A Cavalaria de um Cavaleiro FracassadoVolume 16 – Capítulo 1 – Capítulo 1: O Tempo dos Rivais
Capítulo 83Os acontecimentos remontam à época em que Ikki e Stella tinham acabado de chegar a Vermillion. Ou melhor, a quando Or-Gaule, antes de iniciar uma guerra, libertou de seu controle todos os funcionários do governo e ministros do mundo.
Com a abolição forçada da técnica Puppet Theater, que escravizava as pessoas e as transformava em marionetes de Or-Gaule, muitos funcionários ao redor do mundo perderam a consciência.
Esse fato contribuiu para a fuga em massa de criminosos dos centros de detenção. Nem mesmo o Japão, que se orgulhava de ter a maior segurança do mundo, foi exceção. Entre os criminosos que fugiram dos locais de detenção havia também antigos cavaleiros mágicos, e a fuga deles colocava em risco a segurança pública no país.
Naturalmente, o governo japonês não ficou parado diante da crise iminente.
Por volta da época em que Ikki se encontrou pela primeira vez com Or-Gaule, o primeiro-ministro japonês, Tsukikage, deixou o país. A posição de líder foi assumida temporariamente pelo secretário da filial japonesa da Liga Internacional de Cavaleiros Mágicos, mais conhecido pelo apelido de Iron Tyrant: Itsuki Kurogane.
Dada a escala e a urgência de conter o caos, ele tomou instantaneamente, ainda na fase inicial da resposta, uma decisão urgente: a Convocação Especial dos Cavaleiros-Estudantes do Japão. Quem recebeu o chamado teve concedidos pelo governo, de forma temporária, os mesmos poderes de um Cavaleiro-Mago.
Ou seja, mesmo que o cavaleiro aprendiz não tivesse a licença de “Cavaleiro-Mago”, todas as restrições eram removidas, e ele podia usar a força e travar combates em locais públicos com facilidade.
Itsuki decidiu abrir com um trunfo e anunciar a Convocação Especial logo no início. Com essa ação, aumentou instantaneamente o número de candidatos para reprimir os tumultos.
◆
O primeiro evento ocorreu no aeroporto. O avião começou a se mover e se preparava para decolar no aeroporto de Aomori, com destino ao Aeroporto Internacional de Tóquio, Haneda.
Foi nesse avião que eles se esconderam. Havia poucos dias, tinha ocorrido uma fuga em massa de prisioneiros em diferentes partes do Japão. Seis dos prisioneiros que escaparam estavam no avião. O fato de todos terem embarcado no mesmo voo certamente não era coincidência.
“...”
O prisioneiro nº 015, ex Cavaleiro-Mago e agora líder da operação, suspirou pesadamente e afundou o corpo massivo e musculoso numa estreita poltrona da classe econômica. O plano passou mais uma vez pela sua cabeça.
Segundo as suas previsões, tudo deveria terminar em sucesso. Os seis, sentados em diferentes partes da cabine, trocaram entre si um sinal combinado. A primeira coisa que fariam era tomar como reféns os passageiros mais próximos, para revelar quantos Cavaleiros-Magos estavam no avião como segurança.
Depois, invadiriam a cabine de comando e assumiriam o controle do voo. Claro, tratava-se de um sequestro de avião. Eles não pretendiam pousar em Haneda. O objetivo era chegar ao país ao norte, governado por uma ditadura e fora do alcance da influência da Liga.
O líder já tinha conversado com quem precisava e chegado a um acordo. Sofrendo sanções econômicas, o outro país, de braços abertos, estava pronto para obter um trunfo diplomático chamado “passageiros”.
O maior desafio era embarcar no avião, mas agora todos os problemas tinham acabado. Era hora de esperar o sinal, algo extremamente simples. No momento em que o avião atingisse a altitude desejada, a luz dos cintos de segurança se apagaria e...
“NINGUÉM SE MEXA!!”
Junto com o sinal, o prisioneiro nº 015 estendeu a mão para a garota ao lado e agarrou o pescoço delicado dela como num torno. A vítima não teve tempo de reagir, pois um dispositivo em forma de metralhadora foi encostado na sua têmpora. Algo semelhante aconteceu simultaneamente em diferentes partes do avião, e a cabine logo ficou barulhenta.
“O quê!?”
“O que está acontecendo!?”
“Eles têm armas!”
“Vocês, desgraçados, são cavaleiros?”
“Não se mexa, velhote! E você também, loirinha! Vamos fazer isso sem movimentos bruscos! Você não quer que eu estoure a cabeça desta garota e decore a cabine inteira com os miolos dela, quer!?”
“Ghh...”
“Ei, nº 022! Amarre eles bem!”
“Entendido!”
Como os prisioneiros fugitivos tinham planejado, foram os primeiros a neutralizar os seguranças. Dois Cavaleiros-Magos que estavam a bordo como guardas saltaram instantaneamente dos assentos, mas era tarde demais: seis passageiros já tinham sido feitos prisioneiros.
Obedecendo aos criminosos, eles se deixaram amarrar. Depois de confirmar a neutralização dos guardas, o prisioneiro nº 015, junto com a sua refém, correu para a cabine de comando. Irrompendo nela, começou imediatamente a ameaçar o comandante da tripulação e o copiloto.
“Vocês já estão cientes da situação atual? A partir de agora, o plano de voo desta aeronave foi redefinido. Então estou pronto para assumir o papel e acertar tudo. Se vocês forem contra, então eu...!”
No meio da fala, o líder apontou o cano da metralhadora para o comandante da tripulação. No entanto, as ameaças não alcançaram bem o objetivo. O comandante, de meia-idade, abriu a boca com firmeza para responder.
“Você realmente quer nos matar!? Não acho que você seja capaz de pilotar um avião!”
O prisioneiro nº 015 reagiu às palavras dele com uma rajada automática. As balas passaram a poucos milímetros do rosto do comandante e atingiram o para-brisa da cabine.
“Ei!”
“Não tente barganhar comigo!! Velhote, agora você está nas minhas mãos! Mas, enquanto seguir as minhas ordens, nada vai acontecer com você! Então!? Mais alguma pergunta!?”
“N-não! Por favor, acalme-se! Farei o que o senhor mandar! Não atire!”
Finalmente, as ameaças alcançaram o objetivo desejado. Tendo quebrado a obstinação do comandante, o prisioneiro nº 015 confirmou o sucesso da operação.
“Eu não pretendia fazer isso desde o início. Bem, este voo não vai pousar no aeroporto de Tóquio. O nosso novo destino é a base da força aérea na Coreia do Norte.”
“M-mas, se nos aproximarmos demais de um lugar desses, o nosso avião civil será abatido!?”
“Ser abatido não está nos meus planos. O outro lado já foi avisado e está pronto para o nosso pouso. Não precisa se preocupar...”
De repente, quando o prisioneiro nº 015 já estava convencido do sucesso da operação,
“AAAAAAAAAAAAAAA!!!!”
Algo atingiu o avião com força, e o som ensurdecedor de uma explosão se fez ouvir. O avião balançou para os lados, e gritos assustados dos passageiros ecoaram pela cabine.
“O-o quê!? Maldição, o que vocês fizeram!?”, gritou o nº 015, olhando para fora da cabine de comando.
“Não fomos nós!”
“Exato! O avião balançou sozinho de repente!”
“Olhem pela janela! Rápido!!”
“Mentira! Isso simplesmente não podia acontecer! Eu não acredito, não acredito, não acredito nisso!”
“AAAAAAA!!”
Era a loucura. Os detentos e os passageiros entraram em pânico ao mesmo tempo. Gritando alto, todos apontavam os dedos para a janela. Antes que o comandante pudesse abrir a boca, o copiloto já o havia informado.
“Capitão! Saíram chamas do motor da asa esquerda! Perdemos o controle da asa esquerda!”
“O-O QUÊ!?”
“Não conseguimos manter a sustentação! Se continuarmos o voo, com certeza vamos cair!”
“E então? Ainda quer ir para a Coreia do Norte...?”, perguntou o comandante da tripulação, olhando para o líder dos criminosos.
O prisioneiro nº 015 estava longe de conhecer a estrutura de aeronaves. Mas os repetidos sons de explosões e o balanço do avião deixavam claro o que aconteceria com ele.
O avião cairia antes de chegar ao destino. Antes, ele havia ameaçado o comandante com ousadia, dizendo que a queda não o incomodava. Mas, diante de um desastre real, toda a sua coragem diminuiu drasticamente.
“Estamos voltando urgentemente ao aeroporto! Rápido, antes que a gente caia!”, gritou o nº 015, abandonando o plano original.
A tripulação reagiu imediatamente às suas palavras. O comandante entrou em contato com a torre de controle e notificou o pouso de emergência, e o copiloto, arriscando inúmeras vidas, tentou pousar o avião de volta na pista de onde tinham acabado de decolar.
