrestre, caso o mundo conseguisse reproduzir sua técnica.
O ideal seria Yuki continuar daquela forma até alcançar o navio, mas ela via isso como uma empreitada impossível. Por isso, seguiu em direção a um local completamente diferente — um que serviria como as mandíbulas da morte para Essay… e para a própria Yuki.
Inúmeros talos afiados de bambu se projetavam do chão — uma armadilha que Maguma havia preparado. Seu esconderijo ficava nas proximidades.
Mas Yuki não estava indo até lá para pedir ajuda a Maguma. Afinal, a mulher provavelmente já tinha deixado a área e alcançado o navio de resgate. Ainda assim, tudo o que ela havia criado continuava perfeitamente utilizável.
Enganar Essay para que caísse numa armadilha — tampouco era esse o plano de Yuki.
Ela tinha exatamente o oposto em mente.
“Eu me recuso a cair sem lutar!”, gritou Yuki.
E então expôs sua estratégia, clara como a luz do dia.
“Prefiro me matar a cair nas suas mãos!”
(21/22)
Era uma aposta.
Se a condição de Essay para concluir o jogo fosse simplesmente a morte de três ou mais jogadoras, então a declaração de Yuki seria completamente inútil. Vá em frente, Essay diria. E depois que Yuki caísse em uma das muitas armadilhas da área, o jogo terminaria. Essay conquistaria a distinção de ter concluído cinquenta jogos.
Porém — e se não fossem as mortes que Essay precisava, mas sim os assassinatos? Nesse caso, a situação se inverteria. Essay seria forçada a impedir Yuki de morrer. Se sua presa se matasse, Essay não conseguiria mais cumprir as condições necessárias para a vitória.
Yuki acreditava ser altamente provável que Essay tivesse sido instruída a assassinar as outras jogadoras. O jogo, afinal, havia sido modelado como um mistério de círculo fechado. Se Essay deixasse Yuki escapar por entre seus dedos, provavelmente não teria tempo suficiente para encontrar um novo alvo. A vida de Yuki estava inextricavelmente ligada à de Essay.
A estratégia era infalível. O único problema era que Yuki morreria junto com Essay.
Por isso, Yuki precisava injetar um pouco de engenhosidade no plano.
As pernas de Yuki cederam de repente. Toda a área, com cerca de um metro de diâmetro, desabou no chão. Era uma armadilha de alçapão, do mesmo tipo daquela em que Yuki havia caído no terceiro dia. Após confirmar que o poço estava densamente revestido de lanças de bambu, ela se agarrou desesperadamente à parede para evitar ser empalada. Cravou os dez dedos na terra e conseguiu não cair até o fundo.
Alguém observando tudo aquilo, porém, não seria capaz de dizer o que havia acontecido com Yuki. E assim, Essay não teve escolha senão espiar dentro do buraco. Ela precisava confirmar se Yuki ainda estava viva e, caso estivesse, teria de garantir que a causa da morte da garota não fosse “empalamento”, mas sim “tiro”.
Yuki ouviu os passos de Essay se aproximando através da parede de terra. Como uma aranha, rápida e silenciosa, Yuki escalou a lateral do poço.
A sombra de Essay pairou sobre Yuki. Ao mesmo tempo, Yuki estendeu o braço e agarrou a perna de Essay.
Ela puxou, fazendo Essay perder o equilíbrio e cair. Já de volta à superfície, Yuki usou toda a força para arrancar a submetralhadora das mãos de Essay antes que a oponente pudesse reposicioná-la. Como Yuki suspeitava, Essay não era exatamente forte, então arrancar a arma não foi difícil. Sem tempo para ler qualquer manual de instruções, Yuki apontou o cano para Essay e apertou o gatilho.
As balas dispararam em rápida sucessão.
O carregador esvaziou em apenas dois segundos. O recuo foi mais forte do que Yuki esperava e fez a arma subir, o que significou que apenas cerca de metade dos projéteis atingiram Essay. Tendo sido alvejada à queima-roupa, Essay naturalmente acabou desabando no chão, mas, sem grande surpresa, o dano não foi fatal. Num movimento contínuo, ela se levantou, puxou o facão e o golpeou contra Yuki.
Yuki se defendeu usando o corpo da arma. Em seguida, arrancou o facão das mãos de Essay. Embora a oponente estivesse vestida com uma armadura de corpo inteiro, como um membro de forças especiais, Yuki cravou a lâmina no único ponto pouco protegido — o pescoço de Essay.
