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64 Bilhões de Anos-Luz de Distância — Capítulo 104: CAPÍTULO 104 - 096 — Solstício de inverno.

64 Bilhões de Anos-Luz de Distância
Cap. 104
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64 Bilhões de Anos-Luz de Distância

CAPÍTULO 104 - 096 — Solstício de inverno.

Capítulo 104

1.043 palavras~5 min de leitura

Capítulo 096 — Solstício de inverno.

64 Bilhões de Anos-Luz de Distância

Marco subiu os últimos degraus com a perna pesada, ombro ardendo onde a manopla tinha batido. A nuca ainda lembrava a última correção da Lou-reen. Ele abriu a porta do observatório e o ar de dentro veio diferente do pátio.

O relógio de pêndulo marcava o tempo com a mesma indiferença de sempre. Tique. Toque. Tique. Toque.

Kalamera estava inclinada sobre o telescópio principal, as luvas escuras sujas de pó fino. Uma placa pequena de metal estava fora do lugar, apoiada numa bancada. Ela girou um parafuso, testou a resistência com a ponta do dedo e voltou ao alinhamento como se aquilo fosse uma conversa.

Num canto, um soldado registrava medidas numa tábua, carvão riscando linhas curtas e números retos. Ele olhou o mostrador do pêndulo, voltou ao papel, anotou mais um ponto. Nem levantou a cabeça até Marco fechar a porta.

Kalamera ergueu o queixo.

— Voltou.

Marco passou a mão pelo antebraço, como se limpasse poeira.

— Voltei.

— Ela quebrou você hoje?

— Ela me treinou.

O soldado finalmente olhou. Os olhos dele fizeram um percurso rápido: do corpo de Marco até o ombro, depois até o rosto. Parou no jeito como ele sustentava o peso do braço.

— Com licença… — a voz veio baixa, respeitosa, mas o espanto escapou — você treina com a General Lou-reen mesmo?

Marco não respondeu de imediato. Kalamera soltou um som pelo nariz e voltou ao telescópio.

— Se ele não treinasse, ela o quebrava de outro jeito.

O soldado apertou o carvão entre os dedos.

— Eu a vi no pátio uma vez. Só de longe.

Ele baixou o tom.

— A mais jovem General da história. O talento dela é… absurdo.

Marco soltou o cinto das proteções e largou a peça de couro sobre uma cadeira.

— Bom. Ela não quer conversa.

“E você também não quer. Você quer sobreviver.” A Nova entrou na cabeça dele com aquela calma irritante. “Parabéns por escolher o método mais doloroso.”

Kalamera terminou o ajuste, travou a placa no lugar e pressionou o tubo do telescópio com cuidado. A estrutura respondeu sem tremer.

— Pronto. — Ela se afastou um passo. — Eu queria mais tempo. Pra preparar isso aqui… e a parte de fora. Se o frio pegar de vez, metal contrai, junta abre, lente embaça. Se tiver gelo acumulando, a gente vai perder noites inteiras só limpando.

Ela olhou para a janela alta, onde o vidro já tinha uma névoa fina por dentro.

— Vai nevar em breve.

Marco respondeu na hora:

— Eu já imaginava.

Kalamera virou o rosto.

— Como? Você não é daqui.

— Eu medi.

Ele puxou do bolso interno um caderno gasto, capa marcada por manchas antigas. Abriu numa página dobrada e apoiou na bancada, afastando do metal frio com o antebraço.

Kalamera olhou, automática, procurando algum desenho de peça nova.

— O que é isso?

— Minha contagem.

O soldado inclinou o corpo, sem dar um passo. Só o suficiente para ver. Marco passou o dedo por uma coluna de marcas.

— Centésimo quinquagésimo primeiro amanhecer.

Kalamera ficou com o olhar preso nas marcas, como se tentasse entender por que alguém escreveria aquilo.

— Você conta… amanhecer?

— Eu conto o que não muda. — Ele virou mais uma página. — Amanhecer. Altura do Sol. Tempo entre marcas.

O soldado abriu a boca, fechou, abriu de novo. Apertou o carvão entre os dedos e baixou o tom.

— Lá embaixo eles riem disso. Dizem que olhar para o céu não ganha guerra.

Marco não se ofendeu. Ele tinha ouvido isso antes, de outros, com mais desprezo e menos curiosidade.

— Eu sei.

Ele puxou o caderno mais para o centro e virou para uma sequência de desenhos simples: um arco, linhas de referência, números pequenos ao lado, e pontos marcados como degraus.

— Eu acompanhei o Sol todos os dias desde que cheguei aqui. Mesmo quando teve nuvem, mesmo quando eu estava morto de cansaço.

Kalamera aproximou o rosto, o suficiente para ver a diferença entre um arco e outro.

— Isso mudou.

Marco assentiu.

— Mudou. Essa é a elevação de Lauris.

Ele apontou para o ponto mais alto da curva. O dedo parou ali, firme.

— Aqui foi a virada. O ponto mais alto que ele chegou desde que eu comecei a medir.

O soldado tentou entender pela forma.

— Virada…

— Solstício. — Marco não explicou o termo. — Ele para de subir e começa a descer.

Kalamera manteve o olhar preso no papel.

— E foi quando?

Marco bateu a unha na margem, onde a contagem estava anotada.

— Vigésimo sétimo amanhecer. Foi o ponto mais alto desde que eu comecei a medir.

Ele deslizou o dedo pela sequência, descendo devagar pelos pontos.

— Aqui o calor pegou de vez. Aqui ficou estável. E aqui… — ele avançou mais — aqui ele começou a cair de verdade.

Kalamera acompanhou o movimento do dedo como se acompanhasse uma lâmina no esmeril.

— Aqui foi época de colheita.

O soldado assentiu na hora, reconhecendo.

— Eu lembro do movimento na estrada.

Marco continuou, sem levantar o rosto.

— E aqui foram as Olimpíadas.

A palavra ficou pendurada no ar por um segundo a mais do que deveria.

Marco sentiu o arrepio subir pela nuca. As ruas de Ga-el cheias, o som da arena, o corte seco no meio da festa. O ataque.

Kalamera ficou parada também, as mãos fora do telescópio, apoiadas na bancada.

— Eu lembro — ela falou baixo.

Marco passou o dedo por cima da marca das Olimpíadas e seguiu.

Ele virou a página de novo. A curva ali estava mais baixa, quase colada na linha de referência.

— Quatro amanheceres atrás foi o mais baixo.

O soldado estreitou os olhos.

— O mais baixo… de todos?

— De todos que eu medi. — Marco fechou a mão em volta do caderno, sem fechar o caderno. — Isso significa que o inverno chegou.

Kalamera olhou para o telescópio, depois para a janela. O vidro já estava opaco nas bordas.

— E o fim? Quantos amanheceres até o inverno ir embora?

Marco olhou o caderno uma última vez, como se confirmasse o próprio trabalho, e levantou o olhar para o lado de fora.

— Entre cinquenta e sessenta amanheceres. Eu preciso fechar o ciclo inteiro pra ter certeza. Quando eu tiver um ano completo, eu finalizo o calendário.

O soldado e Kalamera repetiram o termo, quase ao mesmo tempo.

— Calendário… o que é isso?

Fim da leitura

Capítulo 104 concluído

CAPÍTULO 104 - 096 — Solstício de inverno.