The Hunter's gonna lay low — Capítulo 1: Dia do rift

The Hunter's gonna lay low
Cap. 1por Lunaris scan
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The Hunter's gonna lay low

Dia do rift

Capítulo 1

Lunaris scan3.649 palavras~16 min de leitura

O mundo virou de cabeça para baixo há onze anos, em um dia comum, quando trovões estrondearam como se o próprio céu estivesse desabando.

Acordadas pelo estrondo incomum, as pessoas ergueram os olhos ao mesmo tempo e se depararam com um enorme buraco negro rasgando o céu. Como se estivesse esperando que todos olhassem para cima – ou talvez que finalmente despertassem –, o trovão cessou no instante em que os olhares se voltaram para o alto.

Então, monstros jamais vistos começaram a sair do buraco negro.

O rift sugou tudo ao seu redor, enquanto monstros se derramavam incessantemente de sua abertura, como uma matilha de cães selvagens saindo de uma masmorra. Invadindo violentamente o mundo humano, eles derrubavam edifícios e devastavam a terra. Inúmeras pessoas ficaram feridas, desapareceram ou perderam a vida. As armas humanas, fruto de toda a civilização científica, mostraram-se completamente inúteis contra aquelas criaturas.

Diante daquele fenômeno sobrenatural impossível de combater, as pessoas se desesperaram. Imaginavam que, se algum dia a Terra chegasse ao fim, seria por causa de uma guerra nuclear. Jamais pensaram que poderiam ser aniquiladas por monstros saídos diretamente de um romance de fantasia. Diante daquela catástrofe repentina, a humanidade não tinha como reagir.

Ainda assim, parecia que não estava destinada a desaparecer sem lutar. Algo surgiu e interrompeu o avanço rumo à extinção...

Era uma misteriosa janela branca, semelhante à tela de status de um jogo, conhecida simplesmente como sistema.

O sistema apareceu diante de pessoas selecionadas, despertando nelas poderes até então desconhecidos. Aqueles que interagiam com ele adquiriam novas habilidades e começavam a enfrentar os monstros. Assim teve início a contraofensiva da humanidade e surgiu a chamada Primeira Geração de Despertos, indivíduos que mais tarde seriam conhecidos como hunters.

Fazendo jus à fama de que os seres humanos são capazes de se adaptar a qualquer situação, as pessoas começaram a reconstruir a civilização destruída e logo aprenderam a viver naquela nova era. Os Estados Unidos assumiu a liderança, seguidos, surpreendentemente, pela Coreia do Sul.

O país foi uma das poucas nações em que o governo e as forças de segurança não entraram em colapso no Dia do Rift. Muito disso se devia ao surgimento repentino de um desperto de nível S, conhecido apenas como “J”.

As únicas informações divulgadas publicamente sobre ele eram seu nome de hunter, J, e seu gênero. Uma figura misteriosa que escondia o próprio nome, o rosto e a idade, J fez uma estreia espetacular ao partir ao meio um monstro Sasquatch de Classe 2, mantendo o rosto oculto atrás de um cachecol branco.

Depois disso, passou a entrar em rifts e masmorras, salvando inúmeras vidas. Em todos os sentidos, era um herói para aquela era caótica. A própria personificação do “Capitão Coreia”.

Nota: referencia ao capitão américa

Mais tarde, quando as redes de comunicação foram restabelecidas, um vídeo publicado no YouTube alcançou bilhões de visualizações e levou J ao estrelato mundial. Embora ele não passasse de um pontinho na gravação, ver aquela pequena mancha negra despedaçando um monstro do tamanho de um edifício era, sem dúvida, algo impressionante.

Era um feito à altura de um herói sul-coreano. Afinal, mesmo com o mundo desmoronando e monstros à solta por toda parte, as câmeras dos celulares continuavam funcionando de alguma forma naquele país, uma potência da tecnologia da informação.

De qualquer maneira, graças aos feitos de J, o mundo parecia estar recuperando gradualmente a estabilidade.

Mas a paz, conquistada com tanto esforço, não durou muito.

