A Cavalaria de um Cavaleiro FracassadoVolume 15 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Lágrimas de um Cadáver
Capítulo 76Os restos mortais de Or-Gaule começaram lentamente a se erguer do chão.
Os pedaços de carne espalhados rastejaram pelo solo e começaram a se reunir em um único amontoado.
Todos foram costurados uns aos outros por fios. As partes que já não serviam foram substituídas por pedras comuns e outros destroços.
Como resultado, Or-Gaule recuperou por completo sua forma humana. Até mesmo sua cabeça, antes esmagada, voltou à aparência original.
“Stella-chan, isso é horrível. Aquele garotinho adorável derramou lágrimas e implorou para que você poupasse a vida dele. Mas você o matou mesmo assim”, Or-Gaule começou a zombar. “Você é uma assassina, assassina! Igualzinha a mim! A-ha-ha!”
Nem em seus piores pesadelos Stella imaginaria que um inimigo morto pudesse simplesmente se levantar outra vez.
Ela não estava preparada para um contra-ataque tão repentino e acabou caindo diretamente na armadilha dele.
“Você...! Eu não sou... Você foi o primeiro...!”, Stella conseguiu dizer em resposta às provocações de Or-Gaule.
Aquele homem havia atacado Kledland e levado a guerra até a terra natal dela. Como poderia tê-lo deixado vivo depois de tudo o que ele fizera?
“O quê? Quer discutir quais assassinatos são certos e quais não são? Eu sempre achei que todos os assassinatos fossem iguais. Mas você pensa diferente, não é? Você tem certeza de que sempre agiu do jeito 'certo', enquanto eu fiz tudo do jeito 'errado'. Mas, Stella-chan, pense bem. Foi você quem me matou primeiro. Então isso significa que o seu assassinato também foi 'errado'? A-ha-ha!”
Or-Gaule riu das próprias palavras.
Durante todo aquele tempo, ele mantivera Stella presa com os fios que saíam de sua mão direita. Com um movimento da mão esquerda, começou a costurar vários destroços, criando uma boneca.
Botões azuis e vermelhos.
Cabelos brancos, aparentemente feitos com fios de esfregão.
A boneca era muito parecida com ele.
Enquanto a fazia se aproximar lentamente, Or-Gaule voltou a abrir a boca.
“Você vai ter que esperar até eu colocar todos os atores necessários no palco. Aliás, essa peça vai se chamar Blood Cross. Ela conta a história de um pobre garoto que nasceu em uma pequena aldeia.”
◆
Quinze anos atrás, nos arredores da França, em uma pequena aldeia cercada por montanhas e florestas, nasceu um garoto.
Seu nome era Orleus Gaule.
Seu pai administrava um pequeno restaurante na aldeia. O estabelecimento não lhes proporcionava grande riqueza, mas, graças à agricultura, levavam uma vida tranquila e pacífica.
Um pai forte, em quem qualquer morador podia confiar.
Uma mãe gentil, dona de uma bela voz.
Uma irmã mais velha severa, que estava sempre cuidando dele.
Eram condições perfeitas para uma infância feliz.
Mas...
O garoto não era feliz.
As coisas que traziam alegria às pessoas comuns não despertavam emoção alguma nele.
O garoto só se sentia verdadeiramente feliz quando alguém sentia dor ou sofria.
Ele percebeu isso quando tinha três anos.
Foi nessa idade que começou a atormentar seus amigos até fazê-los chorar. Aquilo lhe dava tanta felicidade que logo se tornou viciado em tais brincadeiras.
Ele queria atormentá-los cada vez mais para poder sentir ainda mais felicidade.
Se os adultos não o tivessem impedido, alguns de seus amigos poderiam até ter morrido.
...Foi depois disso que o garoto começou a guardar ressentimento contra seus bondosos pais e sua irmã mais velha.
Afinal, aqueles pais tão gentis franziram o rosto de raiva, gritaram com ele e o castigaram duramente, apesar de todas as suas lágrimas.
Nem mesmo sua querida nee-san, que normalmente sempre ficava do lado dele, reagiu ao vê-lo chorar daquela vez.
E não havia sido apenas sua família.
O tio gentil que lhe dava doces.
A irmã Yui, que lhe contava tantas histórias interessantes...
O garoto jamais imaginara que todos aqueles adultos fossem capazes de fazer expressões tão assustadoras.
...Foi naquele instante que o mundo inteiro virou de cabeça para baixo para ele.
Depois de aprender aquela dura lição, o garoto percebeu que as coisas que o faziam feliz eram, na verdade, consideradas 'erradas'.
A partir daquele dia, trancou dentro de si todas as antigas fontes de sua 'alegria' e passou a praticar desesperadamente as coisas 'certas' que seus pais lhe ensinavam.
Observava cuidadosamente as pessoas e tentava agir exatamente como elas desejavam.
Pouco a pouco, tornou-se perfeitamente capaz de interpretar o papel da criança gentil e 'correta' que seus pais e todos os outros adultos queriam enxergar nele.
Com o tempo, tornou-se o favorito de todos os moradores da aldeia.
Conseguiu até mesmo fazer as pazes com seus antigos amigos e se tornar o melhor amigo de todos eles.
Ao redor daquele garoto, novamente amado por todos na aldeia, os sorrisos voltaram a florescer.
Mas, dentro dele, havia apenas uma tensão insuportável.
Porque ele jamais esquecera qual era sua verdadeira fonte de 'alegria'.
Para não ser odiado novamente, o garoto continuava sorrindo como uma boneca, incapaz de compartilhar da felicidade de todos ao seu redor.
...Todos os dias.
Sem parar.
Durante anos.
Até que, por fim, alguma coisa dentro dele se quebrou.
Primeiro, deixou de sentir sabores.
Depois, parou de enxergar as cores. Para ele, tudo se tornou monótono.
Já não conseguia dormir à noite.
Algum tempo depois, percebeu que, por causa do intenso estresse que suportara durante todo aquele tempo, seu cérebro havia atrofiado cerca de vinte por cento.
Mesmo assim, não fez nada.
O garoto sabia que, caso tentasse recuperar sua antiga 'alegria', seu mundo voltaria a virar de cabeça para baixo e seria castigado mais uma vez.
Foi nessa época que seus poderes como Blazer despertaram.
Talvez tivesse sido um presente do destino.
O garoto adquiriu a habilidade Puppeteer, que lhe permitia controlar o cérebro de qualquer vítima usando fios de aço semelhantes a nervos.
Foi esse poder que salvou o garoto.
Ele percebeu que poderia recuperar novamente sua antiga 'alegria' sem que ninguém da aldeia fosse capaz de puni-lo.
Mesmo sabendo que aquilo era 'errado', já não conseguia continuar vivendo como antes.
Então começou a usar sua habilidade para propósitos 'errados'.
Para evitar que alguém da aldeia suspeitasse dele, estendeu seus fios até uma cidade vizinha.
Começou a controlar e mutilar os corpos de seus habitantes.
Conquistava a confiança de crianças e então as atormentava.
Por causa dele, famílias felizes começaram a desmoronar.
Usando seus fios, o garoto podia sentir as emoções de cada pessoa.
Alterava seus comportamentos, suas atitudes e suas ações.
Por meio de seu poder, a violência tomou conta da cidade.
Dor.
Tristeza.
Desespero diante da morte de entes queridos.
Todas aquelas doces emoções eram transmitidas pelos fios diretamente ao seu cérebro atrofiado.
O garoto sentiu-se voltar à vida.
Aquilo era maravilhoso.
Maravilhoso demais.
Pela primeira vez em muito tempo, ele finalmente conseguia sentir verdadeira felicidade.
...Mas aqueles dias não duraram.
Certo dia, suas habilidades foram descobertas por um homem que investigava o estranho caos que havia tomado conta da cidade.
...Suas ações 'erradas' haviam sido expostas mais uma vez.
E aquele homem veio pessoalmente atrás dele.
◆
Aconteceu ao entardecer.
Era o aniversário do garoto.
A comemoração seria realizada na igreja. Porém, como ele era o aniversariante, não permitiram que entrasse antes da hora, para que não visse os preparativos da festa.
Então Orleus decidiu fazer o que costumava fazer: caminhar até os arredores da aldeia e passear pela margem do rio.
Somente ali ele poderia se divertir.
Afinal, logo...
A festa de aniversário começaria.
E ele teria novamente que suportar tudo aquilo, sorrindo e irradiando felicidade como uma boneca.
Por isso, para se proporcionar um pouco de prazer antes da festa e conseguir comparecer verdadeiramente feliz, Orleus decidiu brincar mais uma vez com aquela cidade.
Estava tão absorto em suas 'brincadeiras com bonecas' que só percebeu tarde demais um estranho vestido com um manto negro descendo pela margem do rio e caminhando diretamente em sua direção, sob a ponte.
Era tarde demais para reagir.
O pequeno corpo de Orleus foi agarrado brutalmente pela frente da roupa e erguido no ar.
“O-O quê!?”
Orleus entrou em pânico ao ser violentamente prensado contra a estrutura de pedra.
Ele ergueu o rosto e se assustou.
Os olhos do homem que o encarava brilhavam com a ferocidade de uma fera.
Havia muito pouco de humano naquele olhar.
Quem é esse homem?
“O número de ataques nesta região aumentou drasticamente nos últimos tempos. A segurança pública deteriorou-se de maneira anormal... Investiguei todo esse caos e percebi que havia alguém manipulando tudo por trás dos acontecimentos.”
O estranho dizia aquilo enquanto encarava o pálido Orleus.
“...!”
“Garoto. Seu poder pode ajudar a Rebellion a destruir este mundo repleto de mentiras. Você virá comigo, Orleus Gaule.”
“N-Não... não...”
Embora não compreendesse nem metade do que aquele estranho dizia, Orleus entendeu perfeitamente uma coisa.
O homem sabia sobre suas 'brincadeiras com bonecas'.
Aquilo era péssimo.
Se contasse a alguém da aldeia, seu mundo voltaria a virar de cabeça para baixo.
Orleus estava aterrorizado com a possibilidade de alguém descobrir suas perversões.
Foi então que decidiu usar seus poderes de marionetista para calar aquele homem.
Mas...
“Inútil. Nossas habilidades possuem algumas semelhanças. Mas sua habilidade jamais conseguirá fazer contato físico comigo, Wallenstein.”
Por mais que o garoto tentasse conectar seus fios aos nervos daquele homem e restringi-lo, eles apenas deslizavam pela superfície de seu corpo.
Enquanto isso, o homem o pressionava cada vez mais contra a pedra.
“Os fortes governam este mundo. Você não tem o direito de me recusar. Se tentar lutar contra mim, eu o matarei.”
A mão do homem pressionou com força o peito do garoto.
Orleus começou a sufocar.
Diante daquela violência, percebeu que o homem não estava simplesmente ameaçando-o.
Assim como ele próprio havia atormentado crianças pouco antes, aquele homem realmente pretendia matá-lo.
“P-Por favor, não me mate... Eu não quero morrer...”
Mas não havia o menor sinal de compaixão nos olhos do homem.
Aquilo era completamente diferente de quando seus pais o castigavam.
Eu não quero morrer.
Por favor, não me mate.
Ao ouvir aquelas súplicas miseráveis, o Mestre Espadachim de uma Mão Wallenstein arregalou os olhos, surpreso.
“Hehe... A-ha-ha-ha!”
Wallenstein caiu na gargalhada.
“Garoto, você quer viver?”
“...?”
Sem compreender o significado da pergunta de Wallenstein, Orleus apenas gaguejou.
“...Entendi. Mudei de ideia.”
Após dizer aquilo casualmente, Wallenstein soltou o garoto de repente.
Orleus caiu no chão.
