O Para Sempre Que Não Foi NossoCapítulo 1
A chuva caía devagar sobre os telhados da cidade.
Pequenas gotas escorriam pela janela do quarto enquanto Sofia, de dezesseis anos, permanecia sentada na cama abraçando os próprios joelhos.
Ela odiava dias chuvosos.
Não porque a chuva fosse feia.
Mas porque o silêncio trazia pensamentos demais.
Pensamentos que ela tentava esconder.
Pensamentos que diziam que ela não era bonita o suficiente.
Que não era inteligente o suficiente.
Que não era interessante o suficiente.
Pensamentos que apareciam toda vez que ela se olhava no espelho.
Toda vez que entrava em uma sala cheia de pessoas.
Toda vez que alguém a observava por alguns segundos a mais.
Ela sempre acreditava que estavam julgando.
Que estavam encontrando defeitos.
Que estavam vendo tudo aquilo que ela tentava esconder.
Por isso Sofia preferia ficar sozinha.
Livros não julgavam.
Música não julgava.
A chuva não julgava.
Pessoas sim.
Pelo menos era o que ela acreditava.
Seu celular vibrou.
Uma mensagem.
Ela já sabia de quem era antes mesmo de olhar.
Lucas.
Seu coração acelerou imediatamente.
Era ridículo.
Uma única mensagem.
Uma simples notificação.
E mesmo assim seu peito parecia enlouquecer.
"Chegou em casa?"
Sofia sorriu sem perceber.
"Cheguei."
A resposta veio em segundos.
"Mentira."
Ela franziu a testa.
"Como assim mentira?"
"Você não chegou."
"Cheguei sim."
"Então por que sua luz tá apagada?"
Sofia congelou.
Levantou-se rapidamente e foi até a janela.
Do outro lado da rua, parado sob um guarda-chuva preto, estava Lucas.
Sorrindo.
Seu coração quase saiu pela boca.
"Você é um idiota."
"E você esqueceu de ligar a luz."
Ela abriu a cortina completamente.
Lucas levantou a mão e acenou.
Sofia não conseguiu impedir o sorriso.
Aquele sorriso que só aparecia por causa dele.
O único garoto capaz de fazê-la esquecer, nem que fosse por alguns minutos, todas as inseguranças que carregava.
Eles se conheceram há dois anos.
No primeiro dia do ensino médio.
Sofia estava sentada sozinha durante o intervalo, escondida atrás de um livro.
Como sempre.
Até que alguém puxou a cadeira à sua frente.
Sem pedir permissão.
Sem vergonha.
Sem medo.
— O que você está lendo?
Ela levantou os olhos.
Um garoto de cabelos bagunçados sorria para ela.
— Isso não é da sua conta.
— Nossa.
— O quê?
— Você é assustadora.
Ela fechou o livro.
— Então vai embora.
— Não.
— Por quê?
— Porque agora fiquei curioso.
Ela nunca tinha conhecido alguém assim.
Lucas parecia incapaz de sentir vergonha.
Ou medo.
Ou insegurança.
Ele simplesmente existia.
Como se o mundo inteiro fosse seu amigo.
E, de alguma forma estranha, ele decidiu ser amigo dela também.
Mesmo quando Sofia tentava afastá-lo.
Mesmo quando respondia com poucas palavras.
Mesmo quando dizia que queria ficar sozinha.
Lucas continuava voltando.
E, pouco a pouco, ela começou a esperar por isso.
Naquela noite, após vê-lo parado do outro lado da rua, Sofia finalmente ligou a luz do quarto.
O celular vibrou novamente.
"Melhor."
Ela riu.
"Vai pegar um resfriado."
"Vale a pena."
"Por quê?"
Demorou alguns segundos.
Depois chegou a resposta.
"Porque você sorriu."
Seu coração parou.
Só por um instante.
Apenas um instante.
Mas foi suficiente.
Porque Lucas sempre fazia isso.
Dizia coisas simples.
Coisas pequenas.
