Memórias Perdidas — Capítulo 95: CAPÍTULO 95 - 94 - O Estalo

Memórias Perdidas
Cap. 95
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Memórias Perdidas

CAPÍTULO 95 - 94 - O Estalo

Capítulo 95

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Capítulo 94 - O Estalo

Memórias Perdidas

O sol se escondia atrás das copas altas das árvores do campo, tingindo as pedras da igrejas da vila deAlzencom um brilho âmbar desbotado. Ali atrás, o chão estava todo marcado por pegadas pequenas e trilhas de barro seco. Era o local onde as crianças brincavam regularmente. Eram oito ao todo. O campo ecoava com os sons de gritos e risos. As crianças correndo como se fugissem de um predador.

— Três voltas, depois a besta sai! — gritou Étienne, com os olhos cheios de emoção.

Brigitte girava no centro do círculo formado pelas crianças, de olhos cobertos por uma venda improvisada feita com o lenço de cabelo da irmã mais velha de Clarisse. Todas as vozes cantavam a mesma melodia antiga, todos no mesmo ritmo:

“Ai vist lo lop dins l’erbeta,

corria, corria la cambeta.

Dins lo cercle, fa lo torn,

tòca l’ombra e lo fuòc es torn.”

Ao fim da terceira volta, a venda foi arrancada com um puxão rápido. Brigitte parou no meio do círculo. O jogo começava. Ela era agora a “besta”. Os outros se espalharam pelo campo, com gritos de euforia e emoção. Seu objetivo era simples: tocar um deles e passar adiante o “espírito da besta”.

— Alix! Eu vou te pegar! — berrou ela, fingindo escolher um alvo, só para enganar as crianças, mas era Clarisse que Brigitte queria.

Enquanto todos riam e se dispersavam, ela foi atrás do garoto de olhos verdes, passando entre todas as crianças que observavam com atenção o embate dos dois, fingindo persegui-lo até que encontrou sua verdadeira presa. Clarisse. Sem esperar, mudou de alvo e começou a seguir a garota.

A menina de tranças vermelhas correu entre duas pedras empilhadas e passou rente ao tronco torto de uma amoreira. Brigitte a seguiu, chutando a poeira, com as pernas queimando e a respiração acelerada. O som da brincadeira ecoava na vila. Então, ela se lançou para frente e agarrou o pulso da menina com força.

No instante em que encostou no braço da colega, em um instante que pareceu durar mais do que devia, Brigitte sentiu algo diferente — um tremor sutil e interno, como se algo em seu peito tivesse estalado e percorrido todo o seu corpo. Não era dor, nem prazer. Era um sentimento fino, porém, inquietante. Uma sensaçãoeletrizante.

— Ai! — gritou Clarisse, puxando o braço.

— O que foi? — perguntou Brigitte, ainda agarrando o braço da menina.

Outro estalo percorreu sua mão, agora mais forte, passando de forma seca da pele escura de Brigitte para a pele morena da outra. A vibração se expandiu como um fio invisível.

— AAAAAH! Ela me deu choque!

Brigitte arregalou os olhos, soltou finalmente o braço de Clarisse — que puxou com força para si — e olhou para as mãos, como se visse algo sagrado ou proibido. Sentia-as quentes, formigando, quase pulsando. Mas elas pareciam normais, sem nenhuma queimadura, mesmo sentindo o choque. Era como se algo dentro de dela tivesse se estendido para fora — por um instante.

— De verdade? — disse Alix, com a voz baixa.

— Sim, eu vi! — disse Bastien, apontando para Brigitte. — Juro que fez um som! Tipo…bzz!Bem na hora!

— Pareceu um trovãozinho! — disse Céline, com os olhos brilhando. — Tu que fez isso, Brigitte?

Brigitte abriu a boca, mas hesitou por um momento. Ainda estava confusa com o que aconteceu.

— Eu não sei. Eu juro que não fiz nada. — ela esfregou as palmas das mãos contra o vestido, tentando apagar o acontecido.

— Você fez alguma coisa, sim! Foi um choque de verdade! Me queimou! — disse ela, mostrando o braço. Lá, havia uma leve vermelhidão, nada de mais. Mas o olhar dela era feroz. — Tu fez isso!

— Eu só te encostei. Foi sem querer, eu juro!

As crianças se reuniram ao redor das duas, em um semicírculo, como se presenciassem algum tipo de duelo invisível. O silêncio que se formou entre o grupo era mais de curiosidade do que de medo.

— Tu consegue fazer isso sempre que quer? — perguntou Aurélio, com um sorriso torto. — Faz comigo! Vai!

— Não, não, espera — disse Étienne, empurrando o garoto com o ombro. — Deixa eu ir primeiro! Quero ver se é verdade mesmo.

Brigitte recuou um passo, incomodada com a súbita empolgação do grupo.

— Gente, eu não sei como fiz isso. Eu nem sei o que foi isso direito.

— Vocês são bobos. — disse Clarisse, fazendo biquinho. — Ela podia ter me machucado de verdade!

Clarisse esperou por uma resposta que nunca veio. “Sim, é verdade! Brigitte malvada.”, desse modo, ela se tornaria o centro das atenções, estando certa sobre Brigitte. Mas recebeu apenas o silêncio. Ninguém respondeu ou se importou com ela.

Céline se aproximou de Brigitte e estendeu os dedos em direção à sua mão antes que a garota pudesse reagir.

— Ei, espera aí.

