A Senpai Coelhinha — Capítulo 70: Volume 14 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Uma Borboleta Bate as Suas Asas

A Senpai Coelhinha
Cap. 70
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A Senpai Coelhinha

Volume 14 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Uma Borboleta Bate as Suas Asas

Capítulo 70

8.317 palavras~36 min de leitura

1

No dia seguinte, segunda-feira, 3 de abril.

Sakuta estava ao volante de um carro alugado, dirigindo pela rodovia Tomei, com limite de velocidade de cento e cinco quilômetros por hora. Cerca de uma hora antes, eles haviam cruzado a divisa entre as províncias de Kanagawa e Shizuoka e, agora há pouco, tinham passado pela cidade de Fuji.

Haviam saído de Fujisawa quase duas horas atrás.

Ele tinha conseguido dirigir todo esse tempo sem se entediar graças à bela vista do Monte Fuji — e à garota do ensino médio sentada no banco do passageiro. A mesma com quem havia se reencontrado no dia anterior.

“Como a Nasuno está?”, Shouko perguntou, mordiscando um Pocky. Ela ofereceu um a Sakuta.

Ele aceitou, mastigou e respondeu:

“Ótima. Ela pisa no meu rosto pra me acordar de manhã hihi, é muito bom! E o Hayate?”

“Ótimo também. Ele cresceu tanto. Depois te mostro umas fotos.”

Ela parecia animada, mas seus olhos estavam voltados para as placas azul e branco da estrada.

“Estamos quase chegando em Makinohara.”

Ela apontou com orgulho para a placa que levava seu sobrenome.

“Na volta, a gente pode parar numa área de descanso? Quero comprar lembrancinhas pros meus pais.”

“Eu não me importo de parar, mas antes disso… você pode me dizer pra onde estamos indo?”

Sakuta estava dirigindo, mas não fazia ideia do destino.

Shouko não tinha contado nada.

“Você vai descobrir quando a gente chegar lá”, ela disse, com um sorriso travesso, levando um Pocky aos lábios.

Só ela sabia o destino e vinha ajudando na navegação o tempo todo. O celular em sua mão tinha substituído o GPS embutido do carro.

Ele até via de relance o mapa na tela, mas, do banco do motorista, não conseguia distinguir para onde estavam indo.

“Então deixa eu perguntar outra coisa: por que você está de uniforme?”

“Eu achei que isso funcionaria com você”, ela respondeu, sorrindo.

Shouko usando o uniforme da Minegahara era visualmente indistinguível da outra Shouko — seu primeiro amor.

“Não sei se ‘funcionar’ é a palavra certa, mas com certeza isso tá mexendo comigo. A Shouko costumava ser mais velha do que eu, e agora virou a Makinohara mais nova.”

(N/T: Sakuta: e agora os papéis se inverteram kkkk)

Ele riu, mas falava sério.

A garota mais velha do ensino médio que ele conhecera anos atrás deveria ter ido para a faculdade. Já deveria estar trabalhando agora. E, ainda assim, ali estava ela outra vez, sentada ao seu lado, de volta ao ensino médio e vários anos mais nova do que ele.

A única coisa que não havia mudado era o sorriso em seu rosto. Ela o observava dirigir com um olhar gentil.

(N/T: nostalgia daquele filme emocionante….)

“Você começou a parecer mais adulto, Sakuta.”

“Bom, agora eu posso dirigir.”

“E eu estou de uniforme porque é assim que estudantes do ensino médio se vestem.”

“Você vai me levar a um lugar formal o bastante pra ter código de vestimenta? Foi por isso que disse pra eu me vestir bem hoje?”

Ele não tinha aparecido exatamente com o terno engomado que usara na cerimônia de entrada da faculdade, mas estava usando uma jaqueta por cima da camiseta. Casual social? Pelo menos parecia decente, ele achava.

“Não se preocupe, você fica bem assim, Sakuta, aliás, você fica bem com qualquer roupa que você use! Mas eu prefiro mais sem nada haha”

“Vamos encontrar a Touko Kirishima, né?”

“Vamos.”

“E levamos presentes.”

Ele olhou pelo retrovisor. No banco de trás, havia uma sacola com biscoitos em formato de pomba. Shouko os tinha comprado para a Touko Kirishima.

“Isso mesmo. Ah, entra no próximo trevo.”

Eles deviam estar chegando perto.

Depois de sair da via expressa, seguiram por uma rodovia nacional em direção ao sul.

Os primeiros dez minutos foram dominados pelo verde. Algumas casas isoladas, cercadas por plantações de chá. Uma paisagem bem bucólica.

Por volta dos vinte minutos, começaram a surgir construções maiores: fábricas e instalações de processamento.

Cinco minutos depois de passarem por uma fábrica com o nome de uma famosa empresa de chá estampado na lateral, as plantações deram lugar a uma cidade.

“Vira à esquerda na próxima esquina”, disse Shouko, com os olhos no mapa do celular.

“Entendido.”

Ele fez a curva.

Shouko se inclinou para frente, afastando as costas do encosto, e começou a espiar pela janela do lado do motorista. Não demorou muito para ela encontrar o destino.

“Para na floricultura”, disse.

Havia, de fato, uma placa enfeitada com flores.

Certificando-se de que não vinha nenhum carro atrás nem no sentido contrário, Sakuta entrou no estacionamento.

Puxou o freio de mão e desligou o motor.

“Não vai demorar, Sakuta. Espera no carro.”

Sem esperar resposta, Shouko abriu a porta e desceu.

Quando ele olhou de novo, ela já estava entrando na loja, chamando um dos funcionários. Conversaram rapidamente, e ela logo voltou.

“Obrigada por esperar”, disse Shouko, sentando-se no banco do passageiro com um buquê nas mãos.

Não havia nada de estranho em parar numa floricultura.

Mas o tipo de buquê chamou sua atenção.

“As laranjas são cravos-de-defunto, as brancas compridas são goivo, as lilases claras são ervilha-de-cheiro e as amarelas são frésias.”

Ele não tinha perguntado, mas Shouko explicou mesmo assim, no mesmo tom calmo de sempre.

Cada flor era bonita por si só, mas, reunidas daquele jeito, ficava óbvio demais para que aquele buquê servia.

Praticamente qualquer pessoa no Japão reconheceria aquela combinação de cores de imediato.

(N/T: mas nós não somos japoneses kkkkk)

Flores para os mortos.

O olhar de Sakuta saiu do buquê e foi até o rosto dela, enquanto Shouko colocava o cinto de segurança.

“Segue à direita”, disse ela, olhando para frente.

“Certo.”

Optando por não perguntar mais nada, ele ligou o carro.

Eles rodaram talvez uns cinquenta metros.

“Já estamos quase lá. Quando chegarmos, eu te explico tudo”, Shouko sussurrou.

“Se já estamos quase lá, então eu consigo esperar.”

Mantendo uma distância segura do carro à frente, Sakuta pressionou o acelerador.

Cinco minutos depois, Shouko deu o sinal, e eles pararam no estacionamento em frente a um templo antigo, de aparência histórica.

