Aoharu Devil — Capítulo 15: Volume 2 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Um sábado no País das Maravilhas

Aoharu Devil
Cap. 15
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Aoharu Devil

Volume 2 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Um sábado no País das Maravilhas

Capítulo 15

7.016 palavras~31 min de leitura

No dia seguinte, depois que eu cheguei na escola, a Ioka mais uma vez ocupou o assento ao meu lado. Ela parecia estar de bom humor hoje, já que a ponta da perna cruzada balançava pra cima e pra baixo enquanto ela olhava pras próprias unhas. Eu sempre me surpreendia com o quanto de atenção e cuidado ela dedicava a elas. A cor rosa suculenta terminava com um brilho branco. Tudo parecia brilhar intensamente, como dez pedras preciosas individuais. Eu acho que a razão de haver tanta variedade de cores é pra combinar com todo tipo de roupa. Mas então, eu percebi que tinha alguma coisa errada. Uma das unhas tinha perdido um pedacinho na ponta. Eu pensei que talvez ela tivesse raspado sem querer, o que era estranho considerando que ela sempre tentava parecer perfeita, não importa a situação.

— Ioka, você tá bem?

— S-Sim! Como você pode ver!

Ela levantou um braço pra se bater no bíceps, mas aquele gesto parecia tão animado que não combinava em nada com o comportamento usual dela. Além disso, até as costas retas, que normalmente me lembravam um pilar de chumbo, agora pareciam encurvadas. Eu fiquei preocupado que ela pudesse estar se forçando a agir como se estivesse bem, mas a cor do rosto dela parecia saudável, e até a exaustão de ontem tinha sumido.

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Mas quando eu quis perguntar pra ela sobre esse comportamento estranho, percebi uma coisa.

O grampo preso no cabelo da Ioka…

Não era o que eu tinha dado pra ela. Em vez disso, do centro dele saíam duas elipses estreitas, mas longas, e as pontas quase se inclinavam na horizontal. O material brilhante poderia ser vidro ou plástico, eu não sabia dizer. Tudo o que eu sabia era que se parecia com orelhas de coelho.

— Isso…

— Ah, o meu grampo chamou sua atenção?

— É. Só achei que parecia diferente do de sempre…

— S-Sim. Eu só senti vontade de mudar um pouco as coisas. Fica bem em mim?

O sorriso dela, como se tentasse esconder os verdadeiros sentimentos, me deixou confuso. O grampo que eu tinha dado pra ela, a gente tinha usado pra selar o demônio.

Então por que ela não estava usando hoje?

Por outro lado, a Sai-san só tinha dito pra não perder ou jogar fora, mas não havia motivo nenhum pra ela usar o tempo todo.

Talvez ela tenha ficado com medo do demônio lá dentro e guardado? Mas quando a gente voltava pra casa, ela definitivamente mantinha ele posto. Talvez tenha um motivo diferente?

Meus pensamentos corriam soltos na cabeça, mas eu lentamente comecei a montar uma solução. A explicação mais óbvia era a que eu subconscientemente tinha evitado. Embora fosse o que a gente usou pra selar o demônio, sempre foi o meu presente pra ela

Então, não poderia ser por isso? E como eu sabia que devia ser esse o caso, era isso que provavelmente me deixava tão confuso agora. Quero dizer, depois do que aconteceu ontem…

Apesar da gentileza que ela me mostrou, eu a afastei com frustração. Fiquei irritado porque tanto a Sis quanto a Ioka têm algo que eu não tenho. Pode não ter sido muita coisa, mas acho que descontei minha raiva nela. E com isso, eu a magoei ou, possivelmente, até a decepcionei. Porque se não fosse esse o caso, ela poderia simplesmente ter me dito que guardou porque tinha medo.

— Ei… sobre ontem — falei.

— Ontem? O que você quer dizer?

— Desculpa.

— Desculpa por quê?

— Bem… eu não formulei da melhor forma, mas não foi minha intenção te afastar.

