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64 Bilhões de Anos-Luz de Distância — Capítulo 106: CAPÍTULO 106 - 098 — Eu vou resolver.098 — Eu vou resolver.

64 Bilhões de Anos-Luz de Distância
Cap. 106
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64 Bilhões de Anos-Luz de Distância

CAPÍTULO 106 - 098 — Eu vou resolver.098 — Eu vou resolver.

Capítulo 106

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Capítulo 098 — Eu vou resolver.

64 Bilhões de Anos-Luz de Distância

Halikah desceu as escadas ainda ajustando o laço da túnica azul-claro que usava fora do horário militar.

Na cozinha, Chralazar já estava sentado à mesa, mastigando uma fatia de pão com geleia. O cabelo castanho-escuro seguia bagunçado, e a camisa de tecido simples destoava do uniforme que Halikah insistia em vestir até quando ninguém pedia.

— Bom dia, dorminhoca.

— Bom dia. — Ela puxou uma caneca e encheu de leite. — Primeiro dia de férias. E eu vou pro mar.

Chralazar ergueu uma sobrancelha.

— O mar no inverno.

— Antes que a água congele de vez. — Halikah bateu a caneca na mesa, empolgada. — Eu e as meninas.

Ele pegou outra fatia de pão e puxou a caneca de leite pra perto. O aro de metal que abraçava o fundo tinha uma runa simples de aquecimento, o tipo que qualquer um imbuía com um fio de essência.

Chralazar encostou o polegar no traço gravado e tentou imbuir.

O traço da runa não acendeu.

Uma película opaca tomou o sulco gravado, endurecendo em cima do símbolo. O leite ficou do mesmo jeito, frio. Chralazar puxou a mão de volta na hora e girou a caneca, fingindo que só tinha ajeitado a posição.

Halikah viu, mas fingiu que não.

— E depois do inverno eu vou pra Fortaleza Ga-el. — As palavras saíram rápidas. — Academia. Centro do Império.

Chralazar voltou a sentar, o olhar nela sem pesar.

— E depois vai ser a nova general de Taeris, certo?

Halikah inflou o peito.

— Mais jovem que a Lou-reen. Vão me nomear com dezessete invernos. Eu já me vejo com o manto nos ombros.

Chralazar soltou um ar pelo nariz.

— Boa sorte.

Ele apontou o queixo pra caneca dela.

— Só não deixa o orgulho te cegar. Não é só força que faz um general. É cabeça fria.

Halikah deu um gole, como se o leite fosse combustível.

— Cabeça fria, lâmina quente.

Chralazar balançou a cabeça, o canto da boca quase subindo, quase.

O silêncio voltou por um instante. A cozinha ainda estava aquecida. Do lado de fora, o vento já vinha com frio, avisando que o inverno ia apertar.

Batidas rápidas na porta quebraram o ar.

Halikah levantou antes de pensar.

Elssien estava ali, boina na mão, cabelo preso de qualquer jeito. Os olhos dela correram pela entrada, passaram pela cozinha, pararam em Halikah.

— A Reinna tá aí?

Halikah travou, surpresa.

— Não. Por quê?

Elssien engoliu seco e deu um passo de lado, abrindo espaço pra pessoa atrás.

A mulher entrou e parou no vão da porta. Bota limpa, coluna reta, uniforme no lugar. O emblema do Exército no peito tinha arranhões fino.

— Sargento Marlen Veyl. — A voz veio firme. — Reinna é minha filha.

Halikah alinhou os ombros por reflexo.

— Senhora.

Marlen olhou a cozinha de cima a baixo num golpe de vista e voltou ao ponto.

— Reinna não voltou pra casa ontem após as aulas.

Elssien se apressou, a culpa querendo sair antes do ar.

— Ela… ela achou que ela tinha ficado com a gente. Ontem. Eu passei lá agora pra gente vir juntas pra cá… e aí…

Marlen não desviou o olhar.

— E ela não estava.

Halikah piscou uma vez, reorganizando tudo.

— Ontem a gente a deixou na rua da casa dela. Eu e a Elssien. Ela foi embora sozinha.

Elssien assentiu, rápido demais.

— Foi isso. A gente a deixou ali e veio embora, não foi? Eu lembro da gente virando a esquina.

— Vocês viram ela entrar?

Halikah travou um instante.

— Não.

Elssien mexeu a cabeça, pequena.

— A gente… a gente não esperou.

Marlen sustentou as duas por um instante.

— Já teve três desaparecimentos antes disso.

Elssien ficou branca. Halikah sentiu o estômago apertar.

— Três?

Marlen assentiu.

— Eu vou mandar avisar a General.

A caneca escapou da mão do Chralazar e virou na mesa. O leite correu pela madeira e pingou no chão. Ele se abaixou no reflexo, puxou a caneca de volta, e a frase saiu antes dele segurar.

— Não é cedo demais pra convocar a General? Talvez ela só tenha ido…

Marlen virou o rosto. Os olhos dela passaram pela camisa simples dele, desceram até o peito liso, sem emblema, e voltaram pro rosto.

— Com todo respeito, civil. — Ela não elevou a voz. — Isso é procedimento do Exército. Você não dá palpite no acionamento de uma General.

Chralazar engoliu seco e ele baixou o olhar.

— Sim, sargento.

Marlen voltou pra Halikah e Elssien.

— Vocês duas vêm comigo. Agora. Vocês vão me mostrar o ponto exato.