Gritos altos ecoaram de novo por toda a cabine. A asa esquerda em chamas não aguentou a carga e se soltou por completo. O avião balançou ainda mais. Sem conseguir manter o corpo de pé, o nº 015 caiu no chão e se encolheu como uma bola.
“Meu Deus, meu Deus! Eu não quero morrer!”
“Vai ficar tudo bem, tio”, disse calmamente o rapaz que o nº 015 havia tomado como refém, confundindo-o com uma garota elegante.
Ao contrário do criminoso, ele se mantinha firme sobre os pés. Com uma chama furiosa atrás de si, parecia o próprio diabo abrindo a tampa da fornalha infernal.
“Este avião não vai cair. Afinal, eu tive muita sorte.”
[Almeranto: Que coincidência né? Olha quem estava no avião.]
“E...”
Do que será que esse garoto está falando?
No entanto, isso não importava. Afinal, o que aconteceu a seguir estava no limite da fantasia. O avião, tendo perdido a asa e a sustentação, pousou calmamente na pista, como se não tivesse havido acidente nenhum.
“...O QUÊ?”
O avião, sem uma das asas, pousou sem incidentes. Uma sorte incrível demais para o caso deles. O prisioneiro nº 015, os passageiros e até os pilotos ficaram surpresos com um pouso tão suave. Abrindo e fechando a boca, só piscavam, perplexos. Nesse silêncio mortal, ouviu-se a única risada do garoto.
“Viu? Eu disse. Embora... se eu não estivesse neste voo, e se eu não tivesse desejado que ninguém morresse nem se ferisse, uma situação dessas não teria acontecido. Então vocês ainda estão sem sorte.”
Só depois dessas palavras o nº 015 compreendeu. Aquele garoto loiro... era o responsável pelo que tinha acabado de acontecer.
“N-não pode ser, você realmente...”, gaguejou o nº 015, com a voz trêmula de medo.
A suposta vítima indefesa também era um Blazer.
“Eu sou o Failure, Amane Shinomiya. No momento, ainda sou um lamentável Cavaleiro-Aprendiz”, disse o garoto, enfiando a lâmina fina da espada recém-invocada na garganta do nº 015.
“Mas, ainda assim, topar com algo assim no avião, logo depois de responder à convocação, pode ser considerado sorte... Embora não, parece mais azar.”
◆
Tóquio. Dojo da família Ayatsuji.
“Ghaaa!”
Um grito alto ecoou por ali. Como era um dojo dedicado a aprimorar a arte da espada, gritos e berros não eram raros, mas aquele grito não pertencia a nenhum dos praticantes. A origem dele era...
Quem é esse gordo que apareceu de repente?
Um homem grande, em forma de barril. Com um poderoso chute, ele havia derrubado por completo as portas do portão principal. Uma enorme e feia cicatriz cruzava o rosto dele, do nariz até o alto da cabeça. A porta que ele partiu em duas voou na direção dos alunos da Academia Donrow, que treinavam no pátio do dojo. Ao ver o mestre do dojo, Kaito Ayatsuji, que observava os alunos da varanda, os olhos do gordo ficaram injetados de sangue.
“Muito tempo se passou desde o nosso último encontro... O Último Samurai.”
“...”
“Eu nunca me esqueci de você. Afinal, é por sua culpa que perdi tudo.”
O gordo que invadiu de repente se chamava Okuma Ginji. Prisioneiro nº 251. Era um dos cavaleiros que escaparam da prisão durante a recente fuga em massa. Mas qual era o sentido de arriscar-se e aparecer em plena luz do dia no dojo Ayatsuji?
Havia um motivo. O Último Samurai, Kaito Ayatsuji, foi quem o capturou e o mandou para a cadeia. Era hora da vingança. Para isso, arriscando tudo, ele havia aparecido naquele lugar. Mas...
“Ei, esse careca é amigo seu?”
“Não, não o conheço”, respondeu Kaito, voltando a cabeça para o rapaz de aparência feroz.
Estreitando os olhos, olhou mais uma vez para Okuma e balançou a cabeça. Aquele gordo lhe era completamente desconhecido. Essa reação enfureceu Okuma ainda mais. Seus olhos injetados faiscavam de sede de matar.
“Hã!? Não é hora de piadas! Eu sou Okuma Ginji! Quinze anos atrás, eu era o jovem chefe da gangue Suyama Gumi que você destruiu!”
“Não me lembro.”
“A minha cicatriz! Olhe para esta cicatriz, ela deveria lhe ser familiar! Afinal, foi você quem a deixou em mim!”
“Não me lembro.”
“A gangue acabou por sua causa! Meu pai, meus companheiros... todos foram pegos naquele dia! Agora eu nem tenho uma casa para a qual voltar!”
“Eu não o conheço. Quando precisei atacar criminosos como você, eu apenas cumpri o meu trabalho. Sinto muito, mas não estava nos meus planos lembrar o rosto e as mágoas de todos.”
“A-ha-ha!”
O rapaz caiu na gargalhada depois das palavras de Kaito. Okuma, porém, estava longe de se divertir. Durante aqueles quinze anos atrás das grades, a sua raiva de Kaito só havia crescido.
“...Então é assim. Tudo bem. Eu era fraco naquela época, então não tem problema você não se lembrar de mim. Mas agora tudo vai mudar. Com os meus punhos, vou fazer você se lembrar de mim! Vou gravar em você o medo deste dia!”, gritou Okuma, explodindo de raiva.
Instantaneamente, luvas cor de jade surgiram em ambos os punhos dele. Aquelas luvas eram a materialização da sua alma. A sua Noble Art consistia em interferir na natureza, a saber, o controle direto do vento. Um redemoinho circulava ao redor do punho direito de Okuma.
“Ouvi dizer que você está doente, Kaito! Mas isso não importa nem um pouco para mim!!”
Golpe de ar comprimido. O punho de Okuma disparou para a frente. Sentado na varanda, Kaito não conseguiria desviar a tempo. Acerto direto. A explosão de ar comprimido estilhaçou a varanda e causou grandes danos à casa atrás dela. Mas...
“...e?”
A coluna de poeira assentou um pouco, e o olhar de Okuma encontrou Kaito e o rapaz completamente ilesos. Por quê? Como haviam sobrevivido à sua explosão? Enquanto Okuma ponderava, confuso, o rapaz abriu a boca.
“Uau. Que destruição espetacular. Parece que esse velho apareceu com intenções sérias.”
“Mas que ra-ra-razão é essa!! Que idiota faz barulho em pleno dia!!”, gritou uma garota de cabelos negros, correndo para o pátio em meio ao alvoroço.
Era Ayase Ayatsuji, filha de Kaito Ayatsuji.
“Ouvi um estrondo e corri para ver o que tinha acontecido... O quê!? Meu Deus! Vocês destruíram o dojo de novo! Ei, vocês...”
Assim que os olhos dela encontraram a cena lamentável do dojo em ruínas, Ayase fuzilou com o olhar os alunos da Academia Donrow espalhados pelo pátio. Ao ouvirem a acusação injusta, os alunos gritaram, desesperados:
“Não fomos nós, nee-san! Dessa vez a gente não fez nada, de verdade!”
“Isso, isso! Aquele gordo ali causou a destruição! Ele invadiu de repente e atacou sem avisar!”
“Ayase”, disse Kaito, voltando-se para a filha, como se quisesse cortar o tumulto.
Lançando um olhar a Okuma, ele tornou a olhar para Ayase.
“Esta é uma boa oportunidade para você treinar em combate real. Tente derrotar esse criminoso sozinha.”
“...Quem é ele?”
“Não faço ideia. Parece ser um desses prisioneiros que fugiram da prisão recentemente.”
“Então é isso. A julgar pela destruição, ele é forte o bastante”, disse Ayase, olhando fixamente para Okuma.
“Você não devia se intimidar com o mau comportamento dele. Dá para lidar com um peixe pequeno assim sozinha”, provocou, com um olhar feroz, o rapaz chamado Kuraudo Kurashiki.
“Você é irritante”, ela apertou os lábios, brava, em resposta à provocação do rapaz. “...Entendi. Certo, otou-san. Não vou deixar que ele escape depois de tamanho absurdo.”
Sozinha, tendo materializado o seu dispositivo, a katana escarlate Akatsume, Ayase se preparou para enfrentar Okuma.
“Estou reconstruindo o dojo há muito tempo. Se se machucar, nem ouse reclamar!”
“Então a filha do Kaito, ao contrário do pai, é uma cavaleira. Heh, que engraçado”, Okuma sorriu com malícia.
O seu rancor contra Kaito era enorme. Se Okuma simplesmente o matasse, não ficaria satisfeito. Kaito havia destruído a família dele. Ele simplesmente tinha a obrigação de devolver o mesmo ao seu inimigo mortal.
“Vou destruir a sua filha, de quem você tanto se orgulha. E depois vou atrás de você”, rugiu Okuma, saltando.