— …A-Ah, isso? Sim, claro. Entendi. Naturalmente. Mas tá tudo bem. Eu não me incomodo com isso. Só esquece. Sim.

E dessa vez, os olhos dela pareciam estar marejados, enquanto ela apertava a boca. Tem alguma coisa estranha, afinal. Eu não sei como explicar, mas… a gente provavelmente deveria confrontar as respostas.

— Você tá errada, Ioka. Eu só—

— Mas exatamente em que ela estava errada? Eu não sabia pelo que estava argumentando a favor ou contra, mas antes que eu pudesse chegar a uma conclusão, fui interrompido.

— E aí.

Virando-me, lá estava o Umi-senpai. Com a aparição dele, fechei a boca apressadamente.

— Oh, a Ioka-chan tá com você hoje? Que sorte a minha. — A franja longa dele balançou enquanto ele mostrava um sorriso alegre.

Não era exatamente assustador de se olhar, mas ao me deparar com ele, senti uma estranha sensação de pressão. E não era só porque ele era relativamente alto. É como se cada uma das ações dele parecesse tão extravagante. Me lembrava de um caçador nadando pelo oceano. Se eu tivesse que dizer, ele provavelmente estava do mesmo lado que a Ioka. E do jeito que ele não se importava com o que as pessoas ao redor pensavam, era igualzinho ao Roy.

— Umi-senpai, o que te traz aqui? — a Ioka perguntou com um tom caloroso e amigável.

Toda a tensão anterior tinha sumido completamente dela. Ou talvez ela tenha usado essa chance pra se livrar dela à força.

— Oh, Umi-senpai, é? Ter você me chamando pelo nome fica bem legal, não vou mentir.

Ainda assim, o Umi-senpai estava completamente no escuro sobre tudo isso, só sorrindo sozinho. Os olhos dele tinham um brilho um pouco suspeito, mas no fundo ele provavelmente era uma pessoa genuína.

— Mas chega disso. A Miu não apareceu hoje, então vim checar como ela tá. Ela tá de folga?

— …Ah, é.

Olhei pro assento ao lado da minha carteira. Ao fazer isso, cruzei o olhar com a Ioka. Mesmo que a Miu deveria estar sentada ali agora mesmo.

— Isso não é bom. Talvez ela tenha pegado um resfriado — disse a Ioka, colocando uma mão na boca.

Concedido, pode ser um pouco de exagero, mas definitivamente era estranho. Contrariando a aparência dela, a Miu era diligente por natureza, e sempre chegava na escola por volta da mesma hora. Além disso, desde que a gente se conheceu, ela nunca teve um resfriado nem faltou na escola.

— Você ouviu alguma coisa dela? Eu pedi pra ela manter contato, mas como você pode ver… — o Umi-senpai resmungou, mostrando uma expressão incomodada.

— Não, nada. Vou perguntar pra ela agora.

— Hmmm… eu estava me perguntando, mas vocês dois são próximos?

— Sempre que a gente conversa, geralmente leva só um minuto pra ela transformar metade das mensagens em letras de rock…

— Hã? Ela tá fazendo isso? — o Umi-senpai pareceu surpreso, mas logo acalmou a expressão. — Eu juro… será que ela nem sabe que o festival cultural tá logo aí? — Ele não tentou esconder a frustração enquanto suspirava.

Pessoalmente, eu não gostei do tom de voz dele. A Miu pode realmente ter ficado bem doente, e ainda assim ele formulou como se fosse culpa dela.

— Você sabe o endereço da Miu?

— Acho que sim, é — respondi de forma profissional pra controlar as emoções.

Eu fui até a entrada da frente dela pra devolver os livros e revistas de rock que ela tinha me emprestado. Ela disse que não queria que eu arrastasse tudo isso pra escola, e eu me lembro de como aquela sacola plástica era pesada. Eu até olhei tudo, mas era tudo complicado demais pra eu entender, então só consegui dar impressões vagas na hora de devolver.

