Memórias PerdidasCAPÍTULO 37 - 36 - “Seja Feliz… Você Merece Isso”
Capítulo 37Capítulo 36 - “Seja Feliz… Você Merece Isso”
Memórias Perdidas
“…Vale o destaque de que sua mãe teve um ato nobre em seus últimos dias de vida. Mesmo estando doente, ela continuava trabalhando, ajudando os doentes e feridos e mal dormia. Quando ela desmaiou de fraqueza e ficou de cama, se recusou a tomar os medicamentos, alegando que “os outros precisam mais do que eu”. Sua mãe foi uma heroína e morreu fazendo o que amava: ajudando as pessoas.
Abaixo está uma transcrição de uma carta que ela enviaria a você na noite anterior à sua morte:
Uma porta se abriu. A luz da rua cortou a escuridão da casa como uma lâmina pálida. Na porta, surgiu a figura de uma garota de cabelos brancos. Ela não se moveu de imediato. Ficou ali, parada, como se hesitasse em entrar. Como se aquela casa fosse, ao mesmo tempo, bom e mal de estar dentro. Passaram-se alguns segundos e então ela cruzou a entrada.
Cada passo dentro da residência era cuidadoso. Mancava levemente, ainda não estava acostumada à nova realidade, à sua prótese. O corredor estava em silêncio. Ela o percorreu devagar, até alcançar o cômodo principal: a sala de estar, de jantar e a cozinha, tudo conectado.
Passou pela cozinha, depois pela mesa de jantar e então pela sala de estar. Seus olhos percorriam tudo ao redor com um olhar misto de curiosidade e nostalgia.
Ao se sentar no sofá, uma fina nuvem de poeira se ergueu. Ela pegou um livro esquecido sobre a mesa de centro. Ficou olhando para ele por alguns segundos. Passou os dedos sobre a capa como se reencontrasse um velho amigo. Folheou algumas páginas e o devolveu à mesa com paciência.
Se levantou. Retornou ao corredor. Desta vez, virou à direita, onde uma escada levava ao andar de cima. No topo, havia dois caminhos. Primeiro, foi para a esquerda.
No fim do corredor, havia uma porta. Ela a abriu devagar. Era um quarto de casal. A cama estava feita, havia uma poltrona ao canto, quadros nas paredes. Tudo limpo… e intocado. Evelyn não entrou. Ficou à porta. Observou o quarto por alguns segundos. Depois, baixou o olhar e fechou a porta com a maior delicadeza possível, sem fazer ruído.
Se virou e foi para o lado oposto do corredor. A outra porta abriu com um rangido leve. Então entrou. Era seu antigo quarto. Seus olhos passearam pelos objetos familiares — a escrivaninha quase vazia, a cadeira confortável. Passou a mão sobre o móvel, sentindo a textura da madeira, do verniz, como se quisesse confirmar que aquilo ainda era real.
Do outro lado do quarto, a cama estava desarrumada. Com um suspiro, ela ajeitou o lençol. Depois os dois travesseiros. Por fim, dobrou o cobertor com cuidado, deixando-o sobre a ponta da cama em formato retangular, exatamente como fazia antes de tudo.
Ficou ali, imóvel, olhando para a cama por longos segundos.
Então, se deitou com cuidado, sem bagunçar a cama que acabou de arrumar. Entrelaçou os dedos sobre o peito e encarou o teto — onde uma janela mostrava o céu noturno. As estrelas brilhavam.
De tanto olhar para o céu noturno, Evelyn fechou os olhos e adormeceu em silêncio. Estava feliz pelo tempo que ficou com quem amava. E deprimida por esse tempo ter acabado tão rápido.
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