A Cavalaria de um Cavaleiro FracassadoVolume 15 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Fim e Consequências
Capítulo 77Quando abri os olhos, percebi que havia escuridão ao meu redor.
Ela estava em toda parte.
Dos lados, acima, abaixo… não havia absolutamente nada ao meu redor.
Eu flutuava em um espaço completamente vazio, mas não afundava nem subia.
Eu simplesmente existia naquele mundo sombrio, sem luz, sem som e sem calor.
...Isso é a morte?
Eu me lembrava do que havia acontecido comigo: a dor de ter o peito rasgado, a estranha sensação depois que minhas vísceras caíram para fora, sem dúvida, ninguém conseguiria sobreviver a ferimentos daqueles.
Eu morri.
Ikki Kurogane não poderia ter sobrevivido.
...Mas...
Então por que abri os olhos?
Por que consigo olhar para esta escuridão se minha consciência deveria ter desaparecido?
Eu não sabia.
Não entendia absolutamente nada, mas parecia que alguma coisa estava acontecendo.
Um brilho.
Uma luz atravessou a névoa negra.
Um pequeno raio do tamanho de um punho caiu sobre o corpo de Ikki, como se fosse um guia, parecia convidá-lo a segui-lo.
Ikki estendeu a mão para a luz.
Seus dedos se moveram e tentaram agarrar aquele raio.
E, no mesmo instante...
“Oh...!”
O mundo de Ikki Kurogane recuperou suas cores. Diante de seus olhos havia um teto desconhecido.
As fortes lâmpadas de LED ofuscaram sua visão.
Apertando os olhos, Ikki já começava a pensar em uma maneira de escapar quando percebeu que estivera deitado em uma cama durante todo aquele tempo.
Abriu os olhos novamente e começou a observar o ambiente com mais atenção.
Foi então que seu olhar se encontrou com o dela.
“Ste... lla...?”
Ikki murmurou ao ver sua amada diante dele.
“~~~~~~!”
Stella, que segurava um vaso de flores nas mãos, congelou.
Seus olhos rubros se arregalaram e seus lábios estremeceram, mas aquilo durou apenas um instante.
Stella fechou os olhos, como se tentasse controlar as próprias emoções, e então abriu a boca.
“...Finalmente acordou.”
Ao contrário do grito de antes, agora havia um leve tom de repreensão em sua voz, ainda assim...
Sem dúvida alguma, era a voz de Stella.
“Acordei...?”
“Tem alguma coisa errada?”
“...Eu realmente estou vivo...?”
“Está.”
Enquanto conversava com Stella, Ikki ergueu a parte superior do corpo na cama. Embora cada movimento causasse um pouco de dor, ainda conseguia se mexer.
Levou as mãos ao peito e imediatamente sentiu o próprio coração batendo. A parte inferior de seu corpo também respondia normalmente.
Conseguia sentir as pernas envolvidas pelo futon.
Seu corpo estava completamente saudável.
A compreensão daquela realidade deixou Ikki profundamente chocado.
“Eu realmente estou vivo...”
Tudo parecia tão inacreditável que ele queria uma explicação mais detalhada.
Como se tivesse percebido isso, Stella começou a contar como ele conseguira sobreviver.
“Shizuku veio a pedido da sede da Liga de Vermillion. E ela... conseguiu restaurar você decompondo seu corpo em células e depois reconstruindo tudo novamente.”
“Incrível...”
...Ela realmente consegue fazer algo assim?
Isso não é praticamente ressuscitar os mortos?
Tudo aquilo parecia absurdo.
[Almeranto: O “absurdo” já virou normal pra mim nesse ponto…]
Mas Ikki sabia que Stella não tinha motivo algum para mentir.
Se ela estava dizendo aquilo… então realmente havia acontecido.
Shizuku havia conseguido reverter o ciclo de samsara.
[Almeranto: O ciclo de samsara é o fluxo contínuo de nascimento, morte e renascimento presente em religiões orientais como o budismo e o hinduísmo.]
Um verdadeiro milagre.
“É incrível...”
“A guerra terminou com a vitória de Vermillion. Ikki, obrigada pelo seu esforço.”
“...?”
As palavras de Stella causaram em Ikki uma estranha sensação de desconforto.
Desde o começo daquela conversa, ela sequer olhara diretamente para ele.
E ainda estava segurando aquele vaso de flores.
...Eu imaginava que nosso reencontro seria um pouco mais emocionante.
Mas, naquele momento, Ikki sentiu… solidão.
Ainda assim, não era hora para pensar naquilo.
Queria saber tudo o que havia acontecido depois de sua morte.
Vermillion vencera, Stella estava viva.
Tudo aquilo que ele havia planejado se realizara, mas...
Quantos sacrifícios foram necessários para alcançar esse resultado?
“E os outros? Havia... tantos civis.”
“Ninguém mais morreu. Todos se esforçaram e ajudaram uns aos outros. É claro que, mesmo depois de três dias, o caos em Kledland ainda vai demorar bastante para desaparecer... Mas acho que Yohan-unii e Lune-ane conseguirão acalmar a situação.”
Stella respondeu sem olhar para Ikki.
“Então Yohan-san está bem?”
“Não posso afirmar que ele esteja realmente bem, mas Luna-ane está ao lado dele o tempo inteiro. Acho que tudo ficará bem.”
“E Saikyou-sensei? Se me lembro direito, ela estava gravemente ferida.”
“Sensei é uma cavaleira Rank-A da Liga. Existem células somáticas suficientes armazenadas no banco de células, então não haverá grandes dificuldades para recriar uma nova mão para ela... Mas, quanto a Tatara...”
“Tatara-san? O que aconteceu com ela?”
“Ela perdeu parte do rosto e o braço direito. Metade do sistema digestivo foi destruída, e a parte inferior do corpo ficou completamente arrasada. Assim como você, Ikki, ela ficou gravemente ferida.”
Stella respondeu com tristeza.
Ela explicou que Tatara só conseguira sobreviver graças a um estimulante extremamente poderoso.
O efeito analgésico impedira que morresse de choque provocado pela dor.
E o efeito hemostático evitara que sangrasse até a morte.
“Pedi a Shizuku que tratasse o cérebro de Tatara, que estava sendo deteriorado pelo estimulante... mas, mesmo assim, o corpo dela...”
Os danos eram graves demais.
Nem mesmo cápsulas de cura conseguiriam restaurá-la por completo.
Mesmo que, de alguma forma, recuperasse as partes perdidas do corpo, seu sistema nervoso continuaria comprometido.
Além disso, para reconstruir todas aquelas partes, seriam necessárias as células somáticas mencionadas anteriormente.
E aquele era um serviço extremamente caro nos bancos de células.
Se alguém não fosse rico, uma figura importante ou um Blazer essencial para a nação, dificilmente teria acesso a algo assim.
Mesmo assim...
“Fico feliz que ela tenha sobrevivido.”
Ikki tocou o próprio peito.
A vida era algo precioso.
Desde que alguém permanecesse vivo, ferimentos ainda podiam ser tratados.
Assim como acontecera com Moroboshi.
“Parece que Shizuku trabalhou bastante enquanto eu estava dormindo.”
Ikki precisava agradecê-la por ter lhe devolvido a vida.
“Ei, Stella. Você pode chamar Shizuku até aqui?”
Pela primeira vez desde o início da conversa, Stella finalmente olhou diretamente para Ikki.
“...Na verdade, ela não saiu de perto de você durante todo esse tempo.”
“Hã?”
Surpreso, Ikki voltou a olhar ao redor do quarto.
Mas não havia mais ninguém ali.
Sua irmã não estava naquele aposento de aproximadamente cinco tatames por cinco.
“Não estou vendo ninguém aqui...”
“Bem aí.”
Stella apontou com a ponta do dedo para o peito de Ikki.
“O quê...? O que você quer dizer com isso...?”
“Eu sei que você está surpreso e confuso, mas, por favor, fique calmo e me escute com atenção. Ikki, você sabe muito bem que morreu naquele dia. Seu corpo sofreu danos extremamente graves. Até mesmo Tatara estava em condições melhores do que você... Mas Shizuku conseguiu trazer você de volta usando as próprias células para reconstruir seu corpo.”
“...Hã?”
As palavras de Stella caíram sobre a mente de Ikki como água gelada.
“Então, quando você apontou para mim e disse que Shizuku estava aqui...”
“Sim. Eu quis dizer literalmente. Shizuku se tornou parte do seu corpo, Ikki.”
“...”
A cabeça de Ikki começou a girar.
Era como se o mundo tivesse acabado de virar de cabeça para baixo.
Pensando melhor, toda aquela história realmente parecia estranha.