Essay caiu no chão, mas ainda continuava se mexendo. Como ela tentava puxar o facão do próprio pescoço, Yuki montou sobre ela para impedir. Então Yuki começou a socar Essay, alternando os punhos, mas a sensação era como golpear o ar.
“Que diabos são esses seus órgãos vitais, sua aberração?!”
Mesmo lançando insultos mal formulados contra a oponente, Yuki continuou o ataque. Apesar das tentativas de resistência de Essay, Yuki a imobilizou com destreza, arrancou sua armadura e rasgou as bandagens por baixo, revelando o corpo remendado da garota, que lembrava o monstro de Frankenstein. Yuki enfiou a mão nas costuras do corpo de Essay e puxou a primeira coisa que tocou — um pulmão. Enfiou a mão novamente, desta vez retirando o coração de Essay. Continuou o ato, alternando as mãos para extrair os órgãos um após o outro — fígado, tecido do estômago, intestino delgado, intestino grosso, rins, e até partes cujos nomes ela não conseguia lembrar de imediato. O que quer que estivesse mantendo o corpo de Essay unido, Yuki despedaçou com a facilidade de arrancar uvas. Inacreditavelmente, Essay continuou resistindo mesmo após perder todos os órgãos internos, de modo que Yuki não teve escolha senão partir para os ossos e músculos.
Yuki não era estranha a matar, mas aquela era a primeira vez que desmontava completamente um corpo humano. Justo quando começava a sentir respeito pela psicopata por ter repetido um ato tão exaustivo—
—finalmente, Essay parou de se mover.
Yuki cessou o ataque.
A garota não parecia estar fingindo de morta. Yuki esperou por um tempo, mas o corpo de Essay permaneceu completamente imóvel.
“…Bom jogo”, disse Yuki.
Ela limpou a penugem branca das mãos e deixou o local.
(22/22)
(0/4)
Yuki embarcou com segurança no navio de resgate.
Ela foi recebida por sua agente, que aparentemente aguardava depois de acompanhar o desenrolar do jogo pelas câmeras de vigilância. O navio parecia estar equipado com instalações médicas, mas como Yuki não havia sofrido ferimentos graves além das cicatrizes deixadas pela extração dos implantes, ela não passou por nenhum exame e foi levada diretamente a uma cabine.
Assim que entrou no quarto, deitou-se e adormeceu. Embora seus ferimentos não fossem profundos, ela estava acometida por um cansaço extremo, dormindo pesadamente até o navio chegar ao porto. Por isso, Yuki não fazia ideia de como o jogo havia terminado. Quem estava viajando no navio com ela? Será que realmente tinha conseguido matar Essay? Depois de pisar novamente em terra firme, Yuki foi levada para casa por sua agente e teve ampla oportunidade de descobrir as respostas — mas decidiu não fazê-lo.
Afinal, se algum deles ainda estivesse vivo, Yuki certamente os encontraria outra vez.
(1/4)
Yuki havia aprendido o endereço do local com Koyomi, quando as duas ficaram confinadas juntas na cabana. A data e o horário do encontro também tinham sido definidos com antecedência. Assim, Yuki viajou até lá num horário em que a maioria das pessoas estaria aconchegada na cama, enquanto corujas noturnas como ela estariam apenas começando a despertar.
Era um bar de mágica — um estabelecimento onde os clientes podiam apreciar um espetáculo de ilusionismo enquanto bebiam. Como sua mestra era frequentadora assídua, Yuki imaginara que fosse um lugar luxuoso, mas ele era surpreendentemente comum. O bar ficava em um bairro pequeno e acolhedor, um pouco afastado do centro urbano. Ao entrar, Yuki percebeu que o interior era bastante compacto, com apenas dez assentos no total e somente um cliente presente.
“—Quanto tempo”, disse a mulher, numa voz que não carregava o menor sinal de remorso por não ter mantido contato.
Ela tinha uma figura alta e esguia, cabelos longos e ondulados. Seu corpo era perfeitamente proporcionado, sem um grama sequer de excesso. Sua aura transmitia invulnerabilidade, e sua voz se projetava de forma estranhamente clara. Sua presença avassaladora dominaria completamente a atmosfera de qualquer ambiente.
Era Hakushi.
Pela primeira vez em um ano e meio, Yuki ficou frente a frente com sua mestra.
“…É bom te ver”, respondeu Yuki, sentando-se ao lado da mulher.
