Memórias Perdidas — Capítulo 83: CAPÍTULO 83 - 82 - As Descobertas II

Memórias Perdidas
Cap. 83
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Memórias Perdidas

CAPÍTULO 83 - 82 - As Descobertas II

Capítulo 83

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Capítulo 82 - As Descobertas II

Memórias Perdidas

A neve estalava sob as botas de Niko e Evelyn enquanto atravessavam a lateral da casa principal da fazenda. Mesmo que fosse inverno, o céu estava limpo e brilhante, como se o sol quisesse exibir seus belos raios de luz para todos no dia. O vento soprava entre os galhos secos dos arbustos ao redor dos currais e a neve começava a derreter.

A fazenda contava com cinco funcionários fixos — todos contratados por Sigurd e encarregados de manter o lugar funcionando mesmo fora da época de cultivo. A maioria fazia pequenos reparos, cuidava dos animais ou mantinha as estruturas limpas e seguras até o próximo ciclo. Evelyn já havia conversado brevemente com dois deles no dia em que chegaram, mas hoje o objetivo era conseguir informações dos outros.

O primeiro funcionário estava junto ao moinho de feno, onde empilhava sacas pesadas dentro de um galpão de madeira estreito, cheio de caixas de madeira, ferramentas e sacos de pano. Era um homem baixinho mas forte, com bochechas vermelhas de frio e dedos grossos demais para as luvas de couro que usava.

Niko e Evelyn entraram dentro do galpão com a porta meio aberta, e se aproximaram do homem, que acabou de colocar um saco pesado de pano no chão, soltando um gemido.

— Uhff.

— Bom dia, senhor. — disse amigavelmente Evelyn. — Somos as pessoas contratadas por Sigurd para cuidar da investigação e da segurança da fazenda.

Ele se virou, inicialmente com os olhos arregalados.

— Ah, sim. Eu me lembro de vocês. Querem alguma ajuda?

— Sim, queremos que você responda algumas perguntas. Tudo bem?

— Mas é claro. — respondeu ele, acenando com a cabeça.

— O senhor estava aqui na noite em que o boi morreu? — perguntou Evelyn, direta.

— Tava sim. Eu e o Tomás revezamos o turno da noite. Naquele dia, era a minha vez. — respondeu o homem, esfregando as mãos para afastar o frio. — Mas eu só descobri o que aconteceu de manhã. Foi o filho do patrão quem encontrou o boi.

— O filho do Sigurd? — perguntou Evelyn.

— Isso mesmo, o Raul. O menino gosta de acordar cedo e ajudar a cuidar dos animais. Ele nem precisava fazer isso, o patrão nunca exigiu isso dele, mas o garoto é insistente. Chegou no celeiro antes de todo mundo.

— E como ele reagiu?

O homem ficou em silêncio por um segundo.

— Ficou pálido como a neve lá fora. Saiu correndo pra casa, sem dizer uma palavra. Ai, o patrão chamou a gente. Disse que o menino chegou em casa tremendo, com a camisa suja de sangue e sem conseguir falar coisa com coisa.

Evelyn e Niko se entreolharam. A resposta acrescentava um novo fator à equação.

— O Raul costuma acordar tão cedo assim todo dia?

— Quase sempre. Gosta de cuidar dos cavalos, dos galinheiros… diz que vai ser o novo dono da fazenda um dia, então precisa aprender tudo desde já. É um bom garoto. Tímido. Vive no mundo dele.

— Vocês conversaram com ele sobre o que viu?

— Ele mal quis falar disso depois. Só disse que o boi tava, bem, morto. Não falou mais nada. Nesses últimos dias nem vi ele chegar no celeiro. Isso deixou ele nervoso de verdade.

Niko ficou parado por um instante, encarando o chão do galpão como se esperasse que alguma resposta brotasse dali. O garoto era reservado, isso já sabiam. O fato de evitar o celeiro, ficar em silêncio depois do ocorrido era um claro sinal de trauma. Talvez Raul pudesse ter visto quem o que fez matou o boi — ou só não estava preparado para ver aquele tipo de brutalidade mesmo. Mas uma coisa era certa: Raul era o próximo passo da investigação.