E mesmo assim elas encontravam um lugar dentro dela.
Um lugar que ninguém mais alcançava.
Na manhã seguinte, Sofia caminhava pelos corredores da escola segurando os livros contra o peito.
Os grupos conversavam.
Riam.
Falavam sobre festas.
Relacionamentos.
Viagens.
Ela se sentia invisível.
Como sempre.
Até ouvir uma voz atrás dela.
— Sofia!
Lucas apareceu correndo.
Com o uniforme amassado.
E os cabelos ainda piores que o normal.
— Você acordou atrasado de novo?
— Talvez.
— Você vai repetir de ano.
— Talvez.
— Você não se preocupa?
— Não.
— Por quê?
Lucas sorriu.
Aquele sorriso.
O sorriso que fazia seu coração esquecer como funcionava.
— Porque você sempre me empresta suas anotações.
Sofia revirou os olhos.
Mas sorriu.
E Lucas percebeu.
Ele sempre percebia.
Sempre.
Como se prestasse atenção em detalhes que ninguém mais via.
Naquele mesmo dia, durante a aula de educação física, algo aconteceu.
Algo pequeno.
Mas suficiente para destruir o humor de Sofia.
Algumas garotas comentavam fotos nas redes sociais.
Falavam sobre aparência.
Corpo.
Beleza.
Comparações.
Uma delas olhou para Sofia.
Depois cochichou algo para as amigas.
Todas riram.
Talvez nem fosse sobre ela.
Mas sua mente decidiu que era.
Porque sua mente sempre fazia isso.
Transformava dúvidas em certezas.
E certezas em medos.
Durante o restante do dia, ela quase não falou.
Quase não sorriu.
Quase não levantou os olhos.
Lucas percebeu.
Claro que percebeu.
Quando as aulas terminaram, ele a encontrou sentada sozinha na arquibancada vazia da quadra.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Mentira.
— Não é nada.
— Sofia.
Ela suspirou.
Cansada.
Muito cansada.
— Você já sentiu que existe algo errado com você?
Lucas ficou em silêncio.
— O quê?
— Como se todo mundo fosse melhor.
Mais bonito.
Mais interessante.
Mais feliz.
Mais tudo.
A voz dela falhou.
— Às vezes eu olho para as outras pessoas e penso que nunca vou ser suficiente.
O silêncio voltou.
Por alguns segundos.
Então Lucas sentou ao seu lado.
Sem dizer nada.
Sem julgá-la.
Sem interromper.
Apenas ficou ali.
E, quando finalmente falou, sua voz foi baixa.
Suave.
— Calma.
Sofia virou o rosto.
— O quê?
— Calma.
Ela sentiu uma lágrima escapar.
Lucas continuou.
— Você passa tanto tempo lutando contra monstros que ninguém mais consegue ver.
— Lucas...
— E eu sei que eles parecem reais.
Ela abaixou a cabeça.
— Mas eles estão mentindo para você.
O coração dela apertou.
Porque era exatamente disso que ela precisava ouvir.
— E se eles estiverem certos?
Lucas balançou a cabeça.
— Então vou brigar com eles.
Ela riu entre lágrimas.
— Você é ridículo.
— Sou mesmo.
— Não dá para brigar com pensamentos.
— Dá sim.
— Como?
Lucas apontou para o próprio peito.
— Você pode se esconder aqui até eles irem embora.
Sofia ficou imóvel.
Seu coração disparou.
Mais forte.
Mais rápido.
Mais alto.
E, naquele instante, pela primeira vez em muito tempo...
Ela acreditou.
Acreditou que talvez não estivesse sozinha.
Que talvez existisse alguém disposto a enfrentar seus monstros.
Mesmo aqueles que ela escondia dentro de si.
E enquanto o sol desaparecia atrás dos prédios da cidade, Sofia não percebeu.
Mas aquele foi o dia em que começou a se apaixonar.
E também o dia em que seu coração encontrou o lugar que chamaria de lar.
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