Era difícil acreditar que um homem de corpo em forma de barril pudesse se mover tão rápido. Okuma avançou em linha reta, sem nem tentar fintar. Um instante depois, o punho dele atingiu Ayase.
“Oraaaaaa!!”
Ele nem pretendia considerar os movimentos dela. Em Ayase, Okuma via apenas uma garotinha tola.
“Haa!”
“...!”
Ayase praticava o estilo de luta da sua família Ayatsuji, que aproveitava ao máximo os contra-ataques. Essa característica do estilo se devia ao fato de que Kaito não era cavaleiro. Os cavaleiros mágicos podiam usar livremente os seus poderes mágicos para se proteger.
Com a magia, podiam até se proteger de um tiro de bala. A única coisa capaz de romper a proteção mágica era outro poder mágico. Mas Kaito não era cavaleiro e não podia usar magia. O que fazer? Como romper uma barreira invencível numa situação dessas? Refletindo sobre essa questão, o talentoso espadachim Kaito Ayatsuji criou o seu próprio estilo, o Ayatsuji Itto-Ryu.
Esse estilo de luta se baseava em atacar no momento em que o próprio inimigo parte para a ofensiva. Afinal, não é segredo para ninguém que, durante um ataque, a proteção dos cavaleiros enfraquece.
Kaito foi um grande espadachim no passado. Derrotou muitos cavaleiros sem ser um deles. Por tais feitos, era respeitado pelos Cavaleiros-Magos, que o chamavam de O Último Samurai. Era natural que a filha, Ayase, herdasse o seu estilo de espada.
Virando a lâmina para baixo, ela deixou o punho de Okuma deslizar sobre a sua katana. No entanto, Ayase não se limitou a se defender. Assim que o punho do inimigo deslizou pela lâmina, ela projetou a katana para a frente para ferir o desprotegido Okuma. Contudo, tal ação foi ingênua demais da parte de Ayase.
“Wind Blast!!”
“Oh.”
Quando a lâmina de Akatsume estava prestes a perfurar Okuma, uma pressão escapou do seu enorme corpo. Pressão de vento. A pressão atmosférica que saía do corpo de Okuma foi forte o bastante para lançar para trás o corpo esbelto de Ayase. Uma resposta instantânea ao ataque do inimigo. “Como?”, você pergunta. Okuma tem uma reação tão rápida assim? ...Bem, talvez em parte seja isso, mas, na verdade, Okuma já havia lutado contra Kaito no passado, então entendia como era o estilo de espada dele.
“Entendi. Então a filha do Kaito usa as mesmas habilidades do pai? Parece, garota, que você tem muito azar. Durante todos esses quinze anos, venho desenvolvendo contramedidas contra o Kaito! É hora da vingança!!”
Isso mesmo. Ele havia experimentado o estilo de espada dos Ayatsuji na própria pele. Naturalmente, todas as contramedidas possíveis haviam sido pensadas por ele. Ele sonhava com aquele dia havia muito tempo.
“Ora-ora-ora!!! Eu estava um pouco preocupado, mas parece que todos os meus temores eram em vão!”
Okuma partiu de novo ao ataque. Dessa vez, decidiu abandonar o ataque frontal. Enquanto levava a vida na prisão, ele havia criado mais do que a técnica Wind Blast.
As táticas de combate também foram cuidadosamente pensadas por ele. Envolver o corpo num redemoinho, acelerar os movimentos, atacar sem parar para não dar ao inimigo nem uma chance de contra-atacar.
Claro que, a cada golpe, o ritmo diminuía, mas não se devia esquecer que Okuma era um Blazer. Juntando as duas palmas, usou-as como uma lâmina para desferir golpes cortantes.
Lâmina afiada: Tempest Claw.
Essa técnica combinava um ritmo rápido e uma poderosa força de impacto. Uma rápida série de golpes duros. Apesar de o inimigo não ter nenhuma arma de verdade na mão, Ayase só conseguia se defender.
“A-ha-ha. Parece que ele é forte demais para você. Quer trocar de lugar, Ayase?”
“Cale a boca!”, retrucou Ayase, quando as palavras de Kuraudo, dizendo que o inimigo era mais forte, chegaram aos seus ouvidos.
O inimigo era mais forte do que ela? ...Não. Claro, Ayase agora apenas se defendia do ataque de Okuma. Mas será que ela deveria apenas se defender? Sim, a série de ataques do inimigo era rápida, mas Ayase conseguia lidar com ela com facilidade.
Graças ao conselho de Ikki Kurogane, ela havia preparado cuidadosamente o seu corpo. Em vez de imitar sem pensar os movimentos do pai, Ayase adaptou o estilo da família ao seu corpo. Ela estava muito mais forte agora do que durante as eliminatórias da Academia Hagun.
No entanto, se abandonasse a defesa e tentasse atacar, a situação se repetiria como no primeiro ataque do inimigo. Ele certamente a afastaria com o Wind Blast e voltaria imediatamente aos ataques cortantes.
Para impedir isso, Ayase precisava lançar um contra-ataque que impedisse Okuma de alternar entre ataque e defesa, ao mesmo tempo em que mantinha a lâmina em posição de ataque para rebater a série de golpes inimigos.
A katana dela, Akatsume, podia tornar esse plano realidade. Afinal, ela possuía uma habilidade verdadeiramente divina. Era hora de agir. Ayase Ayatsuji estava pronta para mostrar a todos que o conselho de Ikki Kurogane não tinha sido em vão para ela.
“Estilo Ayatsuji Itto-Ryu: Tenyi-Muho!”
“O quê...!?”
Para surpresa de Okuma, o corpo de Ayase deslizou por entre a sua série de golpes. Isso não é exatamente verdade, mas ela estava bem diante dos olhos de Okuma. A distância entre os corpos ficou mínima; na prática, Ayase entrou na zona crítica do inimigo.
“Haa!”
“Wind Blast...!!”
Algo inesperado aconteceu aos olhos de Ayase. A estocada de espada dela, que deveria ferir seriamente Okuma e impedi-lo de alternar entre ataque e defesa, foi recebida com um contra-ataque.
No passado, Okuma já havia visto o Tenyi-Muho de Kaito. A lembrança do passado estava firmemente gravada na sua cabeça. Por isso, aceitando friamente o fato de que Ayase havia escorregado por entre os seus golpes, ele disparou contra ela uma bala de ar comprimido.
Como resultado, o contra-ataque dele foi bem-sucedido. A estocada de Ayase só abriu um corte superficial no peito dele, protegido por uma grossa camada de gordura. Ele escapou de um ferimento mortal, o que o agradou...
“Usar uma técnica tão bizarra! Realmente não esperava algo assim de uma mulher... hã!?”
Sem tempo de terminar de expressar o pensamento, Okuma gritou de surpresa. Afinal, o que a oponente fez parecia absurdo. Ayase simplesmente se virou de costas para ele. Como se a sua luta tivesse acabado.
“Ei, sua idiota! O que você viu de tão interessante aí!!”, rugiu Okuma, atacando as costas indefesas de Ayase.
A raiva fervia dentro dele. O comportamento da inimiga era atrevido demais. Mas, nessa situação, foi Okuma quem cometeu o erro. A batalha atual era uma batalha entre cavaleiros. Assim como Okuma tinha a habilidade de controlar o vento, Ayase também podia usar magia. Mas qual era a sua arte nobre?
“Chore, Akatsume.”
[Almeranto: A propósito, o nome da lâmina dela pode ser traduzido como Garra Escarlate.]
Era isto: Ayase possuía a habilidade de abrir os ferimentos deixados pela sua katana Akatsume.
“Grargh!?”
Até um pequeno arranhão ela podia transformar em ferida mortal. Assim que ela pronunciou as palavras de invocação, a sua Noble Art foi ativada. O pequeno corte no peito de Okuma se transformou numa ferida profunda e feia. A dor que Okuma sentiu foi forte o bastante.
Inconsciente, o seu enorme corpo desabou no chão, espirrando sangue para os dois lados. Ayase, porém, nem se virou. Em vez disso, caminhou com passos rápidos até Kuraudo, que acompanhava a luta sem parar.
“E então? Para quem o inimigo era forte demais?”, perguntou Ayase, com um sorriso orgulhoso, olhando para Kuraudo.
Em resposta, ele apenas deu de ombros.
“Não vejo motivo para tanta alegria. Você treina contra mim todo dia. Derrotar uma tartaruga tão lenta não foi grande coisa. Ah, espera. Será que você esperava um elogio?”
Com uma expressão travessa no rosto, Kuraudo estendeu a mão na direção da cabeça de Ayase.
“Não diga bobagens!”, disse Ayase bruscamente, afastando a mão de Kuraudo com toda a força.
Corada, ela desviou o olhar. ...No entanto, não podia negar o fato de que os ataques de Kuraudo eram muito mais fortes do que os do inimigo que ela acabara de derrubar.
[Almeranto: Muito boa a dinâmica dos dois depois que o Kuraudo entra no caminho da rendenção.]
