O Herdeiro dos Mortos — Capítulo 9: CAPÍTULO 9 - 9 - As Duas Faces da Morte

O Herdeiro dos Mortos
Cap. 9
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O Herdeiro dos Mortos

CAPÍTULO 9 - 9 - As Duas Faces da Morte

Capítulo 9

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Capítulo 9 - As Duas Faces da Morte

O Herdeiro dos Mortos

O ar da arena já não era o mesmo.

Ele vibrava.

Cada respiração parecia atravessar uma camada invisível de pressão, como se algo gigantesco estivesse observando tudo do alto. A aura roxa ao redor de Noah pulsava em intervalos irregulares, expandindo e contraindo como um coração vivo.

Felix sentia isso.

E, pela primeira vez desde o início da luta, ele não sorriu.

— Então é assim… — murmurou, os olhos brilhando em azul intenso. — Você cresce enquanto luta.

Ele abriu os braços.

O céu acima da arena escureceu.

Nuvens artificiais, conjuradas à força pura, se formaram girando como um redemoinho. Relâmpagos começaram a se entrelaçar dentro delas, grossos, instáveis, violentos.

— RAIO DA MONSTRIFICAÇÃO… — a voz de Felix ecoou, distorcida pelo trovão — SEGUNDA FORMA: INVESTIDA DO JULGAMENTO!

O chão explodiu sob seus pés.

Felix não correu.

Ele virou um raio.

Uma linha azul cortou a arena em menos de um piscar de olhos. O impacto foi imediato — um estrondo tão forte que fez os muros externos do coliseu racharem.

Noah tentou reagir.

Mas desta vez…

Não foi rápido o suficiente.

O raio atravessou seu torso em cheio.

— NOAH! — Hans gritou.

O corpo do Ceifador foi lançado para trás como um projétil, atravessando duas colunas de pedra antes de se chocar violentamente contra a parede da arena. O impacto fez o chão tremer, e uma nuvem de poeira subiu cobrindo tudo.

— ELE ACERTOU!— Isso foi direto!— Esse ataque… era pra matar!

Felix pousou do outro lado da arena, arfando, com o braço direito fumegando pela descarga absurda que acabara de liberar.

— Mesmo você… — ele respirou fundo — não deveria aguentar isso…

A poeira começou a baixar.

Silêncio.

Um silêncio pesado demais.

Então…

CRACK.

Uma fissura roxa brilhou no meio da poeira.

Depois outra.

E outra.

— O quê…? — alguém sussurrou.

A parede destruída começou a se recompor.

Não com pedra.

Mas com… ossos.

Estruturas ósseas se entrelaçaram como pilares vivos, sustentando o corpo de Noah enquanto ele se erguia lentamente dos escombros.

Seu peito estava queimado.

A roupa rasgada.

Sangue escorria pela lateral de seu corpo.

O primeiro sangue da luta.

Noah cuspiu no chão.

— …Esse doeu.

A arquibancada explodiu em gritos.

— ELE SANGROU!— O Felix conseguiu feri-lo!— Mas… ele ainda está de pé?!

Noah estendeu as mãos.

E, pela primeira vez desde o início do combate, as mini-foices retornaram.

Elas não surgiram do nada.

Elas nasceram.

Sombras se condensaram em cada mão, formando duas lâminas esqueléticas de aura roxa profunda. Mas agora… elas estavam diferentes.

A foice da esquerda vibrava.

O ar ao redor dela ondulava como vidro prestes a se quebrar.

— Mini-Foice Esquerda… — Noah disse calmamente — Oscilação.

Ele bateu o cabo da foice no chão.

O espaço à frente dele se partiu.

Um campo de força roxo-transparente surgiu, como vidro distorcido, bloqueando completamente a linha de visão entre ele e Felix por um segundo.

Felix sentiu.

— Isso é… um campo?!

Noah girou a foice no ar.

— Oscilação não é só defesa.

Ele fez um movimento simples.

O ar foi cortado.

Uma lâmina invisível, tingida de roxo, cruzou a arena em velocidade absurda. Felix desviou por instinto, mas o corte passou perto o suficiente para rasgar seu ombro, deixando uma linha que fumegava com eletricidade residual.

— Corte à distância… — murmurou Otto, da arquibancada. — Sem encantamento…

Noah pisou com força.

A arena inteira tremeu.

Fissuras se espalharam pelo chão como uma teia, e uma onda sísmica explodiu sob os pés de Felix, arremessando-o para o alto.

— E também… — Noah levantou a foice esquerda — terremotos.

Felix girou no ar e pousou com dificuldade, o corpo vibrando para se manter estável.

— Hah… — ele sorriu, mesmo sangrando — Então você também esconde monstros nas mãos.

Noah então ergueu a foice direita.

A aura mudou.

Ela ficou mais densa.

Mais pesada.

— Mini-Foice Direita… — ele disse — Domínio dos Ossos.

O chão atrás de Noah se abriu.

Espinhos de ossos gigantes surgiram, retorcidos, afiados, pulsando com energia necromântica. Placas ósseas se moveram sozinhas, formando uma armadura parcial sobre o corpo dele, cobrindo as áreas feridas.

O sangue parou de escorrer.

O osso se moldou.

— Ele está criando defesa em tempo real… — sussurrou Liselotte, fascinada. — Ossos… como se fossem extensão do corpo dele.

Noah estendeu a mão direita.

Projéteis de ossos se formaram no ar e dispararam como balas.

Felix desviou, explodindo o chão com descargas elétricas para mudar de direção.

