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64 Bilhões de Anos-Luz de Distância — Capítulo 105: CAPÍTULO 105 - 097 — Último dia.097 — Último dia.

64 Bilhões de Anos-Luz de Distância
Cap. 105
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64 Bilhões de Anos-Luz de Distância

CAPÍTULO 105 - 097 — Último dia.097 — Último dia.

Capítulo 105

1.212 palavras~5 min de leitura

Capítulo 097 — Último dia.

64 Bilhões de Anos-Luz de Distância

— Calendário… o que é isso?

Marco ficou olhando os dois por um instante, o dedo ainda em cima da curva mais baixa. O tique do pêndulo preenchia o espaço entre as palavras.

Ele apontou com o queixo para o relógio.

— Isso aí separa o dia em partes. Antes, vocês falavam “quando o sol tá alto”, “quando escurecer”, “quando der”. Agora vocês falam uma hora. E a mesma hora serve pra todo mundo.

O soldado olhou o pêndulo como se ainda fosse um animal que podia morder.

— Serve.

Kalamera não tirou as mãos da bancada.

— E o calendário faz isso com…?

Marco assentiu.

— Com o ano e com as estações. Ele dá nome e número pra um ciclo que já existe.

O soldado franziu a testa.

— Mas a gente já vive isso. Frio vem, passa, plantam, colhem, voltam os ventos, volta o frio. Sempre foi assim.

Marco virou o caderno um pouco, só o suficiente pra encaixar o desenho no campo de visão deles.

— Vocês vivem. Só que vivem atrasados.

— Atrasados?

— Vocês reconhecem a mudança depois que ela chega. — o dedo dele bateu numa marca no meio da curva. — A neve cai e vocês chamam de “inverno”. O sol fica alto por mais tempo e vocês chamam de “verão”. O vento vira e vocês chamam de “época”. Sempre depois.

Kalamera soltou um som baixo, quase um acordo.

O soldado cruzou os braços.

— E como isso ajuda? O frio vem do mesmo jeito. Eu posso prever o golpe, mas ainda assim vou ter que aguentar ele.

Marco apoiou o caderno na bancada, firme.

— Ajuda porque você para de ser surpreendido pelo mesmo golpe todo ano.

“Você tá tentando explicar estratégia pra quem foi treinado pra obedecer.” A Nova entrou, seca. “Boa sorte.”

Marco ignorou.

— Olha pra você. — Apontou a tábua de medidas do soldado. — Por que você marca número todo dia?

O soldado olhou pra tábua, sem drama.

— Porque me mandaram. O coronel falou pra eu ficar aqui e anotar o que você pedisse. Eu anoto.

Marco assentiu, uma vez.

— Pra comparar. Pra prever. — Marco tocou na coluna de marcas. — Se a medida caiu, você sabe que algo cedeu. Se subiu, você sabe que algo esticou. Você não espera quebrar.

O soldado ficou quieto, a resistência dele mudando de lugar. Ele olhou de novo pro caderno, como se tentasse achar onde a ferramenta mordia.

— Tá. Mas como você divide esse ciclo? Como você sabe onde começa e termina?

Marco apontou pra cima, sem teatralidade.

— A lua. Ela muda num ritmo que qualquer pessoa consegue ver. Ela fecha um ciclo. Se você usa isso como marca, você cria blocos. Ciclos. Você começa a dizer “na segunda lua depois do solstício”, e a frase vira concreta.

Kalamera soltou o ar pela ponta do nariz.

— Você tá transformando céu em tabela.

— Eu tô transformando céu em referência. — Marco virou outra página e mostrou as colunas. — Eu marco amanhecer, marco altura, marco intervalo. Não é magia. É repetição.

O soldado tocou o próprio queixo.

— E se o céu fecha por dias? Se a neve cobre tudo? Como você marca?

Marco apontou para o soldado, direto.

— Com disciplina. Você perde uma noite, você não perde o padrão. Você marca quando dá, e ajusta com média. A curva não some.

Kalamera mexeu os dedos, como se já estivesse pensando na rotina.

— E você quer esperar um ciclo inteiro.

Marco assentiu.