◆
Tóquio, região de Shinjuku.
Localizada no coração do Japão, era um lugar muito movimentado. O coração do Oriente, onde fervilhava a ganância de uma riqueza imensa, reunida tanto dentro do país quanto no exterior. Não era de espantar que gente do mundo inteiro acorresse àquele lugar mágico.
Se você saísse da colorida rua principal e entrasse num beco escuro, chegava a lugares onde as leis não valiam. Sem justiça, só violência. Em lugares assim, a luta feroz pela sobrevivência jamais cessava. Normalmente, no centro desse caos estavam os yakuza ou a máfia chinesa, mas, recentemente, eles haviam sido completamente substituídos pelo grande sindicato Dragunov, pertencente à máfia russa.
“Vamos, Explosive Fist! Hoje você simplesmente tem que derrubar a Queen!”
“Red Iron! Hoje apostei todo o meu dinheiro em você! Nem ouse perder para ninguém!”
As Masmorras de Shinjuku. Desde que chegou ao poder, o sindicato Dragunov construiu um enorme Coliseu. Lutas clandestinas eram realizadas ali todos os dias, e os espectadores apostavam dinheiro, o que era proibido no mundo de cima.
Não eram só os bandidos locais que faziam o papel de espectadores. Havia turistas que gostam de brincar com fogo e grandes figuras do mundo político e empresarial que fugiam de pagar impostos. O Dragunov havia criado um entretenimento único nas sombras do mundo.
O Coliseu comportava até três mil espectadores e, naquele dia, estava lotado. O povo aos gritos, nas arquibancadas, expressava seu entusiasmo e impaciência ao ver setenta cavaleiros lá embaixo, na arena, lutando numa Batalha Real.
“UUUUU! Ele foi atrapalhado!”
“OOOOOOOO!”
“Incrível! Ele explodiu dez pessoas ao mesmo tempo com um só golpe!”
“Como esperado da Queen! Ela passou por todo mundo no Coliseu como num rinque de patinação!”
“Oh-oh-oh-oh!”
“O-o que aconteceu!? O Red Iron foi literalmente pulverizado...!”
“Quem é esse cara de máscara de gás...!?”
“É o Jack! O famoso Jack the Ripper do Coliseu!”
“Como esperado, afinal o verdadeiro guerreiro do Coliseu é...”
“O rei não está presente na batalha de hoje! Parece que ele é o favorito de hoje!”
“Matem todos! Matem um por um!”
Um homem alto, num camarote VIP no ponto mais alto das arquibancadas, observava a luta através do vidro. Esse homem, vestido com um provocante terno roxo, era o gerente geral do Coliseu e também um dos líderes do sindicato Dragunov.
“Ha ha ha, uma Batalha Real com setenta cavaleiros. Parece bastante impressionante. Nós, o Dragunov, somos os únicos no Japão capazes de organizar um torneio dessa escala”, gabou-se Yakov, e se virou para o homem atrás de si.
“Eu gostaria que o senhor se juntasse a nós. O Apostle of the Rebellion... Tenho certeza de que derrotaria com facilidade qualquer lutador da arena, Bishou-san.”
O homem de tatuagens sombrias no rosto, vestido com um manto folgado, estalou a língua.
“Não seja bobo, Yakov. Acabei de fugir da prisão e vir parar neste lugar. Não posso chamar atenção demais.”
“A-ha-ha. Então vocês realmente se deram mal. Quem diria que a Princesa Carmesim e o Rei das Sete Estrelas iriam parar juntos naquele shopping e levar todos vocês de roldão.”
Isso mesmo. Bishou e o bando de homens de cara fechada atrás dele haviam sido capturados por Ikki Kurogane, Stella Vermillion e outros Cavaleiros-Aprendizes, alguns meses antes. Todos eles tinham entrado na Rebellion como mercenários. E agora fugiram juntos da prisão, aproveitando o caos causado pela morte de Or-Gaule.
“Ouvi dizer que o arroz cozido das prisões japonesas é delicioso à sua maneira? Talvez devesse encarar o encarceramento como uma espécie de férias?”
Ao ouvir a provocação de Yakov, Bishou franziu ainda mais a testa e cerrou o punho de raiva.
“...Vou garantir que aqueles garotos recebam a recompensa pelo ‘ato’ que cometeram. Mas isso fica para o futuro. É melhor lidar agora com outros problemas.”
Na verdade, Bishou queria vingança naquele instante. Mas havia um bom motivo para não poder fazê-lo no momento. O empregador deles, a Rebellion, havia sido praticamente destruída por Or-Gaule.
“A sede da Rebellion caiu e somos forçados a procurar um novo patrono... A conversa com os outros chefes do Dragunov correu bem?”
“Claro... Depois que o Marionette King destruiu o coração da Rebellion e levou ao colapso, as forças restantes da Rebellion se dispersaram para a Liga Internacional de Cavaleiros Mágicos e para a União das Grandes Potências. A divisão do mundo em três facções, que durava havia muito tempo, caiu no esquecimento. A maior parte das forças da Rebellion está se dirigindo para os Estados Unidos, então a União está agora mais forte do que nunca”, assentiu Yakov.
A maior parte das forças da Rebellion foi destruída pelas mãos de Or-Gaule. Nem mesmo os Twelve Apostles, os líderes supremos da Rebellion, sobreviveram. Deles, apenas dois, que não estavam presentes no momento do desastre, conseguiram sobreviver. Um deles, o Great Professor, liderou a sua própria facção e se juntou aos EUA, o país onde nasceu.
“A situação joga a favor da União, mas essa facção é hostil à Liga. Além disso, a unidade na União é muito mais fraca do que na Liga. O grupo militante está ganhando força... e nós não gostamos desse crescimento... Todos os outros chefes mandaram dizer que ficariam felizes em tê-lo em nossas fileiras, Bishou-san.”
Logo depois das palavras de Yakov, os subordinados de Bishou exclamaram, felizes: “Que legal...!”, “Não achei que tudo seria resolvido tão rápido...”. Até o próprio Bishou soltou um suspiro de alívio. Não dava para ver por baixo do manto, mas o corpo inteiro dele relaxou.
“...A partir de agora somos amigos.”
“Perfeito. Primeiro, vocês vão ajudar a limpar toda a região. Depois disso, nossa cooperação continuará em outros territórios. Não precisa se preocupar com o pagamento, vocês serão bem pagos pelo trabalho.”
“Não estou preocupado com o pagamento, mas... Depois da fuga em massa das prisões, as fronteiras costeiras estão fortemente vigiadas. Que garantias temos de que a nossa rota será segura?”
“Em três dias, o nosso submarino, que estava a caminho da Somália, voltará para Tóquio. Ele é uma embarcação submarina de alta velocidade do tipo mais novo. Nenhum navio da Guarda Costeira consegue lidar com ele, então não precisa se preocupar”, disse Yakov, dando de ombros.
De repente, no meio da conversa, um homem foi esmagado contra a divisória de vidro do camarote VIP, que tinha uma excelente vista da arena e ficava atrás de Yakov.
“O-o quê!?”, exclamou Yakov, surpreso, ao ver um homem de roupas pretas com máscara de gás achatado contra o vidro especial à prova de balas. “E!? Jack!?”
Ver um dos lutadores mais fortes do Coliseu em tal estado deplorável foi inesperado para Yakov.
“O quê!? O Jack foi arremessado até o camarote VIP!?”
“Ei! Foi a garotinha de capa que fez isso!”
“Quem é!? O rosto está completamente escondido pelo capuz, será que é mesmo uma criança!?”
O incidente chocou não apenas o camarote VIP, mas todos os espectadores das arquibancadas. Muitos olhos se fixaram na pequena desconhecida que havia derrubado Jack.
“Certo, parece que é hora da faxina!”, disse a pequena desconhecida, jogando fora a capa. Por baixo, vestia uma camiseta comum e bloomer.
[Almeranto: Shorts esportivos usados por colegiais japonesas.]
A pequena desconhecida era uma garota cheia de energia, de pele morena clara e cabelos cacheados. Era Tomaru Renren, do segundo ano da Academia Hagun. Logo em seguida...
“Entendido!”
“O quê!? Já?”
“Certo.”
Mais três pessoas jogaram fora suas capas. Saijo Ikazuchi, do segundo ano da Academia Hagun. Kikyo Hagure, do terceiro ano da Academia Hagun. Botan Hagure, do terceiro ano da Academia Hagun. Os cavaleiros do grêmio estudantil da Academia Hagun também haviam respondido à convocação.
“Garotas!? E um rapaz!? Eles estavam entre os participantes inscritos?”
“Esperem! Olhem o uniforme deles! É sem dúvida o uniforme oficial dos alunos da Academia Hagun!”