— Obrigado pela ajuda. — disse Niko, já se virando para sair.

— Só um conselho… Se forem falar com ele, sejam gentis. Ele pode ser mais frágil do que parece.

Do lado de fora do galpão, o vento soprava mais gelado. Evelyn ajustou o cobertor no pescoço, aquela era uma maneira dela pensar melhor.

— Então foi Raul quem encontrou o cadáver. Isso muda um pouco o cenário…

— Sim, acho que deveríamos tentar falar com ele hoje, antes do fim do dia.

— Concordo. Mas com cuidado.

A dupla continuou a caminhar pela propriedade, prontos para conversar com o próximo funcionário.

O segundo funcionário estava próximo ao estábulo, recolhendo estrume congelado com uma pá. Era um homem alto e magro, tinha os cabelos pretos, com um gorro e um lenço vermelho em volta do pescoço. Seus olhos eram fundos e pareciam ter visto poucos cochilos na última semana.

— Você é o Tomás? — perguntou Evelyn, ao se aproximarem.

— Sou. — respondeu ele, jogando mais uma pá de sujeira para o carrinho de madeira ao lado. — Aconteceu alguma coisa?

— Só queremos fazer algumas perguntas. Você tava aqui na noite do ataque, certo?

Ele assentiu lentamente, apoiando o peso sobre a pá.

— Era o turno do Alfredo naquela noite, mas eu tava acordado. Dormi mal… acabei saindo do quarto e dando uma volta. Fui até o poço, depois sentei perto da estufa um tempo. Vi até o Raul sair de casa bem cedo, umas sete da manhã, como ele sempre faz, depois, voltei a dormir.

— Você viu ou ouviu alguma coisa estranha no dia? — perguntou Niko.

Tomás hesitou. Encarou a pá por um momento, depois respondeu:

— Na hora eu não dei muita atenção… Tava frio e eu tava meio sonolento. Mas… ouvi uns mugidos vindo do celeiro. Fortes. Achei que fosse só algum dos bois incomodando os outros, às vezes acontece. Eles se estressam com o frio ou com algum rato passando. Nem fui checar… Agora me sinto um idiota por isso.

— Só mugidos? Nada de mais?

— Eu ouvi umas batidas também. Barulho de madeira tremendo, como se os bichos tivessem tentando empurrar o portão.

— Viu o Raul voltar pra casa?

— Não, eu já tava dormindo. Acordei quase que de tarde, quando o chefe reuniu todo mundo e contou o que aconteceu. Só então fomos ver o boi. Horrível… Nunca vi nada igual.

Ele fez uma cara de nojo, como se a lembrança tivesse um gosto ruim.

— Foi o pior dia que já tive aqui.

— Entendido. — disse amistosamente Evelyn, tentando tirar o peso da situação. — Obrigada por responder as perguntas.

A dupla agradeceu o homem e seguiu caminho, rumo ao próximo funcionário. Enquanto andavam pela fazenda, Evelyn se espreguiçou, puxando assunto em seguida:

— Isso tá começando a me incomodar. Ninguém viu ou ouviu nada antes da cena do crime… Como?

— Realmente, é frustrante.

Niko parou por um instante, encarando os currais vazios, cobertos de neve. Uma ideia surgiu em sua mente. Uma ideia absurda, mas que era impossível de ignorar.

— Você acha que seria possível… alguém ter aparecido lá do nada?

Evelyn parou também. Ergueu uma sobrancelha, em silêncio.

— Tipo você?

— Tipo alguém como eu. Que tenha também umPortal. Entrando, matando e saindo sem deixar marcas. Eu conseguiria fazer isso.

— Isso é mesmo possível?

Niko pensou por um momento antes de responder. Era improvável, como Evelyn disse, não existia uma família com as habilidades de Niko, eleeraum independente… será mesmo que era?

— Eu honestamente não sei…

Essa hipótese despertava mais do que preocupação — despertava esperança… e medo. Se fosse verdade, poderia ver alguém da sua linhagem. Alguém que compartilhasse suaAlma. Uma parte dele queria estar errado — não gostaria que alguém da sua família fizesse ou tivesse sido cúmplice desse crime. A outra queria saber se de fato era.

Fim da leitura

Capítulo 83 concluído

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