A Senpai Coelhinha — Capítulo 69: Volume 14 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Andando Pela Névoa

A Senpai Coelhinha
Cap. 69
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A Senpai Coelhinha

Volume 14 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Andando Pela Névoa

Capítulo 69

7.096 palavras~31 min de leitura

1

A manhã seguinte começou com as patas de Nasuno no rosto dele. Mesmo com os olhos bem apertados, Sakuta conseguia sentir aquelas patinhas marcando um, dois, um, dois.

Ele foi forçado a abrir os olhos pela metade, olhando sonolento para a gata.

"Bom dia, Nasuno", disse ele por meio de um bocejo.

Suas pálpebras logo perderam a batalha contra o sono e se fecharam de novo.

Parecia que ele tinha acordado do lado errado da cama.

Sakuta sabia exatamente porque estava assim. Ele tinha passado a noite inteira rolando e se revirando. Por tantos motivos…

Tanta coisa tinha acontecido no dia anterior. Coisa demais. Kaede-hiragana recebê-lo na porta tinha sido um choque enorme.

Se o coração dele estava mais turbulento que o mar, não era nada fácil conseguir adormecer naquela condição — muito menos descansar de verdade quando finalmente conseguia dormir.

(N/R – Levi: Uma breve explicação: no japonês existe uma diferença entre a escrita em kanji e em hiragana. A escrita em hiragana transmite algo mais e infantil, o que remete à dupla personalidade da Kaede. No original, o nome dela aparece escrito em hiragana para representar a “Kaede panda”, enquanto em kanji representa a Kaede “verdadeira”. Na tradução para o português, não há como diferenciar isso apenas pela escrita, então optou por usar “Hiragana Kaede”.)

(N/T: eu prefiro chamar de kaede panda, bem mais icônico kkk)

Ele dormiu mal, acordando várias vezes. Quando finalmente pegou no sono para valer, já estava clareando atrás das cortinas. Isso tinha sido apenas uma ou duas horas antes.

Outro bocejo enorme.

Ele adoraria simplesmente virar para o lado e continuar dormindo.

Mas se obrigou a olhar o relógio.

Sete e trinta e dois da manhã.

Domingo, 2 de abril.

Ou seja, o dia depois do Primeiro de Abril. O dia depois do festival de música no Red Brick Warehouse de Yokohama.

"Lá se vai a esperança de um final-surpresa onde tudo não passava de um sonho…"

E como se estivesse sendo punido por essa falsa esperança…

"Nasuno, ele já acordou?"

Uma voz no corredor. A voz da outra Kaede.

Nasuno miou de volta e passou pela porta. Sakuta se arrastou para fora da cama e bocejou pela terceira vez, enquanto seguia a gata pelo corredor.

Na sala de estar, ele encontrou Kaede sorrindo em seu pijama de panda.

"Oh, Sakuta! Bom dia! O café da manhã está prontinho!"

Ela apontou para a mesa, onde torradas, ovos mexidos, salsichas e tomates-cereja o aguardavam. Um café da manhã comum na casa deles.

"Você fez tudo isso?"

"Esses ovos são a receita secreta da Mai!"

"Sério?"

"Agora eu sou uma profissional licenciada."

Ela estufou o peito de orgulho. E sua confiança não era injustificada — os ovos realmente pareciam ótimos. Exatamente como os que Mai às vezes fazia.

"Então vamos ver qual é o gosto de uma cozinha profissional."

"Sim!" Kaede respondeu empolgada.

Ele se sentou de frente para ela. Essa Kaede estava no lugar onde a Kaede original costumava se sentar nesses últimos tempos. Ela colocou ovos sobre a torrada e comia feliz, um retrato vivo da alegria.

E isso só fazia Sakuta se sentir ainda mais perdido numa floresta estranha.

Essa era definitivamente a Kaede-hiragana.

Não havia qualquer dúvida.

"……"

Ainda assim, não parecia real. Mais como se estivesse sonhando ativamente.

"Você não vai comer, Sakuta!"

"Vou sim", ele disse, seguindo seu exemplo e colocando ovos mexidos sobre a torrada.

O crocante da torrada combinava perfeitamente com a maciez dos ovos, enchendo sua boca de alegria.

"Tá muito bom", ele disse.

"Eu sou licenciada." Ela voltou a abrir um sorriso orgulhoso.

"Então, Kaede…"

"O quê?"

"Há quanto tempo estamos aqui?"

"Quatro anos inteirinhos! Vamos começar o quinto antes do fim de abril!"

"Imaginei."

"Sakuta, você está muito estranho hoje de manhã", ela disse, com os olhos brilhando como uma detetive prestes a resolver um caso.

"Você me pegou."

"Neste caso, não tenho escolha a não ser fazer um café para você."

Kaede pulou da cadeira e foi para a cozinha.

Vista de trás, dava para perceber que ela tinha crescido desde a última vez que ele a vira. Sakuta e a Kaede-hiragana tinham se mudado para esse apartamento em Fujisawa quatro anos atrás. Na primavera em que ele começou o ensino médio. Ela recuperou as memórias e voltou a ser a Kaede original no outono do segundo ano.

Ele só conhecia a outra Kaede quando ela ainda estava no fundamental.

O rosto que aparecia por dentro daquele pijama de panda já não era tão infantil.

A matemática batia com a linha do tempo que ela tinha mencionado.

Ela vivera ali por quatro anos.

Quase cinco.

E tinha sido a Kaede-hiragana o tempo todo.

"Pronto, Sakuta. Aqui está!"

Ela voltou da cozinha e colocou uma caneca fumegante na frente dele. Tinha um tanuki estampado nela.

(N/R – Levi: Pelo que pesquisei, o tanuki é um animal japonês, parecido com um guaxinim.)

"Valeu."

Ele tomou um gole. Um pouco amarga. Mas isso só deixava mais claro que tudo aquilo era real. Não era sonho, nem imaginação, mas vida real.

Ele teria que resolver as coisas passo a passo. Descobrir o que era real até ontem… e o que era real agora.

"O que você fez ontem, Kaede?"

"Na hora do almoço, fui até a escola e preparei o material para receber os novos alunos no clube."