Os ferimentos de Ikki haviam sido muito mais graves do que os de Tatara.
Mesmo assim, ao contrário dela, ele estava deitado naquela cama com o corpo completamente restaurado.
Então de onde teriam vindo as partes que perdera?
“Não pode ser...!”
Por que eu não pensei nisso imediatamente?
Por quê?
Por quê...?
“Por que... por que essa idiota faria uma coisa dessas...!?”
“Hã!? Ei, o que foi!? Ikki, por que você está chorando!?”
“Mas Shizuku se sacrificou para me salvar! Uaaaaah!!!!”
Lágrimas brotaram de seus olhos.
Um grito de dor escapou de sua garganta.
Mas, antes que Ikki fosse completamente consumido pela enxurrada de emoções...
“Hã!? O quê!? Você entendeu errado! Ei, Shizuku! Pare de ficar calada! Fale alguma coisa!”
Stella exclamou.
E, naquele mesmo instante...
“Hee-hee, desculpe, mas eu não consegui resistir. Queria que Onii-sama ficasse um pouquinho preocupado.”
A voz da pessoa de quem Ikki já havia se despedido mentalmente veio diretamente de seu lado direito.
“S-Shizuku? É realmente você, Shizuku!?”
“Sim, Onii-sama.”
“Shizuku!”
Ikki se virou animadamente para a origem daquela voz.
E então viu...
“...Hã?”
Uma Shizuku do tamanho da palma de sua mão estava sentada sobre seu ombro direito.
Um largo sorriso travesso estampava seu rosto.
“Bom dia, Onii-sama.”
“O quê...? O quê...? O quê...? Mas que diabos está acontecendo!?”
◆
Apesar do grito de Ikki, uma risadinha alegre e melodiosa escapou da garganta de Shizuku.
“Onii-sama, você está tão preocupado assim com o tamanho da sua adorável irmãzinha?”
“Hã!? O quê!? Mas você está minúscula! Parece que virou uma gotinha!”
Ikki exclamou.
Afinal, além de ter diminuído de tamanho, ele percebeu imediatamente que o corpo de Shizuku estava praticamente translúcido.
Era como se tivesse se transformado em vapor por meio da técnica Blue Samsara.
“O que... o que aconteceu com você!?”
Ikki estava completamente perdido.
Por isso, Shizuku decidiu explicar.
“Stella já explicou isso para você alguns minutos atrás. Seus restos mortais, Onii-sama, estavam extremamente danificados, e suas células somáticas continuavam se deteriorando rapidamente. Se eu não tivesse agido depressa, até mesmo as partes do seu corpo que ainda podiam ser utilizadas teriam sido destruídas. Por isso, fui obrigada a usar meu próprio corpo como uma 'ponte' para restaurar o seu.”
Afinal, os dois eram parentes de sangue.
Seu plano havia funcionado perfeitamente, e por isso o sorriso ainda permanecia no rosto de Shizuku.
“...Mas, enquanto eu atuar como essa 'ponte' e emprestar minhas células somáticas para restaurar você, não possuo um corpo próprio. Essa pequena forma que você está vendo foi criada com as células somáticas restantes que não eram necessárias durante o processo de recuperação. Por isso, este é o maior tamanho que consigo manter agora.”
“Shizuku, mas isso não significa que você não está realmente viva agora!? Mesmo que seja temporariamente, você está completamente ligada a mim!?”
“Hee-hee. Sabe, Onii-sama, eu sempre achei maravilhoso imaginar que poderia me tornar literalmente sua carne e seu sangue.”
“Nem pense nisso!”
“...Não se preocupe, eu não vou fazer isso. Afinal, sei que Onii-sama seria contra. Neste momento, a recuperação do seu corpo já está concluída. Seu organismo agora consegue produzir novas células sozinho. Eu apenas me fundi com você para acelerar o processo. Portanto...”
No mesmo instante, todo o corpo de Ikki começou a irradiar um brilho mágico azulado.
A luz se concentrou em um único ponto à frente dele e começou a formar uma silhueta humana.
Depois de alguns segundos, a intensidade daquela aurora diminuiu, enquanto a luz azulada lentamente adquiria novas cores.
...E então sua querida irmã mais nova estava novamente diante dele.
“Se está tão preocupado assim, posso simplesmente desfazer nossa fusão.”
Shizuku disse com um sorriso orgulhoso enquanto estufava o pequeno peito.
Ela se separara do corpo de Ikki sem qualquer dificuldade e retornara ao tamanho normal.
“...Ainda bem...”
A possibilidade de Shizuku ter se sacrificado por ele era insuportável.
Mas agora que tudo havia voltado ao normal, o corpo tenso de Ikki finalmente relaxou.
Ficou tão aliviado por saber que Shizuku estava bem que quase desmaiou.
Para sustentar o corpo que subitamente perdera as forças, apoiou a mão direita na cama e respirou fundo.
Depois de se acalmar e esperar que as emoções agitadas em seu peito diminuíssem, Ikki finalmente conseguiu agradecer à irmã pelo milagre que havia salvado sua vida.
“Obrigado, Shizuku. Foi somente graças a você que consegui escapar de uma morte inevitável.”
“Ah~~~~~♡”
Ao ouvir os agradecimentos de Ikki, Shizuku teve uma reação bastante estranha.
Seus olhos começaram a brilhar febrilmente de uma maneira um tanto assustadora, e sua respiração ficou pesada.
“Parece que alguma coisa está esquentando dentro de mim. Onii-sama está tão adorável agora que está difícil manter a calma. Consigo sentir um desejo estranho despertando dentro de mim~♡”
Shizuku apertou os próprios ombros com força, como se precisasse segurar o corpo para não perder o controle.
“Você se esforçou muito para alcançar um resultado desses... Acho que consigo entender como você se sente, Shizuku.”
Stella comentou.
Seu rosto também ficara levemente vermelho.
O olhar dirigido a Ikki estava desfocado, e sua boca permanecia ligeiramente aberta, como se naquele momento ela também estivesse perdendo um pouco do controle.
“...?”
Ikki inclinou a cabeça, confuso com a estranha reação das duas garotas.
Assim que fez isso, o pijama deslizou de seu ombro.
Seu ombro ficou completamente exposto.
Ikki imediatamente tentou puxar a roupa de volta, mas...
“...Hã?”
Naquele instante, percebeu algo estranho.
Ao olhar para as próprias mãos dentro das mangas do pijama, apenas um pensamento surgiu em sua mente.
Minhas mãos sempre foram tão pequenas assim?
Parecia que não.
Ikki nunca tivera problemas com mangas compridas demais.
“...!”
Ergueu os olhos e, por acaso, viu o próprio reflexo na janela.
Todos os outros pensamentos desapareceram instantaneamente de sua cabeça.
Porque a pessoa refletida ali era ele.
Ikki Kurogane.
Porém...
Com a aparência de uma criança do ensino fundamental.
“AAAAAAAAAAAAAA!? Sou eu!? Eu virei uma criança!? Impossível!! O quê!? Por que minha voz está tão aguda agora!?”
“Ah~ O pequeno Onii-sama entrando em pânico é tão fofo~”
“Shizuku!? Por que eu virei uma criança!?”
“Quando desfiz nossa fusão e recuperei todas as minhas células somáticas, ficou impossível manter o suporte necessário para restaurar seu corpo original. Essa é a sua verdadeira aparência neste momento, Onii-sama.”
“Então agora eu...”
“Há um limite para a minha magia e para a minha concentração, então não posso permanecer dentro de você o dia inteiro. Além disso, entendi que Onii-sama precisava de um corpo que pudesse controlar sozinho. Mas restaram poucas células somáticas suas, então pensei que essa seria uma ótima oportunidade... cof, cof...! Quero dizer, pensei bastante e tentei recriar Onii-sama com a aparência que tinha durante a infância!”
Essa parte antes da tosse foi bem suspeita...
Shizuku abraçou os pequenos ombros de Ikki com um sorriso orgulhoso.
Apesar de suas palavras terem soado extremamente suspeitas antes daquela tosse, Ikki entendia que aquilo provavelmente fora necessário.
Quando Shizuku se separava de seu corpo, seria simplesmente impossível manter o mesmo tamanho sem uma quantidade suficiente de células somáticas.
Por isso, se Ikki quisesse ao menos conseguir se movimentar por conta própria, havia apenas uma opção.
Reduzir o tamanho de seu corpo.
“Então é isso. Parece que realmente não havia outra alternativa.”
“Você não vai reclamar?”
“No começo eu fiquei surpreso e até assustado. Mas sua explicação me convenceu de que isso era realmente necessário.”