2

Ao passarem sob um magnífico portão de dois andares, Shouko e Sakuta entraram no terreno do templo. Não havia mais ninguém ali; o lugar estava envolto em um silêncio solene.

Eles começaram prestando respeito no salão principal.

Quando terminaram, Shouko disse: “É por aqui”, e seguiu em direção à parte de trás do terreno.

À frente, Sakuta pôde ver um cemitério.

Havia um tanque de água, e eles encheram um balde ali. Sakuta carregou o balde, seguindo Shouko entre as fileiras de lápides. Os únicos sons eram os passos dos dois… e a água balançando dentro do balde.

Vista por trás, Shouko parecia um pouco tensa.

O próprio Sakuta respirava fundo, tentando acalmar os nervos sem perceber.

Por fim, Shouko parou diante de um túmulo.

“……”

Ela conferiu algo em silêncio.

“Acho que é este”, sussurrou.

“Acha? Então é sua primeira vez aqui?”

“É.”

A inscrição continha apenas uma dedicatória aos ancestrais, sem indicar quem repousava ali.

Mas Sakuta podia imaginar.

Ele sabia por que tinham vindo até ali. Shouko o convidara para encontrar Touko Kirishima… e o trouxera até aquele lugar.

(N/T: sinceramente, eu não entendi nada)

Isso já era explicação suficiente.

Então, sem fazer mais perguntas, ele juntou as mãos. Shouko já tinha feito o mesmo.

Em silêncio, eles arrancaram as ervas daninhas, lavaram a lápide e colocaram as flores diante dela. Encheram o recipiente de água. Shouko tirou incenso da bolsa; cada um acendeu metade e os colocou ali.

Mais uma vez, eles fecharam os olhos, com as mãos juntas.

“……”

“……”

Quando Sakuta levantou a cabeça, Shouko ainda estava rezando. Ao observar suas feições, ele percebeu emoções impossíveis de resumir em poucas palavras.

Gratidão vinha em primeiro lugar.

Mas não era só isso.

A duração do silêncio deixava isso dolorosamente claro.

Por fim, ela abriu os olhos e encontrou o olhar de Sakuta. Começou com um sorriso fraco, que aos poucos ganhou firmeza. Seus olhos então pousaram na lista de nomes ao lado do túmulo.

Sakuta seguiu seu olhar.

A lápide estava gravada com os nomes das pessoas ali sepultadas.

Ele leu da direita para a esquerda, conforme os anos ficavam mais recentes.

Na extremidade esquerda, a inscrição mais nova…

Apenas dezesseis anos quando morreu.

Quatro anos atrás. 24 de dezembro.

E o nome…

Touko Kirishima.

(N/T: nossa)

“Véspera de Natal, quatro anos atrás”, disse Shouko em voz baixa. “Ela saiu para encontrar uma amiga e foi atropelada.”

(N/T: Mai-san flashback KKKKKKKK morreu igual ela….)

“……”

“Chamaram uma ambulância e a levaram ao hospital, mas ela nunca mais acordou.”

“……”

“E encontraram um cartão de doadora entre os pertences dela.”

Ele não precisava ouvir o resto.

(N/T: mas eu necessito ouvir o resto)

Mesmo assim, Sakuta esperou Shouko terminar.

Com os olhos fixos no nome de Touko Kirishima, ela continuou:

“Foi Touko Kirishima quem se tornou minha doadora.”

Ele já esperava por isso desde o momento em que Shouko o trouxera ali.

“……”

Mas ouvir aquilo diretamente dos lábios dela o deixou sem palavras. Seu coração não sabia como reagir. Ele estava perdido.

Vieram para encontrar Touko Kirishima… e descobriram que ela já havia falecido. A verdade era que ela salvara a vida de Shouko, algo que Mai e Sakuta não puderam fazer.

Durante todo esse tempo, ele acreditara que Touko Kirishima fosse apenas uma desconhecida. Mas, na realidade, ela tivera um impacto enorme em sua vida — e também na de Mai e Shouko.

Essa revelação o deixou atordoado.

“Sakuta, eu já te disse uma vez…”

“……”

Ele voltou os olhos para ela, atento.

“Não existia nenhuma artista chamada Touko Kirishima em nenhum dos futuros que eu vivenciei.”

Aquilo soava familiar.

“Você disse isso antes de se mudar para Okinawa.”

Shouko assentiu.

“Acredito que isso seja porque, em todos os futuros que vi, eu tinha o seu coração ou o da Mai.”

Havia um brilho nos olhos dela que dizia mais do que suas palavras jamais poderiam. Sakuta não deixou passar o significado disso.

“Em outras palavras, ‘Touko Kirishima’ começou a postar vídeos porque nós mudamos o futuro?”

“Faz sentido, não faz?”

“Mas ela já morreu. Desde a véspera de Natal, quatro anos atrás.”

Os números gravados ali não deixavam espaço para dúvidas.

“E ‘Touko Kirishima’ começou a fazer sucesso, tipo, dois anos atrás. Isso não bate. Ela não é um fantasma, é?”

“Foi por isso que eu te convidei para vir comigo. Eu queria saber mais sobre a garota que me deu um futuro.”

Shouko falava com total seriedade.

Nos olhos dela, Sakuta via mais do que gratidão. Havia um vestígio de tristeza. Um sorriso à beira das lágrimas, em paz, mas tingido de luto.

“Imaginei que você sentiria o mesmo.”

“Você está até falando como a minha Shouko agora.”

Isso arrancou uma risada dela.

Mas o sorriso logo se apagou. O olhar de Shouko deslizou para trás dele — em direção à entrada do cemitério.

Sakuta ouviu passos e se virou, vendo uma mulher se aproximar, carregando flores e um balde. Ela parecia ter pouco mais de quarenta anos.

Ao notar os dois, ela inclinou levemente a cabeça. Eles retribuíram.

“Você é Shouko Makinohara, não é?” perguntou ela, hesitante.

“Sou sim. Eu sou Shouko Makinohara.”

“Obrigada por ter vindo até aqui para ver a Touko. Eu sou a mãe dela.”

Ela se curvou profundamente outra vez.

(N/T: uma coisa interessante da cultura japonesa/asiática, é que o gesto de se curvar representa o respeito que você tem por aquela pessoa. Então quanto mais você se curva, “mais” respeito é demonstrado nesse gesto.)

“Obrigada por responder às minhas cartas. Muito obrigada mesmo.”

Shouko se curvou profundamente também.

As palavras de gratidão dela pareciam carregar um peso enorme.

E isso impediu Sakuta de se intrometer. Ele não era necessário ali. Havia uma leve tensão entre Shouko e a mãe de Touko, como se ambas estivessem se contendo. As duas avaliavam cuidadosamente a distância entre si.

Mas por trás disso havia um calor genuíno, forte o bastante para se sobrepor a tudo.

Cada uma colocando a outra em primeiro lugar.

3

“Obrigada pelas flores tão bonitas. Tenho certeza de que a Touko ficou feliz.”