"Escola?"

"Minegahara High?" ela respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, inclinando a cabeça.

"Clube?"

"O Clube dos Animais?" A dúvida nos olhos dela só aumentava.

"Certo, eu sabia disso."

Claramente, essa Kaede tinha entrado em Minegahara. E participado de algo chamado Clube dos Animais.

"Se não conseguirmos novos membros, o futuro do clube tá em perigo!"

"Então é melhor você trabalhar duro recrutando gente."

"Esse é o plano!"

Ela cerrou os punhos, motivada.

"Ontem foi uma baita surpresa", ela disse, mudando de assunto.

“Hmm?”

“A Mai era a Touko Kirishima esse tempo todo?!”

Ele não esperava que ela tocasse no assunto como se fosse uma conversa casual. O tom leve e ensolarado era exatamente o que Sakuta esperava dela. E, claramente, ela não duvidava nem um pouco da notícia.

“Você viu o show?”

“Eu assisti a uma live!”

Ela olhou para a mesinha de centro. Havia um laptop ali. Devia ter assistido por ele.

“Você acha mesmo que a Mai é a Touko Kirishima?” Sakuta perguntou.

“…… O que você quer dizer?” Ela se inclinou toda para frente, como se a confusão tivesse tomado forma física. “A Mai disse que era, não disse?”

“…… Acho que disse.”

“……?”

A confusão não sumia nem um pouco. Antes que pudesse clarear, um bipe veio do banheiro.

“A máquina de lavar tá me chamando!”

Enfiando o resto da torrada na boca, Kaede pulou da cadeira e correu para lá como se fosse algo natural. Pelo visto, tinha aprendido muito mais sobre tarefas domésticas do que ele lembrava. Ela tinha crescido bastante nesses quatro anos.

Isso fez um sorriso surgir no rosto dele, embora não totalmente despreocupado. Ele ainda não fazia ideia do que deveria pensar sobre tudo aquilo.

Havia perguntas demais sobre os fatos diante dele.

Ele nem tinha certeza se aquilo era real.

Parecia que tinha se perdido na névoa no dia anterior e ainda não tinha encontrado a saída.

Ele precisava entender a situação.

Engoliu o resto dos ovos mexidos, levantou-se, pegou o telefone fixo e digitou de memória um número de onze dígitos.

A primeira pessoa para quem queria ligar era Rio Futaba, uma amiga do ensino médio.

Chamou duas vezes, então alguém atendeu.

“Sou eu, Futaba. Desculpa ligar tão cedo. Tem um minuto?”

Ele tentava manter a calma, mas as palavras saíam rápidas demais.

“Futaba não pode atender agora.”

Sakuta não esperava ouvir a voz de um homem.

“Deixe sua mensagem após o sinal”, brincou a voz.

Sakuta reconheceu a voz na hora. Outro amigo do ensino médio — Yuuma Kunimi.

“Por que você tá atendendo?”

“Hã? Bom, achei que não teria problema atender sua ligação.”

Ele não tinha certeza do que isso queria dizer.

“E a Futaba?”

“Ela tá nas termas.”

Isso era ainda mais inesperado.

“Hã?” foi tudo o que conseguiu dizer — um som completamente idiota.

“Ela tá nas termas,” Yuuma repetiu, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

“Por que termas?”

“Bom, depois que você brindou a gente com a história do seu encontro nas termas com a Sakurajima, a gente quis ver qual era a graça,” disse ele num tom de brincadeira.

“Então vocês estão passando a noite aí?”

“Claro.”

“Kunimi, nunca imaginei você como o tipo que trai.”

Sakuta queria repreender o amigo, mas acabou soando mais surpreso do que qualquer outra coisa.

“Trair como?” Yuuma gargalhou. Não havia nenhum traço de culpa na voz dele.

Foi nesse momento que Sakuta começou a perceber que havia algo errado. Aquela conversa não fazia sentido nenhum.

“E a Kamisato?”

Yuuma não tinha como ignorar esse nome.

“O que tem ela? A gente terminou há dois anos. Você sabe disso.”

“Hã?”

Outro som idiota escapou.

“Você tá bem aí, Sakuta? Tá agindo estranho.”

Yuuma ria como se estivesse conversando com um velho amigo. Parecia estar se divertindo com a situação.

“Pera aí, Kunimi. Quer dizer que você e a Futaba estão namorando?”

“Um pouco tarde para perceber isso!”

Sakuta sentiu o coração acelerar.

“Vocês estão mesmo namorando?”

O desconforto deixava seus lábios tremendo.

“Estamos, sim.”

O interior da boca dele ficou seco.

“Desde quando?” conseguiu perguntar, quase sem voz.

“Desde o outono do ano passado, quando voltei do treinamento. Isso já é suficiente para você?”

“……”

Ele não conseguiu responder que sim.

Sua cabeça estava girando.

As palavras de Yuuma o jogaram completamente no chão.

“Ah, e no fim era a Sakurajima esse tempo todo! A verdadeira Touko Kirishima.”

Enquanto Sakuta ainda tentava processar o fato que eles estavam namorando, Yuuma jogou esse assunto na conversa como se fosse casual. Isso poupou Sakuta de ter que perguntar ele mesmo, mas ele ainda não tinha calma o suficiente para lidar com um novo choque.

Ele respirou algumas vezes, curto e raso.

“…… Você acredita nisso, Kunimi? Conseguiu perguntar.

“Eu não vi o vídeo, mas ela anunciou no festival, não foi? Eu só conferi meu feed e todo mundo tava falando disso.”

“A Futaba falou alguma coisa?”

Ele percebeu a mão apertando o telefone com força. A tensão subindo desde os pés o fazia segurar muito mais forte do que pretendia.

“Mm? Ah, ela disse: ‘Coitado do Azusagawa, vai ver ela ainda menos.”

Ele estava completamente focado nos ouvidos, com medo de perder uma sílaba.

“Imagino que a Sakurajima vai ficar ainda mais ocupada agora.”

Mas isso era exatamente o que ele não queria ouvir. Definitivamente ruim.

“…… Então até a Futaba acreditou no anúncio.”

