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O Anjo da Porta ao Lado Me Mima Demais — Capítulo 186: Vol 12 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Primeiro o Que Vem Primeiro, Vamos Comer

O Anjo da Porta ao Lado Me Mima Demais
Cap. 186
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O Anjo da Porta ao Lado Me Mima Demais

Vol 12 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Primeiro o Que Vem Primeiro, Vamos Comer

Capítulo 186

5.566 palavras~24 min de leitura

Amane nunca imaginou que convidaria alguém além de amigos e familiares para seu apartamento, então, naquele momento, ele estava incrivelmente grato ao seu eu do passado por ter criado o hábito de manter a casa limpa.

Satoshi seguiu Amane e Mahiru silenciosamente até o corredor, parecendo bastante inquieto ao entrar. Ele teve o cuidado de alinhar seus sapatos cuidadosamente na entrada, e a postura educada que demonstrou ao fazer isso deixou claro que ele havia sido bem criado. A maioria das pessoas provavelmente elogiaria seus pais por uma educação tão completa.

O pensamento causou uma pontada complexa no peito de Amane, mas, mesmo assim, ele manteve sua expressão neutra para evitar que Mahiru percebesse. Por outro lado, ela caminhava em um silêncio desolado, com um olhar que não era tanto frio, mas sim completamente vazio.

Quando chegaram à sala de estar, prontos para se sentar e começarem sua difícil conversa, um ruído característico, semelhante ao estrondo de um terremoto, ecoou atrás deles.

Grooowl.

Amane se virou e viu Satoshi com uma expressão de total constrangimento.

Esse som… Era inconfundível. Era o mesmo ronco que o estômago de Amane fazia sempre que ele se deparava com a comida de Mahiru.

“Ah—desculpe,” disse Satoshi, agarrando a barriga com os braços enquanto um leve rubor coloria suas bochechas. “Por favor, não se importem comigo.”

Um sorriso irônico surgiu nos lábios de Amane. O estômago do garoto havia roncado tão alto que não havia como disfarçar. Olhando além de uma Mahiru atônita, Amane olhou para o relógio. Era quase a hora em que eles normalmente estariam preparando o jantar. Um jovem adolecente em crescimento certamente estaria com fome e, francamente, Amane também estava com um pouco de fome, embora seu estômago não estivesse protestando tão alto.

Satoshi parecia querer que o chão o engolisse. Mas, como se ignorasse completamente a humilhação de seu dono, seu estômago soltou outro grunhido lamentável. A tensão palpável no ar evaporou-se quase instantaneamente, substituída por um constrangimento evidente que emanava do garoto. Amane soltou uma risadinha e bateu palmas, quebrando o sepulcral silêncio.

“Que tal conversarmos depois de comermos alguma coisa?”

“Huh?” Satoshi piscou, perplexo.

Amane se virou para ele e deu de ombros gentilmente. “Vocês estão prestes a discutir algo muito importante para ambos. Estão, não é?”

“Sim.”

“Então vamos encher a barriga primeiro,” disse Amane. “Você não conseguirá se concentrar sem energia, e a fome mina sua paciência. Sei que você tem muita coisa na cabeça, mas se quisermos ter uma conversa tranquila, acho melhor garantir que estejamos física e mentalmente preparados.”

Ele sabia que adiar a conversa poderia causar seu próprio tipo de fardo mental, mas Amane sentia que enfrentar uma conversa tão pesada quando Satoshi já estava tão faminto só teria consequências muito piores mais tarde. Era sempre mais fácil aceitar as coisas quando se tinha espaço para respirar.

[Del: Sim, o fenômeno apelidado de hanger é real, um estresse acompanhado da fome. | Kura: Aproveitando o comentário do Del, é bom ver que a comida resolveu uma parte da tensão. | Jeff: Há pessoas que se estressam quando estão com fome, então sim, comida é uma boa opção para aliviar o estresse da situação. | Moon: E é por isso que é sempre bom ter um Sneakers na bolsa… (akakakakak, lembra? Mata sua fome!) | Del: Mon arrebentou no marketing agora.]

Além disso, um rápido olhar para Mahiru confirmou sua decisão. Ela parecia incrivelmente pálida, e sua postura rígida não mostrava nenhum sinal de relaxamento; ela precisava desesperadamente de um momento para se recompor.

“Você se importa com comida caseira, Satoshi-kun? Se não, posso comprar algo.”

“E-eu não me importo, mas… você tem certeza?”

“Não me importo. Além disso, minha consciência ficaria pesada se eu deixasse você aqui passando fome.”

