Kairos — Capítulo 51: CAPÍTULO 51 - 49 – Eu Sou a Ruína

Kairos
Cap. 51
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CAPÍTULO 51 - 49 – Eu Sou a Ruína

Capítulo 51

1.169 palavras~5 min de leitura

Capítulo 49 – Eu Sou a Ruína

Kairos

Narrador: Azazel

Empunhando a própria espinha, agora transfigurada em uma arma viva, Azazel se erguia olhando o mundo ao seu redor.Althaia a observava em silêncio.Os olhos rubros da criatura ainda guardavam um vestígio do brilho sereno que um dia fora de Li Wang…Mas o que estava diante dela já não pertencia a nenhum domínio humano.

Azazel desapareceu num piscar de olhos.

O ar pareceu se partir ao meio antes mesmo que o som o acompanhasse, e então veio o impacto.Um corte diagonal rasgou o espaço, a foice cantando em um timbre grotesco enquanto atravessava o ar e atingia Althaia com uma força desumana.

O golpe foi tão brutal que arrancou o machado de suas mãos, arremessando-a como uma boneca de trapo.O corpo dela voou por dezenas de metros antes de se chocar contra uma rocha colossal, que tremeu com o impacto e se despedaçou sob o peso da colisão.Fragmentos de pedra voaram em todas as direções, e uma nuvem densa de poeira engoliu o campo

Lethos recuou, alarmado.A esfera flutuava acima de Azazel, os espinhos vibrando em tensão.

De seu núcleo, um gás cinzento começou a se espalhar pelo campo, denso, entorpecente, sonífero, turvando os sentidos e drenando o vigor de quem o inalasse.

Azazel ergueu o rosto para a esfera.Observou-a por um instante.Mas em seus olhos não havia receio, apenas desinteresse.Não via perigo algum naquela coisa frágil.

O zunido agudo que ela emitia, contudo, atravessava o ar como uma agulha. Um som irritante, insistente, como um zumbido de mosca próximo ao ouvido.Azazel permaneceu imóvel, impassível.Mesmo irritado, não se dignou a agir.

Althaia se ergueu.Lenta, mas firme. O sangue escorria-lhe da testa; os cabelos brancos, antes imaculados, estavam manchados de terra e cinzas.

E, pela primeira vez, seu rosto mostrava algo que ninguém ali jamais vira:Ódio.

Ela correu como um raio em direção ao machado, agarrou-o com ambas as mãos e, girando o corpo em um arco perfeito de fúria, destruiu a esfera de Lethos com um único golpe.O impacto da lâmina despedaçou o artefato como vidro. Uma explosão de energia iluminou o campo, espalhando faíscas e cessando o gás num sopro.

Lethos ficou paralisado.Os olhos arregalados misturavam fúria e incredulidade.

— Você ficou louca?! — gritou, avançando um passo. — Nós vamos morrer! Precisamos lutar juntos!

Althaia virou o rosto devagar.Os olhos, antes calmos, agora queimavam em um tom alaranjado intenso.Sua pele parecia mais pálida, como se algo estivesse crescendo por dentro dela, distorcendo o que restava de humanidade.

O sorriso gentil desaparecera.Tudo que restava era fúria contida, e uma sede insaciável por combate.

— Se você interferir… — disse ela num tom baixo, grave, como o roçar de uma lâmina sendo desembainhada — eu. vou. te. matar.

Lethos recuou.Ele a conhecia.Ou melhor… achava que conhecia.

A garotinha doce se fora.Diante dele, restava apenas Althaia Kray, o pecado da Ira.E ela havia despertado.

O ar ao redor de Althaia começou a vibrar.Como se a própria atmosfera recuasse, amedrontada.Sua pele, antes alva como neve, escurecia em um tom rubro incandescente, como ferro em brasa prestes a se romper.As veias saltavam sob a pele, percorrendo-lhe o corpo como fios ardentes, pulsando em ritmo descontrolado, um coração tomado pela fúria.

