Pacto com a Súcubo — Capítulo 103: CAPÍTULO 103 - 102 O lar das crianças

Pacto com a Súcubo
Cap. 103
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Pacto com a Súcubo

CAPÍTULO 103 - 102 O lar das crianças

Capítulo 103

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Capítulo 102: O lar das crianças

Pacto com a Súcubo

A van estacionou em frente ao orfanato.

A fachada não era nada luxuosa e não tinha adornos. O portão era velho, enferrujado, do tipo sem grades, que não permitia ver nada dentro do terreno; e o reboco do muro estava rachado.

— Chegamos — disse Renato, com um suspiro. Parecia algo entre o alívio e a preocupação.

Ele ajeitou Mical e Jéssica em seus assentos, para garantir que permanecessem confortáveis, apesar de estarem desacordadas, em seguida ajeitou Lírica, a demi-humana. Se certificou de que o ar condicionado estaria numa temperatura agradável, e deixou os vidros das janelas um pouco abaixados, para garantir a entrada de ar. Finalmente, pegou a sacola onde trazia os presentes e saiu do carro.

— Eu também quero ir. Quero conhecer o local onde você passou a infância — disse Tâmara.

— Mas de jeito nenhum! Você seria uma má influência para as crianças — respondeu Renato.

Clara riu.

— Ai, ai. Infelizmente você ainda não tem a confiança dele. Eu por outro lado…

— Você também não vai.

— O quê? Por quê?

— Porque você também é uma má influência.

— O quê? Que absurdo!

— Sim! Eu concordo! Que absurdo! — disse Tâmara. — Eu sou uma pessoa totalmente confiável e legal. As crianças me adoram!

— A mim também! Juro que vou me comportar! — disse Clara. — Qual é, Renato?! Deixa de ser chato! Eu quero ver o lugar onde você cresceu!

— Eu também quero!

— Devem ter fotos…

— Do Renato criança…

— Todo fofo…

— E inocente…

— Deixa, Renato!

— É! Deixa!

Renato suspirou e deu de ombros.

— Afe! Essas duas estão se dando bem! Que pesadelo! Beleza, então! Podem vir comigo. Mas no primeiro sinal da sua loucura — ele apontou para Clara —, ou da sua — apontou para Tâmara —, a brincadeira acaba. E eu vou ficar bem pistola!

— Ui, que medinho! — riu Clara.

— Renato do velho testamento é poucas ideias — riu Tâmara.

— Eu tô falando sério! Se comportem! Nada de pintos explodindo, nem fumaça do mal e nem feitiços!

— Tá… — disse Clara, meio a contra gosto.

— E nada de poemas sinistros e nem de usar armas de fogo perto das crianças!

— Armas brancas podem? — perguntou Tâmara.

— Não! Nada cortante, nem perfurante, nem explosivo, nem nada que seja proibido por lei! Poemas sobre assassinato também estão proibidos!

Tâmara fez beicinho, chateada.

— Tá… Renato, seu chato.

— Certo. Então vamos lá.

O garoto se aproximou do portão e tocou a campainha.

— Já vai! — gritou uma voz feminina lá de dentro.

O coração do garoto acelerou. Fazia quase dois anos que ele não visitava o orfanato.

Sentia saudade. Mas também tinha medo de que o atual Renato assustasse as crianças ou decepcionasse as cuidadoras.

A pequena porta de ferro, no meio do portão, se abriu um pouco e um rosto desconfiado surgiu por ela. E de repente, o rosto se iluminou com alegria.

— Renato! Ah, que saudade! — a irmã Dulce pulou pra fora do portão e abraçou o garoto.

Seu rosto tinha marcas de idade, com rugas e olheiras de cansaço.

Era uma senhora na faixa dos 50 anos. Sorridente e simpática.

— Ah, que bom que veio nos ver! Você é sempre bem vindo!

Usava roupas casuais. Calça, camiseta, e um crucifixo no peito. Não era freira de verdade, mas sempre deixou claro sua fé em Deus e, carinhosamente, os internos a chamavam de irmã.

— E quem são suas amigas, Renato?

Clara se meteu no meio dos dois, com um olhar soberbo e nariz empinado.

— Clara Lilithu. Sou namorada desse humano. Por enquanto.

— N-namorada? É sério? Então o recluso e introvertido Renato finalmente conseguiu uma namorada? Deus, obrigado! Minhas preces foram ouvidas!

Tâmara pigarreou e também se intrometeu na conversa.

— E eu sou Tâmara. A amante dele.

— Você é o quê?

— A amante.

A irmã Dulce franziu o cenho e ficou em silêncio. Pensou por alguns instantes.

— Não… impossível — disse ela. — O Renato mal conseguia falar com mulheres. Já é um milagre ele ter uma. Duas é impossível! Vocês estão brincando com essa pobre senhora, não estão?

Renato coçou a bochecha, desconcertado.

— Você falando assim… me deixa um pouco deprimido…

— Vamos, entrem! Não percam tempo!