A mãe de Touko juntou-se a eles para prestar suas homenagens e, em seguida, disse que aquele não era um lugar adequado para conversar, convidando-os para irem até sua casa.

Sakuta e Shouko entraram no carro alugado e seguiram o veículo da mãe de Touko. No caminho, Shouko explicou a situação a Sakuta.

“Depois do transplante de coração, eu mandei cartas para a família da doadora por meio de uma organização de apoio. Escrevi bastante sobre a minha vida. Sobre como comecei o segundo ano do fundamental, fui à praia, como eu estava crescendo…”

“Mas você não sabia o nome da doadora?”

“Não. Eu nem tinha certeza se a família havia concordado em receber as cartas. Não deve ter sido fácil para eles.”

“Mas continuar enviando mesmo assim é bem a sua cara, Makinohara.”

Ele dizia isso de verdade.

“No mês passado, depois dos exames de admissão do ensino médio, escrevi uma carta dizendo que tinha sido aprovada na escola em que queria entrar. ‘Se eu não tivesse recebido um transplante de coração, eu nunca teria me tornado uma estudante do ensino médio.’”

Shouko falou baixinho, com a voz suave, transbordando gratidão. Só de ouvi-la, o coração de Sakuta se encheu de calor, e ele precisou conter as lágrimas. Havia uma sensação insistente logo atrás do nariz.

“E isso fez com que ela respondesse?”

“A mãe dela escreveu de volta. Ela tinha lido todas as cartas que eu enviei. Foi aí que descobri que minha doadora também tinha sido uma estudante do primeiro ano do ensino médio, e que o nome dela era Touko Kirishima.”

Ele não precisava que ela explicasse o resto. Aquela resposta levou à troca direta de cartas entre elas — e à visita de hoje.

O carro à frente entrou numa rua lateral. Sakuta ligou a seta e fez a mesma curva.

Nem cinco minutos depois, os dois carros pararam diante de uma casa de fazenda, com um celeiro construído ao lado.

Assim que saíram do carro, um aroma característico chegou aos seus narizes.

“Nossa, dá pra sentir bem o cheiro do chá”, disse Shouko.

“Como eu disse na carta, nós cultivamos chá”, respondeu a mãe de Touko, guiando-os para dentro da casa.

“Sintam-se em casa.”

“Obrigada.”

“Obrigado.”

Sakuta entrou logo atrás de Shouko.

Eles foram conduzidos por um corredor de madeira bonita até uma sala de estar de cerca de dez tatames. A partir do espaço rebaixado, dava para ver bem a área entre a casa e o celeiro. Ali caberiam facilmente quatro ou cinco carros.

Havia um altar em um dos lados do cômodo.

“É… eu trouxe isso”, disse Shouko, entregando os biscoitos em formato de pomba.

“Que gentileza sua. A Touko adorava esses. Ela vai gostar. Vou colocar a chaleira no fogo; esperem aqui.”

“Podemos prestar nossas homenagens?”

“Claro que sim. Fiquem à vontade.”

Eles esperaram a mãe sair e, então, ajoelharam-se diante do altar.

Acenderam a vela e, em seguida, cada um acendeu um incenso. Shouko tocou o sino, e Sakuta fechou os olhos, unindo as palmas das mãos.

Ele permaneceu assim por mais tempo do que no túmulo.

Acrescentando sua gratidão por ela ter salvado a vida de Shouko.

A mãe voltou trazendo um bule e a chaleira. Primeiro, colocou os biscoitos no altar.

Depois, serviu chá para Sakuta e Shouko.

“Obrigada por terem vindo até aqui para ver a Touko”, disse ela, inclinando a cabeça repetidas vezes.

“Não foi nada. Eu queria vê-la. Obrigada por nos receber.”

Shouko fez o mesmo.

“Por muito tempo, eu simplesmente não consegui responder”, disse a mãe, com os olhos voltados para a mesa.

“Fiquei muito feliz quando a senhora respondeu”, disse Shouko.

“Eu tinha medo de que minhas cartas fossem indesejadas.”

(N/T: e mesmo assim ela continuava enviando mais e mais cartas kkkkkkk)

“No começo… bem, demorou um pouco até eu me sentir pronta. Com o tempo, fui lembrando de mais coisas… e passei a acreditar que foi algo bom o coração dela ter ido para uma garota como você, Shouko.”

Uma lágrima escorreu por sua bochecha.

“Oh, me desculpe”, disse ela, virando o rosto e enxugando os olhos.

Tudo o que Sakuta pôde fazer foi permanecer sentado, observando. Não havia nada que ele pudesse dizer ali. O mesmo valia para Shouko. Eles apenas esperaram o momento passar.

“Você não fez nada de errado, Shouko. Sinto muito, de verdade. Por favor, bebam o chá antes que esfrie.”

Ela sorriu por entre as lágrimas.

“Obrigada.”

Shouko deu um gole.

“Está uma delícia!”

“Fico feliz que tenha gostado.”

A mãe sorriu e enxugou os olhos mais uma vez.

Sakuta também bebeu um gole. O chá tinha um aroma suave, com um amargor discreto por baixo. No final, surgia um leve toque de doçura.

“A Touko bebia muito desse chá?” perguntou Sakuta, falando pela primeira vez desde que haviam entrado.

“Para ser sincera, ela nunca gostou muito”, disse a mãe, rindo baixinho. “Quando eu perguntava se ela queria, geralmente dizia que não. Ela e meu marido discutiam bastante por causa disso. ‘Você não vai beber o chá que a sua mãe faz?!’ Ah… ele não está aqui agora. Eu disse que vocês viriam, Shouko, mas ele só falou ‘Vou dar uma olhada nos campos’ e saiu.”

Sakuta não podia dizer que entendia exatamente como aquilo era, mas conseguia imaginar. O homem provavelmente não sabia como agir diante da garota que recebera o coração de sua filha. Como a mãe de Touko dissera, a culpa não era de Shouko. Mas vê-la era um lembrete direto da filha — da ausência dela e das memórias de quando ainda estava viva. Aquilo devia machucá-lo… e talvez ele acabasse machucando Shouko. Nesse caso, era melhor não vê-la.

“Parece que sou eu quem está falando o tempo todo.”

“Não, por favor, continue”, disse Shouko. “Eu vim para conhecer melhor a Touko. Quero ouvir mais.”

“Nesse caso, deixe-me mostrar o quarto dela. Está exatamente como ela deixou.”

A expressão no rosto da mãe misturava alegria e tristeza.

“Eu sei que um dia vou ter que arrumar tudo, mas…”, disse ela, quase como se estivesse se justificando.

Ela se levantou, e os dois a seguiram pelo corredor e escada acima.

O quarto de Touko ficava nos fundos do segundo andar.

“Pode entrar”, disse a mãe dela. Sakuta seguiu Shouko para dentro.

Devia ter cerca de oito tatames, um pouco maior do que um quarto comum.

Não havia muitos móveis além da cama e da escrivaninha — um layout bem simples.

Havia uma pequena estante sobre a escrivaninha, e Shouko deixou escapar um leve som de surpresa.

