Kairos — Capítulo 37: CAPÍTULO 37 - 36 – O Preço da Força

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Cap. 37
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CAPÍTULO 37 - 36 – O Preço da Força

Capítulo 37

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Capítulo 36 – O Preço da Força

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Narração: Li Wang

O silêncio da nova casa era estranho. Depois da saída de William, o grupo parecia menor, mais vazio. Li Wang passava as manhãs em treinos solitários, tentando entender as mudanças do próprio corpo desde o combate contra Lyria.

Dayse, por sua vez, dividia o tempo entre cuidar de Henry e ajudar Li com os ferimentos que teimavam em não cicatrizar por completo.

Mas era Bárbara quem mais chamava atenção nos últimos dias. A garota passava horas sentada na sala, cercada de livros. Para Li Wang e Dayse, as páginas não passavam de borrões ou brancura sem sentido; para Bárbara, eram mundos que se revelavam lentamente. Não lia com facilidade, mas com determinação.

— Eu… acho que terminei a primeira parte — anunciou, com os olhos brilhando e as bochechas coradas de esforço.

Li Wang e Dayse se aproximaram, curiosas.

— O que tem aí? — perguntou Li, sentando-se ao lado dela.

Bárbara respirou fundo, como quem se prepara para revelar um segredo perigoso.— É um manual… sobre Aura. O título éSistema de Aura – Guia do Despertar, escrito por Orpheon Ekdias.

— Aura? — repetiu Li Wang, franzindo o cenho ao ouvir aquele termo.

De imediato, a lembrança do campo de batalha contra Lyria o atingiu. O momento em que Hendrick interveio. As palavras dele ecoaram, afiadas como cicatrizes invisíveis:“Você não tem aura.”

Li Wang cerrou os punhos. O estômago se revolveu.

— Aura é como… energia vital — explicou Bárbara, com a voz mais firme do que sua idade parecia permitir. — Todo ser vivo tem, desde uma formiga até um deus. Mas quase ninguém aprende a usar.

Dayse cruzou os braços, intrigada.— E por que a gente nunca ouviu falar disso?

— Porque é invisível… intangível. Só que, pra usar de verdade, existe um processo chamado Despertar.

Bárbara fez uma pausa, como se temesse errar ao repetir o que lera.

— Tem uma técnica… aMeditação do Despertar. Só com ela dá pra abrir as veias de aura do corpo. Antes disso, o corpo não aguenta usar aura de forma intensa. Se tentar… pode morrer.

Um arrepio percorreu a espinha de Li Wang.— Morrer?

— Como uma parada cardíaca — disse Bárbara, com uma seriedade que parecia pesar demais em seu rosto infantil. — A pessoa entra em colapso.

Dayse respirou fundo, incomodada.— E… depois que desperta? O que acontece?

— O corpo escolhe uma afinidade — respondeu Bárbara, virando outra página. — Existem dois tipos principais: Amplificadores e Conjuradores.

Ela apontou para os rabiscos do livro, que só ela conseguia ver. Uma figura humana de músculos ressaltados de um lado; outra, canalizando energia para fora, do outro.

— Amplificadores usam aura para fortalecer o corpo. Ficam mais rápidos, mais fortes… mais resistentes. Mas só afetam a si mesmos.

Li Wang não precisou pensar muito. As lutas que travara eram a prova.— Acho que sou um desses…

— Já os Conjuradores… — a menina se animou um pouco — …são raríssimos. Um em cada dez mil. Eles manipulam a aura do ambiente, purificam dentro do próprio núcleo e só então liberam.

Dayse arqueou a sobrancelha.— Parece complicado.

— E é! — respondeu Bárbara. — Se purificar errado, se intoxicam com aura impura… e morrem de envenenamento interno.

A informação caiu pesada entre eles.

— E o núcleo? — perguntou Li Wang, em voz baixa. — Você disse que ficava no coração?

Bárbara assentiu devagar.— É como uma pedrinha escura, escondida lá dentro. Nenhum exame humano consegue detectar. Ele armazena a aura vital da pessoa. Mas tem um limite: usar mais de 90%… causa aSobrecarga de Aura.