O quintal era gramado. Num dos cantos, à sombra de algumas árvores, havia um parquinho com escorregador e gangorra, e uma faixa de terreno cimentado onde tinha algumas amarelinhas pintadas.

Também tinha uma pequena capela no canto oposto, com uma cruz de madeira no teto. Clara, ao vê-la, fez uma careta.

As crianças, que brincavam no parquinho, ou brincavam pelo quintal, correram até eles.

— Tio Renato! Tio Renato! Ei, o tio Renato voltou, pessoal! — disse o pequeno Raí, no auge de seus 7 anos.

Ele, junto das outras crianças menores, deram ao Renato um apertado e aconchegante abraço coletivo que quase derrubou o garoto.

— Você voltou, tio Renato! Eu senti saudades! — disse Ana Alice. Era uma garotinha loira dos olhos azuis.

— Eu senti mais saudade ainda! — disse Kawanne, uma menina de 6 anos, dos olhos amendoados, cabelos pretos longos e pele morena. — Senti mais saudade do que a Ana Alice!

— Mentira! Eu que senti mais!

— Eu nem senti tanta saudade assim! He! He! He! — disse Raí.

— Mentiroso! — gritou Kawanne. — Você vivia chorando pelos cantos, falando que o Renato tinha esquecido de nós porque não vinha visitar a gente!

— E-eu?! Eu não lembro disso aí não!

Renato deu um sorriso sem graça e fez cafuné na cabeça das crianças.

— Eu jamais esquecerei vocês, crianças. Nunca! Aqui, olha o que eu trouxe…

Ele pôs a mão dentro da sacola que trazia consigo e tirou vários doces. Eram bombons, pirulitos, suspiros e marias-moles. Também tinha balões, bolinhas de pingue e pongue, raquetes, e línguas de sogra para as crianças poderem brincar.

— Oba!

— Que legal!

— Agora vão brincar, crianças! E escovem os dentes depois de comer os doces, senão os bichinhos vão comer eles!

— Sim, tio Renato!

— Pode deixar!

Eles correram de volta para o parquinho, em meio a gargalhadas e risos alegres, enquanto abriam as embalagens dos doces e dos brinquedos.

— Será mesmo? — disse Yuri. Ele era um dos meninos maiores. Tinha 15 anos. — Será mesmo que não se esqueceu da gente?

— Não. — Renato tirou de dentro da sacola um deck de cartas de Yu-Gi-Oh — Ainda lembra como se joga?

O rosto de Yuri se iluminou.

— É claro que lembro. Ainda tenho aquelas cartas antigas. Estão velhas, mas ainda dá pra jogar!

— Agora você tem cartas novas. O que acha da gente jogar daqui a pouco?

Yuri sorriu e seus olhos brilharam de alegria.

— Não vou deixar você ganhar dessa vez!

Renato assentiu.

— Beleza. Não vou pegar leve também.

— O Renato leva jeito com crianças… — disse Clara.

— O útero chega a coçar, né? — disse Tâmara.

— “Azidéia”! — riu Renato.

— O Renato sempre levou jeito com crianças — disse a irmã Dulce. — Quando ele chegou aqui, ele era todo emburrado e não conversava com ninguém. Nem comer ele queria. Também, não julgo… depois de uma tragédia daquelas… mas aos poucos ele foi se abrindo para as crianças. Começou a brincar com elas, e aí… bom, ele foi se revelando o Renato carinhoso que todos adoramos.

— Renato carinhoso? — Clara levantou uma sobrancelha. — Estamos falando da mesma pessoa?

— Ei, Renato, você veio?! Que surpresa agradável! — A irmã Clarisse saiu da capela e se aproximou, correndo como podia, erguendo o vestido, quase tropeçando. Ela tinha limpado bem os olhos e o rosto na tentativa de disfarçar as lágrimas, mas Renato percebeu.

Clarisse era assim. Ela chorava escondida, na capela, quando algo a preocupava.

— Todos sentimos sua falta — disse ela, com um sorriso sereno.

— Eu senti também.

— Vamos! Eu vou preparar um lanche.

— Um lanche da irmã Clarisse… é algo irrecusável!

— Eu tô com fome! — disse Tâmara.

Enquanto Clarisse preparava o lanche, Clara e Tâmara insistiram que queriam ver fotos do Renato criança. O garoto protestou, mas, de acordo com Dulce, as fotos eram tão lindas que seria um desperdício não mostrá-las.

— Veja! Ele só de cuequinha! Que bonitinho! — disse Tâmara, sentindo um rubor nas bochechas.

— Dá vontade de mergulhar ele no meu café! — disse Clara.

Renato olhou de soslaio para as duas.

— Esquisitas…

— Eu me lembro desse dia como se fosse hoje! Estava tão calor! Então o Renato pegou a mangueira que a gente usava para regar as plantas e começou a se banhar, assim, no meio do quintal. Ele parecia tão feliz, que eu resolvi tirar essa foto… — disse Dulce, com um brilho nostálgico nos olhos.