“Não é nenhum truque meu. Eu realmente não tinha outra opção. Foi a única escolha.”
“Eu entendo.”
Por mais suspeita que toda aquela situação parecesse, não havia muito o que fazer.
Também não fazia sentido continuar discutindo sua aparência.
Naquele momento, uma questão completamente diferente preocupava Ikki muito mais.
“Estou certo em pensar que, junto com a minha aparência... minhas capacidades físicas também diminuíram bastante?”
“Exatamente.”
Shizuku assentiu.
“Onii-sama, suas capacidades físicas estão praticamente no mesmo nível de quando você tinha dez anos. Agora você não pode mais agir de maneira imprudente. Seu corpo simplesmente não vai aguentar e acabará se quebrando.”
“Entendo...”
“Além disso, Stella, mesmo que Onii-sama esteja adorável desse jeito, não faça nada obsceno com ele. Afinal, agora ele tem um corpo pequeno e uma situação complicada. Stella, se eu descobrir que tentou usar o Ittou Shura Noturno dele outra vez, vou espalhar isso imediatamente pelas redes sociais.”
“Ei! Eu nem estava pensando nisso! O que passa pela sua cabeça!?”
“Eu penso que você é uma macaca que fica no cio por Onii-sama durante o ano inteiro.”
“Isso não é verdade!!”
“Por outro lado, se eu estiver fundida ao corpo de Ikki, não me importo que vocês mantenham relações. Afinal, nesse caso não haveria garantia alguma de que uma criança concebida durante esse período pertenceria apenas à Stella.”
“Ikki! Sua irmã está me assustando! Como foi que ela cresceu e virou uma pessoa dessas!?”
Ikki também não sabia responder àquela pergunta.
Afinal, havia fugido de casa quando ainda era adolescente.
Talvez sua fuga tivesse alguma responsabilidade pela maneira como a irmã crescera.
“Eu só peço que você não aja de forma imprudente. Onii-sama ficou gravemente ferido e perdeu aproximadamente trinta por cento do corpo. Por favor, não esqueça disso.”
“Está bem. Prometo que não vou agir sem pensar.”
Ikki assentiu.
Talvez Stella ainda não tivesse compreendido completamente a gravidade das palavras de Shizuku, mas Ikki levou o aviso muito a sério.
Mesmo sem ouvir a explicação dela, apenas prestando atenção ao próprio corpo, percebia claramente que sua força física havia diminuído bastante.
Sua função cardiopulmonar também parecia ter perdido aproximadamente metade da capacidade.
Era como se todas as suas capacidades físicas tivessem diminuído em cinquenta por cento.
Se tentasse mover aquele corpo exatamente como fazia antes, obviamente nada de bom aconteceria.
Em sua condição atual, Ikki precisaria desenvolver formas completamente diferentes de se movimentar.
Mas, antes disso...
“Hum, Shizuku. Eu estava me perguntando... vou ficar assim para sempre...?”
Se fosse esse o caso, então seria uma desvantagem bastante séria.
Mesmo que Ikki desenvolvesse novos padrões de movimento, a força muscular disponível em um corpo com um esqueleto tão pequeno seria inevitavelmente limitada.
E aquilo seria um problema enorme para alguém acostumado a lutar sempre em combate corpo a corpo.
Entretanto...
Shizuku respondeu negativamente às preocupações de Ikki.
“Não, você está enganado. Como eu já mencionei, usei a margem de crescimento que ainda existe no seu corpo para reconstruí-lo. Onii-sama, você ainda tem dezesseis anos, e normalmente o corpo humano pode continuar se desenvolvendo até por volta dos vinte e cinco. Isso significa que ainda existe potencial para crescimento físico. Se aproveitarmos minha técnica ao máximo, você poderá voltar à sua aparência original em cerca de seis meses.”
“Seis meses...!? Então eu posso recuperar meu corpo original em seis meses!?”
“Segundo os meus cálculos, sim. Seu corpo ainda não perdeu a capacidade de crescer e se desenvolver, então...”
“Entendi. Nesse caso, está tudo bem. Considerando que fui ressuscitado, esse preço é até pequeno demais.”
Dentro de seis meses, conseguiria voltar ao tamanho de antes.
Depois de experimentar a própria morte, Ikki deu algumas batidinhas no peito, aliviado.
De repente, a porta de seu quarto no hospital se abriu com força.
“Oh! Então a irmãzinha de Ikki Kurogane está mesmo aqui.”
Na entrada havia uma mulher usando um belo quimono vermelho-vivo.
Sem dúvida, era a Demon Princess, Nene Saikyou.
Ao olhar para Ikki na cama, um sorriso afetuoso surgiu em seu rosto.
“Finalmente acordou.”
“Sim. Graças à Shizuku.”
“E, aliás, você ficou bem pequeno e fofo agora. Já percebeu?”
“Sim... isso também foi graças à Shizuku...”
Ikki abaixou a cabeça diante de Nene.
“Muito obrigado por ter acompanhado minha batalha tão de perto. Se estivesse sozinho, eu ainda teria conseguido ganhar algum tempo, mas não teria sido capaz de proteger todas as pessoas ao redor.”
“Isso se chama trabalho em equipe. Você não precisa me agradecer por ter ajudado.”
“Não é bem isso. Quero agradecer por ter deixado para mim o papel de me sacrificar e por não ter interferido.”
Quando Nene apareceu inesperadamente no campo de batalha, ela também poderia ter entrado na luta de Ikki contra Or-Gaule.
Mas não fez isso.
Confiou completamente em Ikki e esperou Stella se recuperar por inteiro.
Tudo por causa dos civis de Kledland.
A força de vanguarda da Liga havia sido destruída, deixando os habitantes de Kledland sem proteção.
Se Nene tivesse se unido a Ikki, milhares de pessoas comuns poderiam ter morrido.
Não...
Talvez o número de vítimas tivesse ultrapassado dezenas de milhares enquanto os dois tentavam matar Or-Gaule.
Mas ninguém morreu.
Porque Nene havia se dedicado completamente à defesa.
Tal decisão provavelmente não fora fácil para ela.
Afinal, estava deixando um companheiro enfrentar sozinho uma batalha mortal.
Além disso, ela também era professora de Ikki na Academia Hagun.
Mesmo assim, Nene não permitiu que os sentimentos dominassem seu julgamento.
Continuou agindo racionalmente e se entregou por completo à proteção dos habitantes de Vermillion e Kledland.
Embora estivesse extremamente preocupada com Ikki, não abandonou aquilo que decidira fazer.
Era por isso que ele queria agradecê-la.
Mas Nene apenas deu de ombros.
“Idiota, não precisa me agradecer por ter escolhido morrer no campo de batalha. Sua luta estava agressiva demais. Eu simplesmente tinha que proteger todo mundo ao redor. Além disso, Stella-chan era quem estava realmente preocupada. Ela chorou tanto, gritou e se enfureceu diante do seu cadáver.”
“Ei, espere! Não precisa contar tudo! Além disso, eu consegui me recompor sozinha!”
Stella protestou assim que Nene começou a falar sobre ela.
Ikki, porém, não ficou preocupado.
Sua morte certamente abalara Stella, mas ela não era uma pessoa tão frágil a ponto de ser esmagada pela tristeza.
Aquela garota carregava orgulhosamente nos ombros o destino de todo um país, não era tão fácil destruí-la.
Somente Stella conseguia transformar a própria raiva em força.
Ikki só havia usado Kuruisakura porque confiava completamente em sua parceira.
“Vamos, agora está tudo bem. Todo mundo sobreviveu.”
“Então... você veio falar com Shizuku?”
“Oh, é mesmo!”
Nene pareceu se lembrar do motivo original de ter ido até ali e voltou sua atenção para Shizuku.
“Kurogane-chan, trouxe boas notícias para você.”
“Do que está falando?”
“Acabei de receber uma mensagem da sede da Liga. É sobre essa sua capacidade de 'ressuscitar os mortos'. Todos testemunharam uma morte certa, mas você conseguiu impor sua vontade contra o próprio destino. Por isso, a partir de agora, a Liga promoverá oficialmente Lorelei Shizuku Kurogane a cavaleira Rank-A. É claro que a aprovação formal só acontecerá depois de toda a papelada.”
“Shizuku, isso não é incrível!? Entre todos os cavaleiros aprendizes, apenas Stella e Ouma-sama possuem Rank-A!”
Ikki ficou genuinamente feliz ao ouvir aquilo.
Mas...
“...Só eu tive meu Rank aumentado?”
Havia evidente insatisfação na voz de Shizuku.
“Onii-sama não demonstrou ser muito mais forte do que eu?”