Três anos depois, um rift de Classe 5 surgiu sobre as águas do Mar Amarelo. Equipes enviadas pelo Departamento de Gestão dos Despertos e hunters da região entraram no local, mas todo contato com eles foi perdido.

Com o passar do tempo, o rift continuou devorando tudo o que encontrava pelo caminho. As previsões alertavam que, se não fosse contido, engoliria não apenas as ilhas do Mar Ocidental, mas também a cidade de Incheon.

Diante da ameaça, o governo elevou a classificação do rift do Mar Ocidental de Classe 5 para Classe 1 e tomou uma decisão definitiva.

— Enviaremos reforços para conter a expansão do rift: o hunter de nível S J, acompanhado de quatorze hunters de nível A e trinta de nível B.

Em meio às comemorações da população, os hunters enviados entraram no rift.

Pouco depois, sua expansão começou a desacelerar até finalmente parar. Um mês mais tarde, o rift desapareceu por completo.

As pessoas comemoraram, ansiosas pelo retorno dos heróis.

Mas eles nunca voltaram.

Três meses depois, após uma investigação, o Departamento de Gestão dos Despertos concluiu que todos haviam morrido junto com o rift. A morte dos hunters foi anunciada oficialmente, trazendo uma notícia devastadora para o país.

Para homenagear aqueles que haviam se lançado bravamente naquela fenda, o governo ergueu um memorial. O nome de J foi gravado no topo do monumento.

Oito anos se passaram.

Agora, onze anos após o surgimento do primeiro rift, o governo pesquisava ativamente maneiras de aproveitar os cadáveres dos monstros e os subprodutos das masmorras como fontes alternativas de recursos.

Naturalmente, as guildas também mudaram suas estratégias. Em vez de destruir uma masmorra assim que entravam nela, passaram a aproveitar tudo o que fosse possível antes de fechar o portal. Afinal, com um pouco de sorte, poderiam encontrar materiais valiosos, passíveis de processamento e reutilização.

A Grande Era dos Hunters havia chegado, tomando o lugar da Quinta Revolução Industrial.

Saiam da frente, metaverso! Os hunters eram as verdadeiras estrelas da era moderna!

A Coreia do Sul já era conhecida por seu enorme mercado de filmes de super-heróis. Portanto, era natural que a popularidade dos hunters disparasse. Diferentemente dos heróis das telas, eles eram pessoas reais, lutando diante dos olhos de todos, sem precisar de efeitos especiais ou CGI.

Nota: CGI é a sigla para Computer Generated Imagery (Imagens Geradas por Computador). Refere-se aos efeitos visuais digitais criados em softwares de computador, comuns no cinema e nos videogames.

A fama deles alcançava novos patamares todos os dias.

Assim como os idols, ganhavam painéis de aniversário espalhados pela cidade e recebiam inúmeras propostas da indústria publicitária. Havia tantos filmes e dramas com hunters como protagonistas que era impossível acompanhar todos. Alguns, como Honeybee, chegaram até a conciliar duas carreiras, trabalhando tanto como hunters quanto como modelos.

Aquilo dizia tudo.

O país estava repleto de pessoas que admiravam os hunters e sonhavam em despertar. Mais de 80% das crianças respondiam “hunter” quando perguntadas sobre o que queriam ser no futuro. Vídeos de ASMR com slimes de masmorras estavam na moda, e hunters de folga faziam transmissões ao vivo abrindo encomendas com espadas longas de nível A.

Essa era a realidade da Coreia do Sul.

— Isso é... sério?

Para Cha Eui-jae, um homem vindo de oito anos atrás que ainda tentava se acostumar à Grande Era dos Hunters, tudo aquilo parecia uma grande mentira.

Franzindo a testa, ele encarou os livros expostos na seção de mais vendidos de uma livraria.

1º lugar: Até os Hunters São Novatos Quando Começam a Ser Hunters

2º lugar: Os Segredos de um Professor Estrela da Academia de Concursos Públicos para Hunters de Noryangjin! Passe na Prova em Seis Meses!