“Garoto. Vou lhe dar uma escolha. Daqui a uma semana, voltarei a esta aldeia. Se você for o único sobrevivente daqui, eu o levarei comigo para a Rebellion...”
Ele fez uma pequena pausa.
“Mas, se uma única pessoa além de você continuar viva, matarei todos pessoalmente! Inclusive você!”
Naquele mesmo instante, uma enorme espada apareceu em sua mão vazia.
Wallenstein a moveu casualmente.
“Eu matarei todos.”
E cortou a ponte de pedra.
“...!”
A ponte desabou imediatamente no rio, erguendo uma enorme coluna de água.
Foi naquele momento que o garoto compreendeu.
Aquele homem realmente mataria todos.
O Wallenstein diante dele definitivamente cumpriria sua palavra.
O garoto não conseguiria fugir.
A polícia da aldeia não teria chance contra ele.
Nem mesmo sua forte nee-san poderia fazer alguma coisa.
“Eu não posso... aceitar... essa escolha...”
Matar todos ou morrer junto com todos.
Aquilo estava longe de ser uma escolha que uma criança pudesse suportar.
Porém...
“A-ha-ha, isso não é verdade.”
Wallenstein riu diante do protesto de Orleus.
“Você certamente fará a escolha correta. Antes de entrar em contato com você... observei sua vida durante muito tempo. Você nasceu em uma família feliz e bondosa, onde todos o amavam. Uma distorção como essa em sua alma jamais poderia ter surgido por causa de um ambiente desses. Portanto, resta apenas uma conclusão...”
Os lábios de Wallenstein se curvaram.
“Você nasceu como o puro mal.”
“Não... não... Eu não sou mau...”
“Não me entenda errado. Estou fazendo isso porque quero salvá-lo.”
“...Hã?”
“Pense nisso durante esta semana e faça sua escolha. Pelas mãos de quem você quer morrer? Pelas minhas ou pelas dos moradores da sua aldeia? Tenho certeza de que a resposta correta surgirá naturalmente em sua cabeça...”
◆
O Mestre Espadachim de uma Mão Wallenstein desapareceu diante do garoto.
Mas prometera voltar em uma semana.
Tremendo de medo da morte, o garoto correu para longe daquele lugar.
Mas para onde deveria correr?
Onde poderia se salvar?
Deveria avisar os adultos?
Ame sua família.
Ame seu próximo.
Ame seus amigos.
Essas coisas 'certas' haviam sido incutidas nele desde a infância.
Naquele exato momento, sua festa de aniversário estava prestes a começar na igreja.
Todos o amavam, então todos os habitantes da aldeia estariam lá.
Exatamente.
Aquele seria o lugar perfeito para contar a todos sobre o perigo que se aproximava.
...Mas havia crianças na festa também.
Se falasse sobre aquilo durante a comemoração, poderia causar pânico e assustá-las.
Ainda havia tempo.
Aquele homem lhe dera uma semana inteira.
Era melhor contar apenas aos adultos.
O garoto era inteligente.
Por isso, decidiu esperar até o fim da festa, quando os adultos começassem a limpar tudo.
As crianças voltariam para casa e então ele poderia explicar a situação tranquilamente.
Sua festa de aniversário aconteceu exatamente como Orleus imaginava.
Todos os moradores da aldeia se reuniram na igreja para parabenizá-lo.
Deram-lhe presentes.
Cantaram.
Riram.
Era como se ele fosse filho de toda a aldeia ao mesmo tempo.
“Estou tão feliz que você nasceu.”
“Tenho muito orgulho de você.”
“Somos tão felizes por ter você conosco.”
Todas as pessoas ao redor do garoto lhe ofereciam sorrisos radiantes.
Todas, exceto o próprio garoto.
Naquele dia, até fingir se tornou doloroso.
Sua querida nee-san percebeu imediatamente que havia algo errado e perguntou o que estava acontecendo.
O garoto balançou a cabeça e garantiu que estava tudo bem...
Mas até mesmo sorrir estava difícil.
Um fluxo interminável de felicitações ecoava dentro de sua cabeça, causando-lhe dor.
“Pense nisso durante esta semana e faça sua escolha. Pelas mãos de quem você quer morrer? Pelas minhas ou pelas dos moradores da sua aldeia?”
Entendi...
Finalmente, o garoto compreendeu.
Pela primeira vez na vida, encontrara alguém que não pretendia repreendê-lo por suas ações 'erradas'.
Muito pelo contrário.
Aquele homem até demonstrara compreensão por ele.
Durante todo aquele tempo...
Orleus não estivera realmente vivendo.
A possibilidade de viver da maneira que desejava lhe fora arrancada ainda na infância.
Todos na aldeia tentaram incutir nele aquilo que consideravam 'certo'.
Mas nada daquilo lhe trazia felicidade.
Eles o enganavam.
Fingiam amá-lo.
Todos haviam roubado sua verdadeira vida.
Naquele momento, a mente do garoto afundou no desespero.
Um intenso sentimento de ódio nasceu em seu coração.
Eu odeio meus pais, que diziam me amar, mas que, na verdade, estavam me matando lentamente.
Eu odeio minha nee-san, que dizia que sempre estaria do meu lado, mas que também me matou.
Eu odeio todas essas pessoas que roubaram minha felicidade quando me obrigaram a seguir aquilo que chamavam de 'certo'.
Eu odeio este mundo falso que me proíbe de ser feliz.
De repente, o garoto começou a rir.
Sua irmã, que estivera ao seu lado durante todo aquele tempo, foi a primeira a perceber o sorriso distorcido em seu rosto.
“Obrigado, pessoal. Eu sou a pessoa mais feliz do mundo. Afinal, sou amado por tanta gente. Todos os desejos de felicidade que vocês me deram são muito preciosos para mim.”
Seu sorriso não desapareceu nem por um instante.
“Por isso, eu decidi. Hoje será o melhor dia da minha vida!”
◆
“E assim, o garoto destruiu todas as pessoas da aldeia.”
Or-Gaule prosseguiu com sua história.
“Para cada uma delas, escolheu uma forma especial e elaborada de matar. Era como se finalmente estivesse libertando toda a raiva que acumulara durante tantos anos. Aquele aniversário foi o dia mais feliz da vida dele. E, depois de matar absolutamente todo mundo, o garoto imediatamente se juntou à Rebellion...”
Por meio daquele teatro de marionetes, Or-Gaule havia recriado por completo o dia de seu aniversário.
Assim que terminou o espetáculo, voltou imediatamente sua atenção para Stella.
“Ei, Stella-chan! Você ainda acredita que suas ações não foram 'erradas'? Então qual é a diferença entre nós? Eu matei pela minha própria felicidade. E você queria proteger a sua felicidade, então usou aquilo que acreditava ser 'certo' e me matou sem hesitar. Eu não vejo diferença alguma entre nós, Stella-chan!”
“Ghargh!?”
Or-Gaule moveu a mão direita.
Respondendo aos movimentos de seus dedos, os fios se enterraram ainda mais profundamente no corpo de Stella.
Eles rasgavam sua carne.
Esmagavam seus ossos.
Comprimiam suas vias respiratórias.
O rosto de Stella imediatamente adquiriu um tom vermelho intenso.
Ela tentou desesperadamente resistir aos fios que apertavam seu pescoço.
Porém, o inimigo havia envolvido seu corpo inteiro, impedindo-a até mesmo de levar as mãos à garganta.
“Stella! Aguente! Nós vamos ajudar você agora!”
As tropas de Vermillion e os cavaleiros-magos da League gritaram enquanto avançavam juntos em sua direção.
Mas...
“Barulhentos demais.”
“GRARGHXXXXXX!!!!”
Todos aqueles que corriam desesperadamente para socorrê-la despencaram no chão.
Seus corpos haviam sido cortados em inúmeros pedaços.
Para quem presenciasse aquela cena horrível, poderia parecer que Or-Gaule os havia retalhado usando fios de aço...
Mas não era isso.
Ele havia utilizado a atração gravitacional do Desperado Fate.
Assim como Edelweiss fizera no topo do Edelberg.
Depois que a habilidade Games of the Dead foi ativada, a força de Or-Gaule mudou completamente.
Ele havia se tornado muito mais poderoso do que Stella.
Nenhuma pessoa comum poderia derrotar um Desperado.
Ao desafiá-lo, automaticamente assinavam a própria sentença de morte.
Se alguém fosse incapaz de dar o próximo passo e superar o próprio destino, então seria melhor permanecer imóvel.
Uma região isolada se formara ao redor dele.
Or-Gaule lançou um olhar ao amontoado de carne a seus pés, suspirou irritado e voltou a falar.
“É isso mesmo. Neste mundo, pouquíssimas pessoas conseguem controlar a própria vida. A própria sociedade decide o que é 'certo' e o que não é. Ela se baseia em ética e leis para determinar como as pessoas devem agir e as impede de viver plenamente.”
Ele sorriu.
“Mas eu abri os olhos. Todas essas coisas 'certas' nada mais são do que uma forma de violência criada para subjugar aqueles considerados 'errados'. Concordo com o que Wallenstein-sensei dizia. Nosso mundo é cheio de mentiras. A verdadeira lei deste mundo é que os fortes dominam os fracos. Até mesmo aqueles que se consideram bons continuam oprimindo as pessoas que julgam más.”
“Depois de compreender essa verdade, decidi lutar contra este mundo com todas as minhas forças. Afinal… todo ser vivo tem o direito de buscar sua própria felicidade. A única maneira de alcançar a felicidade é lutando...”
Or-Gaule inclinou a cabeça.
“A bondosa Stella-chan, enfrentando bravamente três membros da Academia Akatsuki, a corajosa Stella-chan, lutando desesperadamente pela sobrevivência de sua nação. Tudo isso parece tão nobre...”
Ele abriu um sorriso.
“Mas você é uma assassina, Stella-chan. Você é uma hipócrita. Igualzinha à minha nee-san. Quer saber? Eu adoro observar como a lua cheia obedece às regras e só aparece durante a noite.”
Seu sorriso se tornou ainda mais distorcido.
“Mas o que aconteceria se ela confundisse os horários...? Tenho certeza de que ela ficaria muito feliz!!!!”
“...”
Or-Gaule aplicou ainda mais força à mão direita, fazendo os fios apertarem Stella com intensidade ainda maior.
Já sofrendo pela falta de oxigênio, Stella não conseguia mais resistir.
Como um inseto preso em uma teia.
Seus membros pálidos pendiam sem forças em direção ao chão.
A última centelha de luz começou a desaparecer de seus olhos.
Só mais um pouco...
E os fios atravessariam sua carne, cortariam seus ossos e arrancariam sua cabeça.
Mas, antes que isso acontecesse...
“Você fez sua escolha e decidiu se tornar nosso inimigo...”
“...!?”
Um cavaleiro surgiu no campo de visão de Or-Gaule.
Avançando por cima dos restos dos soldados mortos com a velocidade de uma flecha disparada, ele cravou sua lâmina negra diretamente na testa de Or-Gaule.
Aquele ataque relâmpago...
Não havia dúvida.
Era a Primeira Lâmina Secreta — Saigeki.
“...Então não fique bancando a vítima.”
A voz do cavaleiro era fria.
“É nojento.”
O cavaleiro que havia derrotado B.B e a Black Knight aparecera novamente no campo de batalha.
Ikki Kurogane encarava o inimigo com uma expressão carregada de repulsa e ódio.
Or-Gaule, porém, mesmo empalado pela katana, pareceu encantado com sua chegada.
“A-ha-ha! Eu estava esperando por você, Worst One.”
Seu sorriso se alargou.
“Eu sabia que você, Ikki Kurogane, apareceria aqui.”
◆
“Ha!”
