Pacto com a Súcubo — Capítulo 100: CAPÍTULO 100 - 99 O mapa e a chave

Pacto com a Súcubo
Cap. 100
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Pacto com a Súcubo

CAPÍTULO 100 - 99 O mapa e a chave

Capítulo 100

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Capítulo 99: O mapa e a chave

Pacto com a Súcubo

Jéssica e Mical caíram num tipo de caverna subterrânea gigantesca. Estalactites no teto e estalagmites no chão se projetavam feito lanças ameaçadoras.

Às costas delas, uma cachoeira de água e areia descia da superfície e caía rumo ao centro da terra.

Um brilho alaranjado rasgou o escuro. E as garotas viram o anjo. Estava preso por correntes que saíam de dentro das rochas. Suas asas, sem plumas, eram apenas uma projeção de nervos, cartilagens e pele enrugada preso às costas.

Ele se ergueu e olhou diretamente para as duas. Os olhos eram alaranjados. Lindos, porém carregavam uma expressão triste, dura. A pele estava toda coberta de cicatrizes.

Estava nu.

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— Ctehê! Arebk háj!

— O… quê… ? — Jéssica fez uma expressão confusa.

— Enoquiano — concluiu Mical.

— Sabe traduzir?

— Não.

O anjo as olhou por um tempo, e abriu suas asas lamentosas de couro e nervos, e tentou se aproximar delas, mas as correntes tiniram e o seguraram.

— Tz há! Tz há! Ex Azael! — disse o anjo, estendendo suas mãos para elas.

— Acho que ele quer que… nos aproximemos — disse Mical.

As duas se entreolharam por um tempo.

Depois olharam para o anjo e não sentiram medo. Tudo o que puderam sentir vendo aquela figura machucada, triste e solitária foi pena. Aqueles olhos eram os olhos de alguém implorando por algo. Não tinham orgulho, nem hostilidade. Apenas tristeza.

As duas deram um passo a frente e o anjo as tocou.

Pousou as mãos sobre as têmporas de cada uma delas e fechou os olhos.

Seus lábios finos e ressecados se moveram, sussurrando:

— T-hai! Cetum! Satem! Indo-europeu! Latim! Galego-português! Português! Decifrado.

O anjo se afastou delas. Respirava pesadamente. Parecia cansado.

— A língua de vocês é… complicada. Muita ramificação — disse o anjo.

— Você… aprendeu nossa língua!? Já?! — Jéssica parecia chocada.

Mical assentiu.

— Aprender dessa forma deve ser bastante útil.

— Existe a possibilidade de eu ter um aneurisma cerebral, então… tem seus riscos — respondeu o anjo, dando de ombros.

— Você é… — Jéssica não concluiu sua fala.

— Sim — respondeu ele. — Ex Azael. Me chamam de O Anjo do Deserto. Mas a verdade é que eu sempre fui o Anjo do Perdão. Sempre trabalhei para levar o perdão de Deus aos humanos. Mas pequei. Me apaixonei por uma humana.

Jéssica engoliu em seco.

— Nós tentamos contactar você.

— E eu procurei por vocês. — ele olhou para Jéssica — A chave; — olhou para Mical — o mapa. Minhas descendentes. Minhas sementes na humanidade. A prova de que amei Txalky! Mas não consegui encontrá-las. O mundo é grande demais e minha consciência não as encontrou. Mas algo mudou.

— O que mudou? — perguntou Jéssica.

— Uriel morreu. Quando um anjo morre, acontece uma emanação energética que funciona como um sinal avisando para todos os outros anjos da morte e do local onde aconteceu, como os feromônios das abelhas. Eu senti esse sinal e olhei na direção dele, e vi vocês duas, então puxei suas almas para os portões da minha prisão. Não sabia se conseguiriam vencer o guarda, mas venceram.

Mical engoliu em seco.

— Então os outros anjos também sabem da morte de Uriel?

Ex Azael assentiu.

— E o que quer da gente? — perguntou Jéssica.

— Quero que me libertem. Estive preso por incontáveis milênios. O tempo do meu castigo já tem que ter terminado!

— …

— Libertem-me! Ainda tenho duas Bênçãos para ceder! Libertem-me e lhes darei!

— Bençãos? — Mical ficou pensativa.

— Poderão proteger uma a outra de maneira mais eficaz. Nem anjos, nem demônios, nem qualquer criatura poderá machucá-las, pois vocês são minha semente. Eu estarei sempre com vocês. Poderão ajudar aquele garoto a vencer a própria Escuridão.

— Nós teremos poder? — Mical parecia surpresa.

— Vocês já têm. Eu apenas vou remover os selos que as impedem de usá-los.

— E como podemos libertá-lo? — perguntou Mical.

— O sangue de vocês. Uma gota de cada.

— Nosso… sangue… ? — Mical franziu o cenho.