Aparentemente, ela também achava que Touko Kirishima era Mai Sakurajima.

… Apesar de ter conversado com ele antes especificamente sobre como isso era impossível.

“Oh, a Futaba saiu! Vou passar para você.”

Ele ouviu ao fundo: “É o Sakuta.” “Por quê?” “Não sei.”

Depois dessa pequena troca animada…

“O que foi?” disse a voz de Rio.

Mas agora ele não sabia nem o que deveria perguntar.

A Mai dizendo que era Touko Kirishima?

A mensagem do outro mundo enviada pela mão da Ikumi?

A Kaede esperando por ele em casa?

A Kaede original, que ligou da casa dos pais?

O fato de Yuuma e Rio estarem namorando agora?

Era coisa demais.

A mente de Sakuta não conseguia organizar nada.

(N/T: nem a minha)

Ele queria falar com a Rio que não namorava o Yuuma, e que sabia que a Mai não era Touko Kirishima.

Mas a Rio do telefone namorava o Yuuma e achava que a Mai era Touko Kirishima.

Sobre o que ele deveria falar com essa Rio?

Por onde deveria começar?

“Azusagawa?” ela chamou, quando ele ficou quieto.

“Então, Futaba…”

“O que tem?”

“A Futaba que eu conheço não namora o Kunimi.”

“……”

“Que tipo de Síndrome da Adolescência é essa?”

Ele acabou indo direto ao ponto.

“Você ainda tá falando de Síndrome da Adolescência, Azusagawa? Você faz vinte anos na próxima semana”

“É…”

O calendário na sala tinha um grande círculo vermelho em volta do dia 10 de abril, com “Aniversário do Sakuta!” escrito pela Kaede hiragana.

“Mas a Futaba que eu conheço realmen—”

Ela o interrompeu antes que terminasse.

“Você não quer que eu namore o Kunimi?” perguntou bastante séria.

“Claro que quero. Obviamente.”

(N/T: A Futaba que eu conheço não falaria assim com o Sakuta kkkk)

“Ótimo.”

Mas não parecia que ela acreditava muito nisso.

“Eu torço para vocês ficarem juntos desde o ensino médio.”

(N/T: todos nós né)

E Sakuta dizia isso de verdade.

Mas, mesmo naquela época, ele sabia muito bem que aquilo nunca aconteceria.

Yuuma era apaixonado por outra pessoa. Ou… pelo menos devia ser.

“Certo…”

Dessa vez ela parecia mais convencida — talvez até aliviada.

“Me diz, Futaba…”

“O quê?”

“Você tá feliz?”

“……”

Ela inspirou fundo, como se ele tivesse a surpreendido.

Houve um silêncio breve.

Era fácil imaginar o que acontecia durante esse silêncio.

Yuuma estava no mesmo cômodo; ela provavelmente olhou para ele.

Ele deve ter percebido e sorrido apenas porque ela o encarou.

Então era praticamente inevitável quando ela disse, tímida:

“Claro que eu tô feliz.”

Sakuta não conseguia insistir que tudo aquilo era um erro.

Mesmo que tentasse, ela não acreditaria.

No máximo, acharia que ele estava falando bobagem e ficaria preocupada.

Isso não levaria ao futuro que ele desejava.

“Era só isso, Azusagawa?” ela perguntou, desconfiada.

“Quase.”

“O que mais?”

“Sejam felizes juntos.”

“Mm. Quer que ele volte para a linha?”

“Não, tá tudo bem. Desculpa incomodar.”

E desligou.

“……”

Sakuta colocou o aparelho de volta no gancho e ficou parado ali. A mão ainda apoiada nele. Não se mexeu nem um pouco.

Sinceramente, ele entendia ainda menos agora do que antes da ligação.

Só tinha ganhado mais problemas.

Mas havia algo familiar na conversa com a Rio.

“Pensando bem, a Futaba disse que sonhou que ela e o Kunimi estavam juntos…”

Ela tinha comentado que parecia que eles estavam namorando.

Isso fazia parte daquele estranho incidente de Natal, quando tantos jovens postaram sobre seus sonhos proféticos que os servidores caíram. A história foi parar nas notícias e programas matinais e continuou sendo assunto até o Ano Novo.

Na manhã de Natal, Kaede disse que sonhou que voltava a ser a outra.

O sonho de Sakuta havia sido sobre Mai dizendo que era Touko Kirishima.

Três sonhos tinham se tornado realidade.

“É isso que significa reescrever a realidade?”

“O que tá acontecendo agora?” perguntou Kaede, saindo da lavanderia. Ela tinha ouvido ele falando sozinho.

“Quem me dera saber.”

Se a mensagem do outro mundo estivesse certa, o motivo de tudo era Touko Kirishima.

‘Pare Touko Kirishima.’

Ele tinha lido aquelas palavras, mas ontem ainda não entendia por que isso era necessário.

Agora, porém, começava a sentir que precisava agir rápido.

O outro Sakuta descrevera isso como reescrever a realidade, mas para o Sakuta daqui, era ainda pior.

O mundo que ele conhecia estava desmoronando.

Medos ardendo profundamente em seu estômago.

O pulso acelerado.

Uma vontade desesperada de escapar daquela situação.

“Sakuta, você tem turno no restaurante começando na hora do almoço?”

“Talvez eu tenha.”

Ele soava completamente perdido.

“Então é melhor darmos banho na Nasuno ainda esta manhã.”

“Boa ideia…”

Ele começou a responder da mesma forma de sempre, mas no meio da frase algo lhe ocorreu.

“Ah, desculpa, Kaede. Tenho uma coisa para resolver antes do trabalho.”

“Muito bem. Eu vou dar banho na Nasuno sozinha!”

Nasuno miou aos pés dela.

Havia algo que Sakuta precisava confirmar com os próprios olhos.

Queria uma prova visual de que as duas Kaedes realmente existiam ao mesmo tempo.

2

Ele saiu de casa pouco depois das nove da manhã.

“Divirta-se, Sakuta!” Kaede gritou, carregando a Nasuno para o banheiro.

Do lado de fora do prédio, ele foi recebido por um céu azul.