3º lugar: Dói, Então Virei Hunter¹

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— Dói, então virei hunter? Que tipo de absurdo é esse? Se está sentindo dor, você é um paciente, só isso.

Cha Eui-jae fez uma careta e desviou lentamente o olhar para os livros mais abaixo na lista.

É claro que sua expressão piorou ainda mais quando leu os títulos.

Colocar a palavra “hunter” em qualquer coisa insignificante... Era ridículo.

Ele desviou os olhos, fingindo não notar o cartaz na parede, mas acabou encarando diretamente a imagem de um homem de terno, com um ar simpático, fazendo sinal de positivo.

Para informações sobre o registro de despertos, ligue para a linha 777. Para denunciar pessoas não registradas ou crimes cometidos por despertos, ligue para 555!

Mesmo depois de desviar o olhar da lista de mais vendidos, Cha Eui-jae continuava com a testa profundamente franzida.

Nove anos antes, quando a situação das masmorras e dos rifts já havia se estabilizado relativamente, o governo enfrentava um aumento nos crimes cometidos por despertos entediados e planejava criar um novo departamento para fiscalizá-los.

Foi então que as autoridades receberam a notícia de que um estudante da Academia Nacional de Polícia havia despertado como um hunter de nível S.

Ah! Aquilo só podia ser uma oportunidade enviada pelos céus!

Sem perder tempo, o governo criou o Departamento de Gestão dos Despertos e acelerou o processo de transferência daquele estudante recém-desperto para o novo órgão.

O homem do cartaz era justamente ele: Jung Bin, hunter de nível S e funcionário público.

Cha Eui-jae havia cruzado com Jung Bin algumas vezes durante o período em que atuava como J. Não eram amigos próximos, mas se conheciam o suficiente para trocar cumprimentos.

Naquela época, o país tinha apenas dois hunters de nível S, então havia certa camaradagem entre eles.

Mas agora...

— Como foi que você acabou assim?

O que diabos Jung Bin havia passado naqueles oito anos?

Cha Eui-jae o encarou com um olhar carregado de pena.

Não seria exagero dizer que Jung Bin aparecia em praticamente todos os anúncios de utilidade pública existentes. Cha Eui-jae suspeitava que o Departamento estivesse explorando sua imagem, espalhando seu rosto por toda parte justamente por ele ser funcionário público e, portanto, uma opção barata.

Outro dia, Jung Bin estava na televisão promovendo uma campanha antitabagismo. Algum tempo antes, aparecera em um anúncio de ônibus ensinando a regra de escovação dentária “3-3-3”. E agora estava ali, incentivando o registro de despertos.

Provavelmente, era o hunter mais reconhecido de toda a Coreia.

Enquanto lamentava o rumo que seu antigo colega havia tomado, uma garotinha de olhos brilhantes veio correndo em sua direção, com os cabelos presos para trás.

Uma etiqueta em forma de estrela, pendurada no zíper da mochila, balançava a cada passo.

Park Ha-eun, turma 2-2, Escola Primária Saetbyeol

Abaixo do nome, escrito em letras pequenas, trêmulas, mas determinadas, estavam o número de telefone e o endereço do restaurante de haejangguk.

— Tio, já escolhi todos os meus livros.

Ao ouvir a palavra “tio”, Cha Eui-jae virou naturalmente a cabeça na direção da voz.

É claro que eles não eram tio e sobrinha de verdade.

Park Ha-eun era a única neta da senhora que administrava o restaurante de haejangguk, enquanto toda a família de Cha Eui-jae havia morrido no Dia do Rift.

Ainda assim, em algum momento, a menina começou a chamá-lo de “tio”, e ele nunca se deu ao trabalho de corrigi-la.

A relação entre os dois lembrava aquela que ele tinha com a própria tia.

— O que você escolheu?

— Este aqui!

O quê? O Dia do Rift

Na capa do gibi que Park Ha-eun ergueu diante dele, havia alguns monstros desenhados de maneira fofa e um jovem mascarado.