— Então você poderia levar isso pra ela?

Minhas memórias foram interrompidas pelo Umi-senpai empurrando a mão na minha direção. Ele me entregou um maço de papel preso com um clip no canto superior esquerdo. Abaixo do título escrito com uma fonte alta havia linhas desenhadas na horizontal dentro de uma caixa, com pontos pretos e números. Eu não fazia ideia do que estava escrito ali, mas sabia exatamente o que estava olhando.

— Partitura, né?

O Umi-senpai cruzou os braços e bateu os dedos dos pés no chão.

— Isso, pro festival cultural. Tem que praticar o máximo que puder. A gente não tem tempo pra ela não vir pra escola. Será que ela nem sabe o que tá fazendo?

— Mas se ela não tá se sentindo bem, ela não pode simplesmente…

— O dia do festival já foi decidido, então o melhor que ela pode fazer é ranger os dentes e aguentar.

Mais uma vez, me senti frustrado. Se isso bastasse pra passar pela vida, muitos de nós não estaríamos lutando.

— De qualquer forma, desculpa te empurrar isso. Até mais!

— Ah, ei!

Deixado pra trás com os maços de papel, eu não sabia o que dizer.

— Eu não posso exatamente ir até a porta deles quando ela não tá se sentindo bem…

Além disso, ele não podia simplesmente levar ele mesmo? Por que pediria pra mim fazer isso?

Eu resmunguei pra mim mesmo, e a Ioka deve ter percebido que eu não estava exatamente empolgado com a ideia.

— Você não tá preocupado com ela? Pelo menos vê se ela tá bem.

— Mas você não disse que queria dar uma olhada na nova loja da NarraTale?

Ela estava ansiosa por isso há um tempo. Afinal, era uma das novas criações do Tezuka Teruta, que parecia ser algo bem extraordinário. Ela não pôde ir à recepção pra qual foi convidada por causa de outro trabalho, e eu me lembro dela ficar bem frustrada. Então, por esse motivo, ela praticamente me forçou a ir junto na abertura da loja…

— Ah… isso? — A expressão dela parecia bem complicada. — Tá tudo bem. Você deveria ir ver a Miu-san.

— …Entendi.

Eu não conseguia argumentar contra ela agora que ela tinha concordado. Será que ela simplesmente cansou de mim e usou isso como desculpa pra não ir comigo? Eu não poderia perguntar isso. Não era tão egocêntrico. Além disso, não tem nada a ver comigo pra onde ela vai, então isso é bem mais natural.

— Desculpa, Ioka. Eu com certeza compenso outra hora.

— Tá tudo bem, sério — ela disse e então olhou de volta pra mão.

A voz dela, carregando um leve brilho de frustração, ficou presa na minha garganta como uma espinha de peixe.

✩ ✩ ✩

A casa da Miu ficava ao longo dos trilhos da ferrovia. Era mais ou menos uns 40 minutos a pé da escola até o lugar dela, e embora não fosse absurdamente longe, ainda parecia uma eternidade. Acho que ela normalmente vai pra escola de moto. Como esperado, quando me aproximei da casa que eu lembrava, avistei a moto vermelha do lado, confirmando minhas memórias. Claro, dava pra fazer essa distância de boa com uma bicicleta comum, mas uma moto combina muito mais com a imagem dela. Como a moto era a única coisa parada na frente da casa, a vaga de estacionamento parecia bem maior e mais vazia. Eu apertei a campainha ao lado da caixa de correio e esperei alguns momentos quando ouvi uma voz rouca no interfone antigo.

— Sim?

Eu não reconheci a voz, então entrei em pânico um pouco.

— Ah, eu sou o colega de classe da Miu, Arihara Aurha. Me pediram pra entregar uma coisa…

— Ah! Já vou!

No entanto, logo percebi que estava lidando com a Miu mesmo. Seguido disso vieram alguns passos apressados, e a porta da frente se abriu. A Miu vestia um moletom grande com zíper e o capuz posto. Além disso, eu até conseguia ver um gorro de tricô por baixo do capuz. Como ela estava usando tudo isso, eu podia assumir que ela realmente tinha pegado um resfriado.

