Vejo Você Quando a Neve Cair — Capítulo 37: VOLUME ÚNICO – Capítulo 37

Vejo Você Quando a Neve Cair
Cap. 37
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Vejo Você Quando a Neve Cair

VOLUME ÚNICO – Capítulo 37

Capítulo 37

633 palavras~3 min de leitura

Sentei no quarto da Ayaka, com as pernas cruzadas, em frente a uma mesinha com um copo de chá. Olhei ao redor. Era um quarto de garota: bichinhos de pelúcia, uma estante lotada de mangás shoujo e romances, uma escrivaninha com um laptop. O ar carregava o cheiro dela.

Ayaka sentou ao meu lado. Seu ombro encostou no meu. Respirei fundo. Soltei o ar.

Preciso manter a calma…

— Tenho quase certeza de que a empregada vai contar pros meus pais…

— Você não pode mandar ela não contar?

— Eu poderia, mas não adiantaria. Meus pais vão perguntar e ela vai falar. Não sou eu quem paga o salário dela.

Houve um momento de silêncio. Depois ela acrescentou:

— A empregada de Kagoshima guardaria meu segredo. Ela praticamente me criou.

Engoli em seco. Não sabia o que dizer. Acho que gente rica também tem seus problemas.

— Desculpa… eu meio que te joguei nessa de repente… não queria te deixar sem graça. — disse ela.

— Não, fico feliz que você me contou. Me fala mais sobre Kagoshima.

Ela me contou sobre a antiga escola particular. Era uma escola só para garotas e, ao contrário do que muita gente pensa, não era tudo flores e mel. Com a ausência de garotos, as meninas formavam gangues e brigavam entre si. Territórios eram demarcados, alianças eram feitas, guerras secretas eram travadas.

Ayaka disse que, no auge da carreira dela na escola, era a líder do grupo que controlava a maioria dos banheiros. Qualquer garota de fora da gangue tinha que pagar 100 ienes para entrar ou sofria assédio.

Tive dificuldade em acreditar nas histórias dela. Ela parecia uma garota fofa e protegida, que tinha mais dinheiro que a maioria.

Mas líder de gangue? Numa escola particular só de garotas?

Ela olhou para mim. Sua expressão mudou de melancólica para presunçosa.

— Hehe… Você provavelmente não imaginava que sua namoradinha fofa liderava uma gangue, né?

— Acho que quando for preencher a ficha da universidade, você pode citar isso como experiência de liderança.

Ela me contou mais histórias. Uma vez os professores quiseram acabar com as gangues e, para isso, tentaram identificar e punir as líderes. Mas aí todas as alunas se uniram, identificaram as espiãs de cada grupo e disseram aos professores que elas eram as líderes das gangues. Foi o maior momento dela antes de sair de lá.

— Mas me surpreende. — disse ela.

— O que te surpreende?

— Eu sempre achei que as escolas públicas fossem bem mais bagunçadas que as particulares, mas não parece ser o caso. Na verdade, é mais quieto e civilizado. Não vejo valentões nem gangues.

Eu ri. Acho que ela imaginava escola pública como Battle Royale.

— Por que você acha que é assim? — perguntou ela.

— Hmm… — pensei por um momento e respondi — Acho que é porque as garotas sempre querem parecer legais na frente dos garotos e os garotos sempre querem parecer legais na frente das garotas. Então os dois lados agem com mais controle. Mas se for só garotos ou só garotas, não tem motivo pra se segurar.

Ayaka me olhou com os olhos arregalados.

— O quê?

— Nunca tinha pensado nisso.

— Não sei se é verdade. É só uma teoria minha. Na verdade, acho você incrível por ter cobrado entrada para usar todos os banheiros da escola. Aliás, você deve ter juntado bastante dinheiro. O que fizeram com ele?

— Doamos tudo nas caixinhas da UNICEF.

— Devia ter um monte de moedas.

— É.

Conversamos mais um pouco e, eventualmente, ela disse que estava com sono. Encostou a cabeça no meu ombro e fechou os olhos. Falei que ela deveria ir dormir. Eu iria embora.

Ela levantou o olhar para mim. Seus olhos não estavam sonolentos, mas ardendo com orgulho ferido. Ela me agarrou pela gola e me empurrou para o chão. Tirou um preservativo do bolso da saia.

Fim da leitura

Capítulo 37 concluído

VOLUME ÚNICO – Capítulo 37