Era uma série de quadrinhos educativos para crianças que Cha Eui-jae conhecia muito bem.

— Quem diria que essa série ainda estaria sendo publicada, mesmo depois de o mundo quase acabar...

Enquanto pensava nisso, seu olhar foi atraído pelo rosto do jovem ilustrado na capa.

Deixando de lado detalhes como o cabelo preto e o cachecol branco, a máscara usada pela figura era familiar demais.

E não era para menos...

— Isso não é uma violação dos meus direitos de imagem?

...Afinal, aquela era exatamente a máscara que Cha Eui-jae usava para esconder a própria identidade quando atuava como J.

Aquilo era uma violação de seus direitos de imagem ou uma infração de direitos autorais pelo uso do desenho da máscara? Será que estavam se dando a esse luxo só porque ele supostamente estava morto?

Na verdade, J aparecia em muito mais do que aquele livro. Talvez as pessoas achassem que não havia problema em usar sua imagem por ele estar morto, ou talvez simplesmente fosse conveniente incluí-lo sempre que falavam sobre a era que ocorreu o Dia do Rift. Fosse qual fosse o motivo, J aparecia com frequência nos mais diversos tipos de mídia, perdendo em aparições apenas para Jung Bin.

Não se incomodava tanto quando aparecia em programas de televisão, mas ver sua imagem impressa em um livro daquele jeito lhe causava uma sensação estranha, difícil de explicar.

— Talvez eu devesse ter criado uma fundação com os royalties que recebi ao despertar como hunter de nível S...

Incomodado, Cha Eui-jae estalou a língua e fez sinal para Park Ha-eun seguir até o caixa.

— São trinta mil won.

Nota: 112,90 R$

— O preço de duas tigelas de haejangguk.

Sem demonstrar reação, Cha Eui-jae tirou o dinheiro da carteira e pagou. Depois, saiu da livraria com o livro em uma das mãos e a mão de Park Ha-eun na outra.

Desde o Dia do Rift, os preços haviam disparado, como se estivessem prestes a atravessar o teto. O haejangguk do restaurante da senhora costumava custar sete mil won, mas o aumento no preço dos ingredientes havia elevado o valor para quinze mil.

Nota::7mil Won = 26,34 R$, 15mil Won = 56,43

Ainda assim, era considerado muito barato em comparação com os preços praticados na região.

— Será que é por isso que tantos hunters vão até lá? ...Mesmo estando cheios da grana.

— Tio.

— O quê?

O chamado repentino interrompeu os pensamentos de Cha Eui-jae. Park Ha-eun apontou para a mão que ele usava para segurar a dela.

— Quero carregar o livro.

Como o livro não era pesado demais para uma criança, ele o entregou sem hesitar.

Park Ha-eun soltou a mão do tio e abraçou o livro contra o peito, com todo o carinho. Parecia radiante por finalmente ter conseguido comprar algo que queria tanto.

— Para onde vamos agora?

— Para nenhum lugar em especial. Vou deixar você em casa e depois volto para o restaurante. Preciso me preparar para o movimento do jantar.

— Ah, que sem graça!

Park Ha-eun fez beicinho diante da resposta imediata e firme. Estava claro que queria acompanhá-lo até o restaurante, mas Cha Eui-jae apenas deu de ombros, como se não houvesse alternativa.

— Não posso. Tenho muita coisa para preparar antes do jantar. Mas vou comprar um sorvete para você. Assim, pode tomar com a vovó.

— ...Tá bom.

Ela assentiu, ainda contrariada. Cha Eui-jae acariciou delicadamente a parte de trás de sua cabecinha redonda, e os dois continuaram caminhando lado a lado.

Apesar das reclamações, ele achava adorável vê-la andando tão pertinho dele. Por isso, colocou a mão sobre o pequeno ombro da menina.

