O Grito das Mil BibliotecasCAPÍTULO 34 - 30 - Perguntas sem respostas.
Capítulo 34Capítulo 30 - Perguntas sem respostas.
O Grito das Mil Bibliotecas
A sala onde estávamos era exatamente o que se esperaria de uma escola pública.Havia cadeiras verdes, todas feitas de um metal com sinais de ferrugem, que denunciava anos de uso, rabiscos e vários chicletes colados. O frio do assento atravessava o tecido da calça, e o som agudo do ferro arranhando o chão se repetia toda vez que alguém se movia.Na frente, uma mesa de escritório longa, com as borrachas já caindo, acompanhada de uma cadeira onde o professor ficava diariamente. Ao lado, um armário de madeira escura e velha, com duas portas gastas.
Dentro dele, um computador que, contrariava o que se esperava daquela sala de móveis antigos. Afinal, era novo, possuía um monitor de qualidade e uma conexão bem feita com a lousa digital da sala.Lousa digital… Era algo estranho de pensar.Uma escola pública com móveis caindo aos pedaços, mas com acesso aquela tecnologia que era exclusiva á apenas algumas do estado. Com certeza, é uma característica incomum para aquele cenário.“Definitivamente, irônico…”Meus pensamentos sobre a estranheza daquela vista, foi quebrada quando o professor da próxima aula entrou na sala.Uma das matérias mais interessantes, e que de vez em quando, podia ser uma total dor de cabeça… A dificuldade nem se dava pelo seu conteúdo e sim pelo professor, que era criterioso e metódico, mas mesmo assim, divertia seus alunos.O indivíduo em questão, era um homem de postura ereta e voz firme. Sua aparência parecia que se encaixava com a sua profissão, de cabelos pretos tingidos e com um rosto carregado de uma barba toda embranquecida pelo tempo de sua idade. De olhar sábio e que mostrava sua sagacidade em analisar os outros.Sempre com seus óculos redondos, que remetia ao famoso e jovem bruxo dos livros da nossa infância. Era o caricato, no entanto, excelente professor Francisco Martins da matéria de Fundamentos Éticos e Mágicos da Sociedade.O professor, já animado, começava sua apresentação de praxe.
– Bom dia a todos – cumprimentou, enquanto olhava para cada rosto na sala. – Espero que as férias tenham sido boas, e que estejam bem descansados. Afinal, estão no último, o terceirão.Arrumando sua bolsa em cima da mesa, deu a volta e olhou com mais calma para os rostos dos alunos. Vendo quais conhecia e quais eram novos.
Ele se apoiou na mesa, ajustando sua postura para continuar.
– Neste início, para quem não me conhece, irei me apresentar e pra quem já me conhece, irei apenas explicar como essa matéria irá funcionar durante o ano. – começou, abrindo sua pasta e pegando uma folha de papel, que continha o planejamento da matéria.
– Nossas aulas ocorrem duas vezes por semana, com quarenta e cinco minutos cada, nossa matéria é basicamente uma junção de duas matérias antigas: Filosofia Ética e Fundamentos Mágicos, até aqui tudo certo?Observei ele ficar de olho na turma, esperando por uma resposta. Até que todos em praticamente uníssono, responderam: – Simmm
– Ótimo então… Nessas primeiras aulas, irei fazer algumas revisões dos conceitos básicos das duas matérias, como elementos básicos da dominação, regras principais de cada aspecto interpretativo, e é claro… Como vocês devem saber bem, é terceirão, o que significa que teremos aulas sobre o ENEL e como se prepararem para ele…Eu fiquei de olho, mas me distraí, enquanto ele passava pelas orientações, por serem as mesmas de sempre. O som da voz dele preenchia o ambiente com um ritmo constante, como se cada palavra fosse medida.
Então, recuperou minha atenção ao perceber que ele começava a entregar uma pequena folha para cada um.
– Quero aplicar um teste simples – explicou, estendendo o braço para a fileira da frente. – Só para verificar o nível de atenção de vocês em alguns pontos.
Peguei minha folha e, ao encarar as perguntas, percebi que ele não exagerava: eram coisas básicas, quase óbvias, mas exigiam atenção.