— Um ano inteiro. Eu não vou chegar no Imperador com “talvez”. Eu vou chegar com “aqui está”.

Ele tocou a marca mais baixa.

— Se o padrão se repetir, daqui a cinquenta ou sessenta amanheceres isso começa a subir.

O soldado encarou a marca como se encarasse um inimigo pequeno demais pra ser visto.

— Você tá dizendo que dá pra saber quando o frio vai recuar.

— Dá pra estimar. — Marco não entregou certeza falsa. — E estimativa já vale mais do que não saber.

O sino do Colégio Militar de Velunthar ecoou pela praça central, marcando o fim da última aula. O frio já tinha tomado conta. O chão estava úmido e gelado, a respiração virava fumaça.

As portas pesadas abriram e a turma saiu em ondas, sem a linha perfeita do treino. Ainda tinha rigidez nos ombros, mas o passo já era de gente indo embora.

Halikah Facyne veio no meio, uniforme azul-escuro sem uma dobra fora do lugar. A boina estava firme, a mochila alta, a postura de quem já tinha virado referência e sabia disso.

— Último dia.

Halikah puxou a alça da mochila e olhou pro portão.

— Sobrevivemos. Sem medalha por isso, infelizmente.

Elssien abriu os braços, o tecido do casaco estalando no movimento.

— Último dia daqui. Agora é só esperar chamarem nosso nome.

Reinna deu um toque com o cotovelo no braço da Halikah. Ela tinha o olho direito verde e o esquerdo castanho-escuro.

— Eles vão chamar você primeiro. — o queixo dela apontou pras fitas e medalhas no peito de Halikah. — Melhor da turma três invernos seguidos. Não finge que não sabe.

Halikah virou o rosto, uma sombra de riso no canto da boca, mais por reflexo do que por vaidade.

— Eu só fiz o que mandaram.

Elssien soltou um som seco.

— Mentira. Você fez mais. Você fez parecer fácil.

Reinna puxou a gola do casaco, tentando esconder o arrepio.

Elssien puxou a boina e soltou o cabelo no vento gelado, como se desobedecer a um detalhe fosse a única vitória do dia.

— Tá. Mas pelo menos a gente vai sair daqui. — Ela olhou para as duas, animando de novo. — E trocar instrutor velho por tenente novo. Eu aceito.

Reinna balançou a cabeça.

— Novo, mas gritando igual.

Halikah deu de ombros.

— Grito eu já conheço. Eu quero é treino que presta.

Reinna deu uma risada curta demais pra virar graça, mas suficiente pra quebrar o peso. Elssien apontou pra rua que descia pro lado de fora do perímetro, onde as casas ficavam mais baixas.

— Hoje é nosso último dia aqui. A gente tem que fazer alguma coisa que não envolva marcha.

Reinna levantou uma sobrancelha.

— Você tá sugerindo o quê?

Elssien deu um passo pra trás e abriu um sorriso grande, teimoso.

— Mar.

Halikah travou um segundo, como se confirmasse que era possível.

— Tá frio.

— Melhor. — Reinna ajeitou o casaco e inclinou o rosto. — Se a gente encostar o pé na água e sobreviver, a Academia não assusta.

Elssien bateu palmas uma vez.

— Então fechou. Amanhã de manhã.

Halikah apontou com o queixo, concordando.

— Sem faltar.

Reinna respondeu no mesmo nível.

— Sem faltar.

Elssien já estava andando de lado, como se liderasse uma tropa invisível.

— Eu quero ver a cara de vocês quando o vento bater de frente. Vocês vão implorar pra voltar pro dormitório.

Reinna empurrou ela com o ombro.

— Eu imploro é pra você calar a boca.

Enquanto isso, do outro lado da rua, uma sombra ficou parada na transversal, protegida por barris velhos e madeira empilhada.

Uma garota magra, cabelo longo prateado como névoa sob lua, observava sem mudar o peso do corpo. O frio não parecia tocar nela. O olhar brilhava com uma luz vazia.

As risadas diminuíram e viraram som distante quando as meninas dobraram a esquina e sumiram. A figura prateada recuou um passo para trás, engolida pela sombra entre os barris.

Fim da leitura

Capítulo 105 concluído

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