“Não fale besteira. Os Ranks da Liga não são medalhas. São apenas um sistema para administrar os Blazers. Aqueles velhos pomposos não vão alterar todo o sistema só porque apareceu um cavaleiro que ultrapassou os padrões.”
“Grrr...”
Shizuku rosnou, irritada.
Aquela verdade a incomodava profundamente, mas não havia nada que pudesse fazer.
De fato, alguém que poderia morrer com um único disparo de arma de fogo não poderia sequer receber Rank-E dentro dos parâmetros comuns.
A liderança da Liga não podia simplesmente abrir uma exceção.
“Além disso, quando se trata de Awakening, os Ranks da Liga não passam de enfeite. Depois da final do Festival de Batalha das Sete Estrelas e daquela batalha recente, não acho que reste alguém disposto a menosprezar Kurobou.”
Nene então se virou para Ikki.
“E, já que você acordou, Kurobou, também tenho algo para você. A secretária da filial francesa da Liga Internacional de Cavaleiros-Magos, Levi Ascaris, deixou uma mensagem.”
“Ascaris...”
A respiração de Ikki travou ao ouvir aquele sobrenome.
Afinal, aquele era o sobrenome que Black Knight Iris Gaule carregara durante muito tempo.
Aquela mulher certamente devia ser algum tipo de parente ou responsável por ela.
“...Por favor, diga o que ela falou.”
Nene assentiu e repetiu a mensagem.
“‘Sou grata por minha filha não ter sentido desespero nem arrependimento nos últimos momentos de vida. Se algum dia você enfrentar dificuldades, entre em contato comigo. Eu, Bayonet Levi Ascarid, me comprometo a ajudar pessoalmente Kurogane com tudo aquilo que estiver ao meu alcance.’”
“...”
“Por que arregalou tanto os olhos? Achou que ela iria xingar você sem medir palavras?”
“...Sim. Era exatamente isso que eu esperava.”
“Ela está triste, é claro. Mas isso não significa que vá descontar em você. Iris-chan era uma pessoa independente... e aquilo realmente foi o que ela desejava.”
“...Provavelmente.”
Embora Levi não tivesse dito aquilo diretamente, Ikki entendeu.
Com aquela mensagem, ela estava tentando protegê-lo.
Mesmo que ele tivesse matado sua preciosa filha, Levi não queria sequer admitir a possibilidade de que Ikki começasse a se culpar e se torturar pelo que havia feito.
“Saikyou-sensei... e Iris-san?”
“O corpo dela foi enviado para a França. Será enterrado junto às cinzas de Or-Gaule na aldeia natal dela.”
“...Entendo. Ainda bem.”
“O apoio de Bayonet Levi Ascaris equivale ao apoio de toda a sede francesa da Liga. Conquistar aliados desse nível é muito mais valioso do que aumentar algum Rank.”
“...Mas eu sou digno disso? Não acho que mereça tanta consideração.”
“Está errado.”
“Hã?”
Ikki ficou surpreso com a firmeza da resposta.
“Existem pelo menos três motivos. Primeiro, Kurobou, não cabe a você decidir se merece ou não essa consideração. Segundo, é inútil recusar. Aquela velha Bayonet não é o tipo de pessoa que fala algo da boca para fora e depois volta atrás. Terceiro, Kurobou-kun, neste momento você não pode se dar ao luxo de rejeitar conexões tão valiosas.”
“Eu realmente preciso delas...?”
“Kurobou, sua posição mudou bastante depois desta guerra. Você já não é mais simplesmente o garoto talentoso que venceu um festival estudantil. Depois de derrotar a Black Knight, a quarta mais poderosa do mundo e alguém que lutava sob a bandeira da Liga Internacional de Cavaleiros-Magos, na prática você tomou o lugar dela e se tornou uma das principais forças de combate da Liga.”
“...!”
“Depois de algo assim, muita gente com ideias estranhas na cabeça vai começar a aparecer ao seu redor. Alguns sentirão admiração, outros paixão, outros inveja. E, naturalmente, também existirão aqueles que vão querer acabar com você. Por isso, como sua sensei, aconselho que conquiste o maior número possível de aliados.”
O conselho de Nene fez lembranças desagradáveis ressurgirem na mente de Ikki.
Academia Hagun.
As eliminatórias para o Festival de Batalha das Sete Estrelas.
Naquela época, uma verdadeira conspiração havia sido montada contra ele.
...Sempre existiriam pessoas neste mundo dispostas a usar os métodos mais desprezíveis para destruir alguém.
Ikki não sabia exatamente como deveria se proteger de algo assim.
Se um incidente semelhante voltasse a acontecer, poderia acabar caindo novamente em uma armadilha.
E não seria apenas ele quem sofreria.
Pessoas queridas também poderiam ser envolvidas.
Para enfrentar algo daquele tipo...
Só existia uma força.
Poder político.
Por isso, o conselho de Nene fazia muito sentido.
“Entendi. Então, por favor, diga a ela que vou contar com sua ajuda quando enfrentar dificuldades.”
Ikki respondeu depois de pensar por alguns instantes.
Sua resposta pareceu satisfazer Nene completamente.
Ela bateu com força no ombro de Shizuku.
“Bem, então vou deixar vocês por aqui. Irmãzinha Kurogane, nós precisamos ir.”
“Ei! Agora eu não posso! Estou ocupada tratando Onii-sama!”
“Já se passaram trinta horas. Você merece descansar um pouco.”
“Ah... parece que não vou conseguir escapar disso. Nesse caso, Onii-sama, vou precisar deixá-lo sozinho por algum tempo.”
“Shizuku, muito obrigado por tudo o que fez por mim. Acho que nem existem palavras suficientes neste mundo para expressar o quanto sou grato.”
Ikki agradeceu antes que ela deixasse o quarto.
Ao ouvir aquilo, um sorriso largo surgiu no rosto de Shizuku.
Era raro vê-la sorrir daquela maneira.
“Ah, é verdade. Esqueci de dizer uma coisa importante.”
Ela parou na porta e continuou, ainda sorrindo.
“Onii-sama. Quando eu disse que não me importaria em me tornar literalmente sua carne e seu sangue, você recusou imediatamente. Certamente achou que aquilo seria horrível demais, não é?”
“Hã? Bem... sim.”
“Mas aquilo que você fez com Stella da última vez foi muito pior.”
“...!”
As palavras de desprezo vindas da irmã fizeram Ikki prender a respiração.
O largo sorriso de Shizuku continuava em seu rosto como se estivesse colado ali.
Mas já não havia felicidade alguma nele.
Raiva.
Uma raiva intensa.
Era isso que sua expressão transmitia.
“Morrer durante uma batalha e escolher morrer de propósito são duas coisas completamente diferentes. Você não pode usar estratégias nas quais a própria morte é necessária para alcançar o melhor resultado possível. Pessoas que usam estratégias assim são a pior escória do mundo. Eu consigo lidar com isso porque amo você, Onii-sama, e já estou acostumada com suas idiotices. Mas Stella é diferente. Você disse que a amava. Jurou que sempre ficaria ao lado dela. Quando diz palavras assim, precisa estar preparado para assumir a responsabilidade pelo seu amor.”
“...”
“Onii-sama, desta vez eu não vou ficar do seu lado. Então faça o possível para que a pessoa que você ama consiga perdoá-lo.”
Depois de se curvar diante do irmão em despedida, Shizuku imediatamente deixou o quarto.
Mesmo depois de sua partida...
Parecia que a temperatura do ambiente havia caído vários graus.
◆
“...”
Depois que Nene e Shizuku saíram, Ikki permaneceu olhando para a porta por algum tempo.
“Mas aquilo que você fez com Stella da última vez foi muito pior.”
As palavras de Shizuku continuavam ecoando repetidamente em sua cabeça.
De repente, um brilho carmesim ocupou seu campo de visão.
Eram os cabelos de Stella, balançando atrás dela.
Fazendo os saltos ressoarem pelo chão, Stella caminhou até a porta e estendeu a mão para a maçaneta.
“Espere...”
Ikki falou por reflexo, imaginando que ela estava prestes a sair do quarto.
Mas então um som chegou aos seus ouvidos.
Click.
Era o barulho da chave.
Aparentemente, Stella acabara de trancar a porta com uma violência considerável.
Ao ouvir aquele desagradável ruído, Ikki estremeceu e encolheu os ombros.
Seu pequeno corpo pareceu ficar ainda menor.
“Hum... Stella... você está com raiva...?”
[Almeranto: Pô, nem um pouquinho, imagina…]
Ikki perguntou timidamente enquanto a observava de baixo para cima.