Ar claro de primavera, sem nenhuma nuvem.

O completo oposto do céu nublado dentro do seu próprio peito, o que fazia aquele azul parecer até falso demais.

Ele encarou o alto por tanto tempo que ficou tonto e precisou baixar o olhar para se recompor.

E, nesse exato momento—

“Eiii!”

Aquela voz era animada demais para aquela hora.

Ele voltou o olhar para o prédio do outro lado da rua e viu alguém acenando para ele.

Era a líder do grupo idol Sweet Bullet, Uzuki Hirokawa.

Ela tinha sido aluna da universidade dele, mas desistiu no meio do ano.

Ela veio correndo. “Tudo certo? Eu tô ótima!” disse, radiante como o sol da primavera.

Nodoka vinha logo atrás, meio escondida.

“Eu… tô levando.”

“Oh! Sakuta, finalmente vai acontecer!”

“Kokugikan? A Kaede me contou.”

“Nãoooo! É o Budokan!”

“Eu teria jurado que você disse que isso ainda estava longe.”

Seis meses antes, ela com certeza tinha dito exatamente isso. Nodoka também.

“A gente trabalhou muito, e os fãs deram todo apoio! Você também, né?”

“Mal posso esperar para ver você naquele palco, Zukki.”

Ele falava sério.

“Uhuuul!”

Uzuki ergueu as duas mãos, pedindo um high five duplo.

“De todo modo, parabéns.”

“Obrigada!” disse ela, tão animada quanto quando estava no palco.

“O mesmo para você, Toyohama. Só notícia boa”, ele disse, olhando por cima do ombro da Uzuki.

“É, então…,” Nodoka respondeu, bem desanimada.

Ele imaginaria que ela estaria mais feliz.

“Você parece irritada.”

“A Nodoka só tá emburrada,” Uzuki sussurrou. “O anúncio da Mai roubou todo o hype da nossa grande novidade!”

“Isso não é verdade!” Nodoka rebateu, ouvindo tudo.

“Então o que é?”

“A gente mora junto, e eu não fazia ideia? Quão tapada eu sou?”

“Você também, Toyohama?”

“Eu também o quê?”

“Você acha que a Mai é a Touko Kirishima.”

“Hã? Ela mesma disse isso ontem. No palco.”

“Eu vi a live! Foi demais!” Uzuki disse, se inclinando cheia de energia.

“Mas a própria Mai negou isso várias vezes,” Sakuta insistiu.

“Isso é por causa dos contratos, obviamente. Agência… gravadora…,” Nodoka resmungou, desviando o olhar.

“A propaganda que fiz tinha um contrato assim! Eu não podia contar para ninguém até exibirem a versão que mostrava meu rosto.”

“…… Sim, foi isso que a Mai disse também.”

Era uma explicação lógica. A indústria estava cheia de acordos desse tipo.

Mas Sakuta ainda achava difícil engolir. E o que o incomodava era que Nodoka, Uzuki e todo mundo tinham aceitado aquilo tão facilmente. A sensação insistente de que algo estava muito errado tinha criado raízes dentro dele. Uma sensação desagradável que só piorava com o tempo.

“O que foi? Você não acredita nela, Sakuta?” Nodoka perguntou, vendo a expressão dele.

“Não sei. Só… não parece certo.”

“Como assim?!” Uzuki disse, genuinamente confusa. Se fosse um mangá, teria um ponto de interrogação flutuando sobre a cabeça dela.

“Você tava no festival, né?” Nodoka perguntou. “Você não falou com ela pessoalmente?”

“Falei.”

“Hã? Então do que você tá falando?”

Quando ela perguntou isso, Nodoka parecia perdida. Com o tempo, aquilo mudou para ansiedade e preocupação. Todas essas emoções estavam direcionadas ao Sakuta.

Por um instante, Uzuki olhou de um para o outro, mas logo começou a encarar Sakuta com um olhar preocupado. Era óbvio que ela estava se perguntando se algo estava errado com ele.

“Você tá bem, Sakuta?” ela perguntou.

Claramente, elas suspeitavam que ele não estava.

Elas estavam bem ali na frente dele, mas pareciam distantes.

Perto o suficiente para tocar…

Mas dava a sensação de que se ele estendesse a mão, elas se afastariam ainda mais.

Cada palavra que ele usava para tentar encurtar a distância só empurrava as duas para longe.

Para escapar dessa sensação, ele mudou de assunto.

“Vou perder meu trem.”

“Ai, a gente tem ensaio! Nodoka, corre!”

“Se perdermos o Romancecar, a culpa é toda sua, Sakuta!”

(N/R: Romancecar é um trem expresso japonês da linha Odakyu.)

Os três começaram a andar rápido.

Eles aceleraram as pernas, mantendo um ritmo puxado.

Cada passo levava as duas mais perto da estação — enquanto Sakuta se sentia cambaleando. Seu cérebro e seu corpo pareciam fora de sincronia. Era quase como se ele tivesse esquecido como se anda normalmente. E quanto mais ele se dava conta disso, pior ficava.

Uzuki e Nodoka se adiantaram, e todo o caminho até a estação, Sakuta não pensou em nada além de como se anda… enquanto se perguntava se tudo aquilo era real.

3

Tinham corrido parte do caminho, e isso foi o suficiente para Nodoka e Uzuki conseguirem embarcar no Romancecar para Shinjuku.

Sakuta as observou passando pelos portões da Odakyu, depois subiu as escadas até a área da JR. Ele encostou o passe, passou pelas catracas e entrou em um trem da Linha Tokaido que chegava naquele momento.

Vinte minutos depois, Sakuta desceu na Estação de Yokohama.

Dez da manhã, e a loja de departamentos tinha acabado de abrir. Sakuta entrou e comprou alguns pudins — aqueles que vinham em frascos de laboratório e tinham um detetive durão estampado.

O trem direto para Hachioji chegou justo quando ele voltou para a plataforma, então ele embarcou.

Uma Kaede estava no apartamento, e a outra Kaede estava na casa dos pais.

Para confirmar esse fato, Sakuta viajou por Higashi-Kanagawa, Oguchi, Kikuna e Shin-Yokohama, e finalmente desceu na Estação de Kozukue.