Ela puxou um disco Blu-ray da prateleira.

Na capa estava alguém que Sakuta conhecia muito bem.

Mai.

Mai Sakurajima, ainda nos tempos de ensino fundamental.

Esse filme tinha sido um enorme sucesso.

Ela interpretava uma garota à espera de um transplante de coração.

“Esse filme transformou a Touko numa fã de carteirinha. Ela sempre comprava revistas de moda só para ver fotos dela.”

A mãe abriu uma gaveta. Dentro, havia revistas com Mai na capa. Todas em ótimo estado — Touko claramente cuidava bem delas. Ela se importava o suficiente para guardá-las na gaveta da escrivaninha.

“E ela também amava música.”

Depois de fechar a gaveta, a mãe se virou para o violão acústico ao lado do espelho. Com tão pouca coisa no quarto, tanto Sakuta quanto Shouko o tinham notado imediatamente.

“Ela escrevia as próprias músicas também. No computador.”

“Não estou vendo nenhum computador”, disse Shouko.

A escrivaninha estava praticamente vazia. Havia caixas de som em cada lado, ligadas a nada — um espaço vazio evidente no centro.

“Uma boa amiga dela pediu emprestado. Ainda está com ela.”

(N/T: já tenho até uma suposição de quem é)

Ao ouvir isso, Shouko lançou um olhar significativo para Sakuta.

“Oh, eu tenho algumas fotos! Dêem uma olhada.”

Antes que pudessem perguntar sobre essa amiga, a mãe mudou de assunto. Ela puxou um álbum de uma estante cheia de livros didáticos e dicionários.

E o colocou diante deles.

Touko aparecia muito nova nas primeiras páginas. Provavelmente no início da pré-escola.

Vestida com um uniforme adorável, parecendo cheia de energia.

Segurando a mão da mãe.

Na página seguinte, havia mais fotos da pré-escola. Outra garota, também de uniforme, estava ao lado de Touko. Elas tinham feito origami, e Touko mostrava o seu para a câmera. A garota ao lado encarava fixamente o tsuru em sua mão.

(N/T: Um Tsuru é o Grou Japonês, uma ave sagrada no Japão, símbolo de longevidade (vive 1000 anos, diz a lenda), boa sorte, felicidade e fidelidade, e é famoso pelo origami que leva seu nome, com a crença de que dobrar mil Tsurus concede um desejo de cura, paz ou sorte.)

“Essa é a amiga de quem eu falei. Elas se conheceram na pré-escola e continuaram amigas durante o ensino fundamental, o ginásio e o ensino médio.”

Conforme ela virava as páginas, isso ficava evidente. Havia uma foto do primeiro dia do ensino fundamental. Touko, com uma mochila vermelha nas costas, ao lado daquela outra garotinha, em frente ao portão da escola.

A cada página virada, as duas apareciam juntas.

No aquário — uma excursão escolar?

Fotos da viagem de formatura, sorrindo na cerimônia de conclusão…

Elas estavam juntas na cerimônia de entrada do ginásio, fantasiadas de monstros no festival cultural, com pinturas iguais no rosto no festival esportivo…

Em todas as páginas, Touko estava com essa amiga.

E, enquanto Sakuta observava, enquanto as páginas viravam, enquanto as duas garotas cresciam…

A incredulidade começou a tomar conta dele.

Seus olhos eram atraídos menos por Touko e mais pela amiga.

Ela parecia alguém que ele conhecia.

Coisa da imaginação?

Ele continuava dizendo a si mesmo que aquilo não fazia sentido.

Mas, conforme as garotas iam ficando mais velhas, já não dava para negar.

A amiga de Touko se parecia exatamente com ela.

AQUELA PESSOA -

“……”

Ele estendeu a mão para a página e percebeu que ela estava tremendo.

Sua boca estava completamente seca.

Quando chegou à foto da formatura do ginásio, ele já tinha quase certeza.

Ele conhecia a garota que aparecia ao lado de Touko nas fotos.

“Como isso é possível?”

Sem conseguir se conter, com os lábios tremendo de surpresa, as palavras escaparam. Ele sentia que estava pálido como um fantasma.

“Sakuta?” Shouko perguntou, confusa e preocupada.

“Acho que eu conheço ela.”

Ele apontou para a garota ao lado de Touko.

“Oh?” Shouko disse, surpresa. Ela tinha visto muitos futuros diferentes, mas não devia esperar uma coincidência dessas.

O próprio Sakuta tinha dificuldade em acreditar.

Não havia espaço para dúvidas, mas ainda assim ele acabou dizendo:

“Provavelmente.”

Para transformar aquilo em certeza, ele virou mais uma página.

Isso o levou às duas garotas no ensino médio.

Provavelmente tirada em frente àquela mesma casa.

Touko vestia seu uniforme novinho em folha, sorrindo e fazendo um sinal de paz para a câmera. A amiga fazia a mesma pose, claramente convencida a entrar na brincadeira.

E a expressão no rosto dela era familiar demais.

Ela ainda usava o cabelo meio preso.

Ele notou a pequena pinta em forma de gota abaixo do olho esquerdo.

Parecia um pouco mais jovem do que a garota que ele conhecia.

Mas já tinha idade suficiente para que ele não pudesse negar.

“Mitou…”

MIORI MITOU

O nome de uma possível colega da faculdade escapou de seus lábios.

“Oh? Você conhece a Miori?” perguntou a mãe de Touko, surpresa.

“Sim, nós estudamos na mesma faculdade.”

Sakuta estava muito mais chocado do que ela e mal conseguiu responder.

Ela perguntou mais alguma coisa, e ele respondeu algo em troca, mas tudo no automático. Não havia pensamento consciente envolvido. O choque havia preenchido cada canto de sua mente.

“Touko Kirishima” era a última pessoa que ele imaginaria.

Alguém tão próxima.

Miori Mitou.

4

Três horas chegaram e passaram, e o pai de Touko nunca voltou dos campos. Considerando a longa viagem de volta, eles saíram às três e meia.

“Desculpem. Ele realmente não sabe lidar com esse tipo de coisa.”

A mãe balançou a cabeça.

“Não se preocupe,” disse Shouko, com um sorriso suave. “Se não houver problema, eu gostaria de vir visitar Touko novamente.”

“Claro que sim. Ah, por favor, leve isto.”

A mãe começou a se emocionar outra vez, mas entregou a Shouko uma pequena sacola. Ela estava cheia de chá.

“Muito obrigada.”

“E também…” Ela entregou mais uma coisa.

Um caderno.

“O que é isso…?”

“Um diário de troca. Touko e Miori… a amiga de quem falei. Elas escreviam nele uma para a outra. Achei que isso poderia ajudá-la a conhecer melhor a Touko.”

“Tem certeza…?”

Ao seu lado, Sakuta conseguia sentir a hesitação de Shouko só de olhar para ela.

Um diário de troca estaria repleto dos pensamentos mais sinceros de Touko. Eles sabiam o quanto devia ser difícil para a mãe se desfazer disso.