Mas Stella sequer reagiu às palavras dele.
Ignorando-o, deu um grande passo até a janela e agarrou a cortina.
Rasgaaa.
Stella puxou-a com tanta força que o atrito dos ganchos contra o trilho quase produziu faíscas.
Em poucos segundos, o quarto do hospital mergulhou na escuridão.
Ikki ficou sozinho diante dos olhos da Princesa Carmesim, que brilhavam de raiva.
“Ah!”
Ikki soltou um pequeno grito.
Naquele momento, ele não era mais um sapo hipnotizado por uma cobra.
Diante daqueles olhos flamejantes de dragão...
Era apenas um inseto patético.
“E-Espere! Stella, por favor, acalme-se! Eu realmente sinto muito por ter quebrado minha promessa! Mas, naquela situação, para impedir que alguém morresse, aquele foi o único plano que consegui imaginar!”
Ikki falou desesperadamente.
Mas suas palavras não fizeram Stella parar.
Passo após passo, ela continuou se aproximando.
Diante daquela realidade assustadora, tudo o que Ikki podia fazer era continuar tentando se explicar.
“Se eu tivesse lutado junto com Saikyou-sensei, não teria restado ninguém para proteger as pessoas comuns... Eu estava com pouca força e não podia causar um golpe decisivo no Marionette King... Então decidi ganhar tempo para você e usar um truque que tinha certeza de que você perceberia...”
“Quando diz palavras assim, precisa estar preparado para assumir a responsabilidade pelo seu amor.”
...Não.
Eu não posso aceitar essas desculpas.
Era verdade. Não importava o quanto sua estratégia tivesse sido vantajosa, as palavras duras de Shizuku estavam absolutamente corretas.
Ikki queria formar uma família com Stella, portanto, tinha responsabilidade por ela.
Prometera ficar ao seu lado, prometera amá-la.
Então aquela decisão...
Não foi egoísta?
Não existia maneira pior de fazer a pessoa amada sofrer.
Somente depois das palavras de Shizuku Ikki conseguiu compreender de verdade...
A intensidade daquela dor que rasgava seu peito.
Ele sequer conseguia imaginar o quanto doía perder alguém amado.
Deus... eu condenei Stella a sentir uma dor dessas...
“Eu sinto muito! Vou fazer qualquer coisa para compensar a dor e a raiva que causei em você...!”
Mesmo depois da morte dele, Stella havia encerrado a batalha.
Correspondera completamente à confiança que Ikki depositara nela.
Mas...
Depois do que fizera, seria impossível esperar que ela simplesmente permanecesse calma e gentil.
Ele havia machucado Stella de uma forma que nem mesmo Or-Gaul poderia imaginar.
Por isso, naquele momento, a única coisa que podia fazer era pedir perdão.
E até que ela o perdoasse...
Ikki não tinha direito a nenhuma desculpa.
“...Você faria qualquer coisa?”
Stella perguntou ao ouvir as últimas palavras dele.
“Claro!”
“Então, todas as manhãs e todas as noites, você terá que me dar um beijo.”
“Tudo bem!”
“E todos os dias, durante uma hora inteira, terá que descrever em forma de poesia tudo aquilo de que gosta em mim.”
“E-Entendi.”
“E fique avisado: os poemas não podem se repetir.”
“Vou fazer tudo que puder...!”
“Depois disso, quando tiver material suficiente, vai reunir tudo em uma coletânea de poemas de amor dedicada a mim e publicá-la.”
“Hã!?”
“E terá que gastar todos os royalties exclusivamente para realizar os meus desejos.”
“Hum... Stella...?”
Alguma coisa estava estranha.
Ikki forçou os olhos na escuridão e percebeu que Stella estava com a cabeça abaixada.
“Hee-hee... A-ha-ha-ha!”
Incapaz de se conter por mais tempo, Stella caiu na gargalhada.
“Tudo bem, era brincadeira. Eu não estou mais com raiva.”
“É sério?”
“Sim. Shizuku já disse tudo aquilo que eu queria dizer.”
Stella respondeu com um sorriso.
Mas aquele sorriso estava longe de ser completamente feliz.
Ainda havia uma amargura evidente nele.
“Você realmente não está mais com raiva?”
“Eu estava furiosa. Durante todo esse tempo, fiquei esperando você acordar para contar todos os ossos do seu corpo.”
“Aqui mesmo no hospital?”
“Qual o problema? Assim economizamos o tempo do transporte.”
“Ah...”
“Mas eu repensei meus sentimentos. Ikki-san, você tem uma irmã maravilhosa.”
“...Sempre senti orgulho dela.”
Ikki concordou, assentindo.
Parecia que Shizuku o havia salvado mais uma vez.
“...Mas esse não é o único motivo para eu não estar mais com raiva.”
Isso mesmo.
Havia outro motivo muito importante que impedia Stella de continuar zangada com Ikki.
“É claro que as palavras de Shizuku também influenciaram, mas... eu fiquei tão feliz por ver você vivo, Ikki...”
“Stella...”
“~~~~~!”
Incapaz de conter as próprias emoções, Stella se sentou na cama e abraçou o pequeno corpo de Ikki.
“Desculpe... Se eu tivesse previsto que ele ainda conseguiria se mover depois da própria morte, você não teria morrido... Ikki, por favor, me perdoe...”
[Almeranto: Se ela tivesse carbonizado o corpo “morto” dele no mesmo momento que ele caiu do céu, isso não teria acontecido. Eu já disse isso antes, mas digo de novo. Isso foi puro roteiro para pronlongar a batalha e deixar Ikki nestas condições.]
Stella se desculpou por seu próprio erro.
Considerava-se responsável pela decisão de Ikki que lhe custara a vida.
À primeira vista, aquelas palavras de desculpa faziam sentido.
...Mas...
“Stella, você não precisa se desculpar...”
Era verdade.
Uma técnica que só era ativada depois da morte do inimigo.
Era praticamente impossível prever algo daquele tipo.
Nem mesmo Ikki imaginara que Or-Gaule escondesse uma carta como aquela.
Por isso, se alguém precisava pedir perdão...
Era somente ele.
“Eu deveria ter percebido qual era o trunfo de Or-Gaule. Se soubesse daquela habilidade, jamais teria deixado você ir sozinho. Se eu fosse mais forte... você não teria sido morto e esta conversa nem precisaria estar acontecendo.”
Ikki e Stella carregavam culpas diferentes.
Mas agora todo aquele sofrimento havia ficado para trás.
Então o que deveriam fazer?
O que podiam fazer naquela situação?
Só havia uma resposta.
Ikki se afastou suavemente do abraço de Stella.
Recuou um pouco e colocou as mãos sobre os ombros trêmulos dela.
Depois que seus olhares se encontraram, Ikki soltou um suspiro profundo.
“Precisamos ficar ainda mais fortes juntos. Para que algo assim nunca volte a acontecer conosco.”
Enquanto dizia aquilo, Ikki enxugou as lágrimas quentes que desciam pelas faces de Stella.
Era uma nova promessa entre os dois.
“...Uhum.”
Finalmente...
Um sorriso verdadeiramente feliz apareceu no rosto de Stella.
Os mal-entendidos e a hostilidade desapareceram.
As barreiras entre os dois se desfizeram.
Mais uma vez, os amantes sentiram um calor crescente em seus peitos.
Como se fosse natural, seus lábios começaram a se aproximar.
Como se quisessem confirmar que o outro realmente continuava ali...
Stella e Ikki se beijaram.
Enquanto compartilhava o próprio calor com a mulher que amava e sentia a temperatura dos lábios de Stella, Ikki se lembrou do lugar onde estivera depois de morrer.
Escuridão absoluta.
Sem calor, sem som e sem luz. Um espaço completamente vazio e monótono.
Depois de experimentar aquilo...
Jamais esqueceria aquele lugar.
Se eu morrer novamente, a vida de Stella se transformará em um inferno.
Eu nunca mais vou voltar para lá.
Vou permanecer ao lado dela para sempre.
Preciso ficar ainda mais forte.
Eu juro.
De agora em diante, vou me agarrar à felicidade com todas as minhas forças...
Quero senti-la ainda mais profundamente.
“Oh, não...”
Stella tentou se afastar.
“Eu estou muito sensível agora. Se continuarmos, tenho medo de não conseguir parar.”
Ikki entendia perfeitamente o que ela queria dizer.
Assim como Stella, ele também estava extremamente agitado naquele momento.
Mas, ao contrário dela...
“Desculpe. Agora já não tem mais volta.”
“Hã!?”
“...Eu também não consigo mais me controlar.”
[Almeranto: Calma aí paisão, tu acabou de voltar a vida.]