O rosto de Satoshi ficou vermelho novamente enquanto ele pressionava a mão contra o estômago, mas ele se calou, percebendo que não podia discutir mais. Amane voltou sua atenção para Mahiru, ainda rígida, e ofereceu-lhe um sorriso gentil.

“Você acha que vai ficar bem, Mahiru? Se estiver demais para você ficar perto dele agora, pode esperar um pouco em casa.”

Se ela realmente detestasse a ideia, ele estava totalmente preparado para deixá-la se retirar para o próprio apartamento para se recompor. Mas Mahiru balançou a cabeça lentamente.

“Eu vou ficar bem. Eu… tenho minhas reservas, e há coisas que ainda não consigo aceitar, mas a ideia de deixar uma criança passar fome também não me parece certa.”

“U-uma criança? Sou velho demais para ser tratado como criança.”

“Quantos anos você tem?”

Satoshi hesitou. “Treze.”

“Então você é uma criança,” declarou Amane categoricamente.

“Guh…”

Amane convenientemente ignorou o fato de que a maioria dos adultos ainda o consideraria ele mesmo uma criança.

Mas mesmo assim. Treze anos... Isso significava que ele estava no sétimo ou oitavo ano do ensino fundamental. Quatro anos mais novo que Mahiru. Amane tinha muitos pensamentos, mas não era da sua conta expressá-los. Se alguém fosse tocar no assunto, teria que ser Mahiru.

[Del: Hm, é a mesma diferença entre eu e minha irmã… | Kura: Otonari e Del = Um só? | Jeff: Eh, pensei que sua irmã fosse mais nova. | Del: E é mais nova, falo de diferença. | Moon: E a cada dia mais comprovamos que o Del é a Mahiru disfarçada…]

“Então, o que vai ser?” Amane perguntou a Satoshi. “Se você não se importar com o que fizermos, teremos prazer em preparar algo.”

“...Se me permitem, seria uma honra me juntar a vocês à mesa.”

“Nossa, você conhece uma linguagem bem adulta.”

“P-por favor, pare de me tratar como uma criança.”

Os cantos de suas sobrancelhas se contraíram em irritação, mas isso só serviu para destacar ainda mais sua adolescência infantil. Percebendo que Satoshi realmente começaria a ficar emburrado se ele apontasse isso, Amane sorriu levemente e conduziu o garoto até o sofá da sala de estar.

Então, ele colocou uma mão delicada nas costas de Mahiru e a guiou na direção oposta, de volta para a porta da frente. Ela o olhou com olhos interrogativos, mas ele retribuiu o olhar com um sorriso tão caloroso e reconfortante quanto conseguiu, conduzindo-a lentamente até a entrada.

Assim que estavam longe o suficiente de Satoshi, Amane baixou a voz para um sussurro. “Mahiru, volte para o seu apartamento e troque de roupa. Vou preparar o jantar, então fique à vontade e relaxe. Volte quando se sentir um pouco mais calma. Tudo bem?”

“Mas—”

“Você está muito pálida agora, Mahiru. Vamos começar ajudando você mesma a respirar,” disse Amane. “Sinceramente, eu gostaria de poder ficar ao seu lado, mas… conhecendo você, você não gostaria de deixá-lo sozinho no meu apartamento, gostaria? Isso provavelmente só a deixaria mais estressada. Sinto muito por não poder estar com você agora.”

[Moon: Um Homem com H maiúsculo!]

Sinceramente, Amane não achava que deixar Mahiru sozinha naquele momento fosse a melhor ideia, mas sabia que ela ficaria ainda mais nervosa se tivesse que deixar Satoshi sozinho em seu apartamento, especialmente considerando o quão desconfiada e cautelosa ela estava com ele. Depois de ponderar suas opções, decidiu que dar a ela um tempo sozinha para processar tudo era a melhor coisa a fazer.

Além disso, havia algumas coisas que ele queria perguntar a Satoshi enquanto ela estivesse fora.

“Mas a culpa é minha,” murmurou Mahiru. “Eu te arrastei para isso.”

“Não se preocupe. Não acho... ou melhor, não é nada que esteja me incomodando. Honestamente,” acrescentou ele, “estou feliz que você esteja se permitindo confiar em mim.”

É um progresso, pensou ele. Mahiru, que tantas vezes escondia seus problemas e os carregava sozinha, enfim havia se aproximado dele. Claro, o fato de ela ter precisado fazer isso era uma prova de quão dolorosa era aquela situação para ela, mas saber que ela havia estendido a mão pedindo sua ajuda o deixava realmente feliz.

“Não se apresse. Concentre-se em organizar seus pensamentos primeiro. Não se preocupe, eu estou aqui com você. Ou melhor, tecnicamente a alguns metros de distância, mas… meu coração está com você.”