Renato coçou a cabeça, envergonhado.

— Isso é meio constrangedor… Ah, ali! Os lanches chegaram!

— Gente, eu fiz cachorro quente e suco de acerola! — disse a irmã Clarisse, se aproximando com uma bandeja e uma jarra.

— Obaaaa! — gritaram as crianças, em uníssono, com alegria.

O suco era natural, feito das acerolas colhidas no pomar do orfanato, e desceu refrescante pela garganta.

Os lanches eram feitos com salsichas cortadas em rodelas e estava bem temperado. Dava pra notar que foi feito com carinho. Não tinha sabor melhor!

Enquanto comiam, Raí disse, ainda mastigando:

— Tio Renato! Por que você não liga pra Irina igual da última vez? Eu quero falar com ela!

— Sim! Liga pra Irina! — concordou Ana Alice.

Renato pareceu em dúvida, mas a irmã Dulce assentiu:

— Seria bom falar com sua irmã também. Também sentimos falta dela.

— Certo. — Renato pôs um sorriso terno no rosto, e ligou, mas: — É, parece que a Irina não pode atender agora. Ela deve tá ocupada.

— Ahhhhh — disseram as crianças, em uníssono, chateadas.

Continuaram comendo e conversando, e em algum momento o pequeno Raí empurrou Ana Alice, fazendo a menina cair no chão e começar a chorar.

A irmã Dulce pegou a menina no colo, acalmando-a, enquanto Clarisse repreendia o menino.

Renato balançou a cabeça, negativamente.

— Por que você fez isso, Raí? Você não disse que sempre ia proteger sua irmã?

O menino baixou a cabeça, emburrado, e não respondeu.

— Ele tá assim ultimamente — disse Clarisse, com olhar preocupado. — Todas as crianças, na verdade. Estão brigando muito. Brigam por qualquer coisa. Não sei mais o que fazer.

— É essa onda de violência que tá se espalhando pelo mundo, sabe? — acrescentou Dulce. — Acho que não é natural, não. É algo espiritual. E tá contaminando até as crianças.

Renato pensou por alguns instantes.

— Quando a gente estava voltando, vimos uma briga bem feia entre várias pessoas.

— Tá vendo! A violência tá se espalhando entre as pessoas como um vírus. É terrível! Nem as crianças estão a salvo.

Renato se levantou e, pensativo, andou alguns passos. Saiu daquela sala e observou o sol brilhante do lado de fora. Ouviu o canto dos pássaros.

— Clara — disse em voz baixa, mas a súcubo ouviu.

Ela surgiu ao lado dele no mesmo instante.

— Chamou, querido? — A voz dela era macia, e tinha um tempero de sarcasmo.

— Essa onda de violência… também tô achando estranha.

Clara deu de ombros.

— Os humanos sempre foram violentos.

— Mas agora tá mais intenso. E mais, as pessoas parecem mais acostumadas à violência do que o normal. Eu notei. O Hiro, outro dia, deu um tiro na cabeça de um homem e nem se importou. O Hiro! Ele não é assim, sabe? Tudo bem que a gente estava numa situação de perigo, mas mesmo assim… Não é normal.

— Vai ver você só tá cercado de amigos psicopatas e não sabe, Renato. Olha a princesinha homicida ali. — Ela direcionou o olhar para Tâmara que, apesar de estar sentada no sofá, junto das irmãs e das crianças, observava os dois com olhos afiados. — Você não sabia dela antes, sabia?

— O Abigor… quando ele aparece, todos aqueles próximos a ele sentem raiva, ódio, vontade de matar os outros.

— Sim. Mas é limitado àqueles que estiverem próximos, como você disse. Esse negócio aí de influenciar todo o mundo não faz sentido. É teoria da conspiração.

— Mas se ele pode fazer isso… não pode existir algum demônio mais forte que possa influência o mundo? Seria a mesma coisa que o Abigor faz, porém mais forte, com um campo de ação maior?

— Impossível, Renato. Influenciar todos dessa forma seria… grande demais. Seria necessário ter poderes quase divinos. E não tem demônio e nem anjo tão forte. Não mais.

— Mas já houveram?

— Já. Morreram todos na grande guerra. Os que sobreviveram à Rebelião de Lúcifer, pereceram nas Guerras Pelo Enxofre. Não tem mais ninguém tão forte. Nem mesmo os antigos deuses da guerra têm mais tanto poder restando.

— Essa… violência no ar… não é por acaso. É a influência de alguém. Eu sei porque sinto o mesmo arrepio que sinto com o Abigor, mas agora é o tempo todo. Tá no vento; na água; até na luz do sol. E tenho certeza que não sou só eu que notou.

Clara sorriu.

— Uma coisa tão grande assim… só poderia acontecer se…

— Se o quê?

— Se o Apocalipse tivesse sido iniciado.

Fim da leitura

Capítulo 103 concluído

CAPÍTULO 103 - 102 O lar das crianças