KarmagóCAPÍTULO 15 - 15 Face Falsa
Capítulo 15Capítulo 15: Face Falsa
Karmagó
Engrenora era um reino vasto, até revolucionário, as pessoas diziam. A maioria das pessoas olha apenas para a beleza, as ruas limpas, as fábricas de máquinas, a evolução. Toda moeda tem duas faces, assim como Engrenora tinha as suas. As pessoas viam Alta-Engrenora exuberante em cor de cobre, e esqueciam seu outro lado, Baixa-Engrenora.
Baixa-Engrenora era cinza, sufocada por nuvens de fumaça. O lixo tomava conta das ruas, as fábricas de armas rodeavam as esquinas. As pessoas não viam a feiúra, as ruas sujas, as fábricas de armas, o retrocesso.
Na base do lixo, estão os cidadãos. Forçados a roubar, a trabalhar como operários, a fugir como presas, e a morrer como lixo. Lutavam por qualquer migalha que conseguissem, mesmo que passassem por cima uns dos outros.
Acima deles, estavam os mercenários e os magnatas. Uma milícia composta de assaltantes, assassinos e mentirosos, feita para manter a cidade como ela era: os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Comandando eles, no subsolo de uma grande fábrica de armas, estava Belmorth. Humano, famoso visionário, intitulado filantropo, mas o grande maestro dessa peça de comédia e tragédia, mais tragédia que comédia.
O homem era tão alto que chegava a ser intimidador. Sua pele branca, quase pálida, com olheiras roxas abaixo dos olhos delatava as noites de sono perdidas. O cabelo loiro e encaracolado descia até a orelha, extremamente limpo e bem hidratado.
Suas roupas eram elegantes, portava uma camisa militar preta de mangas longas, adornada por uma gravata branca ao redor do pescoço e uma cartola sobre a cabeça. Suas calças eram um jeans longo e branco, quase mais branco que as paredes ou o terno que carregava sobre as costas. Finalizava o visual com um par de sapatos pretos de grife.
Ele caminhava pelos corredores de metal e canos com válvulas. Cumprimentava os funcionários, que devolviam com sorrisos forçados.
Um operário se aproximou, idoso e cansado da fumaça.
— Senhor? — disse ele, com as más notícias na ponta da língua.
— Sim? Alastor, estou correto? — O pomposo respondeu, com a voz aveludada e lenta.
— Sim senhor. Tenho más notícias a reportar.
— Oh! Meu caro Alastor, entenda: Não existem boas ou más notícias, apenas notícias.
— Bom… tivemos outra invasão ontem pela noite.
— Isso é uma má notícia. — Belmorth caiu na própria contradição. — O que houve? Roubaram algo da fábrica?
— Não senhor.
— Foi o culto de Nazhur então?
— Foi aquele garoto novamente.
— Ah! Apenas jogue-o para fora, ele não me interessa.
— Mas senhor…
— Sem “mas”, Alastor. Estou com visitas hoje, estou ocupado.
Ele acelerou o passo, deixando o operário para trás com o seus pensamentos e deveres.
“Aquele Stajäger. Já foram quantas vezes, sete?”, pensou ele, com a testa franzida um pouco.
Andou até o final dos corredores, confusos como o inferno. Chegou em seu escritório, perceptível pela placa com o nome: Belmorth Rubrae.
A sala era escura, o piso era de madeira fofa e as paredes eram bem trabalhadas, tanto os tijolos quanto a tinta estavam em seu ápice. Quadros abstratos com molduras caras decoravam as paredes e vasos de flores decoravam os cantos.
Ao centro, uma mesa tripé com pernas de centro, esculpida cheia de pompa e rodeada por duas cadeiras, também de madeira, bem estofadas e limpas.
Acima da mesa, um jogo de chá: Um bule branco e ornamentado, pires polidos e xícaras com desenhos laterais. Acima das cadeiras, foi onde o magnata se sentou.
Pegou dois pires, colocou duas xícaras e serviu duas bebidas.
— Prefere com, ou sem açúcar, meu Signore? — perguntou ele, encarando a escuridão que se formava no canto da sala.
As trevas se moldaram, como um animal vivo, e delas saiu o mago aberrante, o necromante de Eldon.
— Dispenso o chá — falou ele, já sentado na última cadeira.
Seu corpo estava com um cheiro ainda mais podre. Pedaços de sua carne descolavam do corpo, as costuras já não eram o suficiente para manter a estrutura unida. Precisava manter o olho esquerdo fechado, para que não saltasse para fora do buraco.
