Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 12
Capítulo 12— Satoshi, por que você está correndo?!
De alguma forma, consegui evitar derrubá-la.
Por um instante, fiquei em silêncio. Se contasse a verdade à tia Reiko, ela me demitiria. Invadir a privacidade de um hóspede é provavelmente o maior erro que um funcionário de um ryokan poderia cometer e eu cometi esse erro da pior maneira possível.
A imagem do homem e da mulher, nus no futon, ele em cima dela...
Miyazono estava atrás da tia Reiko. Nossos olhares se cruzaram. O pânico que girava nos meus olhos, meu rosto corado. A imagem na minha mente. Havia reconhecimento nos olhos dela.
Miyazono levantou a mão.
— Yamato-kun me ajudou a limpar os quartos familiares maiores no segundo andar. Mas o progresso está mais lento porque estamos com falta de pessoal hoje. Reorganizei a escala de trabalho do Yamato-kun e acabamos de terminar o segundo andar. A gente já vai começar o terceiro andar agora.
A tia Reiko olhou para mim.
— Satoshi, é isso mesmo? Você estava ajudando a Haruka?
— Si-sim.
A tia Reiko assentiu.
— De volta ao trabalho e nada de correr. — ela saiu, deixando Miyazono e eu parados no corredor e, então, ela acrescentou — Rápido, de volta ao trabalho. Venha para a sala de jantar depois que os hóspedes terminarem o jantar. Preciso falar com você sobre uma coisa.
O resto do dia foi uma correria de trabalho. Limpar os quartos dos hóspedes, encerar o chão, tirar o pó dos abajures (mesmo onde os hóspedes não conseguem ver), limpar os banheiros, arrumar os chinelos do saguão em uma fileira organizada para que os hóspedes possam voltar e simplesmente tirar os sapatos.
Limpei o quarto do casal por último. Manuseei os futons com cuidado redobrado, tomando cuidado para não tocar em nada que não fosse necessário. Depois, lavei bem as mãos.
À noite, o jantar foi servido e os hóspedes voltaram para seus quartos. Tia Reiko retirou-se para seu pequeno escritório e ficamos apenas eu e Miyazono novamente.
Fui até a sala de jantar e esperei por ela. Quaisquer que fossem as respostas que ela quisesse de mim, eu teria que dá-las, pois devia minha vida a ela.
Miyazono saiu da cozinha. Ela ainda estava com suas roupas de trabalho. Colocou uma lata de suco na minha frente. Suco de laranja. E uma tigela de macarrão udon. Sobras, mas ainda estavam boas.
— Há duas coisas que quero perguntar a você.
A voz dela era firme, séria, um pouco como a da tia Reiko. Por um momento, vi nela uma futura gerente de ryokan.
— Por que você foi sozinho para a floresta? Não há nada lá.
Os passos, as bebidas, Yuki. De todas as coisas do mundo, essa era a única que eu não podia contar a ela. Não havia como ela acreditar em mim.
Respondi à pergunta dela com outra pergunta.
— Como você me encontrou?
— Eu ouvi você conversando com alguém na floresta. Quem era?
— Eu estava falando com alguém ao telefone.
— Isso é impossível.
— Por quê?
— Eu sei que a tia Reiko confiscou seu celular e que aquela floresta não tem sinal. Deve ser um dos últimos lugares no Japão sem sinal.
Não disse nada.
Miyazono apoiou o queixo na mão.
— Então... por que você estava lá e com quem estava falando?
Seu olhar me perfurava, me vasculhando, sondando cada centímetro de mim em busca de informações. Desviei o olhar, suando sob minhas roupas de trabalho e Miyazono suspirou.
— Tudo bem, vejo que você não vai falar. Mesmo tendo salvado sua vida... talvez da próxima vez eu deixe a tia Reiko te matar, hein?
Engoli em seco. Miyazono era a pessoa mais próxima que eu tinha de uma amiga por aqui. Não podia simplesmente ficar calado com ela.
Mas Yuki...
— Só gosto de dar passeios na floresta, só isso...
— Hmmm… — ela estreitou os olhos.
Não acreditou em mim. Eu me encolhi sob seu olhar intenso. Rezei para que ela não insistisse mais. Ela bateu palmas.
— Aqui está a segunda coisa que quero te perguntar — ela se inclinou sobre a mesa com um sorriso de velho safado no rosto — O que você viu naquele quarto lá em cima? Era algo pervertido, certo? Certo?
Ela parecia meio assustadora. Eu disse a ela que não tinha memória fotográfica e, portanto, não conseguia me lembrar de cada pequeno detalhe. Ela pareceu desapontada. Ela se levantou.
— Espere aqui. — disse ela.
Após sair, ela voltou com um livro grande e grosso. O livro de visitas.
— Como você conseguiu isso? Achei que a tia Reiko mantivesse isso trancado a sete chaves.
— E adivinha quem tem a chave?
Ah…
Miyazono folheou as páginas até encontrar o registro mais recente do quarto do andar de cima. Junto com ele, havia fotocópias dos documentos de identidade que os dois hóspedes usaram para fazer o check-in.
— Ohhhhhhhh! — exclamou ela.
Seus olhos estavam arregalados. Sua respiração estava ofegante.
— O quê?
Eu não consigo acreditar como ela ficou tão infantil de repente... Mas, pensando bem, eu também estou curioso...
— O homem nasceu em 1975… e a mulher em 1994!? Será que isso... será que isso é um caso?!
Olhei para as cópias dos cartões de identidade. A mulher era realmente bem jovem, talvez uma universitária, certamente bonita, alguém que chamaria a atenção em qualquer escritório em que trabalhasse. O homem tinha quase o dobro da idade dela.
Analisamos os detalhes, especulando sobre qual poderia ser a relação entre eles. Miyazono ponderou cada minúcia que conseguiu arrancar de mim. Tomamos nossas tigelas de udon e conversamos mais.
A teoria de Miyazono era que o homem era dono de uma pequena empresa e, portanto, relativamente rico. Provavelmente uma empresa de tecnologia de ponta que fabricava algum tipo de software difícil de ser copiado. Ele havia chegado à meia-idade e não estava se dando bem com a esposa, por isso, essa nova contratada bonita apareceu. Essa nova funcionária lembrava o homem de sua juventude e logo eles começaram um caso. Para evitar que a esposa descobrisse, decidiram passar algum tempo em um lugar longe de Tóquio.
Elogiei Miyazono por sua rica imaginação. Por fim, quando a conversa se acalmou e o clima ficou um pouco mais sério, eu disse:
— Obrigado, Miyazono-san. Você já me salvou tantas vezes que não há como negar que eu lhe devo muito favores.
Ela coçou a nuca, envergonhada.
— Não precisa ser tão formal. É natural, certo?”
De repente, lembrei-me de que ela nunca tinha ido à cidade grande. Talvez eu devesse convidá-la para me visitar em Tóquio e servir de guia turístico para ela.
— Você até preparou o jantar para mim.
Miyazono ficou em silêncio por um breve momento. Como se estivesse ponderando o quanto deveria me contar. Por fim, ela disse:
— Não gosto de comer sozinha, só isso.
Abri a boca para dizer mais alguma coisa, mas a porta da sala de jantar se abriu. Era um convidado. Era um homem de meia-idade com a linha do cabelo um pouco rala, vestindo um yukata e parecendo o dono de uma empresa de tecnologia que fabricava algum tipo de software difícil de ser copiado. Era o homem que nasceu em 1975, o homem que (presumivelmente) estava tendo um caso com uma recém-contratada, o homem que eu flagrei no meio de um momento de paixão (com a suposta recém-contratada).
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