“Nossa, Amane-kun,” ela sussurrou. Um pequeno sorriso finalmente surgiu — embora ele não conseguisse dizer se o ânimo dela realmente havia melhorado ou se sua atenção havia sido apenas desviada por um momento. Ela apoiou levemente a cabeça no bíceps dele. “Voltarei assim que puder. Não é nada com que você precise se preocupar.”

“Veremos. Você sempre tenta bancar a durona, Mahiru. Não se esforce demais. Apenas respire fundo.”

Mahiru aninhou a cabeça no braço dele em falso protesto, apoiando o peso do corpo nele. Amane deu uma risadinha suave e, na esperança de lhe dar um pouco de força, apertou a mão dela em sinal de encorajamento antes que ela saísse.

Depois de se despedir de Mahiru, Amane trocou de roupa rapidamente e foi para a cozinha. Satoshi, ainda esperando no sofá, estava sentado com uma postura impecável, os ombros tensos e as costas retas como uma régua. Ele parecia tão desconfortável que era quase doloroso de se ver, e Amane também começou a se sentir constrangido.

É claro que era natural que o garoto estivesse tenso; ele estava na casa de um estranho, prestes a ter uma conversa séria e na presença de um cara que claramente não estava do seu lado. Mas Amane não tinha intenção de lhe fazer mal. Na verdade, embora não fosse exatamente amigável, ele não sentia nenhuma negatividade em relação ao próprio garoto. Não que Satoshi fosse acreditar nele.

[Kura: A alguns parágrafos atrás ele pensou em silenciar o garoto… | Jeff: Ao colocar na balança o bem-estar da Mahiru ou o do Satoshi, claramente ele escolheria a Mahiru. | Kura: É… só que ele veio perceber a forma de tratamento depois.]

“Sabe, eu não vou te morder,” disse Amane da cozinha, tentando aliviar um pouco a tensão. “Não vou dizer para você se sentir em casa, mas você pode pelo menos relaxar um pouco.” Satoshi estremeceu.

“E-eu sei disso,” disse ele, hesitante, recostando o peso nas almofadas do sofá.

Amane sentiu uma pontada de culpa por deixar uma criança tão na defensiva, mas imaginou que não havia nada que pudesse ser feito, dadas as circunstâncias. Tentar forçá-lo a relaxar poderia apenas aumentar a pressão. Ainda assim, a tensão constante parecia exaustiva. A expressão de Satoshi suavizou-se um pouco, embora ele continuasse lançando olhares cautelosos para a cozinha, observando cada movimento de Amane.

“Eu realmente não vou fazer nada estranho,” pensou Amane com um sorriso irônico. Ele colocou o arroz lavado na panela elétrica e apertou o botão de iniciar.

[Moon: Mas com certeza fará algum prato com ovos, querem apostar quanto?]

“Você não está curioso?” perguntou Amane quando o bip da máquina soou.

Satoshi voltou seu olhar para ele. “Sobre o quê?”

“Bem, você sabe. Sobre mim. Você não se pergunta quem eu sou e por que estou mandando em você?” Da perspectiva de Satoshi, Amane devia parecer um obstáculo desnecessário. Ele provavelmente tinha vindo ali esperando falar com Mahiru a sós, mas obedeceu prontamente às ordens de Amane sem reclamar.

“Se eu estivesse sozinho… acho que a Nee-sa… a Onee-san nem teria me escutado,” disse Satoshi.

“Você provavelmente tem razão.”

“Além disso, é fato que eu toquei num assunto desagradável para ela. Faz sentido que ela quisesse uma terceira pessoa presente por precaução. E já que foi você quem convenceu a Onee-san a conversar, você deve ser alguém muito próximo dela, Onii-san. O namorado dela, certo?”

“Isso mesmo.” Não foi difícil para um aluno do ensino fundamental deduzir que o rapaz agindo de forma tão familiar com sua irmã mais velha, há muito distante, era o namorado dela.

“Aliás, hum, sua foto… estava no arquivo de investigação da minha mãe.”

“No arquivo de investigação dela, é?”

Amane não esperava por essa. Suas mãos congelaram sobre a marinada que ele estava preparando para o porco com gengibre. Por outro lado, o pai de Mahiru, Asahi, aparentemente também havia investigado sobre ele, então não seria exagero pensar que sua mãe, Sayo, tivesse feito o mesmo. No entanto, não era exatamente um pensamento agradável.

“Então ela sabe quem eu sou.”

“Parece que sim.”

“Não posso dizer que gosto de ser investigado sem o meu conhecimento,” murmurou Amane. “Quer dizer, não é incomum que os pais verifiquem com quem suas filhas estão saindo, mas ainda estou surpreso que ela se deu ao trabalho.”