Ao perceber que Or-Gaule continuava vivo mesmo depois de ter a cabeça atravessada, Ikki entendeu imediatamente que ataques daquele tipo eram inúteis contra ele.
Antes que Or-Gaule pudesse reagir, Ikki acertou seus ombros, retirou a lâmina e saltou para trás, abrindo distância.
“Então agora você está controlando o próprio cadáver? Que habilidade desagradável.”
“A-ha-ha, exatamente. Esse tipo de técnica é especialmente desagradável contra você, Ikki-kun.”
Ao contrário de sua irmã Iris, um golpe direto de espada não era capaz de causar um ferimento mortal em Or-Gaule.
“Ouvi do comentarista o resultado da sua batalha. Você derrotou a quarta cavaleira mais forte do mundo. Nem imaginei que fosse conseguir vencer. Embora, pelo que disseram, tenha arrancado essa vitória com muita dificuldade.”
Or-Gaule sorriu.
“Como está se sentindo, Ikki-kun? Como é ser um assassino igual a mim?”
“É repugnante.”
“A-ha-ha, você está exagerando.”
“Estou apenas dizendo um fato”, Ikki respondeu, sem demonstrar reação alguma às provocações de Or-Gaule.
“Ascarid-san e eu... escolhemos nossos próprios caminhos na vida e estávamos preparados para morrer por eles. A responsabilidade pelo resultado daquela batalha é inteiramente minha. Quando empunhei uma espada, já estava preparado para isso. Não... Eu tomei essa decisão no momento em que escolhi trilhar o caminho de um cavaleiro-mago.”
“Morrer em batalha. A possibilidade de morte existe igualmente para mim e para meu oponente. Isso é um fato. Só precisamos aceitá-lo. Estou disposto a lamentar. Estou disposto a chorar pela morte dela. Mas jamais vou me arrepender. Foi minha decisão matar Ascarid-san. Não pretendo enganar ninguém dizendo que a morte dela era necessária para o bem de todos.”
“...A-ha-ha. Só de pensar que estamos no mesmo terreno já me dá náuseas. Eu odeio você, Ikki-kun. Afinal, matar é uma das coisas mais divertidas deste mundo.”
Or-Gaule respondeu em um tom entediado.
Por um instante, seu sorriso desapareceu.
Mas logo voltou a se abrir.
“Mesmo que eu tenha ficado entediado, ainda quero matar você. Esperei por isso durante todo esse tempo. Se eu matar você diante de Stella, qual será a reação dela?”
Sua mão direita ainda mantinha Stella presa.
Por isso, estendeu a esquerda na direção de Ikki e fez um gesto como se estivesse prestes a estalar o polegar contra o dedo médio.
Aquele movimento...
“Como você já sabe, Grand Guignol é uma técnica de ataque em área. Ela espalha uma teia ao meu redor e mata todos. Da última vez que nos encontramos, você neutralizou essa técnica usando Itto Rasetsu. Mas agora está completamente exausto depois da luta contra Nee-san. Além disso... depois que morri, fiquei muito mais forte. Já não preciso me preocupar com meu próprio corpo.”
Or-Goul ergueu a mão.
“Então, Ikki-kun... como pretende impedir meu ataque agora!?”
No instante seguinte, Or-Goul concentrou energia no movimento dos dedos.
“Grand Guignol!!!!”
Um som ensurdecedor ecoou.
Ao receber o sinal, seu Device, que formava diante dele um escudo composto por inúmeros fios, liberou a tensão existente entre eles.
Mil fios afiados como lâminas dispararam em todas as direções.
A quantidade era absurda.
Mesmo assim, graças à sua percepção dinâmica, Ikki conseguiu acompanhar a trajetória de cada um.
Além disso, não era a primeira vez que via aquela técnica.
Portanto, já conhecia seu ponto cego.
O chão.
O Grand Guignol de Or-Gaule era uma técnica de ataque em área.
Apesar de disparar mil fios de uma única vez, todos percorriam trajetórias lineares.
Como o poder era distribuído igualmente entre cada fio, a força individual deles diminuía bastante.
Eles eram capazes de cortar carne humana.
Mas não possuíam força suficiente para atravessar pedra.
“...!”
Ikki saltou rapidamente para dentro de uma cratera próxima.
O campo de batalha ainda era o distrito administrativo onde Stella e Or-Gaule haviam travado sua batalha feroz.
Toda a área estava coberta por crateras e rachaduras.
Mas...
“Ha! E quanto a eles!?”
Aparentemente, Or-Gaule já esperava que Ikki fizesse algo daquele tipo.
“Parece que você conseguiu se esconder muito bem, Ikki-kun...!”
Ele abriu um sorriso cruel.
“Mas e todas aquelas pessoas atrás de você!? Não vai se importar se eu reduzi-las a pedaços!!”
Uma provocação.
A decisão de Ikki parecia conduzir diretamente a um resultado trágico.
Ainda havia muitos moradores de Kledland e soldados paralisados pelo terror provocado por Or-Gaule.
Nenhum deles tinha como se defender daquela técnica.
Ser cortado em pedaços seria o destino inevitável de todos.
Será que Ikki simplesmente não havia pensado nisso?
Será que os condenara à morte?
Não.
Ikki não os protegera porque isso não era necessário.
“...!?”
De repente, pouco antes de atingirem a primeira vítima, as lâminas de fio mudaram de trajetória.
O rosto de Or-Gaule se encheu de surpresa.
Em vez de retalhar as pessoas, seu Grand Guignol passou por cima de suas cabeças e disparou em direção ao céu.
Algum deles havia conseguido se defender?
Não.
Aquilo era impossível.
Os fios simplesmente abandonaram suas trajetórias anteriores sem encontrar resistência alguma.
Era como se o próprio espaço tivesse sido distorcido diante deles.
Apenas uma cavaleira no mundo possuía um poder daqueles.
“Então ela também está aqui...”
Or-Gaule murmurou, surpreso, enquanto olhava para cima.
Sobre um dos arranha-céus parcialmente destruídos por Stella, com a lua às suas costas, havia uma pequena silhueta.
“Demon Princess...!?”
Or-Gaule cometeu um grande erro ao desviar os olhos do oponente.
Ikki aproveitou a oportunidade instantaneamente.
Saltando para fora da cratera, ele cortou o braço direito de Or-Goul e libertou Stella dos fios que a prendiam.
“Tsk!”
“Grand Guignol é praticamente o mesmo que arremessar o próprio escudo. Depois de usar essa técnica, você fica vulnerável por algum tempo.”
“Você conseguiu cortar meu braço. Espero que não fique convencido demais por causa disso!”
Ikki libertou Stella dos fios de Or-Goul.
Mas, devido às inúmeras fraturas graves, ela não conseguia se mover.
Sua consciência também estava turva pela falta de oxigênio.
Um cavaleiro comum precisaria de pelo menos um dia inteiro para se recuperar.
Até mesmo Stella, com o poder regenerativo do Dragão, necessitava de pelo menos um minuto.
O mesmo podia ser dito de Demon Princess, Nene Saikyo.
Apesar de ter chegado ao campo de batalha, ela não demonstrava intenção de intervir diretamente.
Eu sei por que ela não está lutando.
Durante todo aquele tempo, Nene acompanhara os movimentos de Or-Gaule.
Foi assim que, no último instante, conseguiu extrair o que restava de suas forças e salvar aquelas pessoas.
Ela está exausta demais para outra batalha.
Era natural.
Não fazia muito tempo que ela havia enfrentado Habub, o mercenário mais poderoso e quinto colocado entre os mais fortes do mundo.
Demon Princess não era especialmente boa em atacar e defender simultaneamente.
Por isso, escolhera a defesa.
Mais precisamente... eu a obriguei a fazer essa escolha ao desviar dos ataques do inimigo.
Até Stella recuperar a consciência, a única pessoa capaz de deter Or-Gaule era ele.
Ikki Kurogane.
O Worst One.
Um minuto até Stella se recuperar.
Era tempo demais.
Depois da luta contra Nee-san, ele está completamente exausto. Não vai aguentar.
Or-Gaule pensava enquanto costurava novamente o braço decepado ao corpo usando seus fios.
“Agora sou muito mais forte do que Stella-chan.”
Ele abriu os braços.
“Se conseguir, tente me derrotar...!”
Agora podia fazer o que quisesse.
Já não precisava dividir sua atenção para manter Stella presa.
Or-Gaule disparou longos fios das pontas dos dedos de ambas as mãos.
Concentrou toda a sua magia neles para torná-los ainda mais poderosos.
Movendo-se livremente por qualquer trajetória, os fios pareciam chicotes.
Tudo aquilo que tocavam era cortado.
Até mesmo pedras e edifícios.
Sem a Demon Princess, aquele lugar já teria se transformado em um mar de sangue.
Mesmo para Ikki, que havia usado Ittou Rasetsu, aqueles fios eram mortais.
Um único golpe significaria o fim de sua vida.
Inúmeros fios atacaram Ikki sem cessar.
Porém...
“...Ha!”
“...!?”
Apesar de os fios finos e afiados serem extremamente difíceis de acompanhar com os olhos, Ikki desviou de todos os ataques consecutivos.
Não importava quanto Or-Gaule movimentasse os braços.
Ele não conseguia sequer cortar um fio de cabelo de Ikki.
Por quê?
Afinal, naquele momento Or-Gaule possuía vantagem tanto em força quanto em velocidade.
Por que eu não consigo retalhar esse cara, que deveria estar completamente exausto!?
“...!”
A frustração de Or-Gaule não conhecia limites.
Mas a razão era extremamente simples.
Não havia técnica alguma em seus movimentos.
Nenhuma estratégia.
Or-Gaule simplesmente agitava os fios aleatoriamente em alta velocidade.
Se Ikki estivesse enfrentando novamente uma cavaleira com o poder de Iris, aquilo seria perigoso.
Mas Or-Gaule era apenas um amador.
Não importava quanto aumentasse a força ou a velocidade de seus ataques.
Jamais conseguiria tocar Ikki.
O Worst One estava em um nível completamente diferente.
Inúmeras pessoas tentaram alcançar o ápice da habilidade.
Mas apenas Ikki conseguira ultrapassá-lo e atingir o domínio do Deus da Espada.
Or-Gaule não passava de um amador.
Como não possuía técnica, sequer tentava entender por que seus ataques não atingiam o adversário.
Quanto mais irritado ficava, mais grosseiros se tornavam seus movimentos.
E isso criava oportunidades perfeitas para o contra-ataque de Ikki.
“...Hã!?”
A batalha mudou completamente quando Ikki partiu para a ofensiva.
Sem se intimidar com os ataques de Or-Gaule, avançou diretamente contra ele.
A força adquirida por Or-Gaule após o Games of the Dead era aterrorizante.
Mas Ikki já estava acostumado a enfrentar técnicas capazes de matá-lo instantaneamente.
Não sentia pressão alguma.
Afinal, durante toda a sua vida, Ikki lutara apenas em batalhas nas quais sua própria vida estava em jogo.
Deslizando pelos espaços entre os ataques de Or-Gaule, Ikki avançou e continuou destruindo ainda mais seu cadáver.
Embora o corpo de Or-Gaule fosse restaurado imediatamente após cada golpe, Ikki assumira completamente o controle da batalha.
“Incrível! Groom-san tomou a iniciativa!”
“Ele está conseguindo resistir aos ataques do Marionette King mesmo a uma distância tão curta!”
“Ele derrotou a Black Knight! Vai vencer também!”
Enquanto Ikki continuava lutando contra Or-Gaule, os soldados feridos começaram a recobrar os sentidos e se levantar.
Sem conseguir tirar os olhos daquela batalha, começaram a torcer desesperadamente pelo cavaleiro Rank-F.