Bárbara fez questão de dar ênfase à última frase.— O que acontece se usar mais de 90% da aura? — murmurou Dayse.

— Falência de todos os órgãos.

O silêncio que seguiu foi pesado.

Li Wang levou a mão ao peito, instintivamente. Quantas vezes já estivera à beira da exaustão? Agora percebia que, sem saber, havia brincado com a própria vida.

— Tem mais… — acrescentou Bárbara, hesitante. — Os núcleos têm níveis… cores diferentes. Começam no preto, depois vinho, roxo, azul, vermelho, laranja, amarelo… até chegar ao branco. Cada cor tem três estágios: escuro, intermediário e claro.

— Então… quanto mais clara a cor, mais forte o usuário? — perguntou Dayse.

— Isso. Mas evoluir o núcleo é difícil. Precisa de treino, controle emocional… e absorção de cristais de aura.

— Cristais de aura… — Li Wang repetiu em voz baixa, como se a palavra tivesse um gosto amargo.

Ela se recostou contra a parede, a mente tomada por lembranças de sua luta contra Vireon e Lyria. Até então, vira aquelas criaturas apenas como monstros. Mas agora, o detalhe que ignorara ganhou contornos dolorosamente claros.Tudo fazia sentido.

A ideia surgiu com um peso nauseante: matar pessoas… tirar vidas para absorver a energia delas.

Seu estômago se revirou. Ela virou o rosto, tomada por uma ânsia sufocante.“Será que é isso que a Apocalypses tem feito?”

A pergunta reverberou em sua mente como um sino fúnebre. O número de mortes, os desaparecimentos, chacinas sem motivo… cada detalhe se encaixava em um mosaico de horror.

Li Wang respirou fundo, lutando contra o peso do pensamento. Lutando contra o ódio que crescia dentro de si contra a Apocalypses.

Bárbara fechou o livro com um estalo suave. Os olhos ainda brilhavam — não de ingenuidade, mas de uma determinação improvável para sua idade.— Tem mais um aviso… tentar forçar o Despertar antes da hora pode causar falência dos órgãos.

Li Wang trocou um olhar com Dayse e depois com a menina.Nenhuma palavra foi dita. Mas todas entenderam.Até ali, as batalhas que enfrentaram tinham sido apenas o começo.

— Eu… eu vou continuar estudando — disse Bárbara. Sua voz, ainda infantil, trazia agora uma maturidade recente, forjada pelas cicatrizes dos últimos dias. — Se eu aprender mais… talvez consiga ajudar você de verdade, tia Li.

Li Wang sorriu de leve e pousou a mão sobre a cabeça da menina.— Você já está ajudando mais do que imagina.

Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, o celular vibrou.

Um número desconhecido iluminou a tela.

Com um movimento rápido, ela atendeu.— Alô?

Do outro lado, a voz de Nathan explodiu em desespero, sufocada pelo som de passos e gritos ao fundo.— Li! Você tem que ir até o Nepal! — Ele arfava, como se corresse para salvar a própria vida. — Você tem que salvar o rei Taylon Sytoria!

A linha caiu antes que ela pudesse responder.

Li Wang permaneceu imóvel, com aparelho colado ao ouvido, encarando o vazio. Tentou retornar à ligação uma, duas, cinco vezes. Nada. Nenhuma resposta.

Fechou os olhos, respirando fundo. Mesmo depois de tudo… mesmo após a traição de Nathan, ela ainda lhe concedia o privilégio da dúvida.

— Vamos para o Nepal. — Sua voz soou firme, rasgando o silêncio da sala.

Dayse e Bárbara se entreolharam, confusas com a decisão repentina, enquanto Henry seguia dormindo no berço, alheio a tudo. Poucas horas depois, os quatro embarcaram no avião que sempre fica à disposição.

Fim da leitura

Capítulo 37 concluído

CAPÍTULO 37 - 36 – O Preço da Força