“Surpreso?”

Claro, era comum que pais preocupados investigassem o namorado de suas filhas, mas isso geralmente era feito por amor. E era exatamente por isso que ele estava tão surpreso que Sayo tivesse feito isso.

“Bem, é que... é completamente inesperado. Eu tinha a impressão de que ela não tinha absolutamente nenhum interesse em Mahiru.” Ele nunca havia falado diretamente com Sayo, apenas ouvido suas conversas com Mahiru e escutado as histórias de Mahiru. Mas mesmo com esse conhecimento limitado e indireto, era flagrantemente óbvio para Amane que Sayo não desperdiçaria um único esforço ou interesse com Mahiru, sua própria filha.

“...Então é assim que você a vê,” disse Satoshi baixinho.

“Eu nunca falei com ela pessoalmente, então não posso afirmar com certeza, mas essa é definitivamente a impressão que tenho. Desculpe. Talvez você não queira ouvir isso.”

“Não. Para a Onee-san, essa provavelmente é a realidade, então é compreensível que ela se sinta assim. E como você está ao lado dela, faz sentido que você também sinta o mesmo.” Ele fez uma pausa. “Sinto muito por causar esse problema para você.”

“Não é um problema em si... mas não tenho certeza se isso é realmente uma coisa boa para nós. Sabendo que já fomos investigados pelo menos uma vez desde que começamos a namorar... eu realmente não sei como devo me sentir.” Ele tirou o lombo de porco e começou a mergulhá-lo no molho, sua mente vagando de volta para o festival esportivo que marcou o início do relacionamento deles. Isso foi em junho passado, o que significava que a investigação de Sayo aconteceu algum tempo depois.

Mas por quê? Qual era o propósito dela em investigar Mahiru e ele?

Amane não conseguia acreditar na explicação simples e carinhosa de que era para o bem da filha deles, que morava sozinha. Ele não confiava o suficiente nos pais de Mahiru para isso; eles não tinham feito nada para merecer essa confiança. Então, qual era o objetivo deles?

“Deixe-me perguntar,” disse Amane, voltando-se para Satoshi. “A Sayo-san que eu conheço é sua mãe, certo?”

“...Eu explico os detalhes quando vocês dois estiverem aqui. Mas para mim, ela é, sem dúvida, minha mãe.”

“Entendo.” Sua frase tornava improvável que Sayo fosse sua mãe biológica. Embora a possibilidade fosse remota, Amane havia considerado brevemente que Satoshi pudesse ser um irmão completo ou meio-irmão, mas o menino não se parecia nem com Sayo nem com Asahi. E se Sayo fosse sua mãe de verdade, ele não precisaria de uma explicação tão vaga. Isso deixava o cenário mais provável: Satoshi era filho do novo amante de Sayo, a quem Mahiru havia mencionado. Mas será que essa é realmente a verdade?

A ideia de que Sayo priorizaria uma criança que nem sequer era sua parente de sangue em vez de Mahiru fez seu estômago ferver de raiva, mas tudo isso era especulação. Ele não podia descontar em uma criança inocente.

Ele respirou fundo para acalmar a cabeça e lavou cuidadosamente as mãos em água gelada, tentando recuperar a compostura. Esfregou a marinada da carne de porco que havia manuseado.

“Não quero falar mal da sua mãe,” disse ele, com um tom novamente ponderado, “mas, do meu ponto de vista, ela sempre foi rude com a Mahiru. Então, estou realmente surpreso que ela tenha algum interesse nela.” Ele sentia uma mistura de choque e confusão. E uma profunda sensação de que era um pouco tarde demais para isso. Se tudo isso tivesse surgido de algum plano malicioso para ferir Mahiru, Amane precisava descobrir como protegê-la.

“...Ela é filha biológica da minha mãe, não é?” murmurou Satoshi.

“Suponho que sim. Mas acho que a Sayo-san que eu vi é completamente diferente da que você conhece. É muito comum as pessoas mudarem a forma como agem dependendo de com quem estão.”

Quase ninguém poderia afirmar agir da mesma maneira em todas as situações. Na época em que Mahiru ainda era chamada de “Anjo”, ela havia tratado Amane com a maior frieza, e mesmo agora, a expressão que ela mostrava aos colegas era muito diferente da que mostrava a ele. Considerando a frequência com que Itsuki e todos os outros o provocavam por causa disso, Amane sabia que ele era igual; sua atitude em relação a Mahiru era completamente diferente de como ele agia com os outros. Todos tinham lados diferentes.