“Claro. Se você não se importar…”

“Vou cuidar muito bem dele. E prometo que vou devolvê-lo.”

Sakuta pegou a sacola de chá, e Shouko recebeu o diário de troca.

Apesar de fino, o caderno parecia pesado em suas mãos.

“É melhor irmos.”

Eles inclinaram a cabeça uma última vez e entraram no carro.

A mãe de Touko acenou, e Shouko se curvou profundamente. Sakuta deu a elas tempo para a despedida final antes de começar a dirigir.

Depois de olhar para os dois lados, ele entrou na estrada e foi aumentando a velocidade aos poucos, até o limite permitido.

Não havia carros à frente nem atrás.

Por um tempo, a estrada foi só deles, e seguiram em silêncio.

Durante todo o trajeto, Shouko ficou no banco do passageiro, com os olhos fixos na capa do diário de troca.

Touko e Miori.

Os nomes das duas estavam escritos ali, cada um com sua própria caligrafia.

Ela não tentou abri-lo nem ler. Mesmo depois de aceitar o caderno, Shouko parecia profundamente insegura sobre se tinha o direito de olhar dentro dele.

Com o tempo, chegaram à estrada nacional e seguiram em direção à entrada da via expressa.

Quanto mais avançavam, menos casas apareciam. Logo, só havia campos de chá.

“A mãe dela decidiu confiar isso a você, Makinohara. Não tem problema olhar.”

“Sim.”

Ela assentiu, mas ainda assim não o abriu. Em vez disso, colocou o diário com cuidado dentro da mochila, certificando-se de que não fosse amassado.

“Quando eu chegar em casa, vou ler com calma.”

“Parece um bom plano.”

Para Shouko, aquelas palavras vinham da pessoa que lhe havia concedido um futuro. E ela queria valorizar cada uma delas.

“A mãe dela parecia uma boa pessoa,” ele disse, mudando de assunto.

A entrada da via expressa surgiu à frente.

“Sim, muito boa.”

As lágrimas haviam se acumulado nos olhos daquela mulher gentil várias vezes enquanto falava de Touko, e isso tinha ficado marcado neles. Era evidente que ela havia feito todo o possível para parecer animada diante deles.

E ver aquilo de perto devia ter sido especialmente difícil para Shouko.

“……”

Ele imaginou que era por isso que ela estava tão quieta.

“Você não fez nada de errado, Makinohara.”

“……Isso não é necessariamente verdade,” ela disse, com um sorriso amargo.

Sakuta fingiu não perceber aquela expressão. Manteve os olhos fixos na estrada.

“Sakuta, você conhece aquela fábula da borboleta que bate as asas e causa um tornado em outro lugar?” perguntou Shouko, com a voz baixa.

“O efeito borboleta? A Futaba mencionou isso uma vez.”

“O que começa como uma pequena mudança pode acabar se tornando algo muito significativo.”

Shouko encostou a cabeça no vidro do lado do passageiro. Ele conseguia ver sua expressão pensativa refletida ali.

“Claro, mas a menos que você seja o demônio de Laplace, não tem como ir do resultado até a causa original. A Futaba disse isso. Ninguém pode saber o que realmente causa as coisas.”

(N/T: diabinha de Laplace… passou tão rápido…)

Ele até conhecia um pequeno demônio, mas os cálculos da Tomoe se aplicavam exclusivamente ao futuro.

“Então você não fez nada de errado, Makinohara.”

Enquanto dizia isso, ele entrou na alça de acesso da via expressa.

Shouko não respondeu.

Sakuta acelerou, entrando no fluxo de tráfego a sessenta e cinco milhas por hora.

“Você está bem, Sakuta?” ela perguntou.

“Por que eu não estaria?”

“Aquilo sobre a Miori Mitou.”

“Foi totalmente inesperado. Me pegou de surpresa.”

E ele falava sério.

“Mas isso significa que a Mitou é definitivamente a verdadeira Touko Kirishima.”

“Acho que sim.” Shouko assentiu.

“Ela disse mesmo que não suporta karaokê.”

Ele se lembrou do primeiro dia em que a conheceu. Todo mundo na festa havia decidido ir cantar karaokê, e os dois tinham desistido juntos.

“Você acha que é por isso?”

“É o tipo de desculpa que a Mitou daria.”

Se ela começasse a cantar, as pessoas poderiam perceber.

Ela provavelmente era ótima no karaokê, mas tinha que fingir que não era e tratar isso com leveza.

“Se ‘Touko Kirishima’ está reescrevendo a realidade, então toda essa confusão é culpa da Mitou.”

Isso, claro, se ele confiasse na mensagem vinda daquele outro mundo possível. Ainda assim, culpá-la simplesmente não parecia certo. E Shouko logo colocou um dos motivos disso em palavras.

“O que a Miori realmente quer?”

Ele sinceramente não fazia ideia.

“Eu até entendo a parte de ela cantar usando o nome da amiga.”

“Tornar Touko inesquecível. Fazer com que apenas o nome dela continue vivo,” disse Shouko.

Sakuta assentiu. “Mas agora todo mundo acha que ‘Touko Kirishima’ sempre foi a Mai, e a própria Mai disse isso.”

“Você acha que ela reescreveu a realidade desse jeito porque a verdadeira Touko era uma grande fã da Mai?”

“Não dá pra descartar… sem falar que a própria Mirou é bem afeiçoada à Mai né?

Mas essa teoria também não encaixava perfeitamente, e isso o fez hesitar.

“Você parece desconfiado.”

“É que eu nunca senti nada assim vindo da Mitou. Nenhuma convicção forte, nenhuma crença firme, pelo que eu vi.”

Era por isso que não fazia sentido ela estar reescrevendo tudo.

“Como ela é?” Shouko perguntou.

“Difícil de entender. Ela sempre se mantém um pouco fora de alcance.”

“Como uma miragem?”

“Talvez.”

Ele soltou uma risada. A expressão era bem adequada.

“Mas isso deixa uma coisa clara,” disse Shouko.

“Deixa?”

“A Miori Mitou é exatamente o tipo de pessoa que você gosta, Sakuta.”

Ela exibiu um sorriso triunfante.

“Eu não disse nada disso. A única pessoa que faz meu tipo é a Mai.”

“E eu também.”

Shouko mostrou a língua, e ele fez uma careta.

“Ah, você queria parar nessa área de descanso,” ele disse, mudando para a faixa da esquerda.

A primeira coisa que Shouko fez foi tirar uma selfie em frente à placa da Área de Descanso de Makinohara. Depois, eles deram uma volta pela loja de lembranças. A região era conhecida pelo chá, e havia muitos produtos relacionados a ele. Shouko acabou comprando um bolo enrolado, e Sakuta comprou um pudim para a Kaede.

“Sakuta, vamos comer aquilo,” disse Shouko, apontando, e os dois compraram sorvete de casquinha. Shouko escolheu uma mistura de chá-verde com leite. Sakuta foi de houjicha.

Essa área de descanso tinha um espaço para cães correrem. Não era algo que se via todo dia. Vários cachorros corriam felizes enquanto o céu começava a escurecer.