— Desculpa aparecer de repente. Você tá bem?

— Ah, sim! Totalmente bem! E aí?

— Aqui. Isso… o Umi-senpai me pediu pra te entregar. São partituras.

No momento em que ela aceitou o maço de papel, a expressão da Miu claramente murchou.

— Isso é pro festival cultural… né?

— É… Ele tava preocupado porque você não veio treinar.

Eu não me senti bem em contar a verdade pra ela, então escolhi uma forma indireta de falar.

— …Ele tava bravo comigo, né?

— Um pouco… é.

— Poxa… eu devia ter imaginado.

Eu amaldiçoei minha própria incapacidade de mentir — ou melhor, de disfarçar as coisas com jeito — e tentei consertar.

— Bom, acontece. Então eu vim ver como você tá, se tá tudo bem.

— Hee hee, valeu.

— De qualquer forma, fico feliz que você tá bem. Dá pra vir pra escola amanhã?

— Provavelmente…

— Beleza, te vejo então.

Eu tinha cumprido meu objetivo, então virei as costas pra Miu, com a intenção de ir embora. No entanto, uma força estava me empurrando de volta, não me deixando sair… Espera, não é isso. Alguma coisa estava me puxando de volta. Virando-me, a mão pequena da Miu tinha se agarrado no meu uniforme.

— Na verdade… eu preciso do seu conselho sobre uma coisa.

— Conselho?

— É um pouco difícil de falar aqui, então você poderia entrar?

— S-Sim, acho que sim…

Miu… quer conselho… de mim?

Pensando bem, tudo o que a gente conversava era sobre rock. Eu nem consigo imaginar que tipo de conselho eu poderia dar pra ela.

Talvez a banda favorita dela tenha acabado? Não, a atmosfera parece pesada demais pra isso.

Eu peguei a maçaneta grande da porta depois que a Miu entrou e a segui. O interior cheirava a Miu em cada canto. Como uma erva, talvez até folhas… podia ser chá preto. Era um cheiro que te permitia relaxar. Embora fosse estranho pensar na Miu e a família inteira dela liberando o mesmo aroma.

A Miu me esperava mais adiante no corredor. Quando baixei o olhar pra tirar os sapatos, percebi que ela estava descalça por baixo da saia curta, com os dedos dos pés enfiados num par de chinelos simples. Parecia estranho considerando que ela se cobria com roupas da cintura pra cima.

— Obrigado por me receber…

Vendo eu observar cuidadosamente os arredores, a Miu soltou um risinho.

— Tanto a mamãe quanto o papai não estão por perto, então não se preocupa.

— Bom, acho que é de se esperar num dia de semana.

— É. Eles trabalham na mesma empresa, então vão voltar pra casa depois do encontro.

— Encontro?

Eu não consegui esconder a surpresa com esse termo inesperado.

— É. Acho que eles saíram pra beber. Talvez?

— Eles devem ser bem próximos.

Por um breve momento, eu imaginei meus próprios pais. Eles se dão bem, mas eu não me lembro deles nunca terem passado uma noite juntos que pudesse ser chamada de encontro.

— Por outro lado, eles nem sempre estão em casa juntos, e quando estão, ficam só se paquerando, então parece que eu nem pertenço realmente aqui. Ainda assim, é melhor do que brigar o tempo todo. Até outro dia, quando eu ainda estava em casa, o papai só foi até a mamãe e—

— D-De qualquer forma, o que você precisava do meu conselho?!

A direção da conversa foi parar em território perigoso, então eu forcei o fechamento. Nesse ritmo, eu teria ouvido todo tipo de detalhe particular que eu definitivamente podia viver sem.

— É, sobre isso… vem cá.