Era totalmente possível que a mãe perfeita para Satoshi fosse um completo fracasso para Mahiru.

Confrontado com essa realidade, Satoshi apertou os lábios e baixou o olhar para o colo. “Para mim, minha mãe... sempre foi gentil. Suas palavras podem ser duras às vezes, mas ela sempre faria tudo o que pudesse por mim.”

“Entendo. Se é assim que você conhece sua mãe, então isso deve ser verdade para você.”

Meu Deus, como isso era justo? Ele imaginou Mahiru criança, tentando desesperadamente fazer com que sua mãe a notasse pelo menos uma vez; o pensamento deixou um gosto amargo em sua boca. Ele engoliu em seco.

“...Mas para a Onee-san, é diferente, não é?”

“Do ponto de vista da Mahiru, sim, provavelmente é. Mas vou me abster de comentar mais.” O passado de Mahiru era só dela. Não cabia a Amane falar sobre coisas que ele não tinha presenciado. Além disso, ele não queria magoar Satoshi, e esses fatos certamente o feririam. Era melhor para um estranho ficar em silêncio.

Amane fechou a torneira, interrompendo o fluxo de água e suas palavras simultaneamente. Satoshi pareceu lutar com algo internamente antes de finalmente olhar para cima.

“A Onee-san… está, hum, morando sozinha agora, não é?”

[Del: …“Agora”… | Kura: Será? | Jeff: Se quiser sim… Capítulo tenso. | Moon: … Que dor… Que dor…]

“Isso mesmo.”

“E minha mãe simplesmente finge que não vê.”

“Finge que não vê… É, pode-se dizer isso.”

Melhor dizendo, é como se ela incentivasse, pensou Amane, mas guardou isso para si.

“Não é normal, é? Eu sei. Eu sei o quão anormal é.”

Satoshi havia dito que tinha treze anos. Naquela idade, ele já era grande o suficiente para entender. Para ver a realidade distorcida de uma mãe que o mimava enquanto abandonava sua filha de verdade. Quanto mais sua mãe o mimava, mais a negligência a Mahiru ficava evidente, lançando dúvidas sobre se o rosto da “boa mãe” que ele conhecia era real.

Devia ser por isso que ele tinha vindo para cá.

“A Onee-san... está feliz agora?”

“Não sei,” respondeu Amane honestamente. “Você teria que perguntar a ela mesma para ter certeza. Mas decidi que vou fazê-la feliz e estou fazendo o meu melhor. Do meu ponto de vista, ela parece feliz. Supondo que eu não esteja apenas me iludindo, claro.”

Só Mahiru sabia se ela estava realmente feliz. Mas aos olhos de Amane, ela certamente parecia realizada. Ela parecia de fato… feliz. E Amane se orgulhava do esforço que fazia para tê-la sorrindo. Pelo menos, as sombras profundas e tristes que costumavam assombrar sua expressão têm desaparecido.

Ele estava ali hoje porque havia prometido fazer Mahiru feliz e compartilhar dessa alegria com ela. Como adolescente, havia um limite para o que ele podia fazer agora, mas quando se tornassem adultos, ele poderia libertá-la das amarras do nome “Shiina”. Ele poderia envolver e proteger completamente a garota solitária que sempre fingia ser forte. Se Sayo tentasse alguma coisa, ele não hesitaria em recorrer aos seus próprios pais, Shihoko e Shuuto, ou até mesmo a Koyuki, para apresentar provas de negligência às autoridades. Ele até se voltaria para Asahi, que ao menos parecia capaz de raciocinar e ainda nutria algum afeto por sua filha.

[Del: Genes de Shuuto, e pensar em argumentar judicialmente para protegê-la da mãe hein… Amanesolute, simplesmente. | Jeff: O cara está perdidamente apaixonado pela mulher dele, Amanesolute!]

Amane estava ao lado de Mahiru, totalmente preparado para fazer o que fosse preciso para garantir sua felicidade.

“O que significa... que eu vim aqui para arruinar a felicidade dela, não é?”

“Talvez. Imagino que ela esteja tentando desesperadamente assimilar tudo isso agora.”

“Sinto muito.”

“Pedir desculpas para mim não vai adiantar nada,” disse Amane. “Mas você realmente acha que esse era um problema que você poderia ter ignorado para sempre? Se eu não estiver errado, isso acabaria vindo à tona mais cedo ou mais tarde, não é?”

“Bem...”

Mesmo que Satoshi não tivesse aparecido hoje, parecia improvável que ele tivesse continuado para sempre sem questionar ou descobrir algo sobre Mahiru. O fato era que ele havia descoberto sobre ela, e suas dúvidas o trouxeram até ali. Conforme fosse crescendo, a estranheza da situação se tornaria cada vez mais evidente e, dependendo do momento, a revelação poderia ter um impacto muito maior em Mahiru.