“Peço a atenção de todos! Somos alunos da Academia Hagun! Depois de responder à convocação especial, perseguimos prisioneiros fugitivos e topamos com um lugar dedicado a atividades ilegais! Simplesmente não podemos ignorar algo assim! Pelos poderes recebidos da convocação especial, todos vocês estão presos! Como podem ver, a resistência é inútil, somos fortes demais! Quem não quiser se ferir gravemente, é só se render!”
“O quê!? Eles já nos localizaram!?”
“...Impossível. Passou tempo de menos. Provavelmente toparam com este lugar por alguma habilidade de interferência causal.”
As palavras altas dos Cavaleiros-Aprendizes que apareceram de repente causaram confusão e caos. O rosto de Bishou estava intensamente ansioso, mas Yakov não compartilhava dessas emoções. Apenas deu uma risadinha corajosa.
“Quatro cavaleiros voaram direto para o epicentro da base inimiga. Precisamos recebê-los como se deve.”
Enfiando a mão no bolso, ele tirou o smartphone e abriu um aplicativo de comunicação conectado ao sistema de alto-falantes do Coliseu. Tinha algo a dizer naquele instante.
“Dirijo-me a todos os espectadores e lutadores. Aqui fala o gerente do Coliseu, Yakov. Acabou de ser descoberto que quatro intrusos entraram no Coliseu. Peço sinceras desculpas pela falta de segurança que levou a esta situação. A partir de agora, a Batalha Real está temporariamente suspensa. Mas não se preocupem, todas as suas apostas serão reembolsadas integralmente. E agora tenho mais um comunicado. Neste instante, anuncio uma nova atividade: a caçada. O seu alvo são quatro alunos da Academia Hagun. Todos que participarem dessa caçada receberão 30 mil ienes, e, se conseguirem derrubar alguém, o sindicato Dragunov pagará mais 1 milhão de ienes de prêmio. Agora mostrem a esses garotos que, em um lugar sem lei como este, eles são absolutamente impotentes!”
“OOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!”
O anúncio do gerente pôs o Coliseu inteiro em chamas. Yakov prometeu dinheiro a todos que lutassem contra os quatro intrusos. Na prática, tornou-os inimigos diante de todos os presentes.
Como resultado, os bandidos espectadores que não participavam da Batalha Real foram pulando para a arena, um após o outro. Como uma avalanche, um enorme fluxo de pessoas se despejou sobre o pequeno grupo de quatro. Eles eram poucos demais.
“Blackbird!!”
“AAAAAAAAAAAAAAA!!!!”
Todos os atacantes desprezaram o alvo. Mas foi em vão. Todos aqueles estudantes ocupavam altas posições na Academia Hagun. Nas eliminatórias, tiveram uma sequência de vitórias e só perderam bem no final.
Bandidos não eram páreo para eles em força. Para demonstrar a diferença de força, Renren ativou a sua habilidade de acúmulo de velocidade, Mach Net. Movendo-se pela arena a uma velocidade superior à do som, ela varreu com o vento todos os peixes pequenos que haviam decidido, sem pensar, descer das arquibancadas para a arena.
“A-ha-ha! Vamos lá! Me peguem se conseguirem!”
“Q-que velocidade é essa!”
“Cada vez mais rápida! Meus olhos não conseguem acompanhá-la!”
“Merda! Que diabos está acontecendo!”
E, os que não foram varridos pelo vento, Renren chutava e socava a uma velocidade de Mach 2.
[Almeranto: 1 Mach equivale a 1.198,8 km/h, ou 333 m/s.]
Sem parar, ela corria por toda a arena. Nesse ritmo, poderia dar conta de todos os oponentes. Mas...
“Sinto muito, bebê, mas agora o seu fim chegou!”
Além dos peixes pequenos, lutadores realmente fortes lutavam no Coliseu sob a proteção da máfia russa. Um gigante careca, com batom vermelho-vivo nos lábios, empurrou seus aliados para o lado e saltou para a arena.
Nas mãos dele já havia se materializado um dispositivo que parecia um par de enormes escudos decorados com espinhos.
“A sua velocidade é absolutamente inútil diante de um inimigo como eu! Vamos, bebê! Ataque-me! Tente romper o escudo duplo da Queen com essas suas mãozinhas delicadas!”, começou a provocar a Queen.
Renren, porém, não cedeu. Continuando a correr no mesmo lugar, mostrou a língua e levou o dedo ao olho.
“Não vou cair numa provocação dessas, Queen-sama. Como a senhora apontou, é inútil eu competir com o inimigo na força. Prefiro continuar usando a minha velocidade!!”
Logo depois das palavras, Renren mudou de tática. A velocidade de Mach 2 que acumulou era suficiente para atrair um oponente para o seu território. Mantendo a velocidade, Renren começou a girar em círculos ao redor da Queen.
Assim que o inimigo a perdesse de vista, ela poderia atacar sem sequer dar chance de defesa. Mas a Queen apenas sorriu diante de todos os movimentos de Renren.
“Não adianta, bebê, esse truque não vai funcionar.”
“...! A senhora sabe o que eu pretendo fazer?”
“Temos ligação com um membro do Festival de Batalha das Sete Estrelas. Ele tem informações sobre os estudantes cavaleiros mais fortes de várias academias. Inclusive sobre você. Portanto, sabemos todas as fraquezas da sua técnica Mach Net. A primeira falha fatal: você não pode parar para acumular velocidade! Não pode nem usar nenhuma finta! Embora desenvolva uma velocidade vertiginosa, a trajetória dos seus movimentos é sempre reta! Segundo! Por mais rápida que seja, energia é massa vezes velocidade! E o seu físico, bebê, claramente carece da primeira! Não tem como você romper a minha defesa! Principalmente contra uma inimiga que tem dois escudos e pode se defender em duas direções ao mesmo tempo!”
A Queen estava absolutamente certa. Para uma cavaleira, ela tinha um físico grande. Além disso, o seu dispositivo era um escudo. Ela conseguiria absorver qualquer ataque do inimigo.
Sabendo que a inimiga não era capaz de nenhum movimento enganoso, dois escudos bastavam para a Queen repelir qualquer ataque de 360 graus ao seu redor. Assim que Renren atingisse o escudo, a sua velocidade diminuiria por completo. E o confronto acabaria ali.
Nem a Queen nem os bandidos perderiam uma oportunidade tão excelente de atacar. Renren certamente morreria. Até a própria garota não negava esse fato. Mas...
“Hah! Tudo o que a senhora disse é verdade, claro...! Mas essa informação está um pouco desatualizada!”
Logo depois das palavras, Renren mudou de trajetória. Parando de girar em círculos ao redor da Queen, ela disparou em linha reta e atacou por trás. Contudo, a Queen não era tão indefesa a ponto de não refletir um ataque pelo ponto cego.
“Sua idiota!”, reagiu a Queen ao ataque inesperado pelas costas.
Movendo um dos escudos para onde Renren deveria atacar, a Queen se preparou para a defesa. ...Mas, no instante seguinte, a Queen ficou incrivelmente surpresa.
Afinal, em vez de partir para o ataque, Renren saltou e passou por cima da cabeça da Queen. As surpresas, porém, não pararam por aí. A garota saltou direto para as arquibancadas e começou a correr não só ao redor da arena, mas também pelas paredes e pelo teto do Coliseu, sem se importar com a força da gravidade.
“O quê!?”
“Conheço muito bem os meus pontos fracos! No passado, durante as eliminatórias, já me convenci deles da pior maneira! Pensei muito tempo no que fazer! Como lutar contra inimigos que conseguem acompanhar a minha velocidade, sem manobras enganosas! A resposta é simples! Eu simplesmente criei uma nova técnica...!”
Se não é possível usar manobras enganosas, então expanda a gama de ataques. Foi exatamente isso que Renren fez. Em vez das habituais trajetórias planas em 2D, ela passou a usar manobras de alta velocidade em 3D.
Como resultado, a trajetória do ataque dela mudou de um círculo plano para uma esfera volumétrica com o inimigo no centro. Chutes e socos mortais a velocidade de Mach 2, ao longo de qualquer trajetória no espaço. Agora, com certeza, ninguém conseguiria acompanhar os movimentos dela com os olhos.
“Delta Force...!!”
Impulsionando-se do teto, Renren disparou para baixo e, sem nenhum obstáculo, enfiou o punho na cabeça da Queen.
“Grargh...”
Com um golpe tão poderoso, a cabeça da Queen foi enterrada até a metade no tronco. Revirando os olhos e babando, a Queen desabou no chão. Instantaneamente, gritos de medo rasgaram a arena.
“Não pode ser! A Queen! Ela nocauteou a Queen!”
[Almeranto: Nocauteou não, ela matou a Queen, ter a cabeça afundada no tronco é morte certa.]
“Impossível! Fora o Rei, ninguém tinha conseguido derrotá-la...!”
“Merda! Esses garotos estão longe de ser fracos! Não os subestimem só por serem cavaleiros aprendizes! Vamos! Unam as forças!”
“SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!!!!”