Deixado em espera, eu continuei trotando atrás da Miu. Subimos as escadas e então chegamos ao quarto dela. O quarto em si era mais ou menos o que eu esperava. Uma guitarra preta e branca, conectada a um pequeno alto-falante cúbico, ficava no suporte. Em cima do alto-falante, ela tinha guardado inúmeros fones de ouvido. Posters enchiam as paredes, com CDs espalhados pelo chão inteiro. Ao lado da cama estavam os piercings que ela costumava usar. Como eu já antecipava que o quarto dela fosse assim, ainda assim me surpreendi. Era como um quarto modelo pra amantes de rock and roll. No entanto, era completamente diferente do meu próprio quarto. Praticamente me sobrecarregava.

— Que quarto do caralho…

— Hã?

— Ah, bem, é só tão… você, eu acho.

— O que isso quer dizer?

— Bom, praticamente grita rock, né?

— Não é normal colocar as coisas que você gosta no seu quarto? — a Miu me olhou confusa.

Ela pode ter razão nisso, mas ainda assim era num nível diferente. Me lembrou da Ioka e o apartamento dela lotado de sacos de lixo, mas ela cuidava muito das roupas. Deixando de lado a discussão sobre o que é normal ou não, o fato de que o quarto de alguém reflete a pessoa é verdade. E eu? Eu tenho alguma coisa que eu gostaria de colocar no meu quarto?

— De qualquer forma, vem cá.

Ela agarrou meu braço e me fez sentar na cadeira ao lado da escrivaninha dela. O rosto dela estava vermelho, enquanto ela agarrava a parte de baixo do moletom.

— Então, sobre o conselho…

— É?

— Não conta pra ninguém sobre isso.

Eu ainda estava perdido sobre o que estava acontecendo, mas ela simplesmente virou as costas pra mim. E então, colocou uma mão dentro da saia. Levou um bom segundo pra eu perceber que ela estava agarrando a calcinha.

— E-Espera!

No entanto, ela prosseguiu abaixando a calcinha até as coxas, prestes a levantar a saia. Eu fechei os olhos reflexivamente e desviei o olhar.

Que merda é essa? Por que ela tá se despindo? Eu pensei que ela queria conselho! Que tipo de conselho obriga você a se despirem?

Inúmeras possibilidades encheram minha cabeça, enquanto meu cérebro não conseguia acompanhar.

— Ei, olha pra mim.

— De jeito nenhum!

— Só faz isso!

— Não vai rolar!

— Aruha… por favor — o tom dela era sério.

Antinaturalmente sério, considerando a situação. Então, eu lentamente abri os olhos pra olhar pra ela, enquanto ela me mostrava a bunda. No entanto, não era exatamente como eu imaginava. A calcinha preta cobria a pele. Parecia até pele, inclusive. Mas, por que você usaria calcinha por baixo da… calcinha? Mas o que me surpreendeu ainda mais não foi a parte preta, e sim algo branco em cima disso. Como uma bola redonda de pelo… como um rabo.

— Essa é a razão de eu não ter vindo pra escola hoje — ela explicou com uma voz envergonhada e fraca, mas isso não foi nem de longe o suficiente pra organizar meus pensamentos.

— Q-Que porra é essa? Por que você tá usando isso…?

— Ele… bem, cresceu.

— O quê?

— Tenta tocar.

— Hã? N-De jeito nenhum.

— Só faz.

Ela agarrou minha mão e puxou pra mais perto, enquanto as pontas dos meus dedos tocavam aquele rabo fofo e branco. O pelo preto embaixo parecia estranhamente sólido, como se eu estivesse tocando folhas.

— O que é…

— Cresceu.

Ele… cresceu. Eu só continuei sentindo a sensação do pelo porque minha cabeça não conseguia acompanhar, mas isso não era—

— D-Desculpa!

Percebendo o que eu estava fazendo, entrei em pânico e puxei a mão de volta. A sensação macia do que estava por baixo do pelo ainda ficava na minha palma.

— Não, tá tudo bem. E na verdade, tem mais… — Ela puxou a calcinha pra cima e se sentou na cama.