Do lado de fora, ele seguiu a rua principal por um tempo e, depois de uns dez minutos, entrou numa rua lateral. Já dava para ver o conjunto habitacional onde seus pais moravam.

Ele subiu as escadas até o terceiro andar, foi até o final do corredor e apertou o interfone.

Três segundos completos de silêncio.

“Sim?” Era a voz da mãe dele pelo alto-falante.

“Sou eu. O Sakuta.”

“Oh, o que você veio fazer aqui? Só um momento!”

O interfone desligou, e ele ouviu passos se aproximando.

A porta se abriu.

“Você perdeu sua chave?” Kaede perguntou.

Definitivamente a Kaede original. Mesmo cabelo, mesmo tom de voz, mesma atitude — não havia como confundir.

“Sakuta?”

Quando ele não respondeu, ela lançou um olhar de desaprovação, inclinando a cabeça um pouco.

"Deixei em casa", ele disse, e segurou a porta, escorregando para dentro.

"Eu trouxe presentes."

Ele entregou a caixa de pudim para Kaede e tirou os sapatos.

"Ótimo. Mãe, ele trouxe pudim!"

Ela mostrou a caixa, animada, para a mãe deles, que também tinha vindo até a entrada.

"Então vai ser nosso lanche das três."

"Aaah, vamos comer agora."

Enquanto elas conversavam, Sakuta entrou no apartamento.

"O que te traz aqui?" o pai perguntou, levantando os olhos do tablet — ele estava lendo o jornal. "Aconteceu alguma coisa?"

"Nada, quando a faculdade começar, não vou ter muito tempo, então achei melhor passar aqui antes das férias de primavera acabarem."

"Ah."

O pai assentiu vagamente e voltou a olhar para o tablet.

"Você vai ficar para o almoço?"

"Ah, não posso, tenho planos depois daqui."

A outra Kaede tinha dito que ele teria um turno na hora do almoço no restaurante.

"O quê, um encontro com a Mai?" sua mãe provocou.

"Algo assim."

Ele achou melhor seguir a versão dela. Ele só estava ali para confirmar com os próprios olhos que a Kaede original ainda existia… e não pretendia contar isso a ninguém. Provavelmente nem entenderiam se ele tentasse explicar.

"Ah, é mesmo, Sakuta…" Kaede disse.

"Mm?"

"Podemos trocar de turno na próxima semana?"

Alheia ao dilema dele, ela seguia como sempre.

"Vai ter show do Sweet Bullet?"

"Eu vou para as fontes termais em Hakone com a mamãe e o papai."

Ela lançou um olhar para o laptop na mesa. A página das fontes termais estava aberta.

"Eu não fui convidado?"

"Você já foi com a Mai no Natal."

"Não tem regra para ir duas vezes."

"Só pega meu turno."

"Tá bom."

Não havia nada de extraordinário naquela conversa; era assim que irmãos sempre falavam. Assim como ele e Kaede sempre falaram.

E, por algum motivo, isso pareceu um pouco estranho.

Ele tinha conversado com a outra Kaede naquela manhã. Eles tomaram café juntos, lavaram a louça, e ela tinha acenado quando ele saiu pela porta.

Seu alarme interno estava disparando.

Elas não deveriam existir ao mesmo tempo.

E, ainda assim, as duas pareciam reais.

Era um lugar estranho para se estar, e ele não conseguia encontrar uma explicação convincente.

Só de estar perto da Kaede já estava abalando ele.

"……Sakuta? Tem alguma coisa no meu rosto?"

Ele devia ter desligado por um momento. Ela estava olhando feio para ele.

"Nada. Aproveite as fontes termais."

"Só isso?"

"Me traz alguma coisa."

Era o melhor que ele conseguia dizer agora.

4

Sakuta ficou apenas para uma xícara de chá, depois se despediu e voltou pelo mesmo caminho até Fujisawa.

Ele chegou ao restaurante onde trabalhava cinco minutos antes do turno começar, trocou de roupa rápido e bateu o ponto com apenas um minuto de sobra.

Sem hesitar, foi direto para o salão, cumprimentando um cliente que entrou pela porta. Acomodou a pessoa, anotou o pedido, trouxe a comida, recolheu os pratos, fez o pagamento e limpou a mesa. E repetiu isso para cada nova chegada.

Lavar e repetir, até o movimento do almoço morrer e o clima mudar para um tranquilo horário de chá.

Com menos pedidos entrando, ele decidiu reabastecer a estação de bebidas.

"Azusagawa, faça sua pausa", disse o gerente enquanto ele pegava as caixas vazias.

"Pode deixar."

Sakuta empilhou as caixas nos fundos e foi para a sala de descanso dos funcionários.

Não havia mais ninguém lá, então ele se largou em uma cadeira dobrável.

Alguém tinha deixado uma caixa de doces na mesa — uma lembrança — então ele estendeu a mão para pegar um, e alguém entrou pela porta.

“Ugh, Senpai.”

Tomoe Koga fez uma careta ao vê-lo.

Ela carregava um pacote grande e tentou escondê-lo, mas era pequena demais para isso. Era uma bolsa achatada, parecida com uma raia manta, com as pontas sobrando para os lados. Parecia o tipo de bolsa usada para levar um terno.

Ela tinha se formado em Minegahara em março e começaria a faculdade no fim de abril — só havia um motivo para ela estar com um terno.

“Aqui para me mostrar sua roupa de orientação?”

“Eu tive que pegar agora!” Tomoe bufou, determinada a negar que tivesse trazido aquilo de propósito. “A loja vai estar fechada quando meu turno acabar!”

“Tá, tá. Você podia muito bem vestir logo, então.”

“Você só vai dar aquele sorrisinho e dizer que eu pareço uma criança brincando de se vestir de adulta.”

“Vou te ver no grande dia, então. Quando é a cerimônia de entrada?”

“Hã? Como assim você não sabe?”

A pergunta solta dele provocou nela um nível de surpresa estranhamente alto. O que tinha ali que fosse tão chocante?

“Por que a gente está assumindo que eu saberia a data da sua cerimônia?”