Cha Eui-jae, não como Hunter J, mas como funcionário de meio período em um restaurante de haejangguk, precisava preparar tigelas de sopa para os hunters mais uma vez naquele dia. A rotina diária do restaurante funcionava da seguinte maneira:

O restaurante abria às seis da manhã. Os hunters que haviam passado a noite inteira bebendo – estendendo a farra até a sexta rodada – entravam cambaleando. Já aqueles que estavam exaustos depois de horas extras se agarravam à porta como cracas antes de entrar às pressas e procurar um lugar para se sentar. Naquele horário, os clientes eram, literalmente, zumbis. Até os pedidos deles eram assim:

— Uae.

— Certo. Duas tigelas de haejangguk.

Era sempre assim... Cha Eui-jae chegou até a pensar em adotar a «interpretação simultânea para zumbis» como sua terceira profissão.

Assim que os zumbis terminavam de comer e saíam arrastando os pés, chegavam clientes mais «normais». A maioria eram pessoas que passavam ali para tomar café da manhã antes do trabalho. Embora também carregassem o peso do próprio cansaço, eram muito mais civilizadas.

Depois vinha o horário do almoço, das onze e meia da manhã às duas da tarde. Era o período de maior rotatividade do restaurante. Naturalmente, nove em cada dez clientes eram hunters, que chegavam em uma onda crescente e recuavam com a mesma rapidez.

Durante esse período, às vezes os hunters recebiam chamados de emergência e precisavam sair às pressas, deixando a sopa pela metade. Sempre que isso acontecia, os outros hunters observavam as figuras que se afastavam com um sentimento compartilhado de tristeza. Afinal, aquele hunter trágico, obrigado a abandonar sua preciosa sopa, poderia ser qualquer um deles no dia seguinte...

Assim que o turbilhão do almoço terminava, Cha Eui-jae pendurava prontamente na porta a placa de HORÁRIO DE PREPARO DOS INGREDIENTES. Fazer uma pausa era essencial quando se trabalhava com hunters de apetite tão voraz. Nesse intervalo, ele buscava Park Ha-eun na escola, enfrentava a pilha de louça suja, preparava os ingredientes e deixava tudo pronto para o movimento do jantar.

Por fim, vinha o turno da noite, das cinco às dez. Embora o horário do almoço fosse agitado, o restaurante de haejangguk ficava ainda mais movimentado à noite. Quase tudo funcionava da mesma maneira que no turno anterior, mas lidar com os hunters que insistiam para que ele vendesse só mais uma garrafa de soju era um verdadeiro transtorno.

Vê-los esconder as garrafas vazias, desesperados para beber só mais um pouco, fazia Cha Eui-jae suspirar. As artimanhas eram sempre as mesmas: guardar as garrafas no inventário. Como eles nem sequer sentiam os efeitos do álcool, a menos que fosse especialmente produzido para despertos, ele não conseguia entender por que insistiam em pedir soju comum. Era uma mentalidade que Cha Eui-jae simplesmente não compreendia.

— Aaah...

E agora eram dez e vinte da noite. Depois de expulsar o último cliente que ainda enrolava no restaurante, brandindo uma concha de aço inoxidável, o lugar voltou a ter a atmosfera tranquila de um estabelecimento antigo e modesto, como se toda a agitação de antes nunca tivesse acontecido. Enquanto arrumava as mesas, Cha Eui-jae endireitou as costas e soltou um longo suspiro.

— Trabalhei bastante hoje também...

Depois de terminar de limpar as mesas, varrer o chão e lavar a louça, ele pegou uma cesta de cabeças de alho no canto da cozinha e se sentou à mesa bem ao lado do balcão. Como morava no pequeno quarto anexo ao restaurante – que também servia de depósito –, era natural que as tarefas de fechar o estabelecimento e prepará-lo para a abertura ficassem por sua conta.

Xic, Xic. Enquanto descascava o alho com habilidade, um pensamento lhe ocorreu de repente.

— Viver assim não é tão ruim.

Não precisava mais ser arrastado de um lado para o outro pelos chamados do Departamento de gestão dos Despertos, nem lutar contra monstros. Podia simplesmente levar uma vida tranquila, sentado e descascando alho. Era um luxo incomparável. Talvez fosse esse tipo de vida que eu sempre quis...