— N-Não mais…

— Só olha! — Ela tirou o capuz do moletom, assim como o gorro de tricô.

Imediatamente depois, alguma coisa saltou pra cima. Eram duas orelhas, cobertas de pelo preto. Claro, levou um segundo pra eu entender o que eu estava olhando. No entanto, do jeito que elas se estreitaram quanto mais subiam, com o interior colorido de um vermelho-sangue suave, e como se moviam aleatoriamente em direções aleatórias, realmente ficou claro que eu estava olhando pra um par de orelhas.

— Então essas são…

— É... Tenta tocar nelas.

Eu toquei a ponta das orelhas longas. Imediatamente, pude ver o corpo da Miu se contorcer.

Então ela… consegue sentir meu toque?

E era a mesma sensação do pelo de antes. As orelhas pareciam frágeis, como se um movimento errado pudesse quebrá-las ao meio. Assim que desci até a base, conectava diretamente ao cabelo loiro sedoso dela. Não era tão surpreendente, já que o cabelo natural dela tinha uma cor preta similar.

As orelhas dela eram feitas de carne genuína, tinham pele cobrindo, e sangue pulsando nelas. Eram indubitavelmente parte do corpo dela. De longe, você poderia tentar disfarçar como parte de um traje esperto, mas assim que você tocava com as mãos, ficava claro que eram tão reais quanto possível. E naturalmente, era fisicamente impossível que tal transformação acontecesse. Em outras palavras, isso era um fenômeno sobrenatural.

Um rabo, junto com as orelhas… Um coelho!?

— Isso pode parecer uma pergunta estranha, mas onde mais isso aconteceu?

Eu não podia me dar ao luxo de ficar envergonhado ou relutante. Eu imediatamente precisava saber mais sobre a situação. Sem dizer uma palavra, a Miu abriu a frente do moletom e levantou a camiseta. Aparecendo por baixo, não era a pele branca que eu esperava. A área ao redor da barriga era macia e lisa, mas abaixo disso apareceu o pelo preto mais uma vez. Acima do umbigo, eu podia ver como o pelo tinha acabado de começar a crescer, cobrindo parte do peito. Eu não conseguia ver completamente ao redor do pescoço, mas como não vi nada por fora, provavelmente ainda não chegou tão longe. A Miu me observou examinando o corpo dela com seriedade e começou a rir.

— É estranho, né? Eu consigo esconder a maior parte do corpo vestindo roupa, mas mesmo considerando as regras soltas da nossa escola, eles não vão me deixar assistir aula com o capuz e o gorro. Se eu mostrasse pra mamãe e pro papai sobre isso, eles também iam desmaiar.

Se eu tivesse que chutar, ela provavelmente estava tentando disfarçar os medos e brincar com isso. Eu não estaria muito melhor se isso acontecesse de repente com o meu corpo.

— Desculpa, Miu. Se você pudesse abaixar a camiseta de novo…

— Mhm… Aruha, você é tipo um médico — ela disse e ajeitou a camiseta. — Ei, doutor? O que eu faço? Será que eu tô doente… só brincando—

— Você não tá doente.

— Hã?

Ela provavelmente se surpreendeu com o meu tom sério porque os olhos dela se arregalaram.

— Concedido, uma doença poderia ter te deixado em situação melhor, mas… vai ficar tudo bem. Você tem a mim, e não só a mim. Deixa eu ligar pra Sai-san agora mesmo.

Eu tirei o smartphone e liguei pra Sai-san, dizendo que tinha terminado o diagnóstico. Estava claro como o dia, também. Afinal, era a mesma situação pela qual a Ioka passou.

— Miu, eu quero que você me escute com calma. Você tá sendo possuída por um demônio.

Eu pude ouvir ela engolir alto. Ela desviou o olhar, tentando entender minhas palavras. Finalmente, a boca dela se abriu.

— Então tipo… do tipo Black Sabbath? Ou Mayhem?

— Ei, ei, ding dong, ding dong, entrando!

