Réquiem da AscensãoCAPÍTULO 73 - 72 — O Medo Mais Profundo de Nytheris
Capítulo 73Capítulo 72 — O Medo Mais Profundo de Nytheris
Réquiem da Ascensão
A carruagem logo chegou à porta da casa de Flügel. Após se despedir de Grenhard, o elfo seguiu para sua própria residência. Lá fora, o ar gelado da noite picava a pele, e a brisa leve carregava o cheiro de chuva.
— Vamos entrar, estou morrendo de fome — disse com um sorriso, levando a mão ao estômago. Nytheris assentiu e o seguiu de perto.
Na porta, Flügel hesitou. A armadura estava um caco e ele sabia que o estado dela assustaria seus pais. Decidiu, então, tirar também o peitoral.
Flügel entregou o elmo a Nytheris, removeu o torso da armadura e, por fim, abriu a porta.
— Chegamos! — A voz de Flügel soou arrastada, carregada pelo cansaço do dia que finalmente desabou sobre seus ombros. Era sempre assim: o alívio de relaxar em casa era, de fato, maravilhoso.
Aragi saiu da cozinha e parou, surpreso. Ali estavam eles: Nytheris, imponente em sua armadura prateada, polida, brilhante e majestosa, segurando um elmo surrado, e Flügel, seu filho, vestindo apenas as calças e botas de uma armadura deteriorada, com o torso, ainda mais estragado, em suas mãos.
O contraste era gritante: uma peça impecável contra a outra, velha, suja, cheia de furos e amassados.
— O que aconteceu? Você está machucado, Flügel? — A voz de Aragi tremeu, a preocupação evidente.
— Não. Essa eu comprei assim mesmo e vou mandá-la para um ferreiro. Ela é boa, apesar de todo o estrago. Já essa outra… — Flügel apontou para Nytheris, um sorriso de orgulho crescendo em seu rosto — …comprei para ele!
— Ah, entendi… eu acho — Aragi respondeu, um tanto hesitante, os olhos fixos na armadura de Flügel, como se tentasse discernir o que o filho vira de bom naquela sucata.
— A janta ainda vai demorar um pouco — Aragi avisou. No mesmo instante, a barriga de Flügel roncou. Aragi sorriu. — Pode comer pão se estiver com muita fome.
— Tudo bem, mas eu vou tomar um banho primeiro e talvez eu coma alguns pães depois. — Um leve sorriso surgiu no rosto de Flügel, embora o cansaço do dia ainda pesasse.
O corpo de Flügel clamava por descanso, e sua mente ansiava por um pouco de paz, longe dos recentes e tumultuosos eventos. Com um suspiro de puro alívio por finalmente estar em casa, ele se dirigiu ao quarto.
A porta do quarto se fechou com um clique. Flügel foi até o canto, onde pousou o torso da armadura, antes de descalçar as botas e remover as partes das pernas.
— Comprei ela por três moedas de ouro, você acredita? — Flügel perguntou, virando-se para Nytheris. O familiar estava parado junto à porta, com o elmo amassado na mão, e seus olhos o fitavam intensamente por trás do capacete prateado.
Flügel se aproximou de Nytheris e, ao retirar seu capacete, sentiu o coração apertar com uma dor lancinante. Ele preferiria enfrentar a morte novamente pelas mãos daquele vulto a ver o rosto de seu familiar naquele estado.
Os olhos vermelhos e o nariz escorrendo e avermelhado de Nytheris enquanto chorava lhe conferiam uma expressão quase fofa, embora para Flügel doesse como se um pedaço do seu peito fosse arrancado.
À desolação, somou-se uma raiva borbulhante em seu âmago: a culpa era dele. Se tivesse subido sem o elmo, Nytheris jamais o teria atacado. Flügel sabia que, se fosse outra pessoa a ter provocado tamanha tristeza em Nytheris, ele provavelmente perderia o controle de sua raiva.
Flügel se forçou a focar em Nytheris, sua prioridade naquele momento. Com um sorriso gentil, ele usou a mão direita para limpar as lágrimas grossas que escorriam pelas bochechas agora rosadas do familiar.
— Vamos lá, não é para tanto. Pare de chorar, cara, você já está bem grandinho para essas coisas — A voz de Flügel saiu mais leve do que ele se sentia, um esforço para não aprofundar no lado emocional.
