Memórias PerdidasCAPÍTULO 81 - 80 - Confiança II
Capítulo 81Capítulo 80 - Confiança II
Memórias Perdidas
O silêncio que restou era espesso como fumo. Só o crepitar da lenha na lareira preenchia o ambiente, e o som do vento batendo nas janelas reforçava a sensação de isolamento e solidão.
Niko permaneceu parado por alguns segundos, diante do caderno. Brigitte continuava encolhida no sofá, de lado, coberta até os ombros. A respiração ritmada e os cabelos bagunçados denunciavam o quão profundamente dormia. Era a primeira vez que ele a via assim: sem falar, sem sorrir, sem aquelas falas teatrais. Apenas quieta. Frágil. Como alguém tentando fugir de um mundo que não a queria.
Ele se sentou na mesa de jantar. Puxou o caderno para si. Por um instante, hesitou. Pensou se valia a pena mesmo ler aquilo. É claro que vale a pena. Brigitte pode ser uma espiã, ficar sem fazer nada é assinar sentença de morte de Evelyn e dele mesmo. Então, com um gesto lento, abriu a capa.
A primeira página estava coberta por letras pequenas e ansiosas, escritas com uma caligrafia comprimida, como se Brigitte estivesse tentando fazer caber o mundo em um espaço limitado.
As páginas mantinham o mesmo tom entusiasmado, leve, cheio de exclamações bobas e rabiscos nas margens. Também tinham anotações sobre a comida do alojamento, sobre uma criança que trombou nela no mercado, comentários sobre como Evelyn parecia legal, mas difícil de ler, ou como Niko parecia o tipo calado, mas não mau.
Nada ali parecia perigoso. Nada revelador.
Justamente por isso, Niko manteve os olhos semicerrados. Aquele estilo bobo, cheio de carinhas felizes e frases confusas, podia muito bem ser uma fachada. Um truque de distração. Ele já tinha lido sobre esse tipo de coisa antes. Espiões bons sabiam se camuflar, sabiam deixar rastros falsos — e ninguém suspeita de alguém que escreve “Ebaaaaaaa! : D” em um caderno pessoal. Se ela realmente fosse uma ameaça, esconderia tudo à vista.
Mas então, ao virar mais uma página, ele se deparou com algo diferente. A letra mudou ligeiramente, ficando mais contida, menos arredondada. Não havia mais data. O título apenas dizia:
Niko virou a página.
As anotações eram obsessivas. Ideias repetidas várias vezes. Pequenos mapas desenhados à mão, hipóteses sobre o ataque ao boi, suspeitas rascunhadas e riscadas em seguida.
Viu listas de falas ensaiadas, estratégias para como se comportar em grupo, como se Brigitte estivesse tentando aprender como ser aceita como se aprende uma língua estrangeira.
Olhou para a outra página. As palavras começavam a falhar, a tinta estava tremida e manchada.
Niko parou de ler. Fechou o caderno lentamente, como se estivesse segurando algo sagrado — ou quebradiço demais para se continuar tocando.
O arrependimento bateu como uma pedra jogada em sua cabeça. Não era apenas invasão de privacidade. Era como se tivesse espiado uma confissão não destinada a mais ninguém. Aquela garota não estava escondendo nada. Ela estava implorando, em silêncio, para ser aceita. Para provar seu valor. Para ser alguém que eles quisessem por perto.
E ele passou os últimos dois dias desconfiando, afastando, encarando com olhos duros cada tentativa dela de tentar se encaixar.
Se sentiu pequeno. Covarde.
Devagar, se levantou e voltou até o sofá. Colocou o caderno de volta exatamente como estava, tomando cuidado para não acordá-la. Ela se mexeu, resmungando algo que ele não entendeu, mas logo se aconchegou outra vez.
Niko a observou por mais um segundo. O olhar ficou baixo. Não devia ter invadido sua privacidade. Não devia ter desconfiado dela daquele jeito. “Eu sou um idiota…”
Então sussurrou:
— Me desculpa.
Depois disso, apagou a vela da mesinha e foi se sentar na poltrona mais próxima da lareira, onde o calor ainda existia. Seus olhos encararam as chamas, mas sua mente vagava longe.
Ele não sabia se Brigitte ouviria suas desculpas um dia. Não sabia nem mesmo se era merecedor daquilo. Ele queria contar o que fez a ela, mas não se imagina fazendo isso. Ele não tinha coragem.
Queria poder consertar as coisas. Queria poder apagar o que fez. Mas não podia. Não havia gesto que desfizesse a quebra da confiança. Nenhuma palavra que soasse certa.
Naquele instante, Niko entendeu que talvez a única coisa que ainda podia fazer por Brigitte era confiar nela.
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