O rosto de Or-Gaule se tornou ainda mais irritado.
O que há de errado com esse cara...!?
Seu poder mágico estava em zero.
Depois de usar Ittou Rasetsu, seu corpo deveria estar completamente enfraquecido.
Sua condição física estava longe do ideal.
Por quê?
Por que ele continua lutando?
Não acredito que ele possa me derrotar.
Porém...
Uma sensação começou a brotar em seu peito junto ao suor gelado.
A mesma sensação que experimentara quando seu mundo virara de cabeça para baixo.
Eu conheço isso...
Isso é medo?
O medo diante de algo que não conseguia compreender.
O sentimento que Or-Gaule mais odiava.
“Não fique convencido!! Você não passa de um peixinho insignificante que eu vou despedaçar!!”
Or-Gaule gritou, tentando desesperadamente se livrar daquela sensação.
Ele bateu o pé direito contra o chão com tanta força que o solo se partiu.
Porém, não parou ali.
Dos dedos de seus pés, uma teia de fios se espalhou.
“Revolving Arena!!”
Uma área circular de dez metros de raio ao redor dele foi coberta pela teia.
Os fios se moviam e torciam constantemente.
Qualquer inimigo que pisasse nela perderia imediatamente o equilíbrio e cairia.
...Mas não Ikki.
“...Hã!?”
O fato de o apoio sob seus pés estar se movendo continuamente não o incomodou em absoluto.
Seu corpo havia sido moldado por incontáveis sessões de treinamento.
Movendo-se calmamente pela superfície instável, Ikki voltou a atacar Or-Gaule, que ficara vulnerável enquanto concentrava sua atenção em manter a técnica.
O ritmo de Ikki sequer diminuiu diante daquela técnica repentina.
Os espectadores não conseguiram conter os aplausos diante da impressionante batalha que acontecia perante seus olhos.
Não é isso...!
O rosto de Stella empalideceu ainda mais enquanto observava Ikki lutar.
E aquela palidez não vinha apenas da anemia provocada pela falta de oxigênio.
Era ansiedade.
Ela sentia que a batalha estava chegando ao fim.
Sem dúvida, a habilidade de Ikki permitira que ele tomasse a iniciativa.
Como sempre, seu domínio técnico era impressionante.
Mas nem mesmo um lutador extraordinário como ele poderia continuar para sempre.
Ikki já havia usado Ittou Rasetsu contra a Black Knight.
Aquela técnica monstruosa lhe concedia um poder colossal em troca de consumir toda a sua força física e mágica.
O simples fato de Ikki ainda conseguir lutar já era anormal.
Ele certamente fizera alguma coisa ao próprio corpo para conseguir retornar ao campo de batalha.
Mas...
Ele não está se movimentando bem... e não é por causa do cansaço...
Stella conhecia Ikki Kurogane melhor do que qualquer outra pessoa.
Os movimentos que arrancavam aplausos estrondosos dos espectadores estavam longe do ideal.
Ele conseguira enganar todos os outros.
Mas Stella percebeu imediatamente que seus ataques haviam perdido velocidade.
E não apenas velocidade.
Parecia que todas as capacidades físicas de Ikki haviam diminuído ao mesmo tempo.
Provavelmente porque estava extraindo do próprio corpo os últimos fragmentos de energia disponíveis.
Mas aquilo não poderia continuar.
Ikki parecia o resto de uma vela prestes a se apagar.
Mexa-se... vamos...!
Dentro de um minuto, seria tarde demais.
Stella tentava desesperadamente recuperar todas as funções de seu corpo.
Mas, depois de chegar tão perto da morte, nem mesmo o metabolismo do Dragão conseguia restaurá-la depressa o bastante.
E então...
Aquele momento chegou.
“Que irritante! Por que você simplesmente não para de resistir!? Continuar enfiando essa espada em mim não vai derrotar ninguém! Você sabe disso, não sabe!?”
“Eu sei disso melhor do que qualquer um...”
Ikki respondeu às palavras irritadas de Or-Gaule.
“Mas eu não preciso derrotar você.”
Depois dessa breve troca, Ikki imediatamente voltou sua atenção para Stella.
“Stella! Por favor! Escute com muita atenção!!”
Interrompendo-se por apenas um instante, continuou.
“Agora mesmo... eu vou morrer aqui!!!!”
“...”
“Stella, acho que você mesma já sabe como essa batalha vai terminar! Desculpe, mas eu não consigo derrotá-lo! Eu não tenho forças para isso!! Tudo o que posso fazer agora é ganhar algum tempo até você se recuperar! Infelizmente, é apenas um minuto. Mas eu acredito que isso será suficiente para você!”
Era por isso que ele continuara lutando obstinadamente durante todo aquele minuto.
“Desculpe por não conseguir cumprir a promessa que fiz a você ontem! Mas quero que saiba de uma coisa! Stella... eu sou muito feliz por ter conhecido você!”
Sem parar de lutar contra Or-Gaule, Ikki continuou expressando aquilo que vinha diretamente de seu coração.
“Nós nos conhecemos naquele dia na Academia Hagun, nos apaixonamos e nunca paramos de competir um com o outro. Foi por isso que consegui me tornar tão forte!! Tudo o que conquistei na minha vida foi graças a você, Stella! Desde o dia em que conheci você, nunca me arrependi de nada! Porque todo o tempo que passei ao seu lado é o maior tesouro da minha vida!!”
Quanto orgulho ele sentia por tê-la conhecido?
Provavelmente muito.
Afinal, mesmo à beira da morte, Ikki continuava sorrindo com felicidade.
“Por isso, Stella! Não importa o que aconteça daqui para frente, espero que você nunca se arrependa de ter me conhecido! Por favor, nunca pense que isso foi um erro! Porque eu não fui o único que ficou mais forte depois daquele encontro!!”
Ikki acreditava que Stella sentia o mesmo que ele.
Era essa convicção que lhe permitia continuar segurando Intetsu com firmeza.
“Mostre para mim! O poder da cavaleira por quem eu me apaixonei!!!! Nós nos conhecemos e ficamos mais fortes...!!!! Nós mesmos abrimos esse caminho!!!!”
Concentre-se.
Restavam quinze segundos até completar o minuto prometido.
Ele precisava resistir.
Tinha que proteger sua amada, mesmo que isso lhe custasse a vida.
“...VOCÊ ACHA QUE EU VOU SIMPLESMENTE ACEITAR ESSAS PALAVRAAAAAAS!?”
Stella gritou.
Sua poderosa voz rasgou o ar acima do campo de batalha.
Do que esse idiota está falando!?
Pela primeira vez em sua vida, Stella sentiu uma explosão de fúria tão intensa.
As emoções a dominaram com tanta força que parecia que sua cabeça explodiria.
Eu não vou permitir.
Eu me recuso a aceitar o que esse homem acabou de dizer.
Afinal...
Você me prometeu.
Prometeu que sobreviveria.
Você selou essa promessa com um beijo!!!!
“Mexa-se! Mexa-se! Mexa-se! Mexa-se!”
Stella continuava despejando todas as forças que possuía em seus membros imóveis.
“Mexa-se! Mexa-se! Mexa-se! Deus, por favor! Mexa-se! Vamos! Eu só preciso conseguir me levantar!”
Infelizmente, suas súplicas eram inúteis.
Por mais que Stella batesse nas próprias coxas, suas pernas se recusavam a se mover.
Ela sequer sentia dor.
A sensibilidade ainda não havia retornado.
Abalada, Stella assistia à batalha em desespero.
“Aaaah!”
Ela não conseguiu conter outro grito quando o rumo da luta mudou novamente.
Cinquenta segundos haviam se passado.
Os movimentos de Ikki pioraram ainda mais.
Surpreendentemente, ele ainda não havia sofrido nenhum golpe.
A geração de energia através da autofagia estava longe de ser suficiente.
A energia obtida dessa forma sequer podia ser comparada ao poder do Marionette King Or-Gaule.
Ikki só conseguira resistir por tanto tempo graças à sua concentração absurda.
Mas tudo chega ao fim.
A última gota de 'combustível' foi consumida.
As pernas de Ikki ficaram rígidas como pedra.
No meio da enxurrada incessante de ataques, pararam abruptamente.
Or-Gaule percebeu imediatamente.
E aproveitou a oportunidade.
Sua mão esquerda avançou para atravessar o coração de Ikki.
“...!”
Mas Or-Gaule não sentiu a resistência da carne.
O corpo de Ikki que ele atravessara foi envolvido por fumaça e desapareceu.
Uma finta.
Or-Gaule não esperava que o adversário o enganasse.
A Quarta Lâmina Secreta — Shinkiro.
Uma técnica de Ikki que utilizava movimentos precisos das pernas para criar imagens residuais e enganar o adversário.
Pouco antes de suas pernas pararem completamente, Ikki usara o restante de suas forças naquela técnica.
Ao perceber que fora enganado, Or-Gaule mudou irritadamente a posição da mão esquerda e disparou fios afiados contra Ikki.
Mas até aquele movimento havia sido previsto.
Ikki sabia que o nível técnico de Or-Gaule era extremamente baixo.
Por isso, já havia previsto que ele atacaria novamente usando os fios.
Antes que todo o seu 'combustível' acabasse, Ikki assumira a posição adequada com Intetsu.
A lâmina estava preparada para interceptar os cinco fios afiados.
A força dos fios, que havia sido suficiente para prender Stella, colidiu com Intetsu e arrancou Ikki do chão, lançando-o para trás.
Exatamente como Ikki planejara.
Ele queria usar a própria força de Or-Gaule para aumentar a distância entre os dois.
Um minuto.
Um minuto inteiro havia se passado desde o início da batalha entre Ikki e Or-Gaule.
Ikki Kurogane cumprira sua palavra.
Ao se condenar à morte diante do Marionett King Or-Goul, conquistara um minuto.
Stella não poderia deixar de responder àquela determinação.
Assim que seus membros se recuperaram completamente, ela utilizou o poder do Dragão para assumir controle direto das próprias funções cardiopulmonares.
Aumentando violentamente a velocidade da circulação sanguínea, forçou o oxigênio a percorrer todo o seu corpo.
Um cavaleiro comum precisaria de um dia inteiro para se recuperar de uma disfunção daquela gravidade.
Mas Stella não era comum.
Ela recuperou os movimentos e, impulsionando-se violentamente contra o chão, disparou em velocidade máxima na direção de Ikki.
“Estou indo...!”
Mas, naquele mesmo instante...
Or-Gaule agiu.
Sua mão direita rasgou o peito de Ikki.
“...”
Or-Gaule estava longe de ser estúpido.
No momento em que Ikki evitara o golpe da mão esquerda, o Puppet King liberara um fio e o enrolara ao redor do verdadeiro corpo de Ikki.
Ikki esperava abrir distância aproveitando o impulso do próprio golpe do inimigo.
Mas havia caído em uma armadilha.
Or-Goul puxou violentamente seu corpo de volta e atacou com a mão direita.
Os fios mergulharam profundamente no corpo de Ikki.
E então...
Or-Gaule os arrancou de uma só vez.
No mesmo instante, o peito de Ikki explodiu de dentro para fora.
Os músculos peitorais e o diafragma foram despedaçados.
Seus órgãos internos, acompanhados de uma grande quantidade de sangue, despencaram sobre o chão.
Era uma destruição irreversível do corpo humano.
“Eu amo você, Stella.”
Antes de cair em meio à poça de sangue e carne, as últimas palavras do Worst One, Ikki Kurogane, ecoaram por todo o campo de batalha.
Mesmo diante da morte...
Seu sorriso feliz jamais desapareceu.
◆
“...Ha.”
Ikki desabou no chão diante dos pés de Or-Gaule.