Para ser sincera, ela ainda estava meio incrédula. Afinal, tinha visto o corpo sem vida de sua mentora com os próprios olhos, incluindo os órgãos escurecidos e ossos dilacerados. Apesar de tudo o que acontecera com Essay, Yuki não conseguia apagar a sensação de que devia haver algum engano.
No entanto, suas dúvidas se dissiparam em menos de um segundo após o reencontro. Aquela mulher não era uma sósia. Seria impossível encontrar alguém com uma aura tão singular, mesmo vasculhando o mundo inteiro. Para constrangimento de Yuki, o pensamento resignado de que jamais alcançaria o nível de sua mestra emergiu em sua mente. Ao lado de Hakushi, ela se sentia muito mais inferior do que quando estava com Maguma ou Essay. Não conseguia acreditar que, um ano e meio atrás, seu antigo eu conversava regularmente com aquela mulher. Agora que Yuki havia evoluído, finalmente era capaz de perceber a diferença de nível entre elas.
“Peça alguma coisa.” Hakushi deslizou um cardápio até Yuki. “É por minha conta.”
“…Obrigada.”
Por sinal, o governo japonês havia reduzido recentemente a idade legal da maioridade. Assim, Yuki tinha se tornado oficialmente adulta, mas a idade mínima para beber ainda era vinte anos. Embora vivesse à margem da lei e não visse problema em beber, decidiu pedir uma cola.
Após fazer o pedido, Yuki percorreu o ambiente com o olhar — não para observar o bar, mas para procurar Koyomi. Yuki tinha ouvido que seria um encontro das três, mas será que ela ainda não tinha chegado?
No fim, Koyomi não apareceu. Apenas as duas, Yuki e Hakushi, puderam experimentar o elemento “mágico” do bar. Yuki entendeu por que sua mestra era uma frequentadora regular ao testemunhar as habilidades excepcionais do bartender-mágico, mas não conseguiu aproveitar genuinamente o espetáculo, pois estava ocupada tentando desesperadamente encontrar as palavras certas para dizer à sua mestra. Na mente de Yuki, Hakushi tinha morrido um ano e meio atrás. Reencontrá-la era ótimo, mas ela não fazia ideia do que dizer.
Depois que o show de mágica chegou a uma pausa, Yuki deixou de lado suas reservas e falou:
“Hum, mestra?”
“O quê?”
“Então… você esteve viva esse tempo todo, né?”
“Estive.”
“Eu encontrei Koyomi no meu jogo mais recente, e ela me falou deste lugar.”
“Sim. Ela me colocou a par de tudo.”
Claro. Isso era óbvio de imediato.
Hakushi continuou: “Soube que você teve um confronto com Essay.”
“…Sim. Ela tinha um corpo imortal, como o seu.”
“Pelo visto.”
“Hã…? Quer dizer que você não contou a ela sobre o seu procedimento?”
“Claro que não contei. Eu te contei? Ela descobriu tudo sozinha.”
Hakushi apoiou o queixo nas mãos, fazendo uma sombra se formar em um lado do rosto.
“Mestra.”
“O quê?”
“Quem você teria preferido encontrar hoje à noite, entre Essay e eu?”
Uma jogadora cuja estratégia demonstrava total desprezo pelo próprio corpo não merecia ser pupila de Hakushi — esse tinha sido o motivo de Yuki lutar contra Essay. E, no fim, Yuki havia vencido. Mas como era a realidade? Qual delas sua mestra teria desejado que sobrevivesse?
Com um breve suspiro, Hakushi respondeu: “Essay.”
O coração de Yuki disparou.
“—Se eu dissesse isso, você iria trocar de lugar comigo?”
“…Não.” Yuki balançou a cabeça.
“Então está resolvido”, disse Hakushi. “Você não é mais minha pupila. Não deveria se importar com a forma como os espectadores te veem.”
(2/4)
Yuki deixou o bar depois de terminar seu copo de cola.
Alguns minutos depois, no momento ideal para a troca de clientes, outra pessoa entrou. Uma mulher que tinha a aura de uma idosa apesar de estar na casa dos vinte anos — Koyomi.
“Oi.” “Oi.”
Após essa troca casual de cumprimentos, Koyomi se sentou.
“Você chegou atrasada de propósito, não foi?”, disse Hakushi.
“Cheguei sim. Achei que vocês duas precisavam de um tempo a sós.” Koyomi riu. “Mesmo assim, que coincidência maluca duas das sass pupilas se encontrarem no mesmo jogo.”
