Abismo das AlmasCAPÍTULO 88 - 88 — Delícia
Capítulo 88Capítulo 88 — Delícia
Abismo das Almas
Horas… antes
Maftar — Acampamento de Arridar
Em uma das tendas do acampamento: Uma tenda branca com dois mastros diante da entrada sustentavam bandeiras azuis, tão escuras que beiravam o preto, salpicadas de pontos brancos como se fossem fragmentos de estrelas presas no tecido.
O interior cheirava a metal aquecido e poeira antiga. O som grave de engrenagens e um zumbido quase hipnótico ecoava ali dentro.Arridar estava curvado sobre uma máquina — um microscópio colossal, com tubos e lentes que brilhavam sob a luz difusa. Seus olhos analisavam cada imperfeição do orbe que repousava preso à estrutura.
Ele estalou os dedos.A máquina desligou-se de imediato, como um animal obediente ao chamado do dono.
Caminhou até a mesa central. Abriu um caderno grosso de capa escura. Pegou a caneta e começou a escrever com traços rápidos.
—Arridar(anotando, em voz baixa):— Isso não é umnexion… mas tem todas as propriedades. Estrutura, matéria… tudo perfeito, cientificamente falando.Falta apenas… essência. Função. Poder.(acena levemente com a cabeça) O rapaz falsificou isso. De alguma forma.Mas… como?Está noventa e nove por cento perfeito. A ponto de enganar a mim…o Grande Arridar.Ele conhece este mundo muito mais do que aparenta.(pausa, franzindo a testa)Ninguém pode substituir umnexion. Só criar um novo… e nem eu cheguei tão perto.Preciso saber como ele fez. Quem é este homem?
Ele Fechou o caderno com um baque seco.
—Arridar(virando-se):— Quem está aí?
O som de passos pesados se aproximou. A lona da tenda balançou.
—Syter(entrando):— Sou eu, senhor Arridar. Perdoe-me por interromper… mas tenho um pedido.
Arridar se ergueu lentamente, e sua presença preencheu o espaço como se as paredes se fechassem.O manto branco-amarelado caía sobre ele como a pele de uma criatura antiga.
—Arridar(curvando-se, com seus ossos estalando e sua barba branca ondulando como tentáculos):— Que pedido?
—Syter(ajoelhando-se):— Eu suplico… me torne mais forte. Eu faço qualquer coisa. Tire de mim esta fraqueza. Quero abandonar a tristeza… abandonar a bondade… e deixar a raiva tomar conta.(engolindo o choro)Eu quero… poder para poder me vingar.
—Arridar(segurando a cabeça de Syter apenas com a ponta dos dedos):— Tem certeza?
—Syter(recuando as lágrimas demonstrando olhos firmes):— Tenho. Toda a certeza do mundo.
Um silêncio se instaura
Eles se encararam por longos segundos.O ar parecia mais pesado, como se algo invisível estivesse espremendo o espaço entre eles.
Até que…
—Arridar(com um sorriso sereno no rosto):— Tá.
—Syter(abrindo um sorriso de alívio):— O… obrigado, Senhor Arri—
KRII!O som seco e brutal cortou o ar.
SPLASH!O sangue espirrou, tingindo de vermelho as paredes brancas da tenda.A cabeça de Syter havia sido esmagada como uma fruta madura na mão de Arridar.
O corpo tombou.O sangue escorreu, formando rios vermelhos pelo chão, serpenteando entre as tábuas.
—Arridar(olhando ao redor):— Que bagunça… Alguém vai ter que limpar isso.
Snap!— Um estalo de dedos.
O sangue e os restos se juntaram, formando uma grotesca esfera de carne pulsante.Arridar pegou-a entre dois dedos.A sua boca se espandiu.Ele engoliu tudo como quem saboreia um prato caro.
—Arridar(mastigando e sorrindo):— Que delícia.
Greensgard — Algum lugar por aí
Cinzas dançavam no vento. O cheiro de madeira queimada impregnava o ar.Soldados, com armaduras cinzentas e pesadas, reviravam o que restou de um vilarejo destruído.
No centro, sobre um cavalo de armadura ornamentada, estava o comandante.Sua armadura era feita de um material desconhecido, cinzento-escuro, reforçada com detalhes que pareciam absorver a luz ao redor.O elmo, fechado, deixava visíveis apenas os olhos — verdes, intensos, como chamas presas.
A figura desmontou com firmeza.Com um movimento lento, retirou o elmo.Cabelos longos e ruivos se libertaram, dançando no vento.Era uma mulher.
Um súdito aproximou-se e colocou-lhe uma coroa.O rosto dela trazia uma cicatriz em forma de “Y” na testa, marca de alguém que já enfrentou e venceu batalhas impossíveis.
—???(Com a voz carregada de fúria):— O que aconteceu aqui? Quem ousou tocar no meu reino? Quem queimou este vilarejo? Quem fez o meu povo sofrer?
Ela puxou o arco das costas e ergueu-o alto.A tensão das cordas pareceu ecoar como um trovão silencioso.
—???(Olhando para os soldados):— Olhem para esta flecha. Ela não cairá… não tocará o chão… até que cada vida deste vilarejo seja vingada.Enquanto esta flecha estiver no ar, nossa caçada não terá fim.Este é o meu dever como vossa senhora: encontrar… e punir… os culpados.
A flecha foi disparada e subiu até desaparecer no céu.
E então, o brado uníssono:
—Soldados:— LONGA VIDA A ALLDYA! LONGA VIDA A ALLDYA!LONGA VIDA A ALLDYA! LONGA VIDA A ALLDYA!
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