Observando a cena, Sakuta deixou escapar um pensamento.

“Não existe segunda chance como aconteceu com a gente.”

Mesmo que existisse, e Touko tivesse sobrevivido… não havia como saber o que aconteceria com Shouko. Era bem possível que houvesse um futuro em que ela não sobrevivesse.

“Estamos no presente agora, então isso não é possível.”

“Foi o que eu pensei.”

Ela estava certa.

Eles haviam conseguido mudar as coisas porque aquela linha do tempo sempre tinha sido o futuro. Tinham conseguido voltar do futuro para o presente.

Mas não havia como ir do presente para o passado. Ele se lembrou da explicação da Rio sobre por que isso era tão mais difícil.

“O que significa que eu vou ter que ir ver a Mitou de mãos vazias.”

Ele deu uma mordida no sorvete. A cada colherada, o sabor tostado do houjicha preenchia sua boca.

“Quer ler o diário de troca, Sakuta?”

Ele pensou por um momento.

“……Melhor não,” disse, balançando a cabeça.

“Isso pode dar alguma pista,” Shouko disse, preocupada.

“Eu vou ficar bem.”

Ele não hesitou. Não tinha certeza do que exatamente queria dizer com “bem”. Mas, estranhamente, tinha certeza de como deveria lidar com a Miori.

“Eu achei que já estava na hora de a gente realmente virar amigo.”

“Mesmo que tenha sido culpa minha a morte da Touko?”

“Mesmo que tenha sido culpa minha a morte da Touko Kirishima, eu ainda ia querer ser amigo da Mitou.”

Com isso, ele colocou na boca a última mordida da casquinha de waffle.

Sakuta e Shouko deixaram a área de descanso às quatro e meia da tarde. O céu a oeste começava a ficar avermelhado.

Logo o carro ganhou velocidade, levando-os a cento e cinco quilômetros por hora. Cerca de duas horas depois, às seis e meia, eles estavam de volta a Fujisawa.

Antes de devolver o carro alugado, ele passou pelo prédio do seu apartamento, com a intenção de deixar Shouko e os presentes que haviam comprado.

Ao fazer isso, avistou uma minivan branca familiar estacionada do outro lado da rua. Ela pertencia à gerente da Mai, Ryouko Hanawa.

“Parece que a Mai acabou de chegar.”

Ele não a via desde o ônibus que servia de camarim no festival de música.

Quando Sakuta saiu do carro, a porta traseira da minivan se abriu, e Mai saltou para fora. Ela devia tê-lo visto de dentro. Aproximou-se sem demonstrar surpresa. Havia um leve traço de irritação em seus olhos — e ele sabia o motivo.

“Por que a Shouko ganha carona antes de mim?”, reclamou ela, beliscando as duas bochechas dele e puxando-as.

“O Sakuta não fez nada de errado! Eu implorei para ele passar o dia comigo!”, declarou Shouko, antes que ele pudesse se justificar.

O olhar de Mai se voltou para ela.

“……”

“……”

Os olhares se cruzaram, e um silêncio caiu sobre eles. Um silêncio tenso.

Mas apenas por um instante.

“Bem-vinda de volta, Shouko.”

“É bom estar de volta.”

A sombra entre elas se dissipou.

“O uniforme da Minegahara fica bem em você.”

“Estou gostando bastante. Me permite enrolar o Sakuta no dedo.”

“Você já está até falando como a Shouko mais velha.”

O crescimento rápido dela deixou Mai um pouco perturbada.

“Mai”, chamou uma voz atrás dela. “Vou levar suas coisas para o quarto.”

Era sua gerente, Ryouko. Ela puxou uma mala da van e seguiu em direção à porta.

“Não, eu mesma levo. Pode ir para casa, Ryouko. Descanse.”

Mai deu alguns passos, depois se virou.

“Shouko, vamos colocar o papo em dia em breve.”

“Claro.”

“Sakuta, certifique-se de que ela chegue em casa.”

“Eu já pretendia. A não ser que isso te irrite?”

“Fique tranquilo, eu estou furiosa.”

(N/T: coitado dele kkkkk)

Ela sorriu, pegou a mala da gerente, acenou novamente para Shouko e Sakuta e desapareceu no prédio. Ele observou até ela sumir de vista.

Ryouko entrou de volta na van, fez um leve aceno para Sakuta e foi embora. Virou à esquerda na esquina e logo desapareceu.

Restaram apenas os dois.

“Você é amado, Sakuta.”

“Eu sei.”

“A Mai estava bem ela mesma.”

“Fora o fato de afirmar ser a Touko Kirishima, sim.”

“E é isso que está te deixando tão inquieto?”

“Ela é a Mai, mas não é.”

“E ao mesmo tempo não é a Mai, mas é?”

Shouko o tinha encurralado.

“De qualquer forma, agora a bola está no campo da Miori Mitou”, acrescentou Shouko.

Ela estava certa. Por isso, Sakuta apenas assentiu.

“Está mesmo”, disse ele.

5

Quinta-feira, 6 de abril.

Um dia ensolarado.

O ar estava fresco — eles haviam acabado de receber um novo grupo de alunos no campus, localizado a convenientes três minutos de caminhada da Estação Kanazawa-Hakkei.

A orientação tinha sido no dia anterior, e os calouros estavam cercados por convites de clubes e equipes ao longo da alameda de ginkgos.

“Acho que isso também aconteceu no ano passado…”, murmurou Sakuta, observando a movimentação enquanto seguia para o prédio principal.

Era o primeiro dia de volta para os alunos do segundo ano, e tudo o que ele tinha era uma orientação para os estudantes de estatística.

Ele estava prestes a entrar na sala do terceiro andar quando ouviu passos correndo atrás dele.

“Bom dia, Sakuta!”, exclamou uma voz animada.

Só havia uma pessoa tão alegre e cheia de energia assim.

Intrigado, Sakuta se virou.

“Vamos fazer deste um ótimo dia!”, disse Uzuki, sorrindo radiante para ele.

“Por que você está aqui, Zukki?”

“Temos orientação!”

“Você não tinha largado a faculdade para poder conciliar a carreira solo com a sua banda?”

“Eu te disse isso. Estou fazendo os dois e ainda indo para a faculdade! Triplo empunhamento!”

Sakuta não tinha nenhuma lembrança disso.

Uzuki havia deixado a universidade no outono passado justamente pelos motivos que mencionara.

“Bom dia, gente!”, gritou Uzuki, sendo completamente ela mesma.

Alheia à confusão dele, saiu trotando para se juntar a um grupo de garotas.

Ninguém parecia estranhar sua presença. Ela claramente pertencia àquele lugar.

Não adiantava muito deixar aquilo travá-lo, então ele simplesmente entrou atrás dela.

Takumi o avistou e levantou a mão.

“E aí, Fukuyama”, disse Sakuta, sentando-se ao lado dele.

(N/T: eu juro que li Fukuyama como se ele fosse o Kunimi kkkk, já ia me perguntar pq ele tava na faculdade)

“Hm?”

“O que você acha da Hirokawa?”

