O Caminho do Tigre — Capítulo 20: CAPÍTULO 20 - 19 Irmãos..

O Caminho do Tigre
Cap. 20
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O Caminho do Tigre

CAPÍTULO 20 - 19 Irmãos..

Capítulo 20

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Capítulo 19: Irmãos..?

O Caminho do Tigre

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A CHUVA PERSISTIA, PERENE, fazendo da trilha de Vento Gentil um lodaçal. O cheiro de terra molhada misturava-se ao das folhagens esmagadas sob os passos do Tigre Alado.

Kiro caminhava em silêncio, com o Corpo Oculto ainda ativo, ao lado de Yuna, pousando uma das mãos em seu ombro para que o efeito se estendesse a ela. As gotas deslizavam por suas silhuetas invisíveis, deixando rastros quase imperceptíveis na lama.

No alto, entre as copas das árvores, uma graúna sobrevoava a trilha. Seu canto quebrou a monotonia da chuva.

Kiro parou.

Os olhos percorreram o entorno. Algo não soava natural naquele voo. O animal deu um último giro e seguiu em direção contrária deles.

Mais adiante, um vulto cortou a estrada.

Kenshimaru vinha do povoado, com um chapéu de palha abaixado sobre o rosto e capa surrada de lama. Seus sentidos, aguçados pela vida de mercenário, captaram algo que não podia enxergar.

Parou no meio da trilha. O vento soprou, desviando a chuva por um instante.

Kiro conteve a respiração. Preferiu não reagir. Passou rente a ele, sem som. O ronin, no entanto, virou o rosto exatamente na direção em que o Tigre Alado estava. Por um segundo, os olhares se cruzaram.

— Estranho… — Kenshimaru vidrava o vazio; o vazio que encarava de volta. — Não… estou imaginando coisas.

O som da chuva retomou seu ritmo. O ronin ficou parado por mais alguns segundos, antes de continuar seu caminho. A graúna cantou outra vez.

Na cabana, Tatsuo e Gojin trocavam opiniões acaloradas enquanto Yuuka fazia anotações em um caderno molhado.

— Ele não confia em ninguém pelo visto, e nem devia — dizia Tatsuo. — Mas aposto que não tem más intenções. Eu lutei ao seu lado. Um pouco arrogante, talvez… mas aliado.

— Acredito que ele não tinha outra opção — respondia Yuuka. — Pelas circunstâncias em que o combate foi travado, a aliança de vocês era quase obrigatória.

Gojin andava lentamente de um lado a outro, pensativo e de braços cruzados.

— A questão é simples: podemos ou não contar com esse Deva? Ele não parece entender a gravidade do que está ocorrendo por aqui. — Gojin se sentou ao lado de Yuuka, acompanhando sua escrita com o olhar. — Me cheira como problema.

Tai, flutuando, abriu um meio sorriso enquanto revisava o comunicado que enviaria à Confraria de Baaranishan.

— Contar com ele, podemos. Mas controlar… nunca. Os Devas são diferentes de nós; não seguem um regimento ou ordens que não concordam.

Gojin franziu o cenho.

— Que seja; mas não podemos deixar que faça o que bem entender. A Roda o escolheu, mas a alma dele não vale mais do que a minha.

— Não foi isso que eu quis dizer, Gojin — retrucou o mestre. — Um Deva é um escravo de um carma infinito; um ciclo de reencarnações que nunca cessará. Reza a lenda que a missão de cada Deva é acabar com o carma de seu antecessor, e é isso que os acorrenta a um destino que jamais poderão escapar.

— Por isso, estão entre bênção e maldição.

— É o que dizem.

Yuuka alongou os dedos depois de alguns parágrafos em sequência e se recostou nas poucas almofadas. Contudo, não deixou de prestar atenção nem por um momento na fala de seu mestre.

— Acha que… ele se esconde aqui porque foge desse destino?

A conversa cessou quando bateram à porta.

Três pancadas firmes. Gojin levantou-se, com o instinto alerta. Tai, porém, fez um gesto com a mão para que esperasse.

— Entre.

A porta abriu-se lentamente, revelando um espadachim que retirava seu chapéu de palha, ensopado pela chuva. O ronin fez uma mesura para Tai e removeu a capa, deixando escorrer a água.