Suas entranhas estavam espalhadas pela terra, enquanto a poça de sangue abaixo de seu corpo aumentava rapidamente.
“A-ha-ha-ha-ha-ha!!!!”
O Marionette King Or-Gaule não conseguiu conter a gargalhada diante daquela cena terrível.
“Ele tentou lutar, mas o resultado ainda foi exatamente como eu planejei! Toda aquela resistência foi inútil! Que visão maravilhosa! A-ha-ha-ha-ha-ha!!”
Sem parar de rir estrondosamente, Or-Gaule começou a pisotear com força os órgãos de Ikki espalhados aos seus pés.
Com especial cuidado, esmagou cada um deles, um por um.
Até que finalmente seu pé tocou a parte de trás da cabeça de Ikki.
“Ei, Stella-chan.”
Or-Goul voltou o rosto para Stella, que não conseguira chegar a tempo para salvar Ikki.
“Gostou da vista?”
“...”
Diante daquela realidade impossível de aceitar, o rosto de Stella não demonstrava emoção alguma.
Seu mecanismo psicológico de defesa havia entrado em ação.
Por algum tempo, ela simplesmente perdeu toda a sensibilidade emocional.
Com passos lentos e cambaleantes, Stella caminhou em direção ao corpo de Ikki, agora transformado em uma massa ensanguentada.
“Oh, que pena. Parece que você não gostou muito da aparência atual de Ikki-kun.”
Or-Gaule falou sem se afastar do cadáver.
“Stella-chan, se você não tivesse esquecido que eu poderia me levantar mesmo depois de morrer, Ikki-kun não teria cometido aquele erro e não teria morrido. Não... pensando bem, prefiro dizer de outra maneira.”
Ele abriu um sorriso cruel.
“Stella-chan, você entende que, se nunca tivesse conhecido Ikki-kun, ele continuaria sendo apenas um simples cavaleiro Rank-F...? E jamais teria encontrado este destino miserável de virar um cadáver patético, que só serve de comida para cachorro!?”
Era uma verdade cruel.
Uma realidade impossível de aceitar.
Or-Gaule deliberadamente chamava atenção para fatos que não podiam ser simplesmente negados.
E então...
“Tudo isso é culpa sua, Stella-chan!”
Ele ergueu o pé.
“Foi você quem matou Ikki-kun!!!!”
E esmagou a cabeça de Ikki diante dos olhos de Stella.
“...Eu não...”
O crânio foi destruído.
O cérebro começou a escorrer para fora.
Além do sangue, o solo passou a ser molhado pelo fluido cerebral.
Aquele golpe...
Rompeu o último fio de sanidade dentro da mente de Stella.
“GRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGHAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!”
Junto a um grito ensurdecedor, uma chama abrasadora explodiu do corpo de Stella.
Era poderosa o suficiente para incendiar os céus.
E carregava uma dor tão intensa que parecia capaz de partir o coração de todos que a ouviam.
Um grito que anunciava que sua consciência estava à beira da destruição.
O desespero diante daquela realidade brutal a estava destruindo por dentro.
E, finalmente...
“HAAA ■ HAAAA ■ HAAAA ■■■■■■■ HA ■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■!!!!!!!!!!”
A desintegração de sua consciência começou a assumir uma forma visível.
O grito de tristeza gradualmente se transformou no rugido de uma criatura monstruosa.
E a aparência de Stella, refletida nas chamas, começou a perder cada vez mais seus traços humanos.
Um par de enormes chifres surgiu no centro de sua cabeça.
Asas dobradas brotaram de suas costas.
Uma longa cauda pontiaguda se estendeu a partir do cóccix.
Excessive Awakening.
O fenômeno no qual a aparência física assumia a verdadeira forma da alma depois que esta abandonava sua humanidade ao alcançar o Awakening.
Não havia dúvida.
Aquela transformação havia sido causada pela destruição da consciência de Stella.
Ao testemunhar sua nova aparência, Nene Saikyou empalideceu mortalmente.
Excessive Awakening não era simplesmente mais um estágio no aumento do poder de um Blazer.
Aquele fenômeno realmente transformava uma pessoa em um demônio.
Anteriormente, Nene havia descoberto por experiência própria que um poder daqueles não podia ser controlado.
Isso é muito ruim!!
Uma quantidade absurda de calor bem no meio de uma multidão tão densa!
“Fujam daqui!!!!”
Nene gritou de sua posição elevada para todas as pessoas abaixo.
“Todo mundo, corram para o mais longe possível!!!!”
Mas Nene percebeu imediatamente que nem todos seriam capazes de obedecer à ordem de evacuação. De uma grande altura, ela tinha uma visão clara dos habitantes de Cledland.
Muitos estavam feridos. Não conseguiriam ir muito longe. Por outro lado, Or-Gaule saltou para longe no mesmo instante, escapando do calor escaldante emitido por Stella.
“A-ha-ha-ha! Isso! Muito bom! Esse era o grito que eu esperava de você, Stella-chan!! Eu queria tanto ver sua tristeza! Sonhava em sentir seu desespero!! Ah, como é doce... e delicioso! Como é maravilhoso continuar vivo e poder desfrutar de todos esses sentimentos!”
A tristeza de Stella por ter perdido a pessoa que amava.
O desespero dos habitantes de Vermillion, obrigados apenas a assistir enquanto sua querida Stella destruía a si mesma.
A frustração de Nene enquanto tentava inutilmente controlar a situação.
A confusão das pessoas que sequer sabiam para onde fugir.
Todas aquelas emoções se misturavam e formavam um caos puro.
Exatamente aquilo que mais agradava Or-Gaule.
“Vamos...! Grite ainda mais alto! Sofra ainda mais! Você sempre teve um sorriso enorme e feliz no rosto! Eu quero sorrir exatamente como você!”
Nem mesmo quando realizou o massacre em seu aniversário Or-Gaule havia rido com tanta felicidade.
Aquilo não era justo.
Todas as criaturas deste mundo tinham direito à felicidade.
Todos deveriam poder rir com um sorriso tão radiante e largo quanto o de Stella.
“Vamos...! Chore ainda mais! Mais raiva! Mais desespero! Destrua tudo aquilo que tentou proteger durante toda a sua vida! Essa comédia... será o começo perfeito para uma era de destruição e caos!!!!”
Dor intensa.
Desespero.
Or-Gaule queria subjugar tudo aquilo.
Manipular os fios de Stella.
Dar aquele empurrão decisivo após o qual já não haveria retorno.
Só mais um pouco e seu plano estaria concluído.
“■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■ ~~~~~~ ~~~!!!!”
“...!?”
Os fios de Or-Gaule não conseguiram alcançar Stella.
No instante em que ele já estava próximo, Stella bateu a cabeça violentamente contra o chão.
“AAAAAAAAaaaaa...”
Depois de alguns instantes, Stella tornou a bater a cabeça contra o solo com força.
De novo.
E de novo.
Aquele comportamento começou a preocupar Or-Goul.
Ela perdeu completamente o ego durante o Excessive Awakening?
Seria compreensível. Afinal, alguém que ela amava acabara de morrer diante de seus olhos.
...Mas havia alguma outra coisa estranha em seu comportamento, algo que não podia ser explicado tão facilmente. Stella estava longe de estar calma, mesmo assim, o calor abrasador que estivera prestes a alcançar um ponto crítico diminuiu abruptamente em intensidade.
“...Ei! Não era isso que eu queria!”
Or-Gaule gritou enquanto a observava de cima.
Ele esperava que as emoções dominassem Stella por completo e que ela queimasse tudo ao redor. Era um resultado perfeitamente previsível considerando o que ela estava sentindo.
Sua aparência já não era humana.
Pele escurecida, padrões em certas partes do corpo que lembravam escamas de dragão, asas, uma cauda pontiaguda e enormes chifres.
Toda aquela transformação fora causada pelo Excessive Awakening. Então por que Stella ainda não havia perdido completamente a razão?
“Ei! Ikki-kun morreu naquela luta idiota tentando proteger você, Stella-chan! Ele só morreu por sua culpa! Você não vai ficar com raiva!? Não quer chorar e implorar perdão!? Você é tão insensível assim?”
Or-Gaule tentou provocá-la novamente.
Mas...
“Mentiroso...! Você não me prometeu...!?”
Stella gritou com todas as forças. Sua voz era normal, humana. O rugido monstruoso havia desaparecido completamente.
◆
“Mentiroso...! Você não me prometeu...!?”
As palavras gritadas por Stella não eram dirigidas a Or-Gaule.
Naquele momento, ela sequer conseguia ouvir a voz dele.
Então para quem gritava? Quem estava repreendendo?
Diante de seus olhos havia apenas o cadáver de seu amado.
“Mentiroso...!”
Lágrimas continuavam descendo por suas faces enquanto sua raiva explodia em calor abrasador. Seu olhar tomado pela fúria estava fixo nos restos de Ikki, morto tragicamente pelo inimigo.
“Você prometeu que sobreviveria! Disse que não deixaria ninguém ficar ao meu lado!”
Uma acusação.
Ele não havia cumprido sua promessa.
“Ikki, seu mentiroso!!!!”
Eu sabia que existia muito sofrimento neste mundo, mas nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer comigo. É difícil até respirar por causa da tristeza que tomou conta do meu coração.
A dor está me rasgando por dentro, eu não consigo suportá-la. Será que eu não poderia simplesmente parar de respirar? Assim eu morreria antes que essa dor terminasse de me destruir.
Como alguém consegue aceitar uma perda dessas? Se eu pudesse simplesmente esquecer tudo... quanto tempo levaria?
“~~~~~~~~~...!”
“...Espero que você não se arrependa de ter me conhecido...”
Antes de morrer, Ikki dissera aquelas palavras.
“...Eu sou muito feliz por ter conhecido você ...Eu amo você...”
Ninguém o havia obrigado a dizer nada daquilo.
Imperdoável.
Se você me amava tanto assim, deveria ter entendido como seria me deixar sozinha. Eu só queria que você continuasse me amando e vivendo. Eu só queria que não me abandonasse. Eu só queria que não morresse.
“Você se sacrificou para me proteger...! Ikki, você sabia que eu não queria nada disso!! Você conhecia perfeitamente os meus desejos e mesmo assim os ignorou!”
Pela primeira vez na minha vida, estou sentindo tanta raiva de alguém.
“Eu não vou perdoar...! Jamais vou perdoar você!! Quer saber por que eu nunca vou me arrepender da minha escolha!? Porque eu também não me importo com o que você queria! O que tem a dizer sobre isso!? Foi você quem pisoteou meus sentimentos primeiro! Eu pensei que estivesse falando sério quando disse aquelas coisas! E durante todo esse tempo você só estava brincando comigo!”
Isso mesmo.
Eu não sei o que Ikki queria.
E que diferença faz agora?
Os desejos dele nunca mais poderão se realizar.
Nunca.
Mas...
“Eu jamais vou me arrepender de nada que aconteceu desde o momento em que conheci você. Essa é a minha decisão!”
“...!?”
Stella ergueu abruptamente o olhar dos restos de Ikki e encarou Or-Gaule, que ainda parecia confuso com suas ações.
Mesmo que doa tanto que eu queira morrer.
Mesmo que eu esteja tão triste que mal consiga respirar.
Eu jamais vou jogar fora ou esquecer todo o tempo que passei com você.
Mas, antes disso, preciso enfrentar o inimigo.
Mesmo que meu coração esteja sendo despedaçado.
Ikki sentira orgulho dela até o último segundo. Mesmo diante da morte, não abandonara seus sentimentos. Tinha orgulho de todo o tempo que passara com ela. Orgulho da rivalidade entre os dois, orgulho dela.
Eu não posso trair esse orgulho!