Nós ouvimos o som de um carro parando lá fora, com a Sai-san invadindo o quarto da Miu uns 10 a 20 minutos depois de eu ligar pra ela.

— S-Sai-chansensei?!

Eu não sabia se ela estava surpresa com a rapidez que a Sai-san chegou, ou porque ela se aproximou da Miu sem hesitação. Quero dizer, ela chegou tão rápido como se a gente tivesse chamado uma ambulância… Bem, a segunda também combinaria com a descrição de uma ambulância. Mas de qualquer jeito que você vire, isso foi uma reviravolta chocante. Não acredito que agora foi a Miu quem foi possuída por um demônio.

— E aí, Miu-kun. Parece que você pegou uma companhia infeliz. Agora, me mostra tudo. Mas não se preocupa, porque eu… sou uma pesquisadora!

— O quê?! Não! Ruim! Assustador! Você vai me cortar pra pesquisa?!

— Vamos, tira essas roupas. Deixa o doutor ver o seu corpo…

— Waaaaaah!

A Miu foi empurrada pela Sai-san, o corpo dela confinado na cama. Eu só fiquei parado observando isso se desenrolar, mas fui forçado a desviar os olhos no meio do caminho. Sem dúvida, isso deve ser obra do demônio. Apesar desse estado crítico, tanto a pessoa envolvida quanto a suposta profissional não mostravam nenhum sinal de perceber a gravidade da situação. Me fez sentir um idiota por realmente ter entrado em pânico um pouco.

— Você não tirou as roupas sem nenhuma hesitação há poucos momentos atrás?

Até esse tipo de reclamação acabou saindo da minha boca.

— Isso e aquilo são diferentes! Tão grande quanto a diferença entre Oasis e Blur! Waaaah!

Desconsiderando a resistência da Miu, a Sai-san terminou a análise e ergueu o corpo dela de novo, tirou um doce do bolso e enfiou na boca depois de remover o papel.

— Ufa, bem melhor. Quer um também, Miu-kun?

— S-Sim… — a Miu resmungou enquanto ajeitava as roupas, colocando o doce na boca.

A Sai-san brincava com o doce na boca enquanto encarava a Miu, depois deu de ombros.

— É, sem dúvida. Você tá possuída por um demônio. Sem dúvida nenhuma. Tem coisa sinistro acontecendo.

— Se você diz… então deve ser verdade…

— Eu tentei explicar o que podia sobre demônios antes de você chegar aqui…

— Que considerado. Como esperado do meu aluno — ela disse e me deu uma piscadela, mas eu não acho que a Miu nem escutou minha explicação.

Ela só soltava nomes aleatórios de bandas ou músicas relacionadas a demônios. No entanto, depois de explicar que a Ioka também tinha sido possuída, ela de repente escutou com seriedade, e depois de ouvir da Sai-san, aparentemente aceitou a situação. Enquanto isso, a Sai-san se sentou na cadeira ao lado da escrivaninha, cruzando as pernas como se fosse dela.

— Primeiro, deixa eu te perguntar umas coisas. Alguma coisa estranha acontecendo ao seu redor ultimamente?

— Essa coisa inteira acontecendo com o meu corpo provavelmente é a maior… embora a minha 6ª corda tenha estourado mesmo eu tendo acabado de colocar! — a Miu apontou pra guitarra no suporte, mas eu segurei a cabeça em desespero.

— Você realmente acha que aquilo foi obra do demônio?!

— A 6ª corda! Ela normalmente nunca estoura!

— Esse não é o problema…

— É um problema grande. Elas são caras!

— Eu tô te falando que a gente tem problemas maiores! A gente tá falando de um demônio!

A expressão da Miu ainda parecia que ela não tinha captado a gravidade da situação, enquanto ela só acariciava as orelhas que cresciam da cabeça.

— Quer dizer, eu entendo o que você tá falando, mas ainda não caiu a ficha…

— Seu corpo é a melhor prova que você poderia precisar.