“Se for esse o caso, então acho melhor que isso tenha acontecido enquanto eu estou aqui com ela. Enfrentar algo assim sozinho é doloroso. Além disso, o recesso de primavera está prestes a começar, então temos tempo. É muito melhor do que isso acontecer no meio da época de provas, não é?”

“...Sinto muito por causar problemas a vocês dois por motivos egoístas.”

“Como eu disse, não se desculpe comigo. Eu diria para você se desculpar com ela, mas bem, se você pedisse desculpas para Mahiru, ela provavelmente se sentiria obrigada a dizer que está tudo bem. Então, pessoalmente, eu preferiria que você não pedisse.”

Ele sabia que estava sendo egoísta, mas era assim que ele realmente se sentia. “Para ser honesto, sim, o que você revelou é inconveniente para Mahiru. Mas a culpa é sua? Não, né? Você só cresceu nessa situação. Não é como se você tivesse feito alguma coisa por conta própria.” A raiz do problema eram os pais de Mahiru, Sayo e Asahi. Satoshi, filho do suposto novo namorado de Sayo, não tinha nenhuma responsabilidade. Se ele tivesse dito algo para menosprezar Mahiru, seria outra história, mas suas palavras sugeriam que ele nem a conhecia até recentemente.

Dada a diferença de idade entre eles, a negligência de Mahiru era claramente culpa de Sayo. Seria cruel culpar Satoshi pelas ações de sua mãe antes mesmo dele nascer. Dito isso, era natural que Mahiru sentisse uma certa aversão por ele.

Amane não sabia a extensão total da amargura que Mahiru havia engolido ao longo dos anos. Mas ele queria garantir que, pelo menos enquanto ele estivesse por perto para ver, ela não tivesse que suportar esse tipo de dor. “Olha, eu vou escolher a Mahiru em vez de você,” disse Amane, com voz firme. “Então, não quero que você faça nada que a faça se sentir mal. Sei que posso soar cruel.”

Satoshi balançou a cabeça. “Não. Assim como priorizo minhas próprias circunstâncias, é natural que você priorize as suas,” respondeu, sem hesitar. Ele aceitou isso como algo óbvio. “Além disso, da perspectiva de um observador externo, eu claramente faço parte do problema. É natural que você e a Onee-san queiram manter distância.”

Amane piscou, surpreso com a maturidade do garoto.

“Você é bem esperto, não é?”

“...Eu me esforço ao máximo para não envergonhar meus pais.”

“Entendo.”

Então, aos olhos de Satoshi, seus pais eram pessoas respeitáveis. Isso era maravilhoso, e Amane, que tinha orgulho dos seus próprios pais, conseguia se identificar com a situação. Mas, além disso, significava que Sayo — e o pai de quem Mahiru e Amane nada sabiam — estavam devidamente envolvidos em sua criação.

A constatação trouxe uma nova onda de impotência.

Satoshi havia obtido com tanta facilidade exatamente o que Mahiru tanto desejou, e da mesma pessoa, nada menos. O pensamento lhe causava uma dor lancinante, uma mistura de culpa e repulsa, no peito. Mas ele sabia que Satoshi era inocente.

E assim, Amane simplesmente ouviu.

Satoshi, aparentemente alheio à turbulência interna de Amane, apenas olhou para o colo, com um leve desconforto ainda em sua postura.

Quando o jantar ficou pronto, Mahiru havia retornado, trocado de roupa e parecia muito mais calma. A palidez cadavérica havia sido substituída por uma cor saudável, embora sua expressão tenha oscilado por um instante ao ver Satoshi. Não era um olhar de tristeza, mas de melancolia. Parecia que o tempo a sós havia a ajudado. Amane sentiu uma onda de alívio ao pôr a mesa.

O cardápio daquela noite era carne de porco frita com gengibre, acompanhada de uma generosa porção de repolho desfiado, tomates em caldo dashi e pimentões ao estilo kinpira, que eles haviam escolhido antes de saírem do karaokê. Para a sopa de missô, Amane havia atendido ao seu gosto e preparado uma versão substanciosa com alga marinha aosa, tofu e cogumelos enoki.

[Moon: Espera ai… Sem ovos?!]

Embora já estivesse acostumado a cozinhar para si mesmo, ele se viu inesperadamente apreensivo com o simples ato de servir uma refeição comum do dia a dia para outra pessoa. Ele escondeu sua apreensão interior e arrumou os pratos na mesa baixa da sala de estar.