Em meio àquela rotina relativamente pacífica, a preocupação mais recente de Cha Eui-jae era a saúde das pernas da avó. Sua mobilidade havia piorado consideravelmente no último mês, fazendo com que ele assumisse a maior parte do trabalho no restaurante. Ela realmente precisava consultar um médico, mas e se precisasse de uma cirurgia?

Cha Eui-jae soltou um suspiro profundo. O restaurante de haejangguk era tão movimentado que fechá-lo por um único dia já seria uma tarefa difícil, e arcar com os custos de uma cirurgia era um problema ainda maior. J talvez tivesse vivido com dinheiro de sobra, sem precisar se preocupar com as despesas, mas Cha Eui-jae era diferente. Depois de decidir levar uma vida tranquila, ele havia doado todos os seus bens à Fundação do Rift do Mar Amarelo. Mesmo com as contribuições mensais que fazia, o dinheiro estava longe de ser suficiente para cobrir uma cirurgia.

Ele franziu a testa, pensativo, enquanto descascava o alho.

— Se as coisas chegarem ao pior... posso entrar escondido em uma masmorra e... tentar vender alguma coisa.

Os subprodutos das masmorras geralmente alcançavam bons preços, então talvez ajudassem a cobrir os custos da cirurgia. Cha Eui-jae ainda pensava mentalmente qual masmorra explorar e como fazer isso quando o telefone do balcão tocou – algo incomum àquela hora. Ele prendeu o fone entre a orelha e o ombro e continuou descascando o alho.

— Alô, restaurante de haejangguk.

Como costumava receber ligações perguntando sobre entregas, ele pretendia dar sua resposta habitual, explicando que o expediente havia terminado e que o restaurante não fazia entregas, e então desligar. Porém, seus dedos congelaram ao ouvir a voz inesperada do outro lado da linha.

— O que eu vou fazer, Eui-jae...

— Vovó?

Era a avó. Sua voz tremia levemente, sinal de que algo estava errado. Cha Eui-jae prendeu a respiração, esperando que ela continuasse. Um instante depois, ouviu a voz dela novamente.

— A Ha-eun desapareceu.

— O quê? A Ha-eun sumiu?

Atordoado, Cha Eui-jae ajustou rapidamente a maneira como segurava o telefone. Tentando se recompor, a avó continuou, aflita:

— Ela saiu para algum lugar, mas não sei para onde. O que eu vou fazer? Não faço ideia de quando ela saiu sem fazer barulho. O mundo anda tão perigoso ultimamente... Quem diria que uma criança sairia sozinha a essa hora...

Cha Eui-jae olhou para o relógio. Dez e vinte da noite. Era tarde demais para uma criança em idade escolar ficar andando sozinha por aí. Um pensamento sombrio lhe passou pela cabeça, mas ele fez o possível para afastá-lo.

— Vou entrar em contato com a polícia agora mesmo. Também vou sair para procurá-la, então descanse um pouco. Tenho certeza de que ela está bem.

Cha Eui-jae largou a faca e o alho, forçando um tom animado na voz. A avó perguntou, aflita:

— Ai, meu Deus... Tem certeza de que ela vai ficar bem?

— Tenho, sim. Não se preocupe tanto.

— Tome cuidado. A Ha-eun não deve ter ido muito longe, não é? E você também não fique na rua até muito tarde, Eui-jae. Volte logo e tome cuidado, ouviu?

— Sim. Daqui a pouco eu ligo.

Depois de desligar, Cha Eui-jae se lembrou de como Park Ha-eun estava feliz quando comprou o livro. Enquanto se preparava para sair, manteve uma expressão séria, muito diferente do tom de voz animado que usou instantes antes. Repetir para si mesmo que nada de ruim aconteceria também era uma forma de se tranquilizar.

Cha Eui-jae colocou a máscara e saiu do restaurante a passos largos. Trancou a porta e pendurou a placa vermelha de FECHADO

O ar da noite estava bastante frio.

Fim da leitura

Capítulo 1 concluído

Dia do rift

Tradução de Lunaris scan