As pequenas mãos de Ikki agarraram as costas e o pescoço de Stella.
Dessa vez, ela não conseguiria simplesmente se afastar.
Com um movimento brusco, ele pressionou os lábios com força contra os dela.
Já não era mais um simples beijo inocente.
Mas Ikki não se importava.
Não fazia muito tempo desde que experimentara a solidão absoluta da morte.
E agora...
Queria preencher aquele frio aterrorizante com o calor de Stella.
“Stella... Stella...”
“...Ah.”
Por um instante, Stella ficou surpresa com o comportamento intenso de Ikki, tão diferente de sua maneira habitual de agir.
Mas, quando sentiu o tremor percorrendo o corpo dele, compreendeu imediatamente.
Seus ombros relaxaram.
A pessoa que ela amava ainda carregava o frio da morte.
E agora desejava mergulhar completamente no calor dela.
Para Stella...
Aquilo a deixou profundamente feliz.
É verdade... parece que estou finalmente acordando de um pesadelo...
Com delicadeza, ela envolveu o pequeno corpo de Ikki com os braços.
E aquilo foi o sinal.
Ikki podia fazer o que quisesse.
E era exatamente isso que ele desejava.
O beijo entre os dois se aprofundou cada vez mais e...
“STELLAAAAAA! VOCÊ ESTÁ AÍ!!”
“Stella-chan! Aconteceu uma coisa terrível!”
De repente, a porta trancada se abriu com um estrondo.
“Oh!”
“Ah...”
“Oh~~~~”
Os pais de Stella apareceram na entrada.
Sirius e Astrea Vermilion.
Como não havia qualquer tipo de divisória no quarto, os dois imediatamente tiveram uma visão perfeita de Stella e Ikki agarrados um ao outro enquanto se beijavam.
“O-O quê...? O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO!?!?”
Sirius explodiu.
Depois do fim da guerra, sua opinião sobre Ikki havia mudado bastante.
Mas, naquele exato momento, seus instintos paternos voltaram a dominar completamente sua razão.
“Pai!! Agora não é hora para isso!!”
“Dói, dói, dói! Mamãe! Mamãe! Você vai arrancar minha bunda!!!!”
O ataque de fúria de Sirius foi interrompido imediatamente.
Astrea havia agarrado suas nádegas com força.
Sem soltá-lo e ignorando completamente seus gritos, ela voltou a atenção para Ikki.
“Ikki-san, você finalmente acordou~ Que bom!”
Com aquele sorriso peculiar que nem Stella nem Lunaise haviam herdado, Astrea demonstrou toda a sua felicidade pela recuperação de Ikki.
Ikki e Stella imediatamente se separaram.
Embora Ikki estivesse extremamente constrangido, ainda conseguiu reunir forças para responder.
“S-Sim, obrigado.”
“Fu-fu. Assim que a guerra terminou, trouxemos você para o Hospital de Vermilion. Está tudo bem? Não está sentindo dor em nenhum lugar?”
“N-Não, estou bem. Sério. Obrigado pela preocupação. Estou me sentindo muito bem agora.”
“Eu imagino~”
“~~~~~”
Os rostos de Ikki e Stella ficaram vermelhos ao mesmo tempo.
Eles nunca haviam escondido o relacionamento.
Mas serem pegos por adultos justamente enquanto trocavam carícias daquele jeito...
Era constrangedor demais.
Astrea observou os rostos envergonhados de ambos com um sorriso travesso e então voltou a falar.
“Ikki-san, depois desta guerra você se tornou um herói de Vermillion. Eu gostaria de agradecer melhor por tudo o que fez por nós... mas isso terá que ficar para depois. Stella-chan.”
“O quê?”
Stella imediatamente ergueu a cabeça ao perceber a mudança no tom da mãe.
“É sobre Tatara-san...”
Astrea explicou toda a situação em detalhes.
“O quê!? Mas por quê!?”
As palavras da mãe deixaram Stella ao mesmo tempo confusa e irritada.
◆
“Como prometido, preparei um pequeno avião equipado com piloto automático para você.”
A cena agora acontecia no Aeroporto Internacional de Vermillion, que ainda permanecia fechado por causa do recente conflito.
Diante de um pequeno jato estacionado na pista estavam Daniel Dandalion, secretário da Liga Internacional de Cavaleiros-Magos em Vermilion, e Yui Tatara, sentada em uma cadeira de rodas elétrica.
Tatara observou o avião vermelho-vivo e assentiu, satisfeita.
“Essa é minha recompensa por ter participado da guerra? Não está sendo generoso demais?”
“Não se preocupe. O próprio rei autorizou o presente. Se a cor não agradar, temos modelos de outras cores.”
“A cor é a coisa que menos me preocupa... Minha dúvida é outra. O chefe de uma filial da Liga realmente pode fornecer algo assim para uma assassina da Rebellion?”
“Oh, então era isso. Pelo que sei, você é apenas uma cavaleira aprendiz da Academia Akatsuki. Não tenho nenhuma outra informação sobre você.”
“Hah. Parece que o Primeiro Ministro Alado vai ganhar bastante trabalho em breve.”
Tatara respondeu sarcasticamente enquanto lançava um olhar para a expressão astuta de Dandalion.
As filiais da Liga e a sede central eram organizações distintas.
As filiais locais eram instituições criadas pelos países membros para manter contato com a sede principal.
Por isso, normalmente obedeciam muito mais às decisões dos governos locais do que às ordens diretas da sede.
A ideia central da Liga sempre fora permitir que pequenos países cooperassem diante de ameaças militares vindas de grandes potências.
Se interferisse excessivamente nos assuntos políticos internos de seus membros, prejudicaria a própria expansão.
Essa estrutura organizacional criava diversas ambiguidades para os países integrantes.
Mas fora justamente essa ambiguidade que amarrara as mãos da Liga durante a campanha militar de Vermillion.
Mesmo diante de um inimigo óbvio, ela não podia simplesmente lançar uma ofensiva aberta.
Um verdadeiro problema para o homem que comandava toda a organização.
Talvez no futuro seja criada uma autoridade mais centralizada.
E, se isso acontecesse, talvez Tatara até começasse a receber 'trabalhos' vindos da própria League.
É uma situação amarga, mas essa é a realidade da vida.
Tatara conhecia muito bem o mundo dos assassinos.
Depois de fazer algumas previsões sobre o futuro e avaliar sua situação atual, soltou um longo suspiro.
Antes de retornar ao trabalho profissional, precisaria recuperar o corpo.
Assim que voltar para a casa de Abgrund, preciso começar a reconstrução do meu corpo... e depois entrar imediatamente em reabilitação.
Mas aquilo levaria cerca de um ano.
Durante todo esse tempo, o caminho de volta para sua profissão permaneceria fechado.
Não havia nada que pudesse fazer a respeito.
Mergulhada nesses pensamentos sombrios, Tatara começou a mover lentamente a cadeira de rodas em direção ao avião.
“Você realmente pretende ir embora agora?”
“Já estou cansada de ficar parada naquele seu castelo.”
Tatara respondeu com firmeza.
“Stella-sama vai ficar triste.”
“Não me importo.”
A resposta foi curta.
Havia uma irritação evidente em sua voz.
O nome daquela garota...
Somente graças a ela Tatara conseguira sobreviver.
Pelo que soubera depois, a equipe de resgate que chegou às pressas tentou tratá-la, mas a destruição de seu corpo era grave demais e os esforços foram praticamente inúteis.
Em troca de mantê-la viva, o estimulante Angel Dust estava destruindo seu cérebro.
Foi somente graças a Stella que conseguiram salvá-la.
Ela implorara repetidamente a Lorelei, que não demonstrava qualquer vontade de gastar energia salvando uma terrorista.
...Mas Lorelei estava certa.
Uma assassina não era alguém a quem deveriam estender a mão.
Deveriam simplesmente tê-la abandonado.
Mas...
Não fizeram isso.
Mesmo que não tivesse sido completamente restaurada, sua vida fora salva.
E esse fato incomodava Tatara profundamente.
Aquela garota...
Se eu continuar aqui por mais tempo, quem sabe que ideia absurda vai passar pela cabeça dela.
Por isso, precisava deixar aquele império o mais rápido possível.
Era exatamente isso que Tatara pensava ao se aproximar do avião.
Mas...
“ESPERAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!”
Uma voz ecoou.
Justamente a voz que Tatara menos queria ouvir.
E vinha de algum lugar acima.
Ao erguer os olhos por reflexo, viu diante de si o céu azul e límpido.
E o sol brilhando intensamente.
Só que aquele 'sol' carmesim estava despencando em alta velocidade diretamente sobre ela.