— Mical, você é o mapa. O guia. Derrame uma gota de seu sangue sobre minhas correntes e o sangue se moverá para o elo mais frágil. Sinalizará onde a chave deve ser inserida.

— E a chave sou eu?

— Sim, Jéssica. A chave é você. Você deve derramar sua gota de sangue no elo da corrente onde o sangue de Mical parar. Assim, eu estarei liberto. Foi profetizado que seria dessa forma.

— Jés, foi pra isso que nascemos. Ouvimos histórias sobre ele desde pequenas.

— Eu sei, mas… Depois não tem mais volta, né? Melhor pensar um pouco.

— Do que você tem medo? — O anjo ergueu uma sobrancelha.

— Por exemplo, senhor Anjo do Deserto, o que você pretende fazer depois que estiver livre?

— Vou descobrir meu lugar no mundo. Talvez viajar pelo universo. Sempre quis conhecer a galáxia de Andrômeda, mas nunca tive tempo. Ouvi falar que lá existe uma civilização alienígena com seus próprios deuses e monstros. Parece… interessante.

— Parece mesmo — respondeu Mical.

— É nossa predestinação, Jés.

Jéssica suspirou.

— Acho que é mesmo…

As duas fizeram assim como instruído por Ex Azael. Mical usou um pequeno grampo de cabelo, que tinha a ponta afiada, para fazer um furinho no dedo.

O anjo começou a cantar. Era um cântico numa língua esquisita, com notas longas e melancólicas, que se misturavam em reverb. O som era grave e vinha do fundo da garganta. Era o tipo de música que poderia tocar numa igreja gótica antiga, daquelas com salões frios e tumbas no subsolo.

A gota de sangue caiu da ponta do indicador de Mical sobre um dos elos da corrente.

O metal da corrente rangeu e tiniu, como se sofresse, e o sangue se moveu através dos elos, até um ponto específico.

Jéssica jogou sua gota de sangue sobre a gota de Mical.

Toda a caverna estalou, como se as pedras estivessem sendo destruídas. As águas do Nilo pararam de cair em cascata.

Foi como se todo aquele mundo perdesse a cor e ficasse desbotado.

— Está consumado — disse o Anjo do Deserto.

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A corrente se tornou pó.

Ex Azael, finalmente com seus braços livres, ergueu as duas mãos, e duas bolas de energia na cor de seus olhos brilharam em suas mãos.

— Alegrem-se, filhas de Quemuel. Filhas de Azazel. Serão as portadoras do Perdão e da Justiça. Abençoadas sejam!

E empurrou as bolas de energia em direção às duas meninas. A energia se chocou contra Mical e Jéssica, e as duas foram arremessadas contra uma parede, destruindo algumas estalagmites no percurso, e caíram no chão.

Jéssica tentou se erguer, mas lhe faltou forças. Seu corpo inteiro formigava e ela não sentia as pernas. A visão estava turva. Mical, ao seu lado, estava inconsciente.

— Ex Azal… — disse Jéssica, com voz fraca —, o que…

— Podem me chamar de Azazel. Somos próximos agora. — Ele olhou para o alto e, através dos vários metros de rocha maciça, do rio que corria na superfície, e através da própria barreira dimensional que selava essa dimensão prisão, ele viu o Céu. O Paraíso. Ergueu suas asas de pele e nervos; e seus olhos brilharam orgulhosos. O rosto se encheu de dignidade pela primeira vez em mais de mil anos.

— Vingança também é bom.

E voou, desaparecendo através do teto, como se todas aquelas pedras não tivessem matéria alguma em sua constituição.

*

No Priorado, Jéssica e Mical ainda flutuavam, girando uma em volta da outra.

— É bruxaria… — disse um dos camponeses.

— Misericórdia! Esse pesadelo nunca termina!

— Precisamos fazer alguma coisa! Ou seremos punidos por Deus ainda mais!

— Se afastem! — disse Renato, com firmeza. — Não quero que fiquem em cima, dessa forma, feito um bando de abutres! Fiquem longe!

De repente, as duas simplesmente caíram no chão. A magia que as mantinha levitando foi desfeita.

Renato as tocou no rosto, sentindo a respiração delas. Suspirou aliviado ao ver que estavam vivas e, reagindo ao seu alívio, o céu se iluminou, sendo tomado pela luz do sol que rasgou a escuridão de antes.

— Renato é mesmo especial — falou Tâmara, sentada no parapeito, no alto do templo, olhando para baixo e balançando as pernas alegremente.

— Você não sabe o quanto…. — disse Clara, que estava sentada ao seu lado.

— Sobre as meninas… o que acha que é?

— Não sei — Clara tomou um gole de seu copo de uísque com gelo. — Mas com certeza não é bom.

Fim da leitura

Capítulo 100 concluído

CAPÍTULO 100 - 99 O mapa e a chave