— Espero não chegar em má hora. — A voz de Kenshimaru era firme, mas cortês. — Peço uma conversa com o regente desta fração.

Os hetas pouco demonstraram surpresa, trocando olhares rápidos. Talvez fosse o líder de alguns dos povoados querendo tirar algo a limpo — mesmo que aquele homem parecia jovem demais para isto.

Tai assentiu, pousando lentamente seu pergaminho na mesa.

— O que lhe traz até nós, morador?

Kenshimaru caminhou até o centro da cabana e sentou-se onde há pouco Kiro havia estado. Tirou então, de dentro da roupa, um pequeno selo de cera carmesim. Colocou-o sobre a mesa.

— Não sou daqui, regente. Talvez já tenha ouvido falar.

Kenshimaru falava sobre o emblema da Lótus Carmesim no selo que apresentara. Os hetas se entreolharam. Tatsuo arqueou a sobrancelha enquanto Gojin seguia avaliando-o com atenção.

— Um membro da Lótus? Aqui, nesse fim de mundo? — indagou Tatsuo. — Tem mais quantos com você?

Kenshimaru pensou por um ou dois instantes.

— Me chamo Matsushio Kenshimaru e estou sozinho. — Mantinha o tom controlado. — Não levo o nome da Lótus ou de alguma família; o que me trouxe a Vento Gentil foi… uma missão pessoal.

Tai cruzou os braços.

— Missão especial?

O ronin o fitou diretamente nos olhos.

— Umhomemespecial.

O ar ficou denso de repente. Tatsuo coçou a cabeça, Gojin firmou o olhar em Tai. Jun Lei interrompeu sua meditação pela primeira vez.

— E como acha que poderíamos lhe ajudar? — perguntou Tai.

— Quero informações. — Kenshimaru respondeu, sem hesitar. — Hetas estarem nestas terras não é menos incomum do que um espadachim da Lótus. Sei que sabem mais do que eu.

Tai permaneceu em silêncio por longos segundos, avaliando o homem. Aquele rapaz carregava certeza na fala, quase num tom desafiante, respeitando-os, porém sem um pingo de receio de consequências.

— Podemos te ajudar, sim. — Tai, por sua vez, não alterara o tom de voz. — Se for uma boa causa; por que não?

Kenshimaru não esboçou reação.

— Preciso de informações sobre o Tigre Alado. — O recinto se alertou um pouco mais. — Estão aqui por causa deles?

Tatsuo riu de canto e deu de ombros, irreverente.

— Claro que não, apesar de sabermos sobre essa lenda. Se quiser eliminá-lo, terá muito trabalho, eu diria.

— Não — retrucou o ronin —, não são uma lenda; vocês devem saber bem disso. Veem o que não vejo.

— E no que consiste essa sua busca? — Gojin se inclinou para frente, sentado ao lado de Yuuka.

Kenshimaru escolheu suas palavras.

— Digamos que… quero retribuir um favor que eles me fizeram.

“Eles”… Sabe que são uma dupla.

— Eles? — Tai se fazia de desentendido.

— Regente, receio que estejam me tratando como tolo. — A fala de Kenshimaru era postada, firme. — Pois saibam que presenciei parte da operação dos senhores ontem. — Os hetas se encararam outra vez, ainda mais sérios. — Não me interessa sua missão, mas sei que encontraram o Tigre Alado, assim como eu mesmo fiz dias atrás.

Aquele espadachim parecia saber mais do que deveria. Sua atitude afrontosa deixara Gojin desconfortável; aquela postura convencida era, no final das contas… semelhante a dele mesmo. Dava-lhe nos nervos observar que aquele jovem não seguira sequer um dos ritos e etiqueta para se dirigir a um regente da maneira apropriada.

— E acha que devemos explicações a você? — Inquiriu Gojin.

— De maneira alguma, mas se lutam ao lado de quem luta ao meu lado, logo acredito que podemos nos ajudar.

— O combate ao lado do espectro de Vento Gentil foi mero acaso, sr. Matsushio. — Tai interrompeu, de tom solene, contudo, incisivo. — A incursão saiu de controle e quis o destino que as coisas seguissem assim. Sobre o Tigre Alado, não temos como confirmar sua identidade, se é isso que tanto lhe interessa.