Ele não lembrava de ter falado disso antes.

“Porque a gente vai para mesma faculdade?”

“Hã?”

Isso pegou ele completamente desprevenido, e um som estranho escapou dele.

“Como assim ‘hã’?” ela disse, franzindo a testa.

“Koga, você ia para aquela faculdade feminina na cidade, né? Você conseguiu aquela indicação, entrou sem problemas, e aí eu te comprei fones de ouvido sem fio para comemorar. Eu lembro disso!”

“Você realmente comprou o presente, mas a gente conversou sobre a indicação e eu acabei desistindo. Prestei vestibular para a sua universidade no lugar……”

Quanto mais ela falava, mais preocupada Tomoe ficava.

E Sakuta tinha certeza de que estava com a mesma cara — totalmente transtornado.

“Você realmente não lembra, Senpai?” Tomoe perguntou.

Aquilo não soava como dúvida. Soava como incredulidade.

Sakuta sentia exatamente o mesmo. Ele não conseguia aceitar o que ela estava dizendo. Era diferente demais da realidade que ele conhecia.

“A Koga que eu conheço escolheu aquela faculdade feminina.”

“……”

Tomoe já não discutia. Só parecia perdida. E por trás disso, ele conseguiu perceber claramente: ela estava preocupada com ele.

Ela achava, sem sombra de dúvida, que ele tinha enlouquecido.

“……”

“……”

Nenhum dos dois sabia o que dizer.

Um silêncio desconfortável tomou conta da pequena sala de descanso.

O clima pesado só foi quebrado por outra pessoa.

“Bom dia!” disse uma voz alegre e iluminada.

Sara Himeji entrou praticamente dançando. Ela usava uma blusa pastel de primavera com uma saia bem curta.

Ao ver Sakuta e Tomoe ali, ela abriu um sorriso.

“Oh! Sensei! Tomoe-senpai! Bom dia para vocês dois!”

“Bom dia.”

“Bom dia, Himeji.”

Os dois responderam, mas dava para ouvir na voz que ambos estavam tensos depois daquela conversa estranha.

Sara percebeu o clima e olhou de um para o outro.

“O que houve?”

“Nada. Né, Senpai?”

Tomoe respondeu na mesma hora, tentando encobrir Sakuta.

Parecia que ela tinha percebido que ele não estava normal e queria ser gentil.

Mas Sara não seria enganada tão facilmente.

“Ah é? Dá para cortar o ar daqui com uma faca.”

Ela lançou a Tomoe um olhar desconfiado.

“Sério, é nada.”

“Hmph. Tá bom, se dizem.”

Ela decidiu que não valia a pena insistir, e recuou. As palavras seguintes deixaram claro o motivo.

“Certo, Sakuta-sensei, escuta!”

O rosto dela se iluminou, claramente ansiosa para contar.

“Eu vi a melhor coisa ontem em Enoshima!”

“O quê?”

“O Yamada e a Yoshiwa num encontro!”

“……”

Sara quase se gabava, e Sakuta não reagiu.

Mais precisamente… aquilo não o surpreendia.

Ele já tinha escutado essa história antes.

Não na realidade.

A origem disso tudo tinha sido um sonho.

Kento Yamada era aluno dele no cursinho, e tinha contado a novidade no começo do ano: ele sonhara em levar outra aluna, Juri Yoshiwa, para um encontro em Enoshima. Uma história inteira de amor juvenil.

E Sara tinha sonhado que os veria juntos nesse encontro.

“Então o seu sonho e o do Yamada viraram realidade…”, ele murmurou.

“Sonho? Que sonho?”, Sara perguntou, inclinando a cabeça.

“Você me contou, lembra? Sonhou que ia para Enoshima com amigos e via o Yamada e a Yoshiwa juntos.”

“……”

Enquanto ele falava, Sara só parecia confusa. Quando ele terminou, ela passou de confusa para completamente perplexa.

Ao lado dela, Tomoe parecia ainda mais preocupada.

Ele começou a se sentir encurralado.

Era como se alguma força invisível estivesse se apertando ao redor dele.

Cada respiração vinha mais difícil que a anterior.

Sakuta se sentia péssimo.

Tentando se libertar daquela sensação, ele buscou qualquer sinal de compreensão.

“Não finge que não sabe. Todo mundo tá falando sobre sonhos que viram realidade.”

Quanto mais ele tentava parecer calmo, mais desesperado soava.

“Você ouviu algo assim, Tomoe-senpai?”

“Nada.”

Tomoe só balançou a cabeça.

“A hashtag dos sonhos, tá em todas as redes sociais!”

O tom dele estava ficando mais forte. E isso deixava as duas ainda mais tensas.

“Tomoe-senpai, alguma pista?”

“Desculpa, não tenho nada.”

Ela balançou a cabeça, sem saber do que ele falava.

“……”

A reação delas deixou Sakuta sem palavras. Era como se seu interior tivesse congelado, e o último apoio que o mantinha de pé tivesse rachado. Ele estava prestes a desmoronar.

“Pera, vocês nunca ouviram falar de #dreaming?”

Sem conseguir se conter, ele se inclinou para a frente. Sua voz estava ficando mais alta.

Tomoe e Sara trocaram olhares. Pareciam tentar decidir como lidar com aquilo.

“Desculpa, Senpai”, Tomoe disse, falando pelas duas. “Não faço ideia do que você tá falando.”

“Confere o celular de vocês. Deve estar em todos os cantos da internet.”

Elas se olharam de novo e, obedientes, puxaram os celulares.

Claramente já acostumadas a fazer esse tipo de busca. Não demorou muito.

“É, não tem nenhuma hashtag assim, Senpai.”

“Nem nesse aplicativo aqui.”

As duas mostraram a tela para ele, como se aquilo provasse tudo.

“Isso não faz nem…”

Os resultados contradiziam completamente o que ele esperava. Nenhum resultado para #dreaming, só coisas vagas e irrelevantes.

“Posso ver?” Sakuta pediu, pegando o celular da Tomoe para procurar ele mesmo.

O resultado não foi diferente. Igual ao dela.

“……Pra onde isso tudo foi?”

Ele tentou de novo.