Os olhos de Takumi estavam voltados para o fundo da sala, onde Uzuki conversava com as outras garotas.

“Acho ela bonita.”

Uma resposta despreocupada.

Takumi claramente não tinha nenhuma dúvida quanto à presença de Uzuki ali. Assim como o resto dos alunos, achava que ela sempre pertenceu àquele lugar.

A realidade havia sido reescrita. Esse não era o mundo que Sakuta conhecia.

“Ei, Fukuyama.”

“O que foi agora?”

“Ouvi dizer que você não devia chamar outras garotas de bonitas quando tem namorada.”

“Não conta pra Nene.”

“Se você me pagar o almoço.”

Enquanto mantinham aquela conversa trivial, Sakuta sentiu olhares sobre ele. A curiosidade era palpável. Ele sabia o motivo. Tudo aquilo tinha a ver com os acontecimentos do festival de música do dia 1º de abril.

“Então você sabia desde o começo, Azusagawa?”

“Não sabia.”

“Hã? O quê?”

“Você quer dizer da Mai ser a Touko Kirishima, né?”

“Você lê mentes?”

“Isso já aconteceu uma vez. Temporariamente.”

“Hã? Agora você tá me assustando.”

Takumi recuou, cobrindo o peito com os dois braços. Pelo visto, ele acreditava que a mente ficava no coração.

“Estou brincando.”

“Imaginei”, Takumi riu, como sempre.

Nesse momento, o professor de cabelos brancos entrou na sala.

As conversas cessaram, e os alunos tomaram seus lugares.

Não houve introduções gentis — a orientação do curso de estatística foi direto ao ponto. O professor falou principalmente sobre postura e o direcionamento do curso.

“Vocês terão mais aulas específicas da área, então, se reprovarem em alguma disciplina do currículo básico, certifiquem-se de refazê-la antes do fim do ano.”

“Reprovou em alguma, Azusagawa?”, cochichou Takumi.

“Não sou você, então não.”

“Eu também não reprovei em nenhuma!”

A orientação de estatística estava prevista para durar noventa minutos, mas foi bastante condensada e terminou em apenas trinta. Isso deixou Sakuta livre antes das onze da manhã.

Os outros alunos começaram a sair, amigos perguntando uns aos outros em quais matérias pretendiam se inscrever.

Eles tinham um prazo de dez dias para escolher as disciplinas do primeiro semestre. Uma grande diferença em relação ao ensino médio — agora precisavam montar seus próprios horários. Todos analisavam freneticamente uma lista de matérias, cada uma acompanhada de algo chamado syllabus — que língua era aquela palavra, afinal?

Sakuta já tinha passado por esse processo duas vezes no primeiro ano, e havia sido desgastante. Mas naquele dia, em especial, sua mente simplesmente se recusava a processar aqueles blocos de tempo.

Ele tinha coisas a fazer.

“Algum plano, Azusagawa?”

“Você e sua namorada têm aquele encontro no campus, né?”

“Ahá, então vejo que você também já fez planos.”

Takumi agiu como se tivesse enxergado tudo através dele — e falou como tal. Ele tinha interpretado demais a pergunta, mas Sakuta não viu sentido em corrigi-lo.

“Então, tô indo nessa”, disse Takumi, jogando a mochila sobre o ombro.

Um pouco atrasado, Sakuta se levantou, se animou mentalmente e passou os braços pelas alças da própria mochila.

Ao sair da sala, começou a perambular pelo prédio, observando as outras salas de aula. A maioria dos cursos já havia encerrado suas orientações, e restavam apenas alguns poucos alunos espalhados. Ele não viu Miori entre eles.

Sakuta desceu as escadas até o segundo andar e acabou esbarrando em outro rosto familiar.

“Oh, Senpai.”

Tomoe parecia surpresa ao vê-lo.

Ele também conhecia a garota ao lado dela. Nana Yoneyama, amiga de Tomoe.

“Você veio pra cá também, Yoneyama?”

“Hã? De novo isso, Senpai? Eu já te disse que nós duas passamos juntas!”

“Ah… talvez tenha dito.”

Ele não se lembrava disso, mas era melhor entrar no jogo.

“Ah, é mesmo, Senpai, o que é bom no refeitório? A gente tá indo pra lá agora.”

“Vai de yokoichi-don.”

“Será que a gente pega esse?”, Tomoe perguntou para Nana.

Nana assentiu de leve.

“Aquilo enche rápido na primavera. Melhor correr.”

“Sério? Então vamos rápido, Nana.”

“Oh, espera, Tomoe!”

Nana fez um leve aceno de cabeça para Sakuta e saiu correndo escada abaixo atrás da amiga.

Logo, as duas já estavam longe demais para serem ouvidas.

“A Koga realmente está nessa escola…”, ele murmurou.

Ele se lembrava claramente de ela ter conseguido uma recomendação para um colégio só para meninas na cidade… mas os fatos como ele os conhecia e a realidade diante de seus olhos simplesmente não batiam.

“Isso tudo é culpa da Mitou?”

“Tudo isso é culpa minha?”

Uma voz soou bem atrás dele.

Ele se sobressaltou, apesar de si mesmo,

e virou-se devagar.

A garota que ele estava procurando.

“Mitou, a gente pode conversar?”

“Dá pra ser rápido?”

“Eu preferia que fosse longo.”

“Topo qualquer coisa que não seja romântica.”

Eles foram interrompidos por um ronco. O estômago de Miori.

“Eu tô com fome, então que tal a gente conversar enquanto come?”, Sakuta sugeriu.

“O refeitório tá lotado. Vamos só comprar alguma coisa e comer no jardim”, disse Miori, sem nem piscar.

Ela já estava andando.

Havia várias pessoas no jardim central do prédio principal, mas eles encontraram uma mesa de piquenique vazia. Sakuta e Miori sentaram-se em lados opostos, armados com chá engarrafado e sanduíches comprados numa loja de conveniência.

Primeiro, desembrulharam os sanduíches e começaram a comer. Miori abria bem a boca, devorando o dela com gosto.

O jardim estava banhado pelo sol da primavera.

Havia um lago artificial com uma ponte sobre ele e, em uma pedra no meio, uma tartaruga bem grande secava o casco tranquilamente.

Um almoço pacífico.

“Então, Mitou.”

“O quê?”

“Quer alugar um carro e dar uma volta neste fim de semana?”

Diante da sugestão, Miori primeiro piscou duas vezes, sem dizer nada.

Então abriu um sorriso perverso.

“Parece cantada pra namorada”, disse, em tom provocativo.

“A Mai tá ocupada. Agora ela tem que ser a Touko Kirishima.”

“Todo mundo tá falando disso.”

Miori lançou um olhar para a mesa ao lado, onde quatro garotas encaravam um celular no centro da mesa. Dava para ouvir uma música da Touko Kirishima. As garotas riam e conversavam, e os nomes Touko Kirishima e Mai Sakurajima flutuavam no ar.

“Então, se a sua namorada não tá disponível, o melhor é chamar outra amiga que tenha carteira.”