Um mau pressentimento.
O sexto sentido que Tatara desenvolvera ao longo de muitos anos trabalhando como assassina gritava sobre um perigo iminente.
Confiando em seus instintos, ela ativou imediatamente sua Noble Art.
Uma barreira refletora se espalhou completamente ao redor de seu corpo.
Sua intuição não estava errada.
No instante seguinte, aquele sol carmesim caiu do céu diretamente sobre o jato.
E o explodiu.
“AAAAAAAA!?!?”
Tatara gritou enquanto a silhueta de Stella Vermilion surgia entre as chamas negras e vermelhas, diante dos destroços carbonizados do avião.
“Ufa. Parece que cheguei a tempo. Ótimo.”
“Gorila!? O que você está fazendo!? Quer acabar respondendo nos tribunais por isso!?”
Tatara gritou assim que percebeu que sua partida acabara de ser cancelada por aquele ato brutal.
Mas Stella ignorou completamente seu protesto.
“O que você está fazendo, Tatara!? Por que fugiu do hospital!? Você prometeu durante a festa que iria comer comigo aquele bolo delicioso da Bonnie! Além disso, seus ferimentos...”
O rosto de Stella empalideceu ao ver que o corpo de Tatara estava praticamente inteiro coberto de bandagens.
“...Aonde você pensa que vai desse jeito?”
“Seus pais já devem ter contado. Estou voltando para casa.”
“Mas você não tem para onde voltar!”
Graças às ações de Dirty Rose, a casa de Abgrund havia sido completamente destruída.
Era isso que Stella queria dizer.
“...Escute, Tatara. A notícia ainda não foi anunciada oficialmente, mas assim que Kledland se estabilizar um pouco, Luna-ane e Yohan-nii vão anunciar o noivado.”
“Parabéns.”
“Por causa disso, Luna-ane vai renunciar ao direito de sucessão. Em outras palavras, eu serei a próxima rainha.”
“Ótimo. Mas isso não tem nada a ver comigo.”
Tatara respondeu deliberadamente de maneira lenta e entediada.
Era um sinal claro de que não queria continuar aquela conversa.
Mas Stella não pretendia parar.
“Então, quando eu me tornar rainha, quero contratar você.”
“...Hã?”
As últimas palavras de Stella deixaram Tatara sem reação.
Aquilo parecia absurdo.
“Não como assassina, mas como minha guarda-costas pessoal. Suas habilidades são perfeitas para esse tipo de função. É claro que você receberá benefícios. E também terá um lugar para morar.”
Vermillion não era um império particularmente rico.
Mas, se Tatara entrasse para a elite da Guarda Imperial, certamente teria condições bastante confortáveis.
“Você lutou pela sobrevivência de Vermilion. Ninguém vai se opor. Muito pelo contrário, todos ficariam felizes. Então por que não abandona esse trabalho sombrio e começa uma vida nova em Vermillion?”
Stella tentou convencê-la com toda a sinceridade.
A proposta poderia ser extremamente atraente.
Mas...
Tatara enxergou imediatamente o que Stella escondia por trás de todas aquelas palavras.
“Então você quer que eu abandone a profissão de assassina e entre para sua guarda em troca de benefícios quando você se tornar rainha?”
“S-Sim! Vamos fazer tudo o que pudermos para atender às suas necessidades!”
“Hehe. Nada mal. Então vamos discutir alguns detalhes. Chegue mais perto. Não quero que aqueles idiotas da Liga escutem.”
“Claro!”
Como um cachorro abanando o rabo, Stella saltou animadamente e correu em direção a Tatara.
Era exatamente o que ela queria.
Assim que Stella chegou perto o bastante, Tatara virou o joystick da cadeira de rodas, avançou e acertou com força sua canela.
“Hã!? Ei! O que você está fazendo!?”
Stella exclamou com lágrimas nos olhos diante daquele golpe inesperado.
“Parece que nós duas não nos entendemos direito.”
Tatara falou com desgosto.
“...!”
“Houve uma confusão causada por um mal-entendido, então vou esclarecer a verdadeira situação. Primeiro, eu não lutei pelo seu império. Sou uma assassina da casa Abgrund e simplesmente fiz meu trabalho. Segundo, eu e somente eu sou responsável pelos meus ferimentos. Portanto, não preciso da pena de ninguém. Muito menos da sua.”
“...”
As últimas palavras de Tatara fizeram Stella se calar.
Ela mesma sabia que a ideia de que Tatara havia 'lutado por Vermillion' não passava de uma justificativa improvisada.
E aquilo não era bom.
Coisas assim precisavam ser pensadas com cuidado.
“Se realmente pretende se tornar rainha do seu império, precisa ser mais cautelosa com pessoas como eu. Eu não pertenço ao seu mundo. Não importa o que aconteça comigo, minha vida já não tem qualquer relação com a sua.”
“Tem sim!!”
“...Hã!?”
“Você é importante para mim, Tatara!!”
Essa era a verdadeira razão pela qual Stella não queria deixá-la partir.
Ela havia se apegado profundamente a Tatara.
“Foi você quem me deixou mais forte! Foi você quem apontou todos os meus defeitos, e graças a isso consegui derrotar Or-Gaule! E não foi só isso! Você lutou bravamente por Vermillion até o fim! Eu não quero que simplesmente cure seus ferimentos e desapareça da minha vida!!”
Stella abandonou todas as justificativas artificiais.
Já não se importava com elas.
A pessoa diante dela havia ajudado a proteger aquilo que Stella mais valorizava.
E agora...
Ela não queria que Tatara voltasse sozinha para o mundo das sombras.
Se a deixasse partir naquele momento, talvez nunca mais se encontrassem.
Não vá embora.
Era isso que todo o rosto choroso de Stella dizia.
“...”
Dessa vez, foram as palavras de Stella que fizeram Tatara se calar.
...Na verdade, ela já esperava que algo assim pudesse acontecer.
Na primeira luta do Festival de Batalha das Sete Estrelas, Stella demonstrara exatamente quem realmente era.
Ela assumia para si os problemas de outras pessoas que não deveriam ter qualquer relação com ela.
Mesmo diante de um perigo absurdo, enfrentara três adversários ao mesmo tempo.
Essa era Stella Vermillion.
Eu sabia disso...
E mesmo assim deixei que ela se aproximasse demais.
Tatara havia sido descuidada.
E agora estava presa.
Mas...
Apesar de tudo, aquela situação não era desagradável.
Saber que ocupava um lugar no coração de alguém… era uma sensação boa.
Se morresse, pelo menos uma pessoa choraria por ela.
Tatara sempre tratara Stella com frieza.
Dizia coisas desagradáveis.
Mas não a odiava.
Ela gostava da bondade de Stella.
Mesmo sendo incapaz de admitir isso honestamente por causa de sua personalidade insensível, Tatara não queria perder aquela sensação.
...Porém, no fundo, acreditava que não tinha direito àquela bondade.
Por isso...
“...Nosso relacionamento não é tão próximo assim.”
“...!”
“Mas, ainda assim... obrigada pela preocupação.”
As palavras de agradecimento vieram sinceramente do coração.
Porém...
“Eu não quero mudar minha forma de viver nem mesmo por sua causa. Eu sou uma assassina. Já matei dezenas de pessoas.”
“Mas isso só aconteceu porque você nasceu naquele lugar...!”
“É verdade. O lugar onde nasci não pode ser chamado de seguro. Mas isso não muda o fato de que sou uma assassina. As pessoas que matei jamais vão voltar à vida.”
“...”
“Além disso, acho ridículo uma pessoa como eu, que não sabe absolutamente nada sobre uma vida pacífica, simplesmente encerrar tudo dessa forma.”
“Mas viver decentemente e tentar expiar seus pecados é muito melhor do que continuar sendo assassina!”
“Você está errada.”
“Por quê!?”
“Porque eu não acho que tenha feito coisas ruins.”
“...!?”
“Antes de seguir qualquer caminho de redenção, eu precisaria primeiro sentir arrependimento por todas as pessoas que matei...”
Dentro de si, Tatara sabia perfeitamente que não possuía tais sentimentos.
E provavelmente jamais os desenvolveria.
Matar e ferir pessoas era errado.
Uma regra tão simples nunca fora ensinada a Tatara.
Quem você vai matar desta vez para conseguir outra barra de chocolate?
Era esse tipo de escolha que enfrentara durante toda a vida.
Não se lembrava dos rostos nem dos nomes de suas vítimas.
Matar se transformara em algo cotidiano.
Por isso...
O caminho da redenção era simplesmente impossível.