Naturalmente, nada mudou.

“Senpai, sério, você tá bem?”

Ele ergueu o olhar do celular emprestado e viu Tomoe com uma expressão de puro medo. Sara não estava muito diferente.

As vozes delas soavam distantes.

Elas estavam ali, mas pareciam estar a cem metros.

A cabeça dele girava.

“Senpai?”

Ele se sentia tonto.

“Sensei?”

Ele não sentia mais o chão sob os pés.

“Ei, Senpai…?”

Tomoe e Sara se inclinaram sobre ele.

“Sensei?!”

O mesmo aconteceu com a mesa e as paredes. Ele sentiu o teto despencar — e então ele e a cadeira tombaram juntos.

Houve um baque alto quando ele caiu no chão.

“Eek!”, Sara gritou.

“Senpai!”, Tomoe arfou. “Fica comigo!”

Caído no chão, ele encarava o teto.

Tomoe se ajoelhou ao lado dele, com o rosto tomado pelo pavor.

Só então ele percebeu que tinha caído.

“Eu tô bem. Não tem nada de errado.”

Ele levantou a mão, tentando provar isso.

“Você não cai do nada se está tudo bem. Se estiver doente, é melhor ir pra casa.”

“Vou chamar o chefe!”, disse Sara, correndo para fora da porta.

“Falo sério, Senpai. Você precisa ir para casa agora”, Tomoe insistiu.

Ele estava começando a achar que ela tinha razão.

“Valeu, Koga. Talvez seja melhor mesmo.”

Ficar ali por mais tempo provavelmente o deixaria louco.

“Senpai, cuidado para voltar para casa.”

“E não faça desvios.”

Tomoe e Sara mandaram Sakuta embora, mas mesmo fora do restaurante ele ainda estava cambaleando.

Parecia que o chão não era firme. Na verdade, ele nem tinha certeza de onde seus pés estavam.

Ele já tinha passado tantas vezes por aquela rua da estação, mas hoje tudo parecia estranho. Tinha vivido ali por anos, mas sentia como se nunca tivesse andado por aquele caminho antes.

Sakuta teve a sensação estranha de que não pertencia àquele lugar.

Como se tivesse entrado em um mundo totalmente diferente.

A mensagem do outro Sakuta continuava ecoando na cabeça.

“Pare a Touko Kirishima.

Antes que a realidade seja reescrita.”

Juntando isso com o que estava acontecendo, o sentido ficava claro.

“Se era para ficar tão ruim assim, bem que o outro eu podia ter sido mais específico…”

Mai dizendo que era Touko Kirishima. As duas Kaedes existindo ao mesmo tempo. Rio e Yuuma namorando. Tomoe entrando na mesma faculdade que ele.

E não parava por aí.

Aquela hashtag dos sonhos, que já tinha dado tanta dor de cabeça para ele, simplesmente tinha sumido. Ele até desejou isso algumas vezes — mas não desse jeito, apagada da mente de todo mundo.

Coisas demais tinham mudado. Diferenças demais.

Se Touko Kirishima era a responsável por tudo isso, ele não tinha escolha a não ser detê-la. Ser jogado nesse caos dava a ele todo direito de tirar satisfações.

Mas ele nem sabia quem Touko Kirishima era. Tinha achado que a Papai Noel de minissaia era ela — mas não era. Nene Iwamizawa nunca foi Touko Kirishima.

“Mas se alguém sabe de algo, é a namorada do Fukuyama…”

Nene tinha sido Touko Kirishima por quase um ano. Talvez tivesse alguma pista.

Quando percebeu, Sakuta já estava correndo do restaurante até a área comercial da estação.

Ele estava procurando Touko Kirishima?

Ou estava apenas fugindo do medo?

Sakuta não sabia, mas sabia para onde tinha que ir.

Subiu as escadas da passarela, indo em direção ao prédio da JR Fujisawa.

Num canto, perto dos armários de moedas e das lojinhas, havia um telefone público verde.

Sakuta pegou o fone, colocou a moeda e discou um número que tinha acabado de aprender.

“Alô?” A voz de um homem atendeu.

Takumi Fukuyama, um amigo da faculdade.

Só então Sakuta percebeu que tinha discado errado.

“Sou eu. Azusagawa.”

“Ah, imaginei! Aqui aparece ‘telefone público’, então achei que era você. O que foi?”

“Foi mal, era para eu ter ligado para Iwamizawa.”

Ele estava mais abalado do que pensava. E não estava no clima de rir de si mesmo.

“É? Para quê? Tá tudo bem com você?”

“Preciso falar com ela, então vou desligar.”

“Pera, não. A Nene tá aqui comigo. Vou chamar.”

No fundo, deu para ouvir Takumi chamando por ela. Sakuta esperou alguns segundos.

“O que foi agora?”

Ela atendeu com um tom claramente irritado.

“Você sabe alguma coisa sobre quem é a Touko Kirishima?”

“Hã? Ela é sua namorada.” O tom dela era quase um deboche. “Eu fui uma idiota. Não acredito que não percebi.”

Parecia que a irritação dela era mais com Sakuta do que com qualquer outra coisa.

Mas ele não tinha forças para discutir aquilo.

“Por favor, me diga qualquer coisa que você lembrar.”

“Sério, pergunta para sua namorada.”

Mesmo insistindo, ela o dispensou.

“Iwamizawa, você uma vez falou algo sobre dar presentes. Sobre a Síndrome da Adolescência.”

“Talvez eu tenha falado.”

“O que você quis dizer com isso?”

“Que ouvir as músicas da Touko Kirishima me deu Síndrome da Adolescência. Acho que por isso pensei daquele jeito.”

Ela falava como se tivesse sido só uma espectadora.

“Talvez eu só quisesse acreditar que era especial por causa disso.”

Ela deu uma risada, claramente se zoando.

“Então você não sabe mais nada?”

“Nada.”

“……”

Era quase anticlimático ver sua única esperança desaparecer assim.

“Mas até que sou grata,” ela disse. “Você me ajudou a curar minha Síndrome da Adolescência. Obrigada.”

“…… De nada.”

“Quer falar com o Takumi?”