— Ataque e defesa… — ele pensou. — Duas armas… dois domínios…

Ele sorriu mais uma vez.

— Isso sim… — disse, eletricidade se acumulando novamente em suas garras — é uma luta digna.

Noah ergueu o olhar.

A aura roxa cresceu mais um passo.

— Então venha.

A arena sabia.

Aquilo já não era um teste de admissão.

Era um choque entre monstros.

E ainda estava longe do fim.

O silêncio que se seguiu à revelação das Mini Foices durou menos de um segundo.

Então, o inferno desabou sobre a arena.

Noah avançou.

Não foi um avanço comum — foi como se o próprio espaço tivesse sido puxado junto com ele. O chão da arena estalou, rachaduras se espalharam em forma de teia e uma onda de pressão explodiu para os lados, arremessando poeira, fragmentos de pedra e obrigando parte da arquibancada a erguer barreiras defensivas às pressas.

— O-o quê foi isso?! — um lutador da ala leste gritou, sentindo o peito vibrar como se tivesse levado um soco invisível.

Felix mal teve tempo de reagir.

A Mini Foice esquerda de Noah vibrou em um tom grave, quase como um sino quebrado, e um campo de oscilação roxo-transparente se formou no ar, semelhante a vidro trincado. O espaço dentro dele tremeu violentamente.

— Desiste. — a voz de Noah foi calma, quase cansada.

Felix rangeu os dentes e forçou seus músculos, raios explodindo sob a pele.

— Cala a boca! — ele rugiu, avançando com as garras elétricas.

Tarde demais.

Noah deu um passo lateral e, sem nem olhar diretamente para Felix, lançou um corte à distância. O ar foi rasgado. Não foi um som — foi um estalo seco, como se o céu tivesse quebrado.

Felix foi lançado para trás, rolando pelo chão da arena, deixando um rastro de sangue e eletricidade instável.

A arquibancada veio abaixo.

— ELE CORTOU O AR?!— Aquilo foi… invisível?!— Se isso tivesse pegado em cheio, o Felix teria sido partido ao meio!

Felix se ergueu cambaleante, o corpo tremendo. Ele cravou as garras no próprio peito e descarregou raios diretamente nos músculos. A carne se contraiu, os ferimentos se fecharam à força, vasos saltaram sob a pele.

— EU NÃO VOU CAIR! — ele gritou, avançando de novo.

Noah suspirou.

— Eu não quero te matar. Para.

Felix respondeu com um urro e uma investida suicida.

A Mini Foice direita de Noah se ergueu.

Do chão da arena, espinhos de ossos explodiram para cima como lanças brancas. Felix desviou de alguns, teve o ombro perfurado por outro, mas continuou avançando, envolto em raios.

— ELE AINDA ESTÁ SE MOVENDO?! — alguém gritou, incrédulo.

Noah fechou a mão.

Os ossos se rearranjaram no ar, formando uma barreira óssea que absorveu a explosão elétrica de Felix. O impacto fez a arena inteira tremer.

Quando a fumaça baixou, Noah já estava na frente dele.

Um soco.

Não houve brilho, nem técnica aparente.

Apenas força.

O impacto foi tão brutal que o ar implodiu, criando uma onda de choque circular. Felix foi esmagado contra o chão, a pedra se despedaçando sob seu corpo como vidro fino. Um crater se formou.

— DESISTE. — Noah repetiu, sua voz firme agora.

Felix tentou se mover. Tossiu sangue. Mesmo assim, riu.

— …você… não manda em mim…

Ele se eletrocutou de novo. Os músculos incharam ainda mais, as garras cresceram, o corpo todo vibrando em sobrecarga.

— ELE ESTÁ SE MATANDO! — um curandeiro gritou da arquibancada.

Felix saltou, usando os raios como propulsores.

Noah girou a Mini Foice esquerda.

O campo de oscilação se expandiu de repente.

O chão tremeu como num terremoto localizado. Lutadores caíram sentados, barreiras mágicas se despedaçaram, e o impacto fez os dentes de muitos baterem involuntariamente.

Felix perdeu o equilíbrio no ar.

Noah apareceu acima dele.

— Última vez. — disse Noah. — Desiste. Eu não quero carregar mais um peso morto.

Ele desceu o punho.

Felix foi lançado contra a parede da arena como um projétil, rachando a estrutura mágica que a sustentava. O impacto foi tão forte que o selo de proteção piscou perigosamente.

Silêncio absoluto.

Felix caiu de joelhos, respirando com dificuldade. Seu corpo ainda soltava faíscas, mas estava claro: ele estava sendo esmagado em todos os sentidos possíveis.

Ainda assim… ele se levantou.

— …eu… ainda… posso lutar…

Um murmúrio percorreu a arena.

— Isso já passou de coragem…— Isso é insanidade.

Noah encarou Felix por longos segundos.

Algo em seu olhar não era raiva.

Era cansaço.

— Então aguenta. — disse ele, ajustando a empunhadura das Mini Foices. — Porque eu não vou cair… e você não vai vencer.

A aura sombria de Noah se expandiu mais uma vez, densa, pesada, fazendo o ar da arena ficar difícil de respirar.

Felix abriu um sorriso torto, os raios crepitando mais uma vez.

A luta estava longe do fim.

Mas agora, todos sabiam.

Não era Felix que estava testando Noah.

Era Noah quem estava decidindo até onde deixaria Felix viver.

Fim da leitura

Capítulo 9 concluído

CAPÍTULO 9 - 9 - As Duas Faces da Morte