— Fico lisonjeado de recebê-lo, meu Signore — continuou o rapaz nobre. Sua voz era aveludada e calma, como se não estivesse diante de um monstro. — Em que eu posso ajudar meu amado Sig…?
— Poupe os elogios, Belmorth — O necromante cortou a frase, tão seco quanto uma espada. — Vim para receber o relatório da pesquisa, então vá direto ao assunto.
— Claro! — Ele não perdia a postura. Tirou alguns papéis do bolso e ergueu a xícara de chá. — Tivemos bons avanços com relação a atrair a criatura, os frutos são mesmo uma isca incrível.
— Como está indo o processo de reunir e movê-los? — Cada palavra pesava como o golpe de um martelo.
— Conseguimos mover mais da metade, mas o resto… “se perdeu” durante o transporte. Parece que quanto mais compatível o portador for, mais tempo ele poderá hospedar o Vagante. — Mas o nobre respondia sem dificuldade. Ao invés de medo, ele tinha admiração nos olhos.
— “Se perdeu”? Então eles estão soltos pela cidade?
— Infelizmente… Isso é um problema, meu Signore? — Bebeu parte do chá, não desperdiçaria o que já estava servido.
— Nem um pouco. Já tenho a quantidade de carma necessária, estou apenas juntando sobras.
— Entendo. Fabuloso, meu Signore.
— E quanto aos efeitos colaterais nas cobaias?
— O melhor experimento durou cerca de seis meses, foi um dos aventureiros da guilda, acho que se chamava Aldric.
— O povo dessa cidade reagiu bem?
— O povo de Engrenora pareceu não ter tanta rejeição, apresentaram apenas alucinações audiovisuais e hostilidade. O esperado. — Levou a xícara até a boca novamente. — Partirmos para cá foi uma ideia genial, meu Signore foi muito inteli…
Com o mover da mão do morto-vivo, o braço do nobre voou para a parede, tingindo o branco de vermelho.
— Eu disse para ser direto.
— Minhas desculpas, meu Signore. — O homem se curvou realizando uma mesura, sua ferida sangrava no ritmo de seus batimentos cardíacos.
— Se cure logo, tenho outros assuntos a tratar. Conseguiu o que pedi?
— Mas é claro, tudo pelo meu Signore. — O sem braço deu alguns passos para longe da mesa, se aproximando do braço caído. Foi então que estalou o dedo do braço restante. — [Carnoféx]!
De um dos bolsos, pulou um cubo vermelho pulsante, seus movimentos eram rítmicos como um batimento cardíaco. O cubo logo cresceu, assumindo uma forma que causaria pesadelo em pessoas normais.
Era feito de carne exposta por inteiro, sua forma lembrava a estrutura de um templo, cúbico com janelas e portas. Nas paredes, membros humanoides se formavam e desapareciam. Faces em agonia saltavam da parede, lutando por espaço.
Se movia dando vida a braços e pernas a partir das laterais, para transformá-los em carne morta logo em seguida. Os gritos de agonia daquelas pessoas ressoavam pela sala.
— Regenere, [Carnoféx] — sussurrou ele.
Com o caminhar leve, o nobre tocou a coisa, que engoliu sua mão. Em pouco tempo, o amontoado de carne se ligou ao ferimento do braço, formando um novo.
— Eu tenho outros assuntos a tratar nas ruínas, então deixarei a página com você. — intimou o necromante.
— Claro, meu amado Signore. — Ele afastou-se da criatura, batendo pequenas palmas como se chamasse um cachorro. — Solte a garota… Libere [Carnoféx].
De um dos rostos assimilados à parede, um corpo começou a se formar. A forma nua de uma garota surgiu diante deles, caída ao chão. Era uma garota gelariana jovem, no auge dos seus dezoito anos.
Ela não demorou a recuperar sua consciência, passando os olhos pela sala em que estava.
— Onde eu…? — disse ela, ainda zonza.
— Ah… Você acordou… — O nobre começou a conversa.
Ao reparar nas duas presenças, a garota usou as mãos para tapar o corpo, cerrando os dentes para segurar a vontade de vomitar pelo cheiro.
— Quem são vocês? Senhor Belmorth? Onde eutô? — A desconfiança começou a se formar em seus olhos.
O homem colocou a mão próxima ao peito, no bolso da camisa.
— Era melhor ter continuado a dormir, garotinha.
— O que você…? — Antes que a garota pudesse continuar, um tiro foi disparado contra sua testa e seu crânio foi perfurado.
O nobre observava com o revólver em mãos, satisfeito com o resultado.
Armas de fogo, o terror dos guerreiros que não usavam carma.