“Eu vou provar para você que fiquei muito mais forte desde o nosso primeiro encontro...! Eu, Stella Vermillion, não estive perseguindo você durante todo esse tempo por nada!! E vou ficar ainda mais forte! Vou fazer você desejar estar ao meu lado outra vez!!!!”
Stella gritou enquanto erguia a espada bem acima da cabeça.
Ela estava completamente pronta para lutar.
Ikki Kurogane havia escolhido um caminho que o levou à morte.
Mas Stella continuaria abrindo, com sua espada, um caminho que a levasse à vida.
“Onii-sama lutou para proteger você e ainda assim você fez todo esse drama.”
“...Hã?”
Logo após suas últimas palavras, uma voz ecoou.
Aquele tom sombrio era familiar demais.
Stella virou a cabeça imediatamente.
E viu alguém que não deveria estar ali.
Atrás dela...
“Mas fico feliz que você tenha recuperado a razão. Afinal, se dissesse que teria sido melhor nunca ter conhecido Onii-sama, eu teria partido para cima de você como fiz durante as eliminatórias da Academia Hagun.”
[Almeranto: Nossa querida Shizuku chegou!!!]
Ali estava uma pequena garota de cabelos prateados e brilhantes.
Lorelei — Shizuku Kurogane.
◆
“Quanto tempo, Stella-san. Desde nosso último encontro, você ficou bem queimada. Nunca imaginei que o visual ganguro voltaria à moda.”
Shizuku brincou.
[Almeranto: Ganguro é uma tendência da moda gyaru caracterizada por bronzeamento extremamente intenso, batom branco e delineador branco. Resumindo: um visual bem chamativo.]
A aparição repentina da garota no campo de batalha deixou Stella completamente atônita.
“Por que você está aqui...!?”
“Há poucos cavaleiros especializados em técnicas médicas no seu Império de Vermillion. Por isso, a sede da Liga solicitou auxílio a outros países membros. Em condições normais, a Medico Knight deveria ter vindo ajudar vocês. Mas o Japão está extremamente instável no momento, então vim no lugar dela. Mesmo sem esse pedido, eu teria encontrado algum jeito de vir como voluntária.”
Shizuku disse aquilo enquanto caminhava calmamente em direção a Stella.
Diretamente...
Ao cadáver de Ikki.
“Oh, você é aquela irmãzinha que chorou desesperadamente junto ao corpo do irmão quando ele quase morreu depois do ataque de Amane-kun.”
Or-Gaule abriu um sorriso enorme.
“Como pode ver, seu precioso irmão agora não passa de uma mancha ensanguentada no chão. O que acha da visão? O que está sentindo? Vamos, não contenha suas emoções...! Por favor, deixe-me ouvir seu grito de desespero! Espero que seja tão agradável quanto o de Stella-chan.”
Por meio de seu fantoche Reisen Hiraga, Or-Gaule sabia perfeitamente o quão forte era o vínculo entre Shizuku e seu irmão.
Mas...
“Concordo. Onii-sama sempre gosta de agir de maneira imprudente. Parece que ele simplesmente não sabe fazer as coisas de outro jeito...”
“...!”
Durante todo aquele tempo, Shizuku manteve os olhos nos restos de seu amado irmão diante dela.
Mas, em vez de desespero ou dor...
Seus olhos irradiavam uma profunda ternura.
“...Ele é esse tipo de pessoa. É justamente por isso que eu o amo. Você também deveria se acostumar com isso, Stella-sama.”
Shizuku sorriu e deu de ombros.
Não havia tristeza em seus olhos.
Apenas amor.
Uma luz brilhante resplandecia neles.
“Shizuku...?”
Por quê...?
A atitude da garota deixou não apenas Stella confusa, mas também Or-Gaule.
Os dois esperavam que Shizuku atacasse imediatamente o homem que havia matado seu irmão.
Seria a reação mais natural.
Mas agora...
Parecia que uma pessoa completamente diferente estava diante deles.
No passado, Shizuku havia gritado e chorado desesperadamente quando seu irmão quase morreu.
Aquilo acontecera depois da semifinal do Festival de Batalha das Sete Estrelas.
A desgraça provocada por Shinomiya Amane.
Ikki quase morrera por causa de seu Nameless Glory.
“Stella-sama, por que está me olhando com tanta surpresa? Eu prometi a mim mesma que jamais deixaria meu irmão morrer antes de mim. Aquela situação absurda... jamais voltará a acontecer!”
“Hã?”
Enquanto todos ainda tentavam processar suas palavras, Shizuku finalmente alcançou Stella.
Mais um passo.
E ela estava ao lado do cadáver do irmão.
Ajoelhando-se e unindo as mãos como se fosse rezar, Shizuku fechou os olhos.
Eu me lembro daquele medo e daquele desespero.
Onii-sama estava morrendo em meus braços, e eu não podia fazer absolutamente nada.
Ainda me arrependo daquele dia em que Onii-sama deixou nossa casa.
Foi então que jurei para mim mesma que sempre o seguiria.
Eu apenas chorei e me enfureci... enquanto aquela sensação de impotência apertava meu coração. Não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer para salvar Onii-sama.
Nada.
Tive sorte de Kiriko-sensei ter chegado a tempo.
Onii-sama é imprudente demais.
Coisas assim vão continuar acontecendo com ele. Se eu não for capaz de protegê-lo da tentação da morte, um dia ele certamente vai me deixar.
Foi por isso que procurei Kiriko-sensei e pedi que me ensinasse.
Cerrei os dentes diante de uma dor insuportável e permaneci consciente de propósito para experimentar em meu próprio corpo a maior técnica de cura da Medico Knight.
Absorvi todo o conhecimento e todas as habilidades dela. Eu mudei.
Já não sou a garota que só consegue chorar.
Ikki Kurogane.
Seu querido Onii-sama...
Estava morto.
Não importava o quão poderosa fosse uma técnica de cura.
Era tarde demais.
Nem mesmo Kiriko-sensei, a maior cavaleira médica, conseguiria salvar Ikki da morte.
Ressuscitar os mortos ainda era terra incognita para a humanidade.
Ikki jamais poderia retornar.
Aquilo era um fato.
Uma consequência.
Um destino.
Então...
O que fazer?
Eu prometi a mim mesma que não permitiria que ninguém o tirasse de mim. Só uma mulher pode ficar ao lado dele. Só uma mulher pode fazê-lo sorrir.
Mesmo que Deus tente tirar Onii-sama de mim, eu vou matar Deus!
Se o destino tentar levar Onii-sama embora, eu destruirei o destino!
Ninguém tem o direito de fazer algo assim...
Ninguém além de mim.
Shizuku Kurogane.
Porque a felicidade de Ikki é a minha felicidade!
Minha decisão não vacilará diante de nenhuma realidade cruel! Trazer Onii-sama de volta? Isso é fácil.
Meu amor pode superar até mesmo o destino.
“Blue World.”
◆
No instante em que Shizuku pronunciou o nome da técnica, um brilho mágico irrompeu de seu corpo.
Uma luz azulada, quente e suave.
Não era tão intensa quanto as chamas ardentes de Stella.
A luminosidade permaneceu irradiando de Shizuku por alguns instantes antes de se concentrar atrás dela e assumir a forma de asas angelicais.
Shizuku abriu suavemente aquelas asas. Penas brilhantes flutuaram pelo ar e começaram a cair sobre o cadáver de Ikki.
No mesmo instante...
O sangue e a carne de Ikki que entravam em contato com as penas angelicais começaram a se decompor em partículas azuladas e fosforescentes.
“Isso é... Blue Samsara...!?”
Stella exclamou ao testemunhar aquele fenômeno incomum.
“Quase.”
“Blue World é uma versão aprimorada de Blue Samsara.”
“Diferente de Blue Samsara, ela pode ser usada em outras pessoas.”
“Usei deliberadamente essa técnica em Onii-sama para decompor seu corpo em células individuais… E então reconstruí-lo.”
“Você consegue fazer algo assim!?”
“Eu não vou parar até conseguir.”
Palavras bastante convincentes.
Shizuku estava determinada a ressuscitar Ikki.
“Stella, eu sempre vou ajudar Onii-sama, esse é o meu papel, e sou a única capaz de fazer isso. Mas não esqueça de uma coisa: também existem coisas que só você consegue fazer, Stella.”
Shizuku abriu os olhos.
Seu olhar se voltou diretamente para o cadáver reanimado de Or-Gaule.
“Olhe para a cabeça de Or-Gaule, o príncipe de Kledland a destruiu completamente, mas agora ela recuperou a forma. Porém, Stella, se observar com atenção, vai perceber que ela foi reconstruída com vários tipos de lixo e destroços. Minha técnica Blue World cura diretamente o corpo.”
“Já a técnica Games of the Dead de Or-Goul apenas reúne as partes espalhadas e as costura com detritos usando seus fios.”
Então ele não poderá se recuperar outra vez se eu transformar seu corpo em cinzas...!
Stella compreendeu.
[Almeranto: Ela deveria ter feito isso no momento que ele estava ainda “morto” no chão.]
Embora o Marionette King pudesse controlar diretamente as partes de seu próprio corpo, não poderia fazer nada contra cinzas.
Ela finalmente descobrira como derrotar aquele inimigo imortal.
Precisava apenas queimar por completo o corpo de Or-Gaule.
Cada parte.
Cada célula.
Sem deixar absolutamente nada que pudesse ser reconstruído.
“Então foi por isso que Ikki sacrificou a própria vida para me salvar...”
“Se finalmente entendeu tudo, por favor, cuide desse lixo.”
Shizuku falou friamente.
“Ele já me irritou o bastante.”
Em seguida, fechou os olhos novamente.
Agora precisava se concentrar em sua Noble Art.
Não podia mais desperdiçar atenção com conversa.
Cada vez mais partes espalhadas do corpo de Ikki se desfaziam em partículas azuladas e fosforescentes.
Elas formavam pequenas esferas que começaram a circular ao redor de Shizuku.
Para ser sincera, Stella estava preocupada.
Não sabia se Shizuku realmente teria sucesso.
Mas expulsou aquele pensamento de sua mente imediatamente.
Stella sabia que Shizuku era alguém em quem podia confiar.
Ela definitivamente restauraria Ikki.
Isso nem sequer estava em discussão.
Em vez de ficar duvidando, agora preciso fazer aquilo que me disseram.
Mas, antes disso, preciso me preparar.
“Todos, prestem atenção!!!!”
Stella gritou.
Seu chamado era dirigido a todos os soldados de Vermillion e da Liga reunidos no campo de batalha.
“Agora mesmo eu vou usar todo o meu poder para destruir esse lixo! Mas preciso da ajuda de vocês! Quem ainda conseguir ficar de pé, ajude os outros! Protejam uns aos outros, deem uma mão a quem precisar! Assim ninguém vai morrer...! Nem eu, nem Ikki, nem vocês! Todos nós vamos sobreviver e voltar juntos para Vermillion!!”
“Hime-sama...! Você voltou ao normal!”
“Isso! Nossa Stella-sama ainda está lutando! Nós também não vamos desistir!”
“Avancem, avancem, avancem! Formem um círculo defensivo! Protejam os cidadãos de Cledland e todos os feridos!”
“SIMMMMMMMMM!!!!”
O exército de Vermillion foi o primeiro a responder às palavras de Stella e começou imediatamente a reorganizar sua formação.
Diversos cavaleiros avançaram e formaram um círculo de trinta metros de diâmetro, mantendo Or-Gaule no centro.
Pretendiam servir como escudos humanos entre o inimigo e os habitantes de Kledland.
Os soldados comuns, que não possuíam poder mágico, correram até os feridos e começaram a levá-los para regiões mais profundas de Kledland, longe da barreira.
A coordenação era impecável.
Sem movimentos desnecessários, cada um executava sua função com rapidez.