“Eu sou uma monstra assassina. Quando percebi isso, já não havia como voltar atrás. Quantas máscaras eu troquei? Quantas personalidades abandonei...? Não. Eu não vou fingir que sou vítima e dizer que fui obrigada a fazer tudo isso apenas porque nasci em um lugar horrível. Também não vou me tornar uma covarde e abandonar o caminho que escolhi. Não posso corrigir nenhuma das minhas ações do passado, então só existe uma coisa que posso fazer...”
Tatara ergueu o rosto.
“Quero continuar vivendo como sempre vivi. Quero viver como uma vilã e não pretendo mudar meu estilo de vida... Vou continuar fazendo coisas ruins. E talvez algum dia, se eu conseguir sobreviver neste mundo maldito, encontre alguma alegria.”
Sua expressão permaneceu firme.
“Essa é minha escolha e minha luta. Obrigada novamente pela preocupação, mas não fique no meu caminho.”
“...Você...”
Stella não conseguia transformar em palavras todas as emoções dentro dela.
A resposta de Tatara fora dura.
Mas também era extremamente decidida.
Stella não gostava daquilo.
Mas só podia ranger os dentes de frustração.
Não havia outra escolha além de desistir.
A vontade de outra pessoa não podia ser esmagada tão facilmente.
Stella já aprendera isso por experiência própria.
Por isso...
“...Entendi. Desculpe. Não vou mais tentar impedir você.”
A rendição de Stella fez um pequeno sorriso surgir no rosto de Tatara.
“Não se preocupe. Yui Tatara nunca existiu. Sou apenas um fantasma que todos esquecerão em pouco tempo.”
Depois de dizer aquilo, Tatara virou as costas para Stella e começou a mover a cadeira de rodas em direção aos pequenos aviões coloridos que Dandalion já havia cuidadosamente preparado como substitutos.
“Snif...”
Um soluço veio de trás.
Mas Stella não tentou persegui-la.
Dois sentimentos opostos a rasgavam por dentro ao mesmo tempo.
Queria correr até Tatara e impedi-la de partir.
Mas também aceitara a vontade dela e não conseguia desrespeitar sua decisão.
“Snif... snif...”
Os soluços de Stella se tornaram cada vez mais frequentes.
Tatara sentiu uma dor e uma angústia no coração.
Mas tentou convencer a si mesma de que aquilo era seu castigo.
Desde o começo, não deveria ter brincado com o coração de alguém capaz de demonstrar tanta bondade.
“Snif~~~~ uaaa...”
Guarde para sempre no coração os sentimentos da garota que você machucou.
Tatara acelerou a cadeira de rodas em direção ao avião para não continuar ouvindo o choro de Stella.
Mas, quanto mais avançava...
Mais altos os soluços ficavam.
“Uaaaa~~~...!”
Mais forte...
“UAAAAAAAAAA!”
E mais forte...
“UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!”
“Meu Deus! O que foi isso agora!?”
No meio daquele choro ensurdecedor, ouviu-se um estalo forte.
Como se alguma coisa tivesse rachado dentro de Stella.
De onde veio esse som?
Ah.
Era isso.
Stella havia inclinado demais a cabeça para trás.
Se Tatara simplesmente deixasse aquilo continuar...
Provavelmente quebraria as próprias vértebras cervicais.
Aquilo já era exagero demais.
Tatara girou bruscamente a cadeira de rodas e arremessou alguma coisa com precisão em Stella.
Um cartão.
A borda acertou diretamente o centro do nariz dela.
“Hã!? O que você está fazendo~~~~!?”
“Era o único jeito de fazer você calar a boca! Eu não vou mudar minha decisão, então pare de chorar!”
“O quê!? Eu nem estava tentando convencer você! Tatara, sua idiota!”
Stella protestou diante da resposta grosseira.
Ainda contrariada, abaixou-se para pegar o cartão que Tatara havia lançado.
E seus olhos imediatamente se arregalaram.
“Isso é... um cartão de visitas?”
“Sim. É meu cartão profissional de assassina.”
“Assassinos têm cartão de visitas?”
“Hã? Por que não teriam? É um negócio, afinal.”
Tatara deu de ombros diante da pergunta ingênua.
“Esse cartão tem todas as minhas informações de contato. Se o rei aprovar seu casamento com aquele cara que levou Vermillion à vitória, entre em contato comigo. Eu vou ao seu casamento... Agora finalmente pare de chorar! Está irritante!”
Aquilo era...
Uma concessão inesperada vinda de Tatara.
Não desaparecer completamente.
Manter algum tipo de vínculo.
Os olhos de Stella, que até segundos antes estavam transbordando tristeza, recuperaram a vida.
E começaram a brilhar mais intensamente que rubis.
“Tatara! Sempre! Você precisa sempre entrar em contato comigo!”
“Meu Deus...”
“...Ei! Aqui estão minhas informações também! Salve tudo direito! Eu quero continuar falando com você! Isso não está em discussão! Se você me enganar, eu vou vasculhar o mundo inteiro até encontrar você!”
“...Entendi.”
Por que eu fui me virar?
Dentro da própria cabeça, Tatara se amaldiçoou várias vezes enquanto Stella, de olhos brilhantes, praticamente abanava o rabo diante dela.
Sem dúvida acabei de fazer algo completamente desnecessário.
Isso ainda vai se voltar contra mim e atrapalhar o estilo de vida que escolhi.
Mas talvez...
Eu quisesse fazer isso?
“...”
Chega de ficar me analisando.
Já desperdicei tempo demais com Stella.
Está na hora de finalmente me despedir e descansar.
Tatara soltou um resmungo irritado, virou-se novamente e não olhou mais para Stella.
Até ignorou os gritos animados dela dizendo coisas como “não esqueça de salvar meus contatos!” e “não se esforce demais!”.
Sem dizer mais nada, alcançou um dos pequenos jatos coloridos, entrou nele e fechou a porta com firmeza atrás de si.
Logo depois, foi imediatamente até o painel de controle e ativou o piloto automático.
Também não esqueceu de inserir as coordenadas da casa de Abgrund.
“Oh.”
Somente depois de entrar no avião Tatara se lembrou de uma coisa que havia esquecido de contar a Stella.
Mas...
Se abrisse a porta agora, Stella certamente correria de volta até ela e começaria a 'abanar o rabo' outra vez.
E aquilo era tão...
Irritante.
Além disso, Tatara não queria muito ver o sorriso que certamente surgiria no rosto de Stella quando recebesse aquela informação.
Por isso, manteve a porta fechada e ligou os motores do avião.
Confiando completamente no piloto automático, pegou o celular do bolso e, usando apenas uma das mãos, digitou rapidamente uma mensagem para o novo contato que acabara de adicionar.
【Meu nome é Vier. Da próxima vez que nos encontrarmos, só vou responder por esse nome.】
Assim que apertou o botão de enviar, o avião ganhou velocidade e decolou.
“~~~~~~~~~~!”
Da próxima vez que nos encontrarmos.
As palavras daquela amiga que Stella acreditava que jamais veria novamente apagaram por completo todo o desespero de seu coração.
“VIEEEEEEEER! NÓS VAMOS NOS ENCONTRAR DE NOVO!!!!”
Stella gritou enquanto corria atrás do avião.
Ela continuou acenando sem parar até que a aeronave desaparecesse completamente no horizonte.
Naquele momento, Stella estava transbordando coragem e determinação.
No próximo encontro...
Ela faria Vier mudar completamente de ideia.
No começo, Stella aceitara a decisão dela e simplesmente permitira que fosse embora.
Mas, depois daquela mensagem...
Ainda havia esperança.
Vier ainda poderia escolher um novo sentido para sua vida.
Afinal, até então, mesmo que jamais admitisse...
Ela ainda não havia encontrado um verdadeiro significado para a própria existência.
Mas eu... posso ajudar.
Ela pode ficar irritada.
Pode ficar com raiva.
Mas eu não vou desistir.
Vou tentar de novo e de novo.
E algum dia, no futuro, minhas palavras certamente alcançarão o coração dela.
Até lá, eu vou esperar.
Afinal, nenhuma pessoa neste mundo deveria viver uma existência sem sentido.
Não é mesmo, Vier?
– Almeranto: Outro capítulo sensacional meus amigos!
Todos os acontecimentos foram marcantes. Ikki ressuscitando dos mortos e virando uma criança, e mesmo assim tava disposto a dar uns pegas na Stella kkkkkk, o cara é foda. O baita sermão que a Shizuku deu nele me deixou arrepiado, como seu tivesse sentido na pele.
E a Stella e a Tatara tendo seu momento também foi incrível, quase me emocionei aqui, essas duas são muito boas amigas.
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