Memórias PerdidasCAPÍTULO 75 - 74 - A Escolha II
Capítulo 75Capítulo 74 - A Escolha II
Memórias Perdidas
Evelyn puxou a pilha de cartas da mesa ao lado da porta e folheou rapidamente com os olhos, separando três envelopes do restante. O papel de cada um era diferente: o primeiro tinha um lacre vermelho, bem prensado; o segundo, azul-escuro e ligeiramente amassado nas pontas; o terceiro, mais simples, sem nada de especial.
Ela pegou os três e caminhou até a mesa de jantar, onde Niko e Brigitte estavam sentados. Niko tamborilava os dedos sobre a mesa de madeira. Brigitte, por sua vez, ainda passava a mão nos arranhões que ganhou do gato, mas sem perder o bom humor.
— Aqui estão as opções. — disse Evelyn, sentando-se com um leve estalo da cadeira. Quebrou o lacre do primeiro envelope com cuidado e puxou a folha de dentro, alisando-a antes de começar a leitura. — Vamos ver…
— Huh… um roubo direto? — comentou Evelyn, sorrindo de lado. — Gostei. Eu apoio a gente fazer essa aqui.
Brigitte imediatamente bateu as mãos na mesa com força, fazendo os dois virarem o rosto. A madeira vibrou sob o impacto.
— Mas nem pensar que a gente vai fazer isso! — disse ela, com as sobrancelhas franzidas, indignada. — Roubar é errado! E não vamos cometer crimes!
— Ah, qual é… — Evelyn recostou-se na cadeira, cruzando os braços com um suspiro demorado. — É um roubo bem pago. Já fiz isso centenas de vezes. Não é nada de mais.
— Não importa se paga bem! Não importa a desculpa! — Brigitte se levantou, apontou o dedo para Evelyn, como se estivesse repreendendo uma criança. — Enquanto eu estiver nesse grupo, a gente não vai cruzar essa linha! Eu jurei nunca usar meus poderes pra prejudicar inocentes. E sim, roubar conta como prejudicar!
— Tá bom, heroína… — Evelyn murmurou.
— Eu também concordo com a Brigitte. — disse Niko, interrompendo a troca. — Não gosto muito da ideia de roubar itens de pessoas inocentes.
— Hah?! Mas, mas…
— Sem mais. — concluiu ele. — Esse contrato está fora de cogitação.
Evelyn abaixou tristemente a cabeça, derrotada, enquanto Brigitte comemorava com um pulinho no lugar e os punhos erguidos.
— Yey!
Do outro lado da sala, o gato laranja espiava os três de baixo do sofá, como se esperasse o momento certo em que pudesse sair sem que Brigitte percebesse.
Sem mais o que fazer, Evelyn pegou o segundo envelope. Dessa vez, deslacrou com menos entusiasmo. A leitura foi mais curta, com um tom entediado.
— Ele não diz quem é, nem por que precisa de proteção. — comentou Niko, coçando o queixo.
— E ainda insiste na tal “discrição” sem dar contexto nenhum. — Brigitte cruzou os braços, desconfiada. — Isso cheira a encrenca.
— E se for só um nobre paranoico? — sugeriu Evelyn, arqueando uma sobrancelha.
— Ou um criminoso tentando não ser morto num jantar. — rebateu Niko, sem mudar a expressão.
— Deixa eu adivinhar… também não vamos fazer essa?
A resposta veio no silêncio. Ambos encararam Evelyn com expressões neutras, mas perfeitamente claras. A elfa suspirou alto e largou a carta na mesa com certa indiferença.
— Tá bom. Última tentativa.
Ela pegou o envelope restante, que tinha o papel mais áspero e a cera já meio gasta. Rasgou-o com rapidez e leu o conteúdo com tom mais contido, como se já esperasse algo mais promissor.
Brigitte nem esperou o fim da leitura. Seus olhos brilharam como os de uma criança recebendo um presente inesperado.
— Essa!
— Você nem ouviu tudo ainda… — disse Niko, olhando de lado.
— Não importa! É uma missão de verdade! Um mistério! Um fazendeiro pedindo ajuda… isso é coisa de…
— …uma heroína? — completou Evelyn, sem conter o sorriso.
— Exatamente! — Brigitte bateu os punhos na mesa de leve com empolgação. — Além disso, ninguém mais vai resolver isso por ele! Se a gente recusar, ele vai continuar sozinho com esse problema.
Niko pegou a carta e releu, agora com mais atenção. As palavras estavam lá, mas alguma coisa no tom da mensagem o deixava desconfortável. Uma sensação difícil de explicar.
— Se o celeiro estava trancado… e não havia pegadas… como o boi morreu?
— E é isso que nós vamos descobrir! — disse Brigitte, erguendo o queixo com confiança exagerada.
Evelyn observou os dois. Por um momento, o apartamento ficou em silêncio — apenas ouviam o vento batendo contra a janela.
— O que diz, maninho? — perguntou a elfa.
Niko suspirou devagar, colocando a carta sobre a mesa. Ainda não confiava cem por cento em Brigitte. Ainda achava que algo não se encaixava. Mas, de todas as missões, essa era a mais… honesta.
— Certo. Vamos ver o que está acontecendo nessa fazenda.
Brigitte comemorou com um soco no ar e uma pirueta desajeitada no mesmo lugar, como se estivesse em um palco.
— Mal posso esperar por isso!
Enquanto Brigitte ainda girava no próprio eixo, vibrando de empolgação, o gato laranja esgueirou-se para fora do sofá. Olhou rápido para os lados, depois disparou em silêncio pelo corredor, atravessando a fresta da porta antes que alguém percebesse.
Niko, que ainda segurava a carta do fazendeiro, viu o vulto alaranjado escapando — e esboçou um leve sorriso.
— Amanhã de manhã partimos pro interior, pra fazenda. — disse Evelyn, espreguiçando-se com um leve estalo nos ombros. — Até lá, podemos descansar um pouco.
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