Halikah assentiu. Elssien apertou a boina e endireitou os ombros.

— Sim, senhora — as duas responderam ao mesmo tempo.

FORTALEZA GA-EL

A porta se abriu antes que ela encostasse.

Um tenente segurou a folha de madeira com as duas mãos, corpo meio de lado pra não ocupar espaço. Ele baixou a cabeça, respeitoso, e manteve a passagem livre.

Lou-reen entrou sem pressa. Passou por ele, o ombro roçando a distância mínima.

— Obrigada.

O tenente respondeu com uma continência rápida, firme, e ficou do lado de fora. A porta fechou atrás dela com um som único, pesado.

A sala do Imperador era grande, fria e prática.

Uma mesa de madeira hexagonal ocupava o centro da sala, larga, pesada. A superfície trazia Taeris entalhada em alto relevo; rios e serras saltavam sob a luz, e as rotas apareciam marcadas por cortes antigos e pontos de metal.

Ivoney Olaraeth estava de pé atrás da mesa, sem camisa. O manto escuro pendia de um ombro, pesado, com filetes laranja e dourados que pegavam a luz quando ele se movia. O corpo ainda parecia feito pra guerra, mesmo com o cabelo e a barba brancos.

Ele não perdeu tempo.

— Chegou uma mensagem de Yhe-for. Quatro pessoas sumiram de uma vila próxima ao mar. Velunthar.

Lou-reen foi até a mesa. A mão dela encostou no relevo do litoral, acompanhou a linha da costa, parou no ponto marcado.

— É no meu setor.

Ivoney manteve o olhar nela.

— Por isso você tá aqui.

Lou-reen não tirou a mão do mapa.

— O que já sabemos?

Ivoney foi até uma mesa menor encostada na parede. Pegou uma folha dobrada, voltou e abriu em cima do mapa.

— Lior. Soldado experiente. Lutou nas muralhas de Pyrco. Desapareceu na noite das Olimpíadas, durante o turno de vigilância. A espada ficou cravada no chão.

Lou-reen manteve o olhar no papel.

Ivoney desceu uma linha.

— Rhaed Vorn. Recém-saído da Academia.

Outra linha.

— Sargento Jorven Hale. Da cidade ao lado. Saiu procurando o Rhaed. Não voltou.

Ele respirou uma vez, controlado, e leu a última parte sem mudar o tom.

— Ontem: uma aluna do colégio não voltou pra casa depois do último dia.

Ivoney dobrou a folha pela metade, devagar.

— Tenente Kavren Iskell chegou hoje na vila. E não há nada que explique para onde essas pessoas foram.

Lou-reen assentiu, como se encaixasse tudo em uma única palavra.

— Eu vou resolver.

Ivoney ergueu os olhos e segurou o olhar dela por um instante a mais do que o necessário.

— Você tá bem?

— Sim.

O “sim” saiu rápido demais. Ivoney deixou o silêncio bater uma vez e falou sem tirar os olhos dela.

— Olimpíadas.

Lou-reen não desviou.

— Eu lembro.

Ivoney inclinou o queixo.

— Primeira vez que você caiu na frente de todo mundo.

A mão dela apertou o relevo do mapa. A madeira rangeu só no ponto dos dedos.

— Eu me levantei.

— Levantou.

Ele manteve o tom no trilho, sem elogio e sem bronca.

— E não parou desde então.

Lou-reen soltou a mão do mapa e ficou reta, como se isso bastasse.

Ivoney deu um passo lateral, ainda atrás da mesa.

— Eu vi você treinando com o estrangeiro. Eu vi você treinando sozinha.

Lou-reen não respondeu.

— Você tá ansiosa pra mostrar que merece o posto.

Ela travou o maxilar.

— Eu não preciso mostrar nada.

Ivoney manteve a voz baixa.

— Pra mim, não. Pra você.

Lou-reen engoliu seco. Os ombros não cederam.

— Eu mereço.

— Você quer uma vitória “limpa”. Uma que apague a queda.

A frase acertou onde ela não tinha armadura.

— Eu não perdi porque fui fraca.

Ivoney assentiu, uma vez.

— Eu sei.

Lou-reen prendeu o maxilar.

— Então qual é a lição?

— Você não controla tudo.

Lou-reen ficou rígida.

— Eu controlo o que depende de mim.

Ivoney encostou a ponta do dedo no mapa, em Yhe-for, e deixou ali.

— Você controla pra onde a espada vai. Controla a força com que ela acerta.

Ele ergueu os olhos.

— Você não controla quem escolhe entrar na frente da lâmina.

Lou-reen sustentou o olhar. A tensão não saiu do rosto dela.

Ivoney continuou, no mesmo tom.

— Derrota é comum na vida de quem luta. Se você vive tempo suficiente no Exército, você perde. Às vezes perde feio. Às vezes perde sem entender por quê.

Lou-reen abriu a boca, a resposta já na ponta. Ivoney cortou antes que saísse.

— Eu já perdi.

Ivoney ajustou o manto no ombro, um puxão seco no tecido.

— Voltei pra casa achando que não era forte o bastante pra estar aqui.

Lou-reen não piscou.

— Minha cabeça tá na missão.

Ivoney apontou o mapa.

— Ótimo. Então resolve pelo que tá acontecendo lá. Não pelo que aconteceu com você.

Lou-reen respirou pelo nariz, controlado.

— Eu vou resolver.

Fim da leitura

Capítulo 106 concluído

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