— Está pronta, meu Signore… ou devo dizer minha Signore? — Ele sacou um pano branco para limpar o sangue em seu rosto. Um sorriso degenerado surgiu de orelha a orelha.
Silencioso como a morte, o necromante caminhou até o cadáver, o carma sombrio se espalhou de suas mãos para o chão, e do chão para o corpo.
Em instantes, a garota se mexia dura e lenta, como um boneco de ventríloquo, uma marionete de carne e osso, um morto-vivo.
Com um golpe rápido, o necromante golpeou o peito do corpo ardenteriano, esmagando o próprio coração com as mãos.
Caiu ao chão se desmanchando em restos costurados, sem derramar uma única gota de sangue. A garota se abaixou, agora se movendo perfeitamente bem, pegou as roupas do monte de carne e se vestiu.
“Tão belo… se moldar e remoldar com tanta naturalidade… é lindo…”, Belmorth encarava fascinado. Ele já não escondia seu rosto perverso.
A falsa garota estendeu os braços, moveu as mãos em círculos, deu pequenos saltos, soltou alguns grunhidos. Ela testava o corpo igual quem experimenta uma roupa nova.
— Parece bom. Deve durar algumas décadas. — A voz era diferente de antes, mas parecida com uma versão mais fina e feminina da voz anterior. — E o resto?
Sem dizer uma única palavra, o nobre enviou uma ordem para seu Servo. O templo de carne começou a expelir corpos de suas paredes.
Primeiro um, depois cinco, dez, vinte. Trinta corpos, entre todas as raças, mas com poucos humanos.
Com outro tocar da criatura, as pessoas começaram a se remodelar, desfigurar, e reconfigurar. Uma pequena esfera de carne e membros atrofiados se formou diante dos dois.
— Minha Signore? — Belmorth abriu caminho para a dama fúnebre, que rumou até a esfera.
Procurou nos robes, até encontrar outra esfera como aquela. Postas uma ao lado da outra, o carma emanava como duas baterias imensas.
— [Carnoféx], por favor. — Com o pedido do mago, a monstruosidade juntou as duas esferas, formando uma única.
Sua forma desafiava as leis da física, seu tamanho não havia aumentado, mas o carma estava acumulado. Era um pequeno amálgama de horror e energia.
Com um leve puxão para ajustar a roupa, a necromante caminhou até o canto da sala de onde surgiu e disse: — Kharon, estamos indo.
— Sim senhora, minha Signore. — A sombra respondeu com uma voz grave, tão grossa que era capaz de reverberar nos ossos de quem ouvia.
As sombras que cobriam a vértice se deformaram e aumentaram de tamanho, de forma com que parecesse uma abertura.
Uma última olhada pairou sobre o nobre, semelhante a uma mestra com expectativas no pupilo.
— Em algumas horas, mandarei Kharon para te buscar. Começamos o ritual quando tudo estiver pronto, então consiga o máximo de informações que conseguir sobre a pesquisa.
Com o estender de uma das mãos, uma pequena chama branca se formou na palma da necromante. A chama dançou e queimou, moldando sua forma para como uma folha, uma folha antiga.
O nobre segurou a folha com as duas mãos, seus olhos brilhavam com o presente recebido: uma página do grimório da primeira maga
— Por suposto que sim, minha Signore — confirmou ele com uma mesura.
A defunta desapareceu, engolida pelas sombras. Sua expectativas eram baixas, mas pesavam como chumbo nos ombros de Belmorth.
O homem caminhou até a criatura, acariciando a textura esponjosa e vermelha pulsante.
— Oh… você está com fome? — Sua voz era temerosa, como se a coisa fosse um animalzinho.
Pousou seu terno sobre a cadeira, exibindo a grande camisa militar negra.
— Senhor Belmorth? — Uma voz cruzou a porta, seguida de algumas batidas em ritmo. Era Alastor, o operário idoso. — O senhor está aí?
O nobre virou seu olhar para a porta. Seu sorriso, antes depravado, agora se tornava sádico e realizado.
“Tudo pela minha Signore… sinto por isso, Alastor”, os pensamentos quase escaparam pela boca sorridente.
Caminhou até a porta e atendeu o homem, o trazendo para dentro da sala. Seus gritos nunca foram ouvidos, e ele nunca mais foi visto.
Em meio a diversão da criatura, Belmorth observava o trabalhador lutar por sua vida. O mago era a encarnação do símbolo sombrio tatuado na lateral de seu pescoço: a marca de Nazhur.
O culto não conhecia o medo, nem o silêncio, nem mesmo o esquecimento. Sua presença era um tumor que sempre deixava cicatrizes e, agora, Belmorth se tornaria mais uma delas.
Comentários do capítulo 15
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.