Ambos, afinal, eram desastrosos com emoções e sentimentos. Flügel nunca havia confortado ninguém, na verdade, era sempre ele quem recebia o apoio de Nytheris ou de sua família. Agora, com os papéis invertidos, ele se viu sem rumo. Mas, apesar de tudo, estava decidido a tentar.
Em vez de acalmar Nytheris, as palavras de Flügel tiveram o efeito oposto. O familiar largou o elmo da armadura no chão e, num impulso, saltou sobre Flügel, abraçando-o com força.
Seu rosto estava enterrado no ombro de seu criador, molhando seu casaco. Suas mãos, tremendo, apertavam desesperadamente as costas de Flügel, aferrando-se à roupa, como se dali pudesse extrair a certeza de que ele não o deixaria.
O impacto do abraço de Nytheris fez Flügel cambalear. Ele soltou o capacete da armadura prateada para não cair e, retribuindo o abraço, acariciou o couro cabeludo de Nytheris.
— Eu quase te matei… Se a sua armadura não tivesse aguentado, eu teria te matado… — A voz de Nytheris saiu trêmula, embargada pelo choro e rouca de desespero
Flügel suspirou, apertando Nytheris em seus braços. — Você não sabia, Nytheris. A armadura escondeu minha presença. Não foi sua culpa. Você apenas reagiu a uma ameaça que pensou ter me ferido, como sempre faz.
O corpo de Nytheris estremeceu nos braços de Flügel, os soluços sacudindo a armadura. O aperto em suas costas se tornou mais forte, quase doloroso.
— Mas… e-eu… eu deveria ter sentido! Nosso vínculo! — Nytheris se afastou um pouco, o rosto ainda molhado pelas lágrimas. Seus olhos marejados fixaram-se em Flügel, cheios de desespero. — Sempre senti você, Flügel. Sempre!
Flügel tomou o rosto de Nytheris entre as mãos, erguendo-o para que seus olhos se encontrassem. — Eu sei, eu sei — sussurrou. — E é isso que torna essa armadura tão peculiar. Ela escondeu minha presença de você, algo totalmente inédito. Isso só prova que ela é ainda mais especial do que eu pensava. E você, Nytheris, é o melhor familiar que alguém poderia ter. Eu confio em você e sei que jamais me faria mal de propósito.
O olhar de Nytheris suavizou um pouco, mas a culpa ainda persistia, pesada. Ele apertou os lábios numa tentativa de conter os soluços, o que, ironicamente, fez as lágrimas escorrerem com mais intensidade.
— Então… você não está bravo? — A pergunta de Nytheris mal escapou de seus lábios, quase inaudível.
— Bravo? Não, Nytheris. Estou vivo por sua causa, ou melhor, por causa da minha armadura, que aguentou seu golpe. Mas você estava tentando me proteger, pensou que eu fosse um monstro… O que mais eu poderia pedir? E também não acho que eu conseguiria ficar bravo com você — Flügel tentou forçar um sorriso convincente, embora ainda se sentisse um tanto desajeitado com a situação.
Fungando, Nytheris tentou se recompor. No entanto, o pensamento de que Flügel pudesse ter morrido ou se machucado gravemente por sua causa o assolava, causando-lhe um terror absurdo. Embora soubesse que morreria sem seu criador, não era a própria morte que o amedrontava.
O sentimento o remetia à vez em que Flügel quase morrera afogado no rio, logo após a fuga do Lich. Antes daquele dia, Nytheris jamais havia entendido por qual motivo alguém ficaria triste com a morte. Ele não sabia de nada, nem tinha experienciado a vida, a não ser pelas memórias de Flügel de sua vida passada.
Ele sabia que humanos se entristeciam com a morte alheia, mas Nytheris era completamente apático a isso, e à própria morte. Contudo, tudo mudou quando Flügel quase morreu à sua frente. Ver o garoto com os lábios roxos, o rosto pálido e sem respirar, trouxe-lhe um sentimento sem igual, e ele faria de tudo para nunca mais experienciar aquilo.
A partir daquele dia, seu zelo pela segurança de Flügel, sua pessoa favorita, tornou-se obsessivo, temendo que ele sofresse. E agora, o golpe: ele próprio quase o tirou de si.
— Eu nunca mais vou errar… eu prometo! — A promessa saiu da boca de Nytheris com uma seriedade dolorosa, como se cada palavra fosse um juramento gravado em sua alma.
Comentários do capítulo 73
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.