O lutador mais forte deles havia sido derrotado, mas eles ainda não se renderam. Até então, eram mais de cem. Essa vantagem numérica elevou o moral deles. O primeiro alvo escolhido foi uma garota com uma lança azul-brilhante, Kikyo Hagure.
◆
“E daí? O quê? Você realmente me considera a mais fraca!?”, indignou-se Kikyo Hagure, sentindo a mudança no humor do inimigo. No entanto, a indignação dela era mais fingida. Uma multidão de mais de cem bandidos que não são cavaleiros é muito perigosa. Até uma cavaleira pode ter dificuldade para lutar contra todos de uma vez. Ainda assim...
“Sabia que o seu comportamento é rude?”
Armada com a lança, Kikyo rechaçou os bandidos que a atacavam. Desferindo golpes rápidos, perfurou todos eles e os neutralizou.
“GHAAAAAAA!!!!”
“Não recuem! Ainda dá para esmagá-la com números!”
Mesmo assim, por mais rápido que Kikyo perfurasse os oponentes, os bandidos continuavam a pressioná-la num fluxo furioso. O ritmo veloz dos ataques de lança é a principal vantagem da Kikyo-senpai.
Porém, essa vantagem pode ser totalmente anulada se o inimigo chegar perto demais e ela não conseguir brandir a lança como deve. Na cabeça, ela precisa sempre manter uma estratégia de contra-ataque ao plano de “interceptar” o inimigo.
E ela tinha essa estratégia. Quem lhe ensinou foi o cavaleiro em quem ela depositava absoluta confiança. “A minha força é fugir!”
“Instant Acceleration...!”
“Merda! Toda vez que quase a pegamos, ela escapa!”
“Pare de fugir de nós, covarde!”
“É engraçado ouvir essas palavras de uma multidão tentando atacar uma garota frágil e solitária”, sorriu Kikyo, usando a habilidade sempre que a multidão furiosa estava prestes a alcançá-la.
Vez após vez, ela usava essa técnica para manter a distância, algo muito importante para uma lanceira como ela. A habilidade não era tão rápida quanto a da Renren. Mas a técnica era semelhante aos movimentos das Asas-Gêmeas e, ao contrário da Renren, não exigia corrida para atingir a velocidade máxima.
Uma habilidade defensiva verdadeiramente perfeita. Era impossível pegar a Kikyo. Os oponentes também entenderam isso e, impacientes, começaram a se irritar.
“Droga! Cansamos de perseguir você! Provem da nossa magia!”
Percebendo que não conseguiam alcançar o alvo, os bandidos pararam no lugar... e começaram a mirar habilidades mágicas em Kikyo.
“Botan-chan, agora!”, gritou Kikyo, usando Instant Acceleration para saltar não para trás, mas para o lado.
Havia um motivo. Saltando para o lado, ela liberou a linha de tiro para a irmã gêmea, Botan Hagure, que estava o tempo todo atrás dela.
“Por favor, pessoal!”
“GUAAARGXXXXXX!!!!”
A linha de tiro estava livre. Os inimigos se espalhavam em multidão diante dos olhos de Botan, condições perfeitas para lutar, pois o dispositivo dela era um revólver.
Quando Botan abriu fogo, um coro alto de gritos de dor abalou o Coliseu. Doze balas com a habilidade de “penetrar” qualquer obstáculo saíram do revólver de Botan e alcançaram o alvo na hora.
Atirando sem parar, as balas de Botan alcançavam a linha dispersa de bandidos. A combinação perfeita entre irmãs gêmeas. Os bandidos que tiveram a sorte de não ser pegos no fogo cruzado de Botan foram abatidos pelas rápidas estocadas de Kikyo.
“Ótimo, Botan-chan!”
“A-ha-ha. E então? Mais alguém ainda não perdeu a vontade de lutar contra nós?”
Porém, a alegria delas logo foi interrompida por uma enorme sombra pairando sobre as suas cabeças. Olhando para cima, viram um gigante enorme e severo, com mais de dez metros de altura, balançando longas barras de aço.
“Vocês estão acabadas, pirralhas!!”
No instante seguinte, o gigante desceu as longas barras de aço sobre as cabeças das irmãs Hagure, rachando o teto da arena do Coliseu. Uma densa coluna de poeira subiu ao ar com um estrondo ensurdecedor. O gigante que causou toda essa destruição era...
“ISSO! É o nosso King!”
“O lutador invicto do Coliseu! O grande King voltou para nós de uma viagem de negócios!”
Yakov, que o tempo todo acompanhava ansioso a batalha na arena, soltou um suspiro de alívio com a aparição do gigante.
“...Fiquei com muito medo quando a Queen foi incapacitada. Mas agora não há dúvida sobre a nossa vitória.”
“Esse cara é bem enorme. Alguma habilidade?”
“Isso mesmo. A habilidade do King pode aumentar o tamanho dele em cinco vezes, transformando-o num ‘colosso’. Com um poder desses, ele é o lutador mais forte que temos no Coliseu. Tenho certeza de que nem a Princesa Carmesim conseguiria detê-lo... o quê!?”
[Almeranto: Que piada engraçada.]
Tranquilizar-se foi prematuro para Yakov. Quando a coluna de poeira assentou, em vez da imagem das irmãs Hagure esmagadas pelas barras de aço do King, ele viu algo diferente. Outro membro do grêmio estudantil da Academia Hagun havia chegado a tempo de ajudar e desviado as barras de aço do King com a sua Zanbato.
◆
“Kikyo-senpai, Botan-senpai, vocês estão bem?”
“Saijo-kun...!”
“Ah, sim. Mas só graças a você.”
“Ótimo, então posso continuar!”
Depois de confirmar a segurança das senpais, Saijo usou a sua habilidade Crescendo Axe, que lhe permitia acumular uma grande massa na lâmina. Em um instante, ele empurrou de volta o King, junto com as barras de aço.
“E!?!?!?”
“N-não é possível. O King foi jogado para trás!?”
“Quem... quem é esse cabeça raspada...!”
No passado, qualquer oponente que enfrentasse o King estava fadado a perder, recebendo golpes constantes das barras de aço vindos de cima. Mas Saijo não só aguentou o golpe com a arma, como também jogou o King para trás. A multidão explodiu de surpresa com a incrível força do rapaz.
“King... com um poder desses, a sua coroa vale uma moedinha”, provocou Saijo, lançando um rápido olhar ao inimigo derrubado.
“...! GHHAAAAAAAA!!!!”, rugiu de raiva o homem que ostentava o título de King.
Levantando-se, brandiu a barra de aço. A arma na mão dele ficou ainda maior, mas o King não parou por aí. Além de aumentar o tamanho do objeto físico, também aumentou o próprio corpo para golpear com a maior força possível.
As palavras de Saijo pareciam ter ferido gravemente o orgulho do King. Os olhos dele literalmente ardiam de ódio, mas Saijo continuou mantendo a calma.
“Kikyo-senpai, Botan-senpai, por favor deixem a luta com este oponente comigo.”
“Mas, Saijo-kun! O seu Crescendo Axe...!”, interrompeu Kikyo na hora. Ela tentou contestar as palavras dele, mas...
“Não se preocupem comigo”, cortou Saijo, e ergueu a Zanbato acima da cabeça.
Ele entendia o que a senpai queria dizer. “O seu Crescendo Axe não funcionou.” Isso mesmo: quando ele bloqueou a barra de aço do King, a habilidade Crescendo Axe já estava na potência máxima.
Afinal, seria tolice lutar sem seriedade em território inimigo. Desde o início da infiltração na base inimiga, Saijo começou a acumular o peso máximo na espada. Mas, no fim, só conseguiu jogar o corpo do oponente um pouco para trás. Não venceu nem incapacitou o King. Algo parecido já havia acontecido no passado...
Não é a primeira vez que isso acontece...!
Saijo se lembrou do oponente que apareceu nas eliminatórias da Academia Hagun e que, sem o menor esforço, repeliu a sua espada com o peso máximo acumulado. O espanto e o desespero daquela época continuavam frescos na sua cabeça. Mas ele não desistiu e entrou em ação!
“OOOOOOOOOOOOO!!!!”
Balançando a espada acima da cabeça, com a lâmina paralela ao chão, ele próprio começou a girar no lugar. Essa era a nova técnica de Saijo. A Princesa Carmesim. Foi só lutando contra aquela cavaleira de rank A que Saijo percebeu o quanto era fraco.
Ainda tenho vergonha daquela luta!
Ele havia falhado na sua habilidade de ganhar peso. O Crescendo Axe é uma técnica que permitia acumular até dez toneladas de peso na espada para desferir golpes muito mais poderosos. Mas agora... ela lhe parecia tão tola.
Ele tinha orgulho dela, mas, na batalha contra a cavaleira de rank A, Saijo nem conseguiu causar um arranhão no oponente.
Por isso, o Crescendo Axe não basta! O meu controle do peso super-pesado ainda não é perfeito. Então, nesse caso, simplesmente não devo controlá-lo! Isso! Em vez de parar, vou continuar ganhando peso...