“Isso também vale pra possíveis amigos?”, perguntou Miori. Ela sorria.

“Mitou, pra você, onde começa uma amizade?”

“Acho que um cara comprometido chamar outra garota pra dar uma volta já passa desse limite.”

“Eu tô perguntando onde fica a fronteira da amizade, não a da traição.”

“Azusagawa”, disse Miori, antes mesmo de ele terminar. O clima mudou instantaneamente.

“O quê?”

“Você já matou alguém?”

O tom de voz dela não mudou em nada. Mas a pergunta o pegou de surpresa.

“……”

Ele não conseguiu responder.

“Eu já. Na véspera de Natal, no meu primeiro ano do ensino médio.”

Ainda assim, o tom dela permanecia o mesmo.

A expressão não se alterava.

Os olhos continuavam fixos na tartaruga, tomando sol sobre a pedra.

“Uma amiga minha ia passar lá em casa. Eu tava esperando por ela, quando ela me mandou mensagem. ‘Tô na loja, quer alguma coisa?’ Eu respondi: ‘Pão de curry!’ Um minuto depois, ela mandou: ‘Pão de curry garantido!’

Mas eu esperei, esperei… e ela nunca chegou. Mandei mensagem perguntando ‘Onde você tá?’ e nunca foi visualizada. Um carro avançou o sinal vermelho e atropelou minha amiga.”

Em nenhum momento uma emoção cruzou o rosto de Miori. Sua expressão estava tão imóvel quanto a da tartaruga sobre a pedra.

“Você acha que, se não tivesse pedido o pão de curry, sua amiga não teria sido atropelada?”

“Ela teria passado pela fila um pouco mais rápido.”

Talvez.

Talvez não.

Sakuta não estava lá. Não havia como saber.

Tudo o que ele sabia era que a amiga de Miori havia perdido a vida naquele acidente.

“Essa amiga era a Touko Kirishima”, disse ele, olhando diretamente para ela.

“……”

Ela não pareceu surpresa.

“Você foi a ‘Touko Kirishima’ o tempo todo.”

Ainda assim, nenhuma reação clara.

E logo ela explicou o motivo disso.

“Recebi uma carta ontem. Da mãe da Touko. Ela disse que uma garota do ensino médio foi visitá-la, acompanhada de um garoto da faculdade. É por isso, Azusagawa.”

“Por isso o quê?”

~“Por que nós nunca poderemos ser amigos.”~

Miori olhou para ele e sorriu. Um sorriso bonito, capaz de fazer a maioria dos homens se apaixonar. Mas, aos olhos de Sakuta, parecia absurdamente frágil e delicado. Como se pudesse se despedaçar a qualquer instante. Era isso que o tornava bonito. Como flores de cerejeira. Um sorriso que rejeitava qualquer pessoa e qualquer coisa.

Um sinal tocou. O horário do almoço estava quase acabando.

Miori tomou aquilo como o sinal para se levantar.

“Tenho um turno agora, então é melhor eu ir”, disse ela, e seguiu em direção ao portão principal.

“Mitou”, Sakuta chamou, levantando-se e falando às costas dela.

Ela não parou. Nem sequer olhou para trás.

Sakuta não se deixou abalar por isso.

Apenas continuou falando.

“Sábado. Me encontra em frente aos portões da Estação Ofuna, ao meio-dia.”

As costas de Miori não lhe deram resposta alguma.

Nem o menor sinal de reação.

Com o tempo, ela atravessou os portões e saiu do campo de visão de Sakuta.

6

Depois que Miori foi embora, Sakuta seguiu para a biblioteca. Imprimiu os planos de ensino que achou que iria precisar e voltou para casa.

A alameda de ginkgos ainda estava lotada de clubes recrutando calouros.

Sakuta passou direto por aquela confusão e saiu pelos portões.

“Então você tá aqui.”

A última pessoa que ele esperava ver estava ali.

Saki Kamisato o encarava com hostilidade. Ela era a namorada de Yuuma — ou melhor, ex-namorada.

“Você teve notícias da Ikumi?”, perguntou, antes mesmo que ele pudesse dizer qualquer coisa.

“Akagi? Achei que o curso de enfermagem tinha sido transferido pro campus de Fukuura no segundo ano.”

“É por isso que eu tô esperando aqui! Não consigo falar com ela. Ela não foi às aulas.”

“Oh?”

“Ela não está lendo nenhuma das mensagens que eu mandei, e quando eu ligo aparece que o número está fora de serviço.”

Ele se lembrou de ter ouvido a mesma mensagem da última vez que tentou ligar.

“Desde quando?”

“Desde a noite do dia primeiro. Naquela manhã, ela disse que ia ao festival com você.”

“Foi a última vez que eu a vi.”

Ainda nem tinha passado uma semana desde então. Não era nada incomum ele ficar uma ou duas semanas sem vê-la. Ele não tinha notado nada de errado.

“Então você não sabe de nada, Azusagawa?”, Saki perguntou, dividida entre ansiedade e irritação.

“Não sei de nada. Se eu conseguir falar com ela, digo que você está preocupada.”

“Tá. Faz isso.”

Com isso, Saki girou nos calcanhares e saiu andando em direção à estação.

“Ei, Kamisato”, Sakuta chamou às costas dela.

“O quê?”

Ela parou e se virou, claramente incomodada.

“Por que você entrou no curso de enfermagem?”

“Não é da sua conta.”

“Por causa do seu ex ser bombeiro?”

(N/T: KKKKKKKKK tocou na ferida)

“……!”

As sobrancelhas dela saltaram.

“E daí?”, ela rebateu, encarando-o com raiva.

“Se você ainda gosta dele, por que terminaram?”

“Pergunta pro Yuuma.”

Com isso, Saki foi embora. Ela não ia parar de novo, e ele também não tentou impedi-la.

Sakuta observou até ela sumir de vista e, então, entrou na cabine telefônica perto dos portões.

Levantou o fone e colocou algumas moedas na máquina verde.

Naturalmente, discou o número da Ikumi.

Saki tinha dito que não conseguia falar com ela.

Ele esperava que fosse só coisa da cabeça dela.

Apenas um desencontro, um timing ruim. Ele realmente não precisava de mais problemas.

Mas essa fraca esperança foi despedaçada pela mensagem mecânica na linha.

“O número que você discou não existe. Por favor, verifique o número e tente novamente.”

Só para ter certeza, ele conferiu o número na cabeça e discou outra vez.

Mas o resultado não mudou.

Ele pousou o fone. Houve um clique, e as moedas voltaram.

“O que aconteceu com a Akagi?”

Será que a realidade estava sendo reescrita de novo?

Ele não sabia.

Mas, se estivesse, sua solução continuava a mesma.

A bola estava no campo da Miori.

Ele não tinha outro meio de restaurar esse mundo quebrado.

Apostando suas esperanças na saída de sábado, ele pegou o troco e saiu da cabine telefônica.

Traduzido por Moonlight Valley

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Fim da leitura

Capítulo 70 concluído

Volume 14 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Uma Borboleta Bate as Suas Asas