“Não… tô bem.”

“É? Então tchau.”

Ela desligou.

O telefone começou a apitar, então ele colocou o fone de volta no gancho. Só então percebeu que sua mão estava tremendo.

Ninguém estava na mesma página que ele.

Não havia um caminho claro para a solução.

Sua boca estava seca.

Sua respiração ficou rápida e curta, como se estivesse tentando puxar ar demais.

Ele ouvia os sons da rua, mas tudo parecia distante.

E mesmo assim seu coração batia alto. Tão forte que doía.

Seu corpo reagia ao medo.

Sakuta reconhecia aquela sensação.

Ele já tinha passado por aquilo antes.

“Ninguém me entende. É exatamente igual.”

No terceiro ano do ensino fundamental II.

Ninguém tinha acreditado que a Síndrome da Adolescência era real. Ele tinha sido isolado.

E agora, estava completamente isolado de novo.

Ele pegou o fone com as mãos trêmulas.

“A Akagi estava comigo ontem…”

Ikumi tinha ficado chocada quando Mai disse que era Touko Kirishima. Ela não conseguiu acreditar no que ouviu. Assim como Sakuta.

Ele digitou onze números.

Mas seus dedos tremiam tanto que ele não conseguia terminar.

Cada vez que errava um número, precisava recomeçar desde o início, e isso levava uma eternidade.

Tantas tentativas…

A mão que segurava o fone tremia ainda mais. Ele precisou apertá-lo com força para não deixar cair, mas isso só deixou o tremor pior.

A única sorte foi que a ligação completou rápido.

“Akagi!”, ele gritou.

Mas a resposta…

“O número que você discou não está disponível. Por favor, verifique o número e tente novamente.”

Uma mensagem automática, fria.

Ele deve ter discado errado.

Foi o que concluiu ao tentar de novo.

Mais uma vez, a chamada conectou — mas tudo o que ouviu foi:

“O número que você discou não está disponível. Por favor, verifique o número e tente novamente.”

A mesma coisa.

“……”

Seu cérebro parou.

Incapaz de processar o que estava acontecendo, ele discou o número da Ikumi pela terceira vez.

E recebeu a mesma mensagem.

Sakuta não tinha digitado errado. Ele tinha quase certeza de que não era algum problema de memória.

Mas a ligação não completava. O número estava indisponível.

Ele sentiu um nó apertado no estômago.

Era tão doloroso que ficou impossível se manter em pé.

A próxima coisa que percebeu foi que estava meio caído ao lado do telefone público.

Sem mais ninguém a quem recorrer.

Ele pegou a carteira para guardar as moedas que haviam sobrado…

…e um pequeno pedaço de papel branco escorregou de entre as notas.

“……”

Suas mãos pegaram aquele papel quase por instinto, aproximando-o.

Onze dígitos, escritos por ele mesmo.

Era a sua carteira, então Sakuta sabia exatamente de quem aquele número era.

Ela tinha dado para ele dois anos antes.

Ele conhecia seu nome e seu rosto.

Mas nunca tinha ligado para ela. E ela também nunca ligara para ele. Os dois sempre haviam se comunicado por cartas.

Ele colocou todas as moedas que tinha no telefone.

Devagar, com cuidado, digitou aquele número desconhecido.

Verificando para não errar nada.

Respirando fundo.

Finalmente pressionou o último número — e ouviu o telefone chamar.

Uma vez. Ninguém atendeu.

“……”

A segunda chamada. Silêncio.

“……”

A terceira chamada foi e veio — e só então ela atendeu.

“Alô?”

A voz dela soava exatamente como ele lembrava.

“Oi, já faz… Desculpa ligar assim do nada. Sou eu. Azusagawa.”

Ele não conseguiu pensar em nada para começar a conversa e acabou gaguejando.

Ela deve ter achado engraçado. Ele ouviu uma risadinha leve.

“Sakuta, o seu destino está entrelaçado ao meu”, ela disse, com um tom brincalhão na voz.

Ele não fazia ideia do que destino tinha a ver com aquilo.

“…… Destino?”, ele repetiu.

E recebeu sua resposta.

“Atrás de você.”

A voz não vinha do telefone.

Vinha bem atrás dele.

“……”

Incrédulo, Sakuta se virou como um boneco de corda.

De boca semiaberta, ele se viu cara a cara com uma garota do ensino médio.

Ela estava a apenas três passos, vestindo o uniforme da Minegahara High.

Seus olhos encontraram os dele, e ela abriu um sorriso alegre, como se mal conseguisse se conter.

Sakuta conhecia aquela garota.

Alguém especial, vinda de lembranças distantes.

A garota do ensino médio que ele conheceu na praia de Shichirigahama, quando estava no pior momento da sua vida.

Ela o consolou naquela época. Seu primeiro amor.

E agora ela estava ali, exatamente como antes.

Com a boca aberta, ele tentou chamar seu nome.

Shouko.

Mas nenhum som saiu.

Depois de um esforço, ele conseguiu rouquear: “Por quê…?”

“Se eu vou pro ensino médio, tem que ser na Minegahara!”, ela disse, dando um sorriso tímido.

Só então o cérebro dele alcançou os fatos.

“Antes de as aulas começarem, dei uma passada para conversar com a equipe da escola sobre o meu corpo — o meu coração.”

A garota com a mão sobre o peito não era a menina que ele conhecera em Shichirigahama.

Era a garota que havia se mudado para Okinawa.

E aquela garota já tinha se formado no fundamental II e estava prestes a começar o ensino médio naquela primavera. Tudo se encaixava.

“Então, o que acha? O uniforme ficou bom em mim?”

Ela fez uma pose.

“Makinohara!”, Sakuta disse, sem conseguir segurar.

Shouko pareceu um pouco surpresa.

Mas logo abriu um sorriso radiante.

“Eu tô bem aqui, Sakuta!”, ela disse. “E agora que eu tô aqui, tudo vai ficar bem.”

“…… Vai mesmo?”

“Vamos encontrar a Touko Kirishima juntos.”

Traduzido por Moonlight Valley

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Fim da leitura

Capítulo 69 concluído

Volume 14 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Andando Pela Névoa