Leia o Vento — Capítulo 252: CAPÍTULO 252 - 252 - A vontade de ser mais forte

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Cap. 252
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CAPÍTULO 252 - 252 - A vontade de ser mais forte

Capítulo 252

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Capítulo 252 - A vontade de ser mais forte

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O som seco do couro sendo atingido ecoava pela casa em intervalos irregulares, quebrando o silêncio daquela tarde cinzenta. O saco de pancadas balançava de um lado para o outro, rangendo levemente na corrente presa ao teto, como se também estivesse cansado de apanhar.

Ben respirava com dificuldade.

Seus punhos estavam envoltos em faixas já encharcadas de suor e manchadas de vermelho. Cada golpe carregava mais do que força física — havia raiva, frustração, vergonha e um sentimento profundo de insuficiência. Seus músculos tremiam, não apenas pelo esforço, mas pelo excesso de emoções reprimidas.

— Droga… — murmurou entre os dentes, desferindo mais um soco, desta vez tão forte que o saco girou completamente sobre o próprio eixo.

O impacto reverberou pelo braço inteiro, atingindo o ombro e explodindo em dor no peito, exatamente onde havia sido atingido dias atrás. Ben rangeu os dentes, mas não parou. Pelo contrário, avançou mais um passo e continuou golpeando.

Socos.

Chutes.

Cotoveladas desajeitadas.

Nada parecia suficiente.

A imagem de Merchan Kazoi surgia em sua mente a cada movimento. O sorriso calmo. O olhar entediado. A sensação humilhante de ser esmagado sem sequer entender como.

— Mais forte… — sussurrou, ofegante. — Eu preciso ficar mais forte…

O saco de pancadas foi lançado contra a parede e voltou com violência, batendo contra seu ombro. Ben quase perdeu o equilíbrio, mas se manteve de pé.

Foi então que a porta se abriu.

— Ben?

A voz de Sophie cortou o ambiente como um fio delicado atravessando aço bruto.

Ele parou.

O saco continuou balançando lentamente, emitindo um rangido baixo. O peito de Ben subia e descia de forma descompassada. Ele permaneceu de costas, os punhos ainda cerrados, o suor escorrendo pelo pescoço.

Sophie estava parada na entrada do cômodo. Vestia roupas simples, o cabelo preso de forma descuidada, como se tivesse acabado de chegar. Seus olhos percorreram rapidamente o cenário: o saco marcado por rachaduras, o chão sujo de suor e sangue, e, principalmente, Ben — rígido, tenso, como uma corda prestes a arrebentar.

— Desde quando você treina assim? — perguntou, dando alguns passos para dentro.

Ben soltou o ar lentamente antes de responder.

— Desde que percebi o quão fraco eu sou.

A resposta foi direta demais.

Sophie franziu levemente o cenho e se aproximou mais, parando a poucos metros dele.

— Fraco? — repetiu. — Você quase se matou nesses últimos dias. Isso não parece fraqueza.

Ben riu, mas não havia humor algum no som. Era uma risada curta, amarga.

— Parece sim. — Ele finalmente virou o rosto o suficiente para que ela visse parte de sua expressão. Seus olhos estavam fundos, cansados. — Porque quando realmente importou… eu não consegui fazer nada.

O silêncio caiu pesado entre os dois.

Sophie entendeu imediatamente que aquilo não era apenas sobre treino. Era sobre algo que havia quebrado por dentro.

— É por minha causa? — perguntou com cuidado.

Ben fechou os olhos por um instante.

— Também.

Ele se virou completamente, apoiando as mãos no saco de pancadas para não cair. Seu corpo parecia maior do que nunca… e, ainda assim, absurdamente vulnerável.

— Eu não consegui proteger ninguém. — Sua voz falhou levemente. — Se aquele cara quisesse… se ele tivesse vindo até aqui… — Ben apertou os dentes. — Eu não teria conseguido fazer nada para te proteger.

Sophie deu mais um passo à frente.

— Ben…

— Eu sei que você é forte — ele continuou, antes que ela pudesse interromper.

— Eu sei que você sabe se virar. Mas isso não muda o fato de que eu deveria ser capaz de ficar na sua frente e aguentar qualquer coisa.