A atmosfera de pânico e agitação desapareceu.
Pouco antes, o estado de Stella havia mergulhado todos no desespero.
Agora, porém, ela conseguira reacender o espírito de luta de todos e devolver-lhes a confiança.
“Ei, Stella-chan! Você está mesmo bem!?”
Nene perguntou com preocupação na voz.
A aparência de Stella já estava muito distante daquela de um ser humano comum.
Nene sabia por experiência própria que aquele poder demoníaco era capaz de destruir a consciência de uma pessoa.
Mas...
“Está tudo bem.”
Stella respondeu imediatamente.
Havia uma convicção inabalável em sua voz.
Na verdade, Stella sentia exatamente o mesmo que Nene sentira ao passar pelo Excessive Awakening.
Um desejo ardente, semelhante a uma correnteza violenta, continuava percorrendo seu peito.
Era uma raiva incomensurável dirigida a Or-Gaule.
Se relaxasse por um único instante, aquela raiva corroeria sua mente e queimaria tudo dentro dela junto com a tristeza e as demais emoções.
Mesmo assim, Stella afirmava com firmeza que estava bem.
Porque já havia superado seus arrependimentos.
Embora estivesse consumida pela raiva e pela tristeza, não se arrependia de ter conhecido Ikki.
Durante todo aquele tempo, as costas daquele homem estiveram diante dela.
Como um objetivo inalcançável, Stella tentara alcançá-lo inúmeras vezes.
Por isso, jamais permitiria que aquelas costas desaparecessem diante de seus olhos.
“Você não precisa se preocupar. Não importa o que aconteça, eu jamais vou perder a mim mesma.”
Ela só precisava manter sob controle aquele fluxo turbulento de emoções.
Sem aquele poder, seria difícil enfrentar a técnica Games of the Dead do inimigo.
Stella disse tudo aquilo enquanto encarava Nene diretamente nos olhos.
“Certo. Nesse caso, evite uma batalha prolongada! Você precisa acabar com ele usando uma única técnica poderosa! Eu, Demon Princess, juro que vou proteger todas as pessoas daqui contra esse seu poder monstruoso. Então não se preocupe com ninguém ao redor e ataque com toda a sua força! Mas lembre-se do mais importante: você precisa destruí-lo com um único golpe!”
Nene falou depois de uma breve pausa.
“Entendi!”
Stella assentiu com força.
Depois das palavras de Nene, já não precisava se preocupar com as pessoas ao redor.
Seu olhar se voltou para Or-Gaule.
“Todo mundo ficou tão animado de repente...”
Or-Gaule começou a falar em um tom irritado.
“Acham mesmo que Ikki-kun vai voltar à vida? Impossível! Ikki-kun está morto! Não conseguem entender isso só de olhar para aquele cadáver com as tripas para fora!?”
A cada palavra, sua voz se tornava mais furiosa e sua expressão mais sombria.
Quando matou Ikki, Or-Gaule queria testemunhar o sofrimento de Stella.
Sua tristeza.
Seu desespero.
Mas ela se mostrara muito mais forte do que ele imaginava.
Conseguira superar a dor causada pela morte de Ikki e ainda reacendera a determinação de todas as pessoas ao redor.
Tudo aquilo era extremamente desagradável para Or-Gaule.
“Pois bem, então vou ter que matar ainda mais gente! Vamos ver quanto tempo essa sua determinação consegue durar! Vou provar que esses truques de vocês não significam nada diante do Marionette King!”
Assim que terminou de falar, Or-Gaule entrou em ação.
Sem tentar esconder sua intensa irritação, moveu violentamente a mão direita e estalou os dedos.
Um brilho prateado semelhante a um chicote cortou o céu.
Até então, Nene havia enfrentado aqueles ataques.
Agora, porém, concentrava todas as suas forças em proteger os demais do poder de Stella.
Assim, toda a fúria de Or-Gaule caiu sem obstáculos sobre os soldados.
“HAAAAAAAAAAAAAA!!!!”
Entretanto...
Seu ataque falhou.
“...Hã!?”
“Só mais um pouco...!”
“Precisamos de ajuda! Nossa fileira está no limite!”
“Entendido! Quem puder, vá ajudar!”
“Ei! Você aí atrás de mim! No instante em que o golpe atingir meu escudo, me dê o máximo de apoio possível! Mas não exagere!”
Os cavaleiros começaram rapidamente a alterar sua formação.
Depois de superar o medo provocado por Or-Gaule, reduziram o círculo ao redor dele de trinta para vinte metros, aumentando assim a espessura de sua defesa.
Os cavaleiros da primeira fileira, equipados com escudos, recebiam apoio da segunda.
A segunda era sustentada pela terceira.
A terceira, pela quarta.
E a quarta, pela quinta.
Ao reorganizar rapidamente a formação em torno de Or-Gaule, as forças combinadas de Vermillion e dos cavaleiros-magos da Liga reduziram drasticamente o poder dos ataques inimigos.
“Conseguimos, Comandante Supremo Dandalion!”
O velho espadachim que havia chegado ao campo de batalha junto de Shizuku e comandado o destacamento enviado para Kledland assentiu, satisfeito.
“Muito bem. Se não conseguimos lidar com algo individualmente, basta unirmos nossas forças. Todos os nossos companheiros estão aqui. Juntos, somos capazes de qualquer coisa... diferente daquele sujeito.”
“Tsk...”
Or-Gaule estalou a língua, irritado.
Sua expressão ficou ainda pior depois de ver seu ataque ser repelido.
“...Então e quanto a isto?”
Sua próxima intenção era interromper a recuperação de Ikki.
Shizuku ainda estava dentro do círculo defensivo formado pelos soldados.
Como o cadáver de Ikki permanecia ali, ela não podia deixar aquela área perigosa.
Naquele momento, Shizuku realizava a extremamente delicada tarefa de decompor o corpo de Ikki em células individuais para depois reconstruí-lo.
Era evidente que qualquer interferência poderia arruinar seu trabalho.
Por isso, Or-Goul decidiu direcionar sua raiva contra ela.
“HAAAAAAAAAAAAA!!!!”
“...!”
Mais uma vez, o ataque de Or-Gaule falhou.
Um enorme machado envolto em chamas desviou seus fios.
“Nem pense nisso! Agora eu sou seu alvo!”
Sirius gritou enquanto usava seu Device como escudo para proteger Shizuku e Ikki.
Duas vezes.
Duas vezes aquele peixinho insignificante havia interferido em seus planos.
Era como se todos estivessem zombando de Or-Gaule.
“Vocês não passam de lixo debaixo dos meus pés! Toda essa resistência é completamente inútil! Mas não importa! Meu Puppet Theater vai mostrar a todos quem manda aqui...!”
Se Or-Gaule transformasse todos em marionetes, já não precisaria lidar com Sirius nem com os outros.
Entretanto...
“Eu não vou deixar!!!!”
“Gha!”
Naturalmente, Stella não ficaria parada assistindo.
Abrindo suas asas flamejantes, ela reduziu a distância entre os dois a uma velocidade assustadora e avançou com sua enorme espada para atravessá-lo.
“HAAAAAAAAAAAAA!!!!”
Sem qualquer hesitação, atacou com tudo.
Mas Or-Gaule estava preparado.
Naquele momento, todas as suas habilidades como 'marionetista' estavam concentradas exclusivamente em seu próprio corpo.
Era justamente isso que lhe permitira superar a força do Dragão de Stella na batalha anterior.
“Stage Wear.”
Uma vestimenta criada a partir de seus fios espirituais surgiu sobre seu corpo.
Ela era capaz de protegê-lo até mesmo dos ataques de Stella usando toda a sua força.
[Almeranto: No original, Stage Wear aparece como 活劇衣装 e também poderia ser traduzido como 'traje teatral'.]
Or-Gaule pretendia atacar Stella diretamente com os punhos, cuja força física havia aumentado depois do Games of the Dead.
Um ataque como aquele deveria ser muito mais eficiente do que usar fios cortantes.
Mas...
Eu calculei errado...!?
A previsão de Or-Gaule foi completamente destruída pelo primeiro golpe da espada de Stella.
O poder ofensivo dela excedia tudo o que ele imaginara.
Mas aquilo era óbvio.
Stella agora lutava com um corpo transformado pelo Excessive Awakening.
Aquela aparência incomum era a manifestação física de sua alma, que havia abandonado os limites da humanidade.
As capacidades daquele corpo não podiam sequer ser comparadas às de um corpo humano comum.
Assim que o golpe de Stella atingiu Or-Gaule, seu corpo foi arrancado do chão e lançado para trás sob os gritos de incentivo dos soldados.
Centenas de milhares deles começaram a torcer por Stella.
“~~~~~~!”
Aquela enorme onda de apoio colocou ainda mais pressão sobre Or-Gaule.
Enquanto isso, Stella apenas aumentava o ritmo e atacava com cada vez mais força.
Incapaz de resistir à ofensiva por mais tempo, Or-Gaule cambaleou e perdeu o equilíbrio.
Exatamente o que Stella queria.
Com um movimento rápido, Lævateinn cortou a perna de Or-Gaule.
“Isso! Ela conseguiu!”
“Hime-sama! Você precisa acabar com ele com um único ataque!”
A perna decepada foi imediatamente engolida pelas chamas.
Antes mesmo de tocar completamente o chão, desfez-se em pó negro.
Or-Gaule, agora sem uma das pernas, caiu.
Era o momento decisivo.
Stella jamais desperdiçaria uma oportunidade daquelas.
Saltou sobre o peito de Or-Gaule e o pressionou contra o chão com toda a sua força.
Imobilizado, o inimigo já não conseguia resistir.
Stella ergueu Lævateinn e preparou-se para atravessar Or-Gaule.
“Acabou! Sozinho, você jamais poderá me derrotar!”
A espada começou a descer.
Mais um pouco...
E aquela lâmina envolta em calor atravessaria o corpo de Or-Gaule e queimaria cada uma de suas células.
Pouco antes de ser completamente 'aniquilado', os sorrisos brilhantes de todos os habitantes que ele assassinara durante sua festa de aniversário ressurgiram na mente de Or-Gaule.
“Eu nunca gostei de estar sozinho!!!!”
“...!”
“Eu percebi essa verdade há muito tempo! Ninguém me compreendia porque todos tinham valores diferentes dos meus! E não havia nada que eu pudesse fazer a respeito!!”
Um grito.
Um rugido furioso brotou do peito de Or-Gaule.
Cerrando com força o punho direito, ele o disparou contra Stella.
Normalmente, estando imobilizado daquela maneira, jamais conseguiria atingir o oponente.
Mas agora o próprio Or-Gaule era uma marionete.
Seu corpo inteiro havia sido costurado a partir de incontáveis partes.
Separando a mão direita do antebraço, Or-Gaule a lançou violentamente contra o queixo de Stella.
Um golpe absurdo.
Ao receber tamanho impacto, o corpo de Stella foi lançado para o alto.
Ela não sofreu danos significativos.
Mas a distância entre ela e Or-Gaule foi aberta novamente.
“Eu não sou mau! São vocês que estão me transformando em vilão! Mesmo agora, obedecendo à lógica egoísta de vocês, estão tentando me matar!! Eu só queria conseguir rir alegremente como todo mundo!! Demônio! Eu sou o demônio que existe do outro lado daquilo que vocês chamam de 'certo'! Eu quero rir! Vou rir sobre o cadáver de vocês! Vou matar todos usando o meu 'poder' e esmagar toda essa 'justiça' que vocês tentam impor à força sobre este mundo! Eu vou criar meu próprio mundo, onde poderei sorrir em paz!!!!”
Uma aura negra e sinistra explodiu instantaneamente de todo o corpo de Or-Gaule enquanto ele gritava.