“Parece que os jogos estão combinando cada vez mais os níveis dos jogadoras. A possibilidade pode ser pequena, mas não é nada surpreendente… Você não colocou lenha na fogueira entre elas, colocou?”
“Claro que não… Provavelmente.”
É mesmo?, pensou Hakushi.
Koyomi cruzou os braços sobre a mesa e apoiou o queixo neles. “Eu vou me aposentar. Foi meu primeiro jogo em muito tempo, e fiquei surpresa com o quanto o nível das jogadoras aumentou. Eu não fazia ideia dos implantes nem do papel de Essay. No fim, só sobrevivi por pura sorte… Não consegui acompanhar nenhuma das outras. Acabou pra mim.”
“Tudo bem, sua covarde.”
“Covardia”: esse era o estilo de jogo de Koyomi. Embora normalmente seja vista como um defeito de personalidade, em jogos mortais era uma virtude. As habilidades de Koyomi como jogadora eram perfeitamente medianas, mas ela brilhava quando se tratava de detectar o menor sinal de morte. Hakushi também era habilidosa em sentir hostilidade e farejar armadilhas, mas Koyomi estava em outro patamar. Era como se tivesse sido abençoada pelo destino ou tivesse a capacidade de ver o futuro — ela havia evitado Candle Woods, o jogo que encerrou a carreira de Hakushi, porque sentira maus presságios ao receber o convite. Isso fazia de Koyomi uma jogadora talentosa que Hakushi respeitava.
Se Koyomi não via futuro para si mesma na indústria, então isso certamente era verdade. Hakushi não estava em posição de dizer o contrário.
“Talvez você possa investir seus ganhos no mercado de ações.”
“Não, o risco é assustador demais… Então, como foi o encontro com Yuki? Ela já se formou como pupila tola?”
“Ela não é mais minha pupila, o que a torna apenas uma tola”, respondeu Hakushi. “Ela me perguntou quem eu teria preferido que vencesse entre ela e Essay. Não há limites para a tolice dela.”
“Você está sendo bem dura.”
“Esse é o meu estilo.”
Quando ainda era jogadora, Hakushi havia adotado um estilo de jogo baseado na “negação”.
Se tinha algum talento, era o de encontrar falhas em tudo e em todos. Ela não precisava procurar para encontrar seus próprios defeitos. Sua estratégia de sobrevivência era conquistar cada uma de suas fraquezas até que não restasse nenhuma.
Em resumo, ela era uma pessoa extremamente negativa.
“Isso não funciona mais hoje em dia”, provocou Koyomi.
“Por isso me aposentei sem alarde.”
“E então você passou o bastão para Yuki… Ainda espera que ela chegue aos noventa e nove jogos no seu lugar?”
“Sim. Ela é a única pupila que declarou isso em voz alta, então minhas esperanças estão nela. Mas eu não me importaria se ela decidisse desistir.”
“Sempre quis perguntar: por que noventa e nove, e não cem? Esse número tem algum significado especial?”
“Quem sabe.” Hakushi se fez de desentendida. Ela virou o copo com dedos que já não conseguiam sentir temperatura alguma, deixando o álcool fluir para os órgãos artificiais de seu corpo.
“Seu corpo é muito mais misterioso do que a mágica deste bar”, comentou Koyomi.
(3/4)
Alguns minutos depois de sair do bar de mágica, Yuki recebeu uma ligação. Ela pegou o celular e viu que era sua agente.
Isso é raro, pensou.
Embora tivesse passado seu número à agente, aquela provavelmente era a primeira vez que a mulher ligava. Com curiosidade e apreensão em partes iguais, Yuki atendeu e levou o telefone ao ouvido.
“Sim, alô?”
“Boa noite, Yuki”, disse a agente, com a voz apressada. “Você tem um tempo para falar?”
“……? Sim, agora está tudo bem.”
“Pensei que devia te contar isso… embora os detalhes ainda não tenham sido confirmados.”
“O que foi?”
“É sobre um jogo que aconteceu mais ou menos na mesma época de Cloudy Beach…”
Depois de uma pausa longa o suficiente para capturar a atenção de Yuki, a agente continuou:
“Embora não seja comparável a Candle Woods, os resultados do jogo foram, pelo que ouvi, bastante chocantes. Apenas três de oitenta jogadoras sobreviveram; o resto foi completamente exterminado.”
Cloudy Beach havia sido, de fato, um jogo crucial para Yuki. No entanto, sua batalha estava longe de terminar. Ainda havia muitos obstáculos que Yuki precisaria superar para concluir noventa e nove jogos.
(4/4)
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