Depois de focar nas questões por alguns minutos que se passaram.O som das canetas riscava o papel. Eu, porém, já havia terminado, fiquei apenas olhando para a folha e suas perguntas sobre autoria e tipos de encantamentos mais comuns.Que estranhamente lembraram-me das dúvidas que tive nos dias anteriores ao da ida à biblioteca…Nem tive tempo para processar tudo o que aconteceu, afinal, depois daquele dia. Tive que ficar nos hospital por uns dois dias e depois já tive que ir no enterro da Rose…Hmpf…
Suspirei, só de lembrar da cena horrível de ter que estar presente naquele momento que ninguém sabia o motivo real da morte dela… E saber que mesmo eu sabendo, não adiantava dizer nada.“Afinal, ninguém acreditaria na garota maluca…”O problema nem foi ter essas dúvidas na cabeça, a parte que mais doía foi ter que dizer para a neta da Rose que a avó dela morreu em um acidente…
Sendo que… a verdade era diferenteSem perceber, acabei focando tanto naquela memória, que não me toquei que estava lacrimejando, e sem querer, derramei algumas lágrimas na folha, que limpei-a rapidamente antes que alguém percebesse.As dúvidas me corroiam por dentro, assim como a sensação de incerteza do que havia acontecido com aquele bendito encantamento.
Um encantamento temporário… Será que aquilo era coisa da minha cabeça mesmo?“Não, não!”Eu sabia que era real, eu senti e vi aquilo na minha frente. Precisava crer nos meus sentidos porque eles eram a minha melhor aposta em entender tudo aquilo.Mas… E se foi realmente apenas uma confusão minha?E então, aquele flash mental. Piscou novamente, e tive um leve senso de estranheza… A biblioteca em chamas…“O FLASH!”A realização estalou em minha mente, quando juntei as peças.A biblioteca em chamas. Não era uma lembrança comum, mas um flash súbito, vívido, que me deixava com a respiração presa, que me deu uma sensação de calor vívido. Aquilo não fazia sentido.Mas, que por coincidência surgiu em minha mente momentos antes da biblioteca começar a pegar fogo…“O papiro tentou me avisar?”O questionamento me deixou incrédula só de pensar… Se foi realmente aquilo, como diabos era possível que isso acontecesse.Ele tentou me preparar para o que aconteceria?Se sim, o autor daquele papiro fez isso de propósito? Ou era tudo uma grande coincidência?
“Muitas perguntas e poucas respostas, como sempre… Na real, havia algumas coisas que eu poderia ter respostas”Voltando minha atenção ao professor, que recolhia algumas provas, ergui a mão.– Professor, posso perguntar uma coisa? – disse, minha voz soando mais hesitante do que eu queria.
Ele se virou para mim, inclinando ligeiramente a cabeça.– Claro, Helena. Qual a sua dúvida?
Expliquei rapidamente a questão que vinha martelando desde a leitura na biblioteca. A questão da autoria dos relatos de vestígios históricos e como se reconhecia DAs nesses casos.
Minha fala era apressada, mas ele pareceu entender de imediato.Ajustou os óculos no rosto e começou a responder.
– A sua interpretação faz sentido – afirmou, pensativo. – Mas, veja, é preciso considerar que, em certos casos, o contexto muda completamente a noção de autoria. E, por mais que seja tentador simplificar, o conceito nem sempre é tão fixo.Acenei com a cabeça, concordando com o ponto. Esperando que ele continuasse, que logo o fez.– Façamos o seguinte, lhe trago uma citação de um autor que detalha mais sobre isso na próxima aula, te trarei o livro do Kuhn para te apresentar… Ok?– Certo professor, obrigada! – respondi, agradecendo com a cabeça levemente pelo empenho.Minha atenção voltou para a sala quando a voz do professor soou mais uma vez.– Turma, para complementar a aula de hoje, irei passar um trabalho diagnóstico – anunciou, em um tom que fez todos olharem para ele.– Será uma redação. Quero que escrevam sobre o seguinte tema… – disse, anotando na lousa rapidamente. O texto que dizia:A humanidade é naturalmente boa ou ruim?
Olhei para o enunciado, sentindo uma pontada de ironia subir à superfície.
“Ah, escola pública… Sempre querendo que os jovens de ensino médio respondam as perguntas que nem os adultos conseguiram encontrar a resposta…”Tá louco com esses caras, bando de preguiçosos…
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