Satoshi ainda se remexia desajeitadamente no sofá. Mas, assim que a comida foi servida, seu estômago o traiu mais uma vez com um ronco baixo, e ele abaixou a cabeça, envergonhado.

Não é sempre que cozinhamos para três, pensou Amane enquanto colocava o último prato na mesa.

[Kura: Acredito que você deve se acostumar. | Moon: Eu diria que para quatro… Hehe. | Del: Mon?]

Assim que tudo estava pronto, ele se sentou no chão, do outro lado da mesa baixa, em frente a Satoshi. Mahiru, naturalmente, sentou-se ao lado de Amane. Sentar-se perto do convidado estava completamente fora de cogitação e, além disso, era óbvio que Mahiru não tinha a menor inclinação psicológica para se sentar perto dele. Foi com esse motivo em mente que Amane organizou as refeições do outro lado da mesa.

“Não é nada sofisticado, mas espero que goste. Por favor, sirva-se.”

“Só agradeço por você ter cozinhado para mim,” disse Satoshi sinceramente, talvez pensando que seria indelicado ser muito reservado. Ele juntou as mãos. “Obrigado pela refeição.”

Satoshi ergueu a tigela e tomou o primeiro gole do missô.

“...Está tão quentinho,” murmurou. “E é delicioso.”

As palavras escaparam de sua boca tão naturalmente que Amane não conseguiu interpretá-las como algo menos que genuíno. Era apenas uma sopa caseira simples: um caldo dashi básico com a mistura favorita de missô de cevada e koji de arroz de Amane. Mas, por algum motivo, pareceu tocar Satoshi profundamente, sua voz carregada de um leve tom de admiração. E embora delicioso fosse uma coisa, a palavra “quentinho” soou como um alerta na cabeça de Amane.

Ele fixou o olhar em Satoshi, que encarava a comida com os olhos arregalados.

“Você costuma comer comida fria em casa?” perguntou Amane.

“Bem...” Os olhos de Satoshi vagaram, com uma expressão estranha no rosto. Ele pousou a tigela cuidadosamente e soltou um suspiro suave. “Minha mãe é boa em quase tudo, mas não cozinha muito bem. No começo, tudo o que ela fazia era até que bem sem graça, ou salgado demais, ou simplesmente queimado.”

Só Amane percebeu como o rosto de Mahiru se enrijeceu ao ouvir aquelas palavras. Ele podia imaginar o porquê. Porque sua mãe nunca havia cozinhado para ela.

Quando Mahiru era pequena o suficiente para falar, Koyuki já fazia parte de sua vida, e mesmo antes disso, ela sempre fora cuidada por babás. Ela não se lembrava de sua mãe ter interagido com ela de alguma forma. E se não havia lembrança de interação, então é claro que não havia refeições compartilhadas à mesa — muito menos algo parecido com uma refeição caseira, o próprio conceito lhe parecia estranho.

O menino sentado à sua frente havia recebido com tanta facilidade a única coisa que ela almejara durante toda a infância. O choque deve ter sido devastador.

“Agora, ela diz que é ruim para o meu desenvolvimento, então temos uma governanta,” continuou Satoshi, “mas ela geralmente já foi embora quando eu chego da escola preparatória. Então, na maioria das vezes, só esquentamos a comida.”

Os pais de ambos eram ausentes durante o dia, mas a quantidade de cuidado e afeto que recebiam era astronomicamente diferente. Mahiru, que parecia ter percebido essa diferença agudamente, congelou; ela não conseguia nem se obrigar a pegar os hashis. Seus lábios se comprimiram em uma linha fina.

Satoshi começou a entrar em pânico, percebendo a mudança no comportamento dela. Seus olhos, uma mistura de consternação e confusão, se voltaram para Amane. “Eu disse algo rude?”

“Não, de jeito nenhum. Não se preocupe com isso,” assegurou Amane.

“Mas… parece que eu a chateei.”

“Por favor, não se preocupe comigo,” disse Mahiru, com um tom neutro. “Não é algo com que você precise se preocupar.”

Parecia menos que ela estava tentando ser forte e mais que realmente acreditava nisso. Ela rapidamente suavizou sua expressão, assumindo uma máscara fria e composta, e Satoshi, incapaz de dizer mais nada, retomou sua refeição desajeitadamente.

Embora ainda parecesse desconfortável, sua fome claramente venceu. A hesitação que o acompanhava momentos antes desapareceu quando sua atenção se voltou completamente para a comida. Seus hashis se moviam com um ritmo constante. Para um garoto prestes a ter um estirão de crescimento, seu apetite era impressionante, facilmente comparável ao de Amane. Observando-o comer com tanto gosto, até Mahiru, que estava envolta em uma leve melancolia, pareceu surpresa. Um pequeno sorriso afetuoso surgiu em seus lábios.