— Veja, regente, o Tigre Alado me salvou contra o Dente de Ferro. Por isso, os devo a vida. — O ronin recolheu o selo da Lótus Carmesim e o guardou. — Apenas me diga se ele está aqui. É tudo o que peço.

Tai respirou fundo. Seus discípulos o encararam como se esperassem que não revelasse a verdade. Sabiam bem o quão imprevisível poderia ser seu mestre de vez em quando.

Kenshimaru e Tai se encaravam. O Mestre do Ar captou bem o que o ronin queria saber. Nos seus olhos, via verdade; na sua voz, ouvia certeza. Resolveu confiar-lhe a informação.

— Sr. Matsushio… a Confraria chegará em breve. — Kenshimaru arregalou os olhos. — Se é essa a resposta que deseja ter.

Kenshimaru cerrou os punhos, controlando a conduta pétrea de um espadachim da Lótus Carmesim.

— Eu sou grato, mestre.

Depois de uma mesura, se retirou, silencioso como o vento. Do lado de fora, a chuva seguia, mas agora jamais conseguiria abalar um Kenshimaru que até mesmo esboçava um sorriso contido, que escondia de todos.

Yuuka o observou ir embora pela janela.

— Será que foi certo revelar isso, mestre? Ele pode se colocar em perigo.

Tai concordou, tornando sua atenção à carta manuscrita aos confrades.

— Talvez, mas não se preocupe. É importante que tenhamos outros olhos pela ilha. Além do mais, cada homem sabe o fardo que carrega; esse espadachim parece carregar um dos pesados.

No alto, a graúna pousou sobre um tronco e sacudiu as asas molhadas. Os olhos, de um amarelo quase inatural, se fixaram na direção do povoado ao longe.

O corpo da ave distorceu-se em espasmos, ossos estalaram e o bico retraiu até dar lugar a um rosto humano. O corpo encurvou-se, transformando-se em um homem magro, de pele pálida e cabelos finos e claros.

Kumo ajeitou o capuz e limpou a lama do rosto. Caminhou calmamente pela estrada enlameada, acenando carismático para os aldeões conforme se aproximava do vilarejo. Seu sorriso era gentil, fraterno e, até mesmo, delicado.

— Ah, vovó… cuidado com o degrau. — segurou o braço de uma idosa que carregava um cesto de colheita. — Se cair, pode se machucar feio.

A velha sorriu, agradecida. Kumo devolveu o gesto com doçura, e seguiu caminho.

Seu passo não deixava pegadas. Sob as vestes marrons, um leve calor pulsava no peito; um calor já conhecido por ele. Um dos medalhões pendurados dentro da roupa aquecia cada vez mais, emitindo um brilho esverdeado.

Sahayaka o chamava.

Ele se afastou do povoado, cruzando a selva até que não pudesse ser ouvido. Ali, ajoelhou-se diante do medalhão, escondido atrás das graúdas raízes de uma samaúma.

— Eu o ouço.

A voz de Sahayaka ecoou vacilante, como vinda de dentro da pedra.

— Kumo… confirme-me. O Deva está em Vento Gentil?

— Não só está, como foi acolhido pelos hetas. — Kumo jogava os olhos ao redor, sempre desconfiado. — Creio que tenham sido atraídos por um dos medalhões que você deu ao Eda.

Sahayaka pareceu pensar, a quilômetros de distância.

— Sua situação está mais difícil agora, mas mantenha-se à vista. Não interfira ainda.

— Estou sozinho, você deve saber. Ainda por cima, tem um Naraki solto… Vai enviar mais dos seus escravos?

O medalhão esfriou, deixando-o sem resposta. Kumo ergueu o olhar, assistindo à chuva cessar. Os sons da floresta voltaram à tona.

Sem mais que Sahayaka pudesse o ouvir, bufou aborrecido.

— Deva, hetas, espadachim… — murmurava para si. — O jeito será me infiltrar entre eles. Valeu, Eda. Sua morte deixou as coisas mais fáceis para mim…

Fim da leitura

Capítulo 20 concluído

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