Ela respirou fundo.

— Eu não preciso que você seja meu escudo — disse, com firmeza contida. — Eu tenho poder. Tenho meios. Eu posso me proteger.

Ben levantou o olhar, encontrando o dela.

— Mas eu preciso — respondeu.

A frase caiu como um peso invisível.

Sophie sentiu o peito apertar. Aproximou-se e tocou de leve o braço dele, sentindo a tensão sob a pele.

— Você não é fraco por perder uma luta — disse, mais suavemente agora. — Você só encontrou alguém que está em um nível diferente… por enquanto.

Ben desviou o olhar.

— “Por enquanto” não impede que você morra — murmurou.

Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, obrigando-o a encará-la.

— O que me protege — disse, olhando diretamente em seus olhos — não é só força. É estar vivo. É pensar. É confiar. E… — ela hesitou por um segundo — …é saber que você se importa comigo desse jeito.

Ben sentiu algo quebrar e se recompor ao mesmo tempo dentro do peito.

— Eu vou ficar mais forte — afirmou, com voz baixa, mas decidida. — Não por orgulho. Não por vingança. Mas porque eu não aceito mais me sentir inútil quando o perigo aparece.

Sophie encostou a testa na dele.

— Então fique. — Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. — Mas não se perca no processo.

O saco de pancadas, esquecido, continuava balançando lentamente atrás deles.

Em outra parte da cidade, a atmosfera era completamente diferente.

A casa de Yoru estava silenciosa, iluminada apenas pela luz suave que entrava pelas janelas. O ar da noite trazia uma sensação estranhamente tranquila, contrastando com o caos que parecia se formar lentamente no mundo exterior.

Yoru estava sentado no chão da sala, encostado no sofá. Os braços apoiados nos joelhos, o olhar perdido em algum ponto invisível à frente.

Hina estava sentada ao lado dele, com as pernas dobradas, segurando uma xícara ainda quente entre as mãos. O vapor subia lentamente, dissipando-se no ar.

— Faz tempo que não te vejo assim quieto — comentou ela.

Yoru piscou algumas vezes, como se estivesse voltando de um lugar distante.

— Quieto por fora — respondeu. — Por dentro… é um inferno.

Hina o observou com atenção.

— As coisas estão ficando mais claras? — perguntou. — Você sente que está entendendo melhor o que está acontecendo?

Yoru soltou um suspiro longo.

— Não. — Passou a mão pelos cabelos. — Parece o contrário. Quanto mais eu avanço, mais perguntas aparecem.

Ele apoiou a cabeça no sofá, encarando o teto.

— Tem o Charles. Tem a Kira. Os mistérios da minha mãe. Tem gente se movendo nas sombras, puxando fios que eu nem sei onde começam. — Um sorriso cansado surgiu. — E no meio disso tudo, eu ainda tento entender quem eu sou… e o que eu devo fazer.

Hina permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de falar.

— Você sempre achou que precisava ter todas as respostas — disse. — Talvez esse seja o problema.

Yoru virou o rosto para ela.

— E se eu errar? — perguntou, com franqueza rara. — E se cada decisão minha estiver levando todo mundo para um caminho sem volta?

Hina pousou a xícara no chão.

— Então você vai errar tentando proteger o que acredita — respondeu. — Isso já é mais do que muita gente faz.

Yoru fechou os olhos.

— Eu tenho milhões de dúvidas — confessou. — E nenhuma delas parece ter solução.

Hina sorriu de leve.

— Talvez algumas não tenham mesmo. — Ela se inclinou levemente em direção a ele. — Às vezes, viver é aprender a caminhar mesmo sem enxergar o chão inteiro.

O silêncio voltou a se instalar, mas agora não era pesado. Era contemplativo.

Lá fora, a noite avançava lentamente.

Em diferentes pontos da cidade, corações estavam sendo moldados pela dor, pela dúvida e pela vontade silenciosa de seguir em frente.

E, mesmo sem perceber, todos eles caminhavam em direção a algo muito maior do que imaginavam.

Fim da leitura

Capítulo 252 concluído

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