Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 25
Capítulo 25— O que você vai fazer quando voltar para Tóquio?
Miyazono estava encostada no batente da porta, de braços cruzados, me observando enquanto eu arrumava a mala. Não tinha muita coisa para guardar. Antes de eu sair de Tóquio, tia Reiko havia me dito para não levar muita coisa.
— As roupas que vocês, gente de Tóquio, usam não ajudam muito por aqui — ela disse — Traga um casaco de inverno, algumas cuecas da Uniqlo, meias grossas e um laptop. Eu preciso de um laptop novo. Aqui no interior eles são caríssimos.
— O novo ano letivo começa em abril — respondi. — Vou entrar no segundo ano. Acho que vou ter que estudar um pouco.
— De volta à sua vida antiga, hein...
Havia algo no tom de voz dela.
— E você? O que vai fazer? — perguntei.
— Vou voltar amanhã. De volta para a minha cidadezinha, para as fazendinhas. Vou voltar para a escola, mas, sinceramente, não quero...
— Por quê?
— Não sou boa nos estudos. Minha professora disse que posso ser reprovada e ter que repetir o ano.
— Nem em inglês? Eu te vi conversando com aqueles turistas outro dia.
— Eu aprendi inglês assistindo séries americanas e conversando com turistas, mas as provas da escola ficam perguntando gramática e o que o Hemingway escreveu! Como é que eu vou saber o que o Hemingway quis dizer com isso ou aquilo?! O cara já morreu! Deixem o homem em paz!
Fiquei olhando para Miyazono. Era a primeira vez que via esse lado dela: uma estudante e não a gerente júnior responsável por supervisionar o funcionário mais inútil do mundo, vulgo eu.
— E matemática? Eu te vi ajudando a tia Reiko a fechar o caixa e conferir os pagamentos no cartão...
— Isso é matemática normal! Não preciso resolver equações para contar dinheiro.
Miyazono suspirou e passou mais uns dez minutos falando sem parar sobre todas as coisas que ela não entendia (tudo o que era ensinado na escola) e como era muito melhor que os colegas em tudo mais (tudo o que não era ensinado na escola).
Terminei de arrumar a mala e desci arrastando-a pela escada. Ela parecia mais leve do que antes, mesmo tendo colocado todas as coisas que tia Reiko mandou entregar para a minha mãe. Talvez o Takeshi-não-sei-das-quantas tivesse razão. Talvez eu estivesse mais forte do que antes. Tomara que ele esteja certo também nas outras previsões.
Descemos para o saguão e tia Reiko apareceu de trás do balcão.
— Me liga quando chegar — disse ela. — Dê um oi pro seu pai por mim. Obedeça sua mãe. Não a deixe preocupada e arrume seu quarto direito.
— S-sim. Entendido.
— Não vou poder te acompanhar até a estação. Ainda tenho serviço para fazer. Haruka, você vai se despedir dele. Não deixa ele morrer na neve.
— Sim!
Miyazono e eu saímos.
A neve estalava sob meus pés. Respirei o ar fresco da montanha. Minha mente estava clara como o céu. O ar da montanha realmente desperta a gente.
Olhei ao redor. Finalmente estava saindo dessa vila, um lugar onde fui obrigado a vir, um lugar que eu não imaginava que fosse ter pena de deixar para trás. Além das casinhas da vila, no alto de uma colina suave, mal dava para distinguir a entrada da floresta.
Yuki...
As últimas coisas que ela me disse vieram à mente.
“Saia desta vila e viva sua vida. Talvez, depois que você morrer, nos encontremos novamente.”
Alguém que se importa muito com você está esperando do lado de fora da floresta.
— Ei, vamos embora.
Olhei para Miyazono. Quando saí da floresta, foram ela e tia Reiko que estavam me esperando.
Alguém que se importa muito com você...
Fiquei me perguntando qual das duas Yuki quis dizer.
Miyazono passou na minha frente com passos leves, as mãos atrás das costas, cantarolando uma música que eu não conhecia. Não disse nada e apenas escutei seu cantarolar.