Sua mão esquerda apontou para Stella.
Puxando-a para trás, preparou-se novamente para estalar o polegar contra o dedo médio.
Seu Stage Wear se desfez completamente em incontáveis fios afiados.
Or-Gaule estava prestes a usar a mais poderosa Noble Art à sua disposição.
Le Grand-Guignol.
Uma técnica cujo poder não podia ser comparado ao Grand Guignol comum.
No instante em que concluísse sua preparação, centenas de milhares de fios se espalhariam por toda a região administrativa.
Não.
Aquele poder, que podia ser chamado de culminação do Marionette King, destruiria todas as pessoas em Lucerne.
Or-Gaule pretendia encerrar a guerra inteira com aquele massacre.
Diante da expressão furiosa e da aura emanada por ele, os instintos de Stella soaram o alarme.
Ela não podia recuar.
Uma batalha entre Desperados era uma batalha pelo próprio destino.
Naquele momento, o inimigo desejava a vitória com toda a sua alma e todo o seu corpo.
Se Stella fugisse agora, não teria outra chance.
Quem vencesse aquela batalha venceria a guerra.
“Rasgue os céus, chamas do purgatório!”
Voando alto no céu, Stella também decidiu utilizar sua técnica mais poderosa.
Um intenso brilho carmesim subiu aos céus e tingiu toda a região, transformando a noite em um dia luminoso.
Entretanto, havia uma escuridão que nenhum raio de luz conseguiria alcançar.
Luz contra trevas.
Duas manifestações mágicas de cores opostas tingiram o mundo.
Mas forças tão incompatíveis não poderiam coexistir por muito tempo.
E então...
O momento chegou.
As asas do Dragão bateram com força no alto.
Usando-as para acelerar o próprio corpo, a Princesa Carmesim mergulhou rapidamente.
Desceria o máximo possível.
E derrotaria o Marionette King usando sua técnica mágica mais poderosa.
Ao mesmo tempo, Or-Goul concentrava toda a sua magia na mão esquerda.
Reunindo cada fragmento de seu poder, preparou-se para puxar o gatilho de sua técnica e destruir tudo ao redor.
A distância diminuía rapidamente.
O choque entre os poderes mágicos branco e negro produziu uma aurora na atmosfera.
E então...
“Queime tudo até não restar nada! Karsalitio Salamandra!!!!”
“Recebam seus aplausos! Le Grand—”
Naquele mesmo instante...
“...Hã?”
O corpo de Or-Goul foi coberto por profundos cortes.
◆
Tomada pela adrenalina, Stella não percebeu imediatamente.
Mas, quando viu aquela estranha cena com os próprios olhos, sua mente retornou à batalha de um minuto entre Ikki e Or-Gaule.
Stella havia observado atentamente aquela luta.
E lembrava-se de que, com exceção do ataque final, ela havia sido praticamente unilateral.
Ikki tomara a iniciativa desde o começo e atacara Or-Gaule inúmeras vezes.
Porém...
Se comparasse o número de ferimentos sofridos e regenerações realizadas por Or-Gaule com o número de ataques feitos por Ikki...
Os números não batiam.
Ikki havia atacado muito mais vezes do que Or-Gaule precisara se regenerar.
Stella conhecia perfeitamente a verdadeira habilidade de Ikki Kurogane.
Por isso, percebeu imediatamente que havia algo estranho.
Mas, naquele momento, não conseguira compreender...
O que Ikki estava planejando?
Agora, porém, a resposta estava diante de seus olhos.
Aqueles cortes que subitamente se abriram no corpo de Or-Gaule não haviam sido provocados por Stella.
Tinham sido obra do Worst One, Ikki Kurogane.
[Almeranto: Até na morte o cara é foda meu, pqp.]
Naquela batalha em que comprava tempo para Stella se recuperar, Ikki havia utilizado dois tipos diferentes de ataque simultaneamente.
O primeiro consistia em golpes comuns de espada, perfeitamente visíveis aos olhos humanos.
O segundo...
Era um tipo especial de golpe destinado a decidir o resultado da batalha.
Ataques retardados.
Feridas que permaneciam fechadas e só se abririam quando o alvo utilizasse força ou movimentos excessivos.
A Quinta Lâmina Secreta — Kuruisakura.
[Almeranto: Kuruisakura (狂い桜) pode ser entendido como 'Cerejeira Enlouquecida' ou 'Loucura da Cerejeira'.]
Não importava quantas vezes alguém fosse atingido por aquela técnica.
No momento do golpe, o alvo não sofreria dano visível.
As feridas só se abririam no instante crítico, justamente para alterar o resultado da batalha.
Isso mesmo.
Ikki não estava apenas ganhando tempo para Stella.
A habilidade de Or-Gaule como combatente era baixa demais.
Ele jamais conseguiria perceber ataques tão engenhosos.
Mas Stella...
Ela conseguiria entender.
O formato escolhido para aquela guerra havia sido uma Battle Royale.
Ikki levara em consideração todos os fatores ao seu redor e conduzira a guerra até sua linha decisiva final.
Ele sabia que Stella sempre vinha atrás dele.
Por isso, jamais duvidara da vitória dela.
E...
Todas as suas estratégias produziram exatamente o resultado que Ikki havia planejado.
“Droga...!”
O dano surgiu de maneira repentina demais.
Tudo diante dos olhos de Or-Gaule ficou branco.
Um erro fatal.
Por causa daqueles ferimentos, Or-Gaule não conseguiu completar Le Grand-Guignol.
Seus fios não assumiram a forma correta exigida pela técnica.
Uma técnica incompleta como aquela jamais seria capaz de deter o poderoso avanço de Stella.
“Ghah!?!?”
Cortando todos os fios em seu caminho, Stella atravessou Or-Gaule com Lævateinn e pregou seu corpo contra o chão.
“Eu já disse. Você vai perder para nós!”
Stella gritou enquanto ativava Karsalitio Salamandra.
Por uma força absurda, o calor derreteu o solo instantaneamente.
Uma enorme coluna de fogo irrompeu do ponto onde Lævateinn estava cravada.
Se não fosse pelo poder gravitacional de Demon Princess, aquele calor teria incinerado todas as pessoas na região administrativa de Lucerne.
“Não! Eu não quero desaparecer! Eu não quero!”
Or-Gaule gritou.
Seu corpo inteiro estava envolvido em chamas, mas ele ainda lutava desesperadamente.
Não queria morrer.
Batendo no próprio corpo com as mãos, tentou apagar o fogo e escapar do destino de ser reduzido a cinzas.
Liberando uma quantidade colossal de magia pelo próprio corpo, Or-Gaule tentou diminuir o poder de Karsalitio Salamandra.
Mas tudo era inútil.
Porque, no fim...
Lævateinn havia atravessado completamente seu peito.
Já não havia como deter o calor nem as chamas.
Consumido pelo fogo, o corpo de Or-Gaule começou gradualmente a se transformar em carvão.
Os dedos dos pés e das mãos já estavam virando cinzas.
“I-Isso é horrível! Todo mundo sempre tentou se livrar de mim! Eu não queria ser assim! Se eu tivesse tido a oportunidade, gostaria de ter nascido do outro lado! Por que ninguém nunca tentou me ajudar!?”
“...É verdade. Eu também acho que as circunstâncias da sua vida foram trágicas...”
Stella respondeu aos gritos de Or-Gaule.
Uma consciência distorcida, incapaz de sentir felicidade com aquilo que trazia alegria às pessoas comuns.
A própria realidade do nascimento de alguém como ele.
Foi justamente isso que ajudou Or-Gaule a despertar um poder tão extraordinário.
Para ser sincera, Stella sequer conseguia se colocar no lugar dele.
Ele devia ter sido terrivelmente solitário.
Mas...
“...Mesmo na sua vida houve pessoas que amavam você e estavam dispostas a se sacrificar por você.”
“...!?”
Or-Gaule afirmava que aquilo que as pessoas chamavam de 'certo' não passava de violência.
Alguém que carregara um destino tão difícil inevitavelmente acabaria odiando o mundo inteiro.
Mas, ainda assim...
Ele tivera uma oportunidade de escapar da solidão.
Tivera a chance de receber ajuda.
Havia uma pessoa ao lado dele.
Uma mulher que abandonara tudo e transformara o mundo inteiro em seu inimigo estava disposta a fazer qualquer coisa por Or-Gaule.
“Mas você nunca se importou com ela...!”
“...”
“Você pode guardar rancor de mim! Isso é inevitável, já que odeia o mundo inteiro! Mas eu jamais vou aceitar quando você diz que ninguém tentou ajudar você! Nunca vou acreditar que ninguém amou você! O motivo de você desaparecer sozinho não está naquilo que chamam de 'certo'... Você mesmo é o responsável por esse fim, porque nunca amou ninguém!!!!”
No passado, Or-Gaule fora incapaz de amar sua família ou qualquer outra pessoa por causa das distorções de sua consciência.
Mas Iris...
Ela havia sofrido mais do que qualquer um nas mãos de Or-Gaule.
Mesmo assim, nunca deixou de amá-lo e protegê-lo como parte de sua família.
Se Or-Gaule tivesse correspondido àquele amor, talvez alguma coisa dentro dele tivesse mudado.
Não.
Alguma coisa certamente teria mudado.
Mas Or-Gaule não correspondeu.
E essa havia sido uma escolha plenamente consciente.
Se era assim, então Or-Gaule estava muito longe de ser apenas uma pobre criança oprimida pelas pessoas 'certas'.
Ele não passava de um covarde egoísta que só pensava em si mesmo.
“Ah... ah...”
Aquela verdade atingiu o peito de Or-Gaule com muito mais força do que a espada de Stella.
Mas, infelizmente, já não havia como voltar atrás.
O arrependimento pelas oportunidades desperdiçadas apertou seu peito com toda a força.
“WAAAAAAAAAAAAAAA!!!!”
Or-Goul caiu em prantos.
Uma explosão de emoções irrompeu dentro dele.
Mas já não havia nada que pudesse fazer.
Seus arrependimentos.
Seu choro.
Tudo foi engolido pelas chamas e queimado até não restar nada.
Depois de arder uma última vez, o corpo de Or-Gaule se transformou completamente em cinzas.
E a noite voltou a dominar o campo de batalha.
Um vento forte soprou em sua direção, espalhando as cinzas e levando-as para longe.
Era como se até o próprio mundo o rejeitasse e desejasse apagar completamente os últimos vestígios de sua existência.
Mas, antes que as cinzas de Or-Gaule fossem levadas por completo pelo vento, Stella estendeu a mão.
“Espalhar você pelo mar... No começo, era exatamente isso que eu queria fazer. Mas mudei de ideia. Por respeito a Iris-san, vou colocar suas cinzas no túmulo dela.”
Stella conseguiu recolher um punhado das cinzas.
“Se você realmente se arrependeu a ponto de chorar... então peça desculpas e implore perdão somente a ela.”
Assim que terminou de falar, Stella se virou.
Com passos lentos, caminhou em direção às pessoas que haviam acreditado nela e esperado por sua vitória.
Como símbolo de seu triunfo, Stella ergueu bem alto a enorme espada dourada.
E assim...
A longa guerra entre Vermilion e Kledland finalmente chegou ao fim.
– Almeranto: QUE CAPÍTULO FODASTICO CARA!
FINALMENTE Or-Gaule foi derrotado e agora o reino de Vermillion estará em paz novamente, mas isso teve seu custo: a morte de milhares de pessoas, incluindo Ikki. Esse capítulo é um dos meus favoritos de toda a obra e me marca bastante.
O próximo capítulo revelará qual será o destino de Ikki, então, vejo vocês lá em breve!
Comentários do capítulo 76
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.