Memórias Perdidas — Capítulo 99: CAPÍTULO 99 - 98 - O Sonho II

Memórias Perdidas
Cap. 99
0%
Memórias Perdidas

CAPÍTULO 99 - 98 - O Sonho II

Capítulo 99

806 palavras~4 min de leitura

Capítulo 98 - O Sonho II

Memórias Perdidas

Um arrepio gelado percorreu a espinha de Brigitte, como se uma força invisível tivesse atravessado seu corpo, chamando sua atenção. Uma parte dela queria responder: não vale tanto risco. Mas outra, escondida lá no fundo — pequena como uma semente recém-brotada — começava a entender a princesa.

Vantrel ergueu a espada.

A luz do palco piscou três vezes. O som grave de tambores ecoou da carroça. As cortinas se fecharam por um instante e se abriram para revelar um novo cenário: um vale cinzento, repleta de árvores secas com teias enfeitando os galhos.

Pequenos bonecos surgiam para cada desafio: monstros de olhos costurados, sombras que rastejavam pelo chão e criaturas que pulavam em volta dos heróis, cuspindo fumaça e lançando sombras que arranhavam o ar.

Cada luta era rápida e precisa. A dupla de heróis estava em forte sinergia, mesmo se conhecendo a pouco tempo. Duas pessoas diferentes, com objetivos iguais, podem se tornar um só.

Brigitte assistia com os olhos brilhando. “Ela luta mesmo com medo…”, pensou, “…mas por quê? Não seria mais fácil se esconder e esperar a luz voltar sozinha?”

A princesa hesitava no início de cada batalha, mas, a cada vila libertada — com lamparinas acesas, crianças dançando e moradores erguendo bandeiras douradas — o sorriso da princesa crescia, junto com sua confiança. Junto com a esperança que crescia no mundo.

Brigitte observava as marionetes sorrindo, as vilas celebrando, as mãos unidas do povo e entendeu, finalmente entendeu: eles estão felizes… por causa dela.

Um novo cenário se ergueu no palco: lá estava a Árvore de Ferro, seca e retorcida, e sob suas raízes, estavaele. A sombra que roubou a luz. O rei da escuridão. O demônio Umbral.

Entre golpes sem efeito, a sombra cresceu, dominando o palco. Vantrel caiu logo nos primeiros golpes, deixando Âmbar sozinha. Não havia saída. Não havia esperança.

Brigitte apertou os joelhos. “Não é justo… ela fez tudo certo… salvou todos… e mesmo assim ficou sozinha… vai perder.”

Mesmo diante da derrota, a princesa ergueu o rosto esperançoso para o céu.

Ela esticou o braço. A espiral em seu peito brilhou com uma luz dourada intensa, tingindo o palco. Um estalo abafado ecoou, e um raio amarelo explodiu para cima.

As crianças da plateia gritaram de surpresa, os mais velhos arregalaram os olhos e Brigitte sentiu os pelos dos braços arrepiarem.

Faixas douradas surgiram por trás da cortina como rajadas — arremessadas para o alto por varas, elas cortavam o ar e ondulavam pelo palco como serpentes celestiais. Giraram em espiral ao redor de Umbral, que agora se contorcia como se estivesse sendo queimado por dentro. Queimado pelos pecados que cometeu.

A sombra estilhaçou-se em um milhão de partes. Pedacinhos escuros voaram pelo palco, raspando a madeira e caindo como pó. Um por um, os olhos vermelhos de Umbral foram apagando. A personificação do horror caiu.

A Árvore de Ferro, antes retorcida e seca, se desfez, suas raízes deram lugar a uma estrutura coberta por folhas de seda, verdes e suaves ao olhar. Frutas douradas surgiram, penduradas por finos fios brilhantes.

O palco, que instantes antes era dominado por sombras, foi tomado por um clarão puro e contínuo. As lamparinas se acenderam no mesmo instante, como se todas tivessem aguardado aquele comando.

A cortina do fundo ergueu-se e revelou uma pintura à mão: um horizonte limpo, campos dourados ao longe e, mais além, uma torre de vidro reluzente.

Vantrel ergueu-se aos poucos, rangendo as juntas dos fios. Estava ferido, não conseguia se manter de pé. Então, um sorriso sincero escancarou seu rosto de madeira. Era a princesa. Âmbar, ainda frágil, estendeu a mão. Ele a segurou com firmeza, se levantando.

O público explodiu de emoção. Aplaudiram com vontade, crianças gritaram e os adultos bateram palmas. “Bravo!”, “Bravíssimo!” — as vozes acompanhavam os aplausos que pareciam varrer a praça inteira.

Janric apareceu, erguendo o chapéu, seguido pelos dubladores de Âmbar e Vantrel, todos se curvaram em agradecimento. A sensação era de um banho de sol quente depois de um inverno rigoroso.

Brigitte, porém, não bateu palmas. O barulho chegava a ela, mas ela não parecia ouvir. Seus olhos estavam presos aos bonecos e ao palco que tornaram a história da princesa possível.

Finalmente compreendeu. Compreendeu as ações e desejos de Âmbar.

“Mesmo depois de sofrerem tanto, eles estavam sorrindo. Ela que fez isso. Ela deu esperança para eles… Eu quero fazer isso também.”

Um estalo, quase tímido, vibrou na ponta dos seus dedos — uma pequena fagulha surgiu nos dedos. Brigitte olhou a mão como se acabasse de descobrir algo um segredo preso à suaAlma. Uma vontade que tinha acabado de nascer ali.

— Mãe, pai… — disse em voz baixa. — Eu quero ser que nem ela.

Os dois se voltaram, os rostos estavam iluminados pelas lamparinas.

— Eu quero ser uma heroína! — completou Brigitte, com um grande sorriso no rosto.

Fim da leitura

Capítulo 99 concluído

CAPÍTULO 99 - 98 - O Sonho II