A cada respiração, nuvens de vapor escapavam de seus lábios infantis, aquele era o hálito de uma fera prestes a devorar o mundo.E embora sua aparência ainda fosse a mesma, algo em sua postura, no olhar e nos movimentos, lembrava a presença de uma criatura selvagem.Havia algo de animal ali, um instinto primitivo libertando-se sob forma humana.

O chão sob seus pés trincava.O calor emanado fazia a grama secar, e o vento parecia se afastar dela, recusando-se a tocá-la.

Lethos deu um passo atrás.O olhar congelado em incredulidade; pela primeira vez desde o início do combate, sentiu um medo que não era apenas medo, era algo que rasgava a carne e puxava a alma para fora.

— O Modo Berserker? — sussurrou, incrédulo.

Apenas o som das respirações pesadas preenchia o espaço entre eles.O vapor subia como névoa flamejante.E o ar… o ar queimava.Tudo nela exalava ira absoluta, e ainda assim, ela não gritava.Não sorria.Não tremia.

Ela era apenas ódio.

E sabia que, a partir daquele momento, tudo que tocasse seria destruído.

Lethos engoliu em seco.— Isso é loucura…

Althaia então ergueu o machado com uma só mão.E quando o fincou no chão novamente, o impacto fez o solo tremer como se um gigante pisasse na terra.

O riso ecoou novamente, gutural e dissonante, rasgando o ar como vidro trincando.Mas desta vez, não era apenas Azazel que ria.Era Li Wang também.Duas vozes saindo de uma só garganta, uma feminina e humana, outra grotesca e cavernosa, misturadas em uma harmonia doentia.

—Garota…— Disse Azazel, com a voz reverberando em camadas. —Você acha que é a única que sabe usar este truque…?

A respiração que escapava pelas frestas da máscara demoníaca começou a se tornar em vapor fervente, espesso e pulsante, como se algo dentro dela estivesse prestes a explodir.O ar ao redor chispeava; o chão estalava, fendido como madeira forçada até o colapso.

Althaia, pela primeira vez na vida, recuou um passo.Seus olhos rubros estreitaram-se num foco letal, mas havia algo novo: irritação, surpresa, desconfiança. Ela reajustou a empunhadura do machado, em guarda.

As auras se chocavam no ar, como dois lobos prestes a se devorarem.

Lethos, imóvel, murmurou sem perceber:

— Isso é o Modo Berserker? Mas… como? Como ela é capaz de usar isso? Isso não…Isso não é possível…— concluiu, sentindo pela primeira vez o arrepio da dúvida subir-lhe pela espinha.

Azazel ergueu a foice com um gesto solene, quase teatral, deixando-a vibrar no ar como se fosse parte de um ritual antigo e proibido.Sua presença consumia tudo, não havia som de pássaros, não havia vento, só o peso absoluto de algo que não deveria existir.

—Essa garota…— disse ele, com a voz dupla saindo por trás da máscara grotesca. —Ela sequer sabia o que carregava dentro de si. Uma força tão vasta, tão abissal… que poderia ter mudado tudo. Mas não soube usar. Não soube entender. Não soube comandar.

Azazel girou a lâmina uma vez, como se testasse o próprio corpo.

—Por isso, agora eu a tomo. E usarei tudo que ela tem, tudo que ela é, da melhor forma possível: para destruir. Para matar todos que eu quiser. Cada inimigo… cada inocente… cada mundo que ela tentou salvar.Sua voz curvou-se, sarcástica e quase paternal:—A garota que sempre fez o que achou justo… que arriscou tudo para salvar os outros… será lembrada como a faísca da extinção da vida.

Lethos ainda recuava, passo a passo, como se o que via diante de si não fosse apenas uma entidade… mas uma maldição viva.O ar parecia pesar toneladas.

Althaia deu um passo à frente, os olhos incandescentes fixos na figura à sua frente.Seu tom foi baixo, firme… e carregado de desafio:— Então diga… quem é você, afinal?

Azazel virou lentamente a cabeça em sua direção.—Eu…

A terra vibrou sob seus pés.A máscara se contorceu em um esboço grotesco de sorriso. —Sou a ruína.

Fim da leitura

Capítulo 51 concluído

CAPÍTULO 51 - 49 – Eu Sou a Ruína