“Fico feliz que você tenha gostado,” disse Amane. “Não tenho muitas oportunidades de cozinhar para outras pessoas.”

“D-desculpe, estou devorando tudo.”

“Não, não, tudo bem. É o maior elogio que um cozinheiro pode receber.”

Mahiru sempre sorria alegremente quando comia a comida dele, mas a reação de Satoshi era tão animada e vibrante que lhe proporcionava um tipo de satisfação completamente diferente.

Satoshi timidamente limpou um pouco de molho da boca com um lenço de papel e olhou para baixo. Amane sorriu.

“Hum, eu sei que é estranho vindo de mim, mas você realmente deveria ter mais confiança na sua culinária,” disse Satoshi. “Minha mãe nem me deixa usar uma faca quando ela não está por perto para supervisionar, e eu sou um cozinheiro péssimo. Então, hum, eu acho você incrível, Onii-san.”

“Obrigado. E desculpe, eu deveria ter me apresentado antes. Sou Fujimiya Amane. Você pode me chamar pelo nome ou apenas Onii-san, o que for mais confortável para você.” Ele havia convidado o garoto para sua casa sem nem mesmo dizer o seu nome; a ficha caiu tarde demais. Por causa da troca tensa na entrada, Mahiru havia sido o foco, e ele perdera completamente a chance. E como Satoshi continuara o chamando de “Onii-san”, a oportunidade simplesmente não se apresentou.

“Então vou continuar com Onii-san,” disse Satoshi, com a expressão inalterada. Ele provavelmente estava apenas imitando a forma como chamava Mahiru, mas ainda assim era um pouco constrangedor ouvir. “Onii-san, você e a Onee-san sempre comem juntos assim?”

Seus olhos alternavam entre Mahiru, que comia em silêncio, mas claramente prestando atenção, e Amane, que comia normalmente, imaginando que seria ainda mais estranho se ele agisse de forma excessivamente atenciosa.

“Bem, sim,” respondeu Amane, “...é o que eu gostaria de dizer, mas geralmente nos revezamos. Quem estiver livre cozinha, então fica mais ou menos meio a meio. Mas se você quer saber se sempre comemos juntos, então sim, comemos.”

Até cerca de um ano atrás, Mahiru cozinhava quase tudo enquanto Amane aproveitava os frutos, mas agora ele também cozinhava. Se ambos estivessem livres, cozinhavam juntos; se apenas um deles estivesse livre, essa pessoa cozinhava. Com o trabalho de meio período de Amane, muitas vezes significava que Mahiru acabava fazendo mais coisas, então ele tentava assumir a liderança em seus dias de folga para aliviar a carga dela.

No entanto, comer juntos era a rotina inabalável deles desde que ela começou a vir todos os dias.

“Que ótimo,” disse Satoshi.

“Obrigado. Tenho certeza de que você tem muitas perguntas.”

“Perguntas?”

“É, sabe. Tipo, ‘Por que vocês estão comendo juntos?’ ‘Por que ela está aqui como se fosse a coisa mais normal do mundo?’ Esse tipo de coisa.” Havia muito o que questionar desde o momento em que ele convidou Satoshi para entrar. Dos pratos, tigelas e talheres combinando, à maneira como eles comiam juntos com tanta naturalidade. Para um estranho, devia ser uma cena bizarra.

Amane estava preparado para responder a quaisquer perguntas que o garoto pudesse ter, mas Satoshi apenas piscou seus grandes olhos e ofereceu um sorriso fraco e irônico.

“Vocês são vizinhos e um casal. Não é tão estranho vocês irem e virem entre seus apartamentos,” disse Satoshi baixinho. “E antes que eu questione isso… acho que há muito mais perguntas sobre mim que merecem respostas primeiro.”

Suas palavras autodepreciativas fizeram até Mahiru franzir a testa por um segundo. Mas vendo a expressão triste estampada no rosto de Satoshi, ela não disse nada.

Era evidente que Sayo e suas ações lançavam uma sombra escura sobre ambos. Amane suspirou mentalmente, para que eles não percebessem.

[Kura: É isso? Acaba assim? …Eu quero mais… | Moon: Meu caro Kura, como eu te digo isso… Daqui pra frente, é só pra trás… Hahahaha– Eu sinto é dó de todos minimamente envolvidos com essa família, nessa Novel.]

Traduzido por Moonlight Valley

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Fim da leitura

Capítulo 186 concluído

Vol 12 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Primeiro o Que Vem Primeiro, Vamos Comer