Foi nisso que a sua nova técnica se baseou.
“OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!”
Naquele momento, o peso na lâmina da espada superava dez vezes o limite de dez toneladas que ele havia acumulado ao atravessar o território inimigo. Saijo perdeu imediatamente a capacidade de controlar a espada e apenas segurava o cabo da lâmina.
A massa acumulada aumentou a aceleração das rotações do corpo dele e acabou criando um poderoso tornado de forte pressão.
“Incrível. Que pressão de vento poderosa!”
“Mesmo usando magia, estou sendo arrastado! Que força bruta!”
Os bandidos tinham chance zero de se opor a um vórtice provocado pela rotação em alta velocidade de uma massa enorme. Como um tornado de verdade, causado pela Mãe Natureza. Eventos catastróficos como esse têm grande poder. Mesmo sem controle, representa uma enorme ameaça.
“SEU IDIOOOOOOOTA!!!!”
Ao contrário dos simples bandidos, que mal conseguiam se manter em pé em meio ao redemoinho furioso, o King era um lutador que havia chegado ao topo daquele Coliseu subterrâneo.
Ele logo identificou o ponto fraco da espada giratória de Saijo: em cima. Se tentasse atacar pelo lado, seria simplesmente arremessado pela forte pressão do vento. Mas, se atacasse de cima, no centro do eixo de rotação, a rotação pararia e ele não seria jogado para trás. O corpo do King era muito maior que o de Saijo, então o plano era fácil de executar.
Zombando da técnica de Saijo, que do seu ponto de vista estava cheia de vulnerabilidades, o King, brandindo a barra de aço, correu na direção do oponente. Parar o tornado por cima. A ação era bastante lógica.
É verdade que a espada giratória de Saijo é muito vulnerável na parte de cima. Atingir esse ponto era, em si, a decisão certa. O King só errou em subestimar o oponente.
“Todos, deitem!”, gritou Saijo.
Assim que o King avançou na direção dele, Saijo agiu imediatamente. Ele havia perdido o controle da espada. Mas, se pusesse toda a força até a última gota, conseguiria mover o pulso!
E mover a lâmina da posição horizontal para a vertical. No instante em que a espada Zanbato girou, a lâmina larga rasgou a atmosfera do Coliseu. O fluxo de ar já não era um tornado ou algo semelhante. Agora era um tsunami concentrado de pressão de ar varrendo tudo em seu caminho. Só agora Saijo conseguiu fazer jus ao apelido de Destroyer.
“Forced Strike!!!!”
“A~~~~~~~~!!!!!”
O tsunami da mais poderosa pressão de ar que Saijo produziu absorveu e atingiu todos os presentes na arena, exceto os seus companheiros, que, ao seu sinal, haviam se deitado no chão.
Todos os bandidos, incluindo o King, desabaram na arena com inúmeras fraturas. Um golpe e todas as peças foram derrubadas do tabuleiro. A percepção desse fato deixou Yakov sem palavras.
“Impossível...! Esse cara nem é famoso! Como um simples Cavaleiro-Aprendiz pôde derrotar o King!?”
“Ei, Bishou-san! Algo ruim está acontecendo”, cochicharam os subordinados de Bishou, sentindo o perigo no ar.
No mesmo instante, a porta do camarote VIP se abriu e um homem desgrenhado apareceu na soleira.
“Chefe! Aconteceu uma coisa terrível!”
“Eu sei disso sem você! Tenho uma ótima vista da arena!”
“N-não! Não é isso! Olhe as câmeras ao vivo da saída de emergência do Coliseu!”, gritou o homem, abrindo o notebook.
O que todos viram...
“O-o quê!? Não pode ser!?!?”
Era uma cena que espelhava a destruição na arena.
◆
Saída de emergência do Coliseu subterrâneo.
Essa saída era usada em evacuações de emergência e para receber convidados especiais que, por motivos óbvios, não podiam entrar pela entrada principal, destinada ao público comum.
O corredor que partia da entrada de emergência se ligava diretamente ao centro do Coliseu subterrâneo. Por isso, mesmo em tempos de paz, a passagem era cuidadosamente guardada.
O elevador, pelo qual era possível descer da superfície até as profundezas do Coliseu, era vigiado de forma especialmente rigorosa. Quinze guardas zelavam pela sua segurança todos os dias.
Cada um estava armado com um fuzil de assalto anti-cavaleiro especial, capaz de perfurar qualquer barreira mágica, e vestido com um uniforme de proteção especial feito de fibra superresistente.
...Quando ela apareceu, todos souberam o que fazer. Eram todos profissionais com grande experiência. Por isso, todos entenderam num relance. A garota que surgiu diante deles, com o salto estalando, foi direto para o elevador, que não estava mais previsto para uso naquele dia.
Sentia-se nela uma sede de matar, e o vestido e o chapéu brancos pareciam uma ilusão, escondendo inúmeras manchas de sangue.
“Ooooooooooh!!”
Eles tomaram uma decisão rápida e correta. Todos os guardas apertaram o gatilho dos fuzis de assalto e abriram fogo contra a garota. Todas as armas estavam carregadas com munição especial poderosa, capaz de penetrar qualquer barreira mágica de um cavaleiro. Cada tiro na garota custava cerca de 25 dólares. Esse poder de fogo era suficiente para matar qualquer invasor. A vitória deveria ser deles, mas...
“P-por que ela não cai?”
A garota se recusava a morrer. O fogo dos quinze fuzis não parava, mas o longo vestido branco dela só se levantava de leve e os longos cabelos loiros ficavam ligeiramente desgrenhados. Ela continuava a caminhar para a frente sem nenhum ferimento.
“Mirem melhor, pessoal!”
“Tem mais uma coisa! As balas não ricocheteiam! Elas simplesmente... desaparecem!”
Depois de algum tempo, os guardas perceberam. Mesmo que a garota refletisse as balas que voavam em sua direção, deveria aparecer muita destruição atrás dela. Mas tudo permanecia intacto. As balas voavam pela trajetória e, imediatamente antes do contato com o corpo, desapareciam em algum lugar sem feri-la.
“Estamos diante de uma cavaleira experiente! Cuidado! As nossas armas são inúteis contra ela!”
Os rostos dos guardas escureciam a cada tiro. Para o grande horror deles, a garota, escondida atrás de um guarda-chuva, sorria largamente. Caminhava com um passo lento e elegante. Passo a passo, aproximava-se do elevador que aqueles homens tão ferozmente guardavam. Finalmente...
“Droga! Não se aproxime! O que você quer aqui!?”
Quando a distância entre a garota e um dos guardas se reduziu a dez metros, sangue jorrou do corpo inteiro do homem, e ele desabou morto no chão.
“...!?”
Um destino semelhante atingiu não apenas ele. Cada vez que a garota dava um passo à frente, um por um os corpos dos homens explodiam em sangue e caíam no chão. Apesar de todos os uniformes de proteção, os corpos dos mortos pareciam ter sido atravessados por mil espadas ao mesmo tempo. Mas a garota nem estava armada, apenas avançava.
“Ei. Alguém tem alguma ideia do que devemos fazer!?”, gritou um dos homens.
Mas a pergunta dele ficou sem resposta. Ninguém sabia o que fazer numa situação dessas. Seria uma coisa se a garota, como uma ceifadora sombria, brandisse a sua foice e decepasse as cabeças deles.
Nesse caso, estaria claro de onde vinha a ameaça e o que era preciso fazer. Mas agora era diferente. A garota carregava a violência de uma forma invisível aos olhos deles. Por isso, o medo que surgiu nos homens era tão forte e espesso...
“B-basta para mim!”
Por fim, um dos homens cedeu e correu de volta, apavorado. Eram todos mercenários, sem honra nem orgulho. Não havia neles, desde o início, dedicação à causa. Uma pessoa amarela e uma reação em cadeia começa.
...E foi exatamente isso que aconteceu. No mesmo instante, a linha de defesa deles no elevador ruiu. Os oito sobreviventes deixaram as posições e correram para o elevador. Só ele, naquela situação, poderia salvá-los da morte. Mas, infelizmente para eles, a capacidade do elevador era de apenas cinco pessoas. E, considerando o peso dos equipamentos, o elevador não se movia nem com quatro homens.
“Saia daqui! Não fique no meu caminho!”
“A capacidade do elevador acabou! Use as escadas!”
“Não é justo! Nós também queremos sair deste lugar o quanto antes!”
Uma luta feia pela sobrevivência surgiu entre as pessoas, ao som alto do zumbido do elevador sinalizando sobrecarga. As lâminas invisíveis da desconhecida ajudaram a encerrar essa disputa.
Ela reduziu significativamente o número de homens que tentavam entrar no elevador. Finalmente, o zumbido do elevador cessou, relutante.
“Mais rápido! Fechem o elevador!”
“S-será que sobrevivemos mesmo!?”