Assim que tocou a mão da garota, um estalo agudo soou —TAC!— e um fio violeta brilhou entre a pele das duas, como uma fagulha viva.

— Ai! — gritou Céline, recuando com um pulo.

Céline sacudiu a mão no ar, com os olhos arregalados de surpresa. Brigitte recuou instintivamente, levando a mão ao peito, como se tentasse conter o que quer que tivesse saído dela.

— Eu vi! — gritou Bastien. — Foi tipo uma faísca!

— Tá tudo bem contigo, Céline? — perguntou Aurélio, se aproximando.

A menina de cabelos curtos esfregou os dedos uns nos outros, ainda com os olhos brilhando — não de medo, mas de empolgação.

— Aham! Foi só um choquinho, tipo… quando tu encosta no corrimão de metal.

Brigitte estava paralisada, entre assustada e contente. Aquilo não fazia sentido, mas ao mesmo tempo… fazia. Era estranho, inexplicável, e ainda assim, a sensação de ter feito algo único, algo que só ela parecia conseguir, era como uma brasa de orgulho acesa no peito. Olhou para as próprias mãos de novo, e dessa vez, sorriu.

— Tu tá amaldiçoada ou o quê? — murmurou Aurélio, franzindo a testa, entre surpresa e receio.

Nesse instante, uma voz se ergueu ao fundo do cenário, como uma enxada cortando o trigo:

— Clarisse! Clarisse! Quantas vezes já falei pra não se afastar tanto do campo?

Todos viraram o rosto ao mesmo tempo. A senhora Lemoine estava subindo pela trilha de terra, bufando de raiva e cansaço, com os sapatos cobertos de lama seca e as mãos firmes nos quadris.

Clarisse, ainda esfregando o braço com fingida dor, virou-se devagar. E sorriu — um sorriso torto e traiçoeiro. Como se finalmente tivesse conseguido o que queria.

Ela se lançou em um teatrinho calculado, correndo na direção da mãe com os olhos úmidos e piscando rápido.

— Mãããeee! A Brigitte me machucou! — disse em um tom choroso tão forçado que beirava o cômico.

As crianças se entreolharam, inquietas. Bastien coçou o nariz. Étienne fez uma careta de dúvida. Brigitte ficou imóvel, olhando para as próprias mãos como se tentasse entender se ainda estavam “ligadas”.

A senhora Lemoine chegou ao grupo com um olhar duro como pedra.

— Que conversa é essa? — perguntou ela, firme, encarando a filha..

Clarisse estendeu o braço com toda a dramaticidade que conseguiu reunir.

— Olha, mãe! Ela me deu choque! Um choque de verdade! E doeu!

A mulher se abaixou, observou a leve marca avermelhada no braço da filha. Parecia mais uma picada de mosquito ou uma batida de leve. A mulher levantou uma sobrancelha, sem disfarçar a desconfiança.

— Um choque?

— Uhum! E me machucou muito!

Brigitte deu um passo tímido à frente, coçando a nuca.

— Foi sem querer… eu nem sei como isso aconteceu…

— Foi de propósito, mãe! Ela segurou meu braço forte e ficou me dando choque! Depois deu choque na Céline também!

Céline ergueu uma sobrancelha quando surgiu na discussão. Se colocou na frente, tentando argumentar.

— Mas eu que encostei nel-

— ELA MACHUCA TODO MUNDO QUE ENCOSTA NELA, MÃE! — berrou Clarisse, se impondo à qualquer voz contrária com um grito ensaiado.

O silêncio caiu de repente. Céline ficou muda, com a boca entreaberta e os olhos arregalados. Brigitte piscava, sem entender como tudo havia se virado contra ela tão rápido.

— Como é que é? — disse a senhora Lemoine, agora erguida, com a voz mais acusante. — Quem te ensinou isso, menina?

— N-ninguém… eu… eu não sei como aconteceu… — murmurou Brigitte, abraçando o próprio corpo, encolhida.

— Isso parece bruxaria! — gritou Clarisse, escondendo-se atrás da mãe como se temesse ser atingida por uma maldição.

A mulher arregalou os olhos por um segundo, surpresa com a palavra.

— Não diz uma coisa dessas, Clarisse! — respondeu, virando-se para ela. — Isso é grave!

Brigitte fixou o olhar no rosto da senhora Lemoine. Era a expressão típica de adulto que já julgou e sentenciou sem ver o outro lado. Nada mais importava.

A mulher limpou a saia com as palmas das mãos e respirou fundo, como quem se prepara para algo inevitável.

— Eu vou falar com a sua mãe. Hoje mesmo. Você pode ser um risco pra minha filha… e pros outros também.

Brigitte abriu a boca, mas as palavras não vieram. O silêncio ao redor era ensurdecedor. Mais pesado que qualquer bronca.

Alix desviava o olhar. Bastien chutava a poeira. Até Étienne, sempre pronto com uma piada, agora parecia não ter mais voz. Clarisse, por outro lado, ajeitou a barra da saia com falsa delicadeza, limpou o rosto — onde nenhuma lágrima havia — e segurou firme a mão da mãe, como uma atriz encerrando seu ato.

— Vamos, Clarisse.

E antes de partir, a menina lançou a Brigitte um último olhar. Não era de medo. Nem de repulsa. Era o olhar de quem venceu. Um sorriso presunçoso e irritante.

Fim da leitura

Capítulo 95 concluído

CAPÍTULO 95 - 94 - O Estalo