Caminhamos pela rua principal, onde estavam todos os turistas. O movimento havia voltado. As férias tinham acabado e as estações de ônibus e trem estavam lotadas.
Miyazono se virou e havia uma certa inquietação em seu rosto. Ela abriu a boca, mas não disse nada, porque alguém colocou a mão no meu ombro.
— Satoshi! O que você está fazendo aqui?
Virei e vi Takeshi-não-sei-das-quantas. Ele estava atrás de mim com a bagagem. Ao lado dele estava a garota de uns vinte e poucos anos, universitária. Ela acenou com a cabeça para Miyazono, mas evitou fazer contato visual comigo.
— Satoshi, para onde você vai?
Contei que estava na hora de voltar para casa. De volta para Tóquio.
Takeshi-não-sei-das-quantas assentiu.
— Não podemos fugir do mundo real para sempre. Em algum momento todos nós temos que voltar, gostemos ou não. Um sonho só é doce porque tem fim.
Ele me olhou.
— Você amadureceu um pouco. — ele me entregou um cartão de visitas — Se precisar de emprego em Tóquio, me liga.
Peguei o cartão, fiz uma reverência e agradeci.
Ele segurou a mão da garota universitária e eles foram para a estação de ônibus. Provavelmente pegariam o ônibus até a próxima estação de Shinkansen, onde tinham reservado assentos na Primeira Classe.
Eu ia passar as próximas quatro horas sentado num trem local lento. Miyazono e eu fomos até a estação do trem local. Não tinha nada de especial. Uma sala de espera com aquecedor. Um balcão para comprar passagens. Algumas máquinas de venda com bebidas quentes. A sala de espera interna estava lotada.
Será que Yuki ficaria bem? Será que eu a veria novamente? Talvez outra pessoa pudesse ajudá-la a partir.
Seu sorriso solitário veio à minha mente.
A morte te dá perspectiva. Uma vez morto, nada mais importa.
— Yamato-kun! O que você está fazendo? Vamos!
Pisquei. Senti uma mão quente segurar a minha. Miyazono pegou minha mão e me puxou para a plataforma, para longe do aquecedor. Olhei para ele com saudade.
— Por que estamos aqui fora? Está tão frio.
— As montanhas não te mataram. Um pouco mais de frio não vai te fazer mal.
Éramos os únicos na plataforma. Todo mundo estava lá dentro. O que fazia todo sentido. Lá fora estava frio, lá dentro estava quente.
Miyazono ficou ao meu lado, a respiração visível, o olhar fixo nas montanhas, nas casas e nas árvores ao longe.
Acho que vou sentir um pouquinho de falta deste lugar. Tem algo na neve e nas montanhas que silencia as preocupações e as dúvidas. Não existem mil coisas para te entreter e distrair. Aqui fora você tem as montanhas e o céu. A neve e o sol. Um ryokan e um trabalho simples: limpar. Isso faz você perceber que a vida é bem mais simples.
Os alto-falantes anunciaram a chegada do trem. Os turistas começaram a sair em massa da sala de espera aconchegante. Miyazono e eu ficamos na ponta mais distante da plataforma. Ninguém vinha até ali. Estávamos separados do resto.
— O que você vai fazer quando chegar em Tóquio? — perguntou Miyazono.
Essa pergunta de novo? O que ela espera que eu responda?
— Vou sair com meus amigos, estudar um pouco e torcer para conseguir entrar numa universidade decente.
— Uma universidade em Tóquio?
— É.
— Você vai voltar no próximo inverno? — perguntou ela.
— Provavelmente não. Vou precisar estudar para as provas. Já basta ter recebido esse castigo uma vez.
Miyazono sorriu de leve.
— É mesmo. Eu esqueci. Você foi obrigado a vir para cá.
Houve um momento de silêncio. Depois ela disse:
— Desculpa por ter te feito trabalhar tanto.
— E eu peço desculpas por ter dado tanto trabalho.
O trem chegou. As portas se abriram.
— Vou te ver de novo? — perguntou Miyazono.
Havia algo na voz dela, uma esperança silenciosa por uma resposta específica. Entrei no trem.
— Não sei.
As portas se fecharam e o trem partiu.
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