O trio sobrevivente apertou rapidamente o botão para fechar a porta do elevador. Sem se importar com o destino dos companheiros mortos, descarregaram o último carregador pelas portas do elevador que se fechavam.
No entanto, nunca conseguiram partir. Por motivos de segurança, as portas do elevador eram programadas para fechar e abrir devagar. Por mais que os homens quisessem, não podiam acelerar o processo.
“O QUÊ!?”
Bem no momento em que as portas estavam quase fechadas, a ponta de um guarda-chuva se enfiou na fresta. Dedos finos e graciosos agarraram as portas e as empurraram para os lados. E então ela apareceu diante do olhar do trio: uma desconhecida de vestido branco ofuscante, com um sorriso congelado no rosto.
“Não é falta de educação bater as portas do elevador na cara de uma dama?”, disse a garota, e entrou no elevador.
Provavelmente por causa do seu peso baixo, o elevador não zumbiu e as portas começaram a fechar de novo.
“AAAAAAAAAAAA!!!!”, gritaram os homens ao perceber que estavam encurralados.
Eles abriram fogo de novo, à queima-roupa, contra a garota, na esperança de que as balas finalmente atingissem o alvo e ela liberasse o caminho de fuga. No entanto, tudo aconteceu como antes. As balas simplesmente desapareciam e não tocavam a garota. ...Mas eles finalmente entenderam a peculiaridade da habilidade da desconhecida. Miríades de faíscas flutuavam ao redor dela, mais brilhantes que rubis.
Normalmente, essas minúsculas lâminas são invisíveis, mas agora reluziam com o sangue derramado em abundância dos seus companheiros. Era assim o dispositivo da garota. Todas as balas disparadas contra ela eram cortadas em partículas minúsculas, impossíveis de ver a olho nu. No entanto, a compreensão veio tarde demais. Assim que as portas do elevador se fecharam, a última coisa que viram foi um véu escarlate diante dos olhos.
[Almeranto: A parte da Kanata é foda demais, ela foi muito baddass aqui.]
◆
“A Scharlatch Frau...? Até ela está aqui...!”, gaguejou Yakov, com a voz trêmula, observando a imagem das câmeras de segurança da saída de emergência.
A Scharlatch Frau, Kanata Toutokubara. Cavaleira de rank B, filha do chefe do conglomerado Toutokubara, o segundo mais importante do Japão depois do conglomerado Kazamatsuri. Apesar de ser uma Cavaleira-Aprendiz, essa “convocação especial” não era a primeira da sua vida. No passado, ela destruiu uma das sedes da Rebellion, eternizando na história o apelido de Scharlatch Frau.
“Ei, Yakov! Ela já está descendo no elevador e logo chegará até nós! Dá para escaparmos de algum jeito!?”
“...Claro que dá. É uma pena, mas parece que vocês terão de deixar o Coliseu.”
“Então ainda há uma rota de fuga! Precisamos cortá-la o quanto antes! Senão aqueles quatro da arena também podem vir até nós!”
“Não se preocupe”, disse Yakov, dispensando um Bishou alarmado. Pegando nas mãos o controle remoto com o qual era possível fechar e abrir as persianas do painel de vidro do camarote VIP, Yakov apertou um botão oculto.
Imediatamente, as prateleiras de saquê no fundo da sala deslizaram para o lado e revelaram uma porta secreta com fechadura eletrônica.
“Agora estamos num camarote VIP. Naturalmente, existe um caminho até a superfície para casos de emergência. Sigam-me... e vocês, preparem-se para a visita da Scharlatch Frau! Barricadem a entrada! Podem usar este sofá e esta mesa!”
“S-sim!”
Seguindo a ordem de Yakov, os subordinados começaram imediatamente a trabalhar na barricada. Mas...
“...O quê?”
Inesperadamente, eles perceberam que a porta da frente estivera aberta o tempo todo.
“A porta, por que está aberta?”
No mesmo instante, as luzes da sala se apagaram de repente.
“Que diabos é isso!?”
“Não sabemos, chefe. Parece um problema elétrico.”
“Não digam bobagens! Se algo assim tivesse acontecido, as luzes de emergência acenderiam na hora... meu Deus!”
Um terrível pressentimento apertou o peito de Yakov. Tentando se livrar dele, ele correu depressa até a entrada. E então viu. Não havia problema nenhum de eletricidade.
Alguém havia desligado deliberadamente um interruptor na entrada e apagado a luz. Enquanto assistiam à transmissão das câmeras de segurança, alguém tinha entrado no camarote deles...
“Você é o responsável aqui, certo?”
“...!?”
A voz veio tão perto que ele perdeu o fôlego. No entanto, o grito de surpresa nunca chegou a sair. Um raio atravessou o corpo dele antes que pudesse emitir um som. O corpo inteiro se contraiu em espasmos, e ele desabou pesadamente no chão.
“Você! Quem é você!”, gritaram os presentes, notando uma faísca pálida piscando na escuridão.
Com dificuldade para distinguir o contorno da desconhecida, apontaram as armas na direção dela. A visitante inesperada, por sua vez, simplesmente bloqueou a saída e olhou para todos com olhos nos quais faiscavam relâmpagos.
“Meu nome é Touka Toudou. Sou do terceiro ano da Academia Hagun.”
Aquela garota era mais conhecida pelo apelido de Raikiri.
“Prisioneiro nº 753, Bishou-san. Finalmente o encontrei”, disse a garota com calma, passando o olhar pelos muitos rostos à sua frente.
“Cadela farejadora maldita! Como você veio parar aqui!?”
“Eu simplesmente entrei no seu camarote pela porta. Como cheguei ao Coliseu não deve preocupá-lo. Bishou-san... sugiro que se renda.”
Ele tinha acabado de sair da prisão. Seria pior ainda não pensar num jeito de não voltar para lá. Diante dele havia apenas uma cavaleira aprendiz.
Se simplesmente se rendesse a ela, perderia todo o seu orgulho. Bishou decidiu defender a sua liberdade. Por isso, ergueu as mãos e materializou o dispositivo. Por sorte dele, durante aquele pequeno diálogo, os seus olhos haviam se acostumado com a escuridão. Se antes só registrava uma silhueta borrada, agora os olhos dele enxergavam claramente a figura da inimiga. Ele estava completamente pronto para a batalha.
“Vamos lutar! Não vou desistir assim tão fácil! Conheço o apelido Raikiri. Mas, se você não é um monstro como o Rei das Sete Estrelas ou a Princesa Carmesim! Eu, Bishou, não perderei para você! Vou fazer você sentir o medo que só os membros da Rebellion podem infligir!”
Palavras bastante pretensiosas para um criminoso, mas...
“Você é um cavaleiro tão inútil que ainda não percebeu o meu corte?”
“O-o quê? Do que você está falando?”, gritou Bishou.
Depois das palavras de Touka, ele sentiu imediatamente um frio no abdômen. Baixando às pressas o olhar, Bishou viu...
“E!? Não há corte nenhum!”
“Eu sei. Só menti para você. Inicialmente, eu nem planejava cortá-lo.”
Bishou levantou rapidamente os olhos, mas era tarde demais. Reduzindo em silêncio a distância de cinco metros entre eles, Touka desembainhou depressa a sua katana, Narukami.
“E!? Tão rápida...”
“Você não é o tipo de pessoa que a justiça deveria ter. Quanto a você...”
A última coisa que Bishou viu foi um clarão de relâmpago saindo da bainha da Raikiri. Aquela técnica foi mais do que suficiente para neutralizar, ao mesmo tempo, todos os presentes naquele camarote.
◆
A Convocação Especial, esse evento que obrigava jovens rapazes e moças a lutar como num genpuku, foi muito criticado pelo público. No entanto, o Iron Tyrant, Itsuki Kurogane, não o interrompeu. Ele era um realista inveterado e tomou medidas desesperadas para capturar rapidamente todos os prisioneiros fugitivos.
Worst One, Princesa Carmesim, Estrela de Naniwa, Raikiri... Essa é a geração de ouro. Muitos jovens talentos já estão se mostrando ativamente. O sucesso dos alunos da Academia Hagun, incluindo a Raikiri, Touka Toudou, foi especialmente notado.
Graças aos poderes causais de Utakata Misogi, mais conhecida pelo apelido de Fifty-Fifty, Touka rastreou a localização de muitos prisioneiros que haviam fugido da prisão.
Os adultos só puderam abrir bem a boca de espanto diante da rapidez com que a garota prendia os fugitivos. Graças às suas ações rápidas, as forças antissociais perderam muito do seu poder.
Cerca de uma semana depois da fuga em massa, justamente na época em que a campanha militar de Vermillion chegava ao fim, graças aos esforços dos cavaleiros aprendizes mobilizados pela filial japonesa da Liga, noventa por cento dos prisioneiros foram devolvidos às prisões.
– Almerarnto: Eu acho que esse capítulo foi o que teve mais ilustrações, foram 4 em um capítulo só.
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