— Quer dizer, claro, mas…

A Sai-san assistiu a essa troca redundante e gemeu pra si mesma.

— …É um pouco estranho que só o seu corpo tenha mudado tanto.

— Como assim?

Eu ouvi um som de mastigação vindo da boca da Sai-san. Ela deve ter terminado o doce cedo, já que engoliu o resto.

— Demônios sem corpo do 5º elemento normalmente interagem com os quatro elementos conhecidos pra conceder desejos. A mudança no corpo físico mostra a distância entre a alma e o demônio, ou melhor, entre o demônio e o desejo. Falando em termos de doença, seria como dizer que progrediu. Os demônios também estão intimamente relacionados a bestas. Ou mais precisamente, existe a teoria de que se você for possuído enquanto carrega um desejo que não pode ser concedido, você imediatamente perde a humanidade e a capacidade de raciocinar, se transformando numa criatura bestial que vive só pelos desej-

— Sai-san, a Miu não tá acompanhando absolutamente nada.

Ela olhava pra Sai-san de boca e olhos abertos, então eu interrompi essa explicação que provavelmente teria continuado pra sempre se eu não metesse o bedelho.

— Ah, perdão. Deixa eu te explicar em termos leigos, então. A razão de você já estar virando um coelho é porque o seu desejo é tão forte, e isso ressoa com o demônio.

Eu me lembrei do caso da Ioka mais uma vez. Ela só se transformou naquela lagartixa humanóide bem no final, na Arena Sakamaki. Comparado a isso, a Miu já tá chegando perto disso agora.

— E ainda assim, nada ao seu redor aconteceu pra você nem ficar ciente disso. Como eventualmente vai ter que revelar o seu desejo, é seguro assumir que o demônio pode estar causando alguma coisa completamente fora da sua visão.

Demônios tentam conceder desejos das pessoas que elas mesmas não estão cientes. Então, pela mesma lógica, não seria loucura demais assumir que o demônio estava causando fenômenos sem ela nem perceber, ou que já houve casos assim.

— Então… eu posso voltar ao normal?

Tendo escutado a nossa conversa até agora, a Miu mostrou um brilho de preocupação.

— Claro que pode. No entanto, isso só vai funcionar depois que a gente exorcizar o demônio que tá te possuindo.

— E se falhar…

— Tem uma boa chance de que a sua metamorfose física continue até você se transformar completamente num coelho — a Sai-san disse aquela frase sinistra usando um tom alegre contraditório.

Enquanto isso, eu senti um calafrio frio percorrer a espinha. Se ela já mudou tanto assim, então eu não acho que o demônio vai ter piedade.

— I-Isso seria bem ruim, hein!

Parecia que a Miu finalmente entendeu o perigo da situação dela. Bem na hora em que eu queria perguntar qual deveria ser o nosso próximo passo, a Sai-san bateu no meu ombro.

— Tá tudo bem, o Aruha-kun vai cuidar de tudo.

— Ele… vai? — a Miu me olhou.

— Eu sabia que isso ia acontecer…

— Dessa vez, a gente precisa investigar tanto o desejo quanto o fenômeno. E infelizmente, eu tô ocupada com outro caso — a Sai-san disse, lançando um olhar pra mim.

Apesar disso, eu tinha a sensação de que sabia do que ela estava falando, então só consegui concordar com a cabeça.

— É assim que é. Então, tô contando com você, Exorcista-kun.

— Por favor me ajuda, Aruha!

Por algum motivo, a Miu só estava sorrindo, enquanto batia no meu outro ombro. Eu só consegui suspirar com a situação que estava enfrentando. Será que eles nem sabem o que tá em jogo aqui?

— Eu vou avisar a escola que você vai ter que ficar um tempo de folga. Coloca um motivo aleatório que convença eles. Eu posso fazer isso pra você também, Aruha-kun. Essa não é exatamente a hora de você frequentar a escola.

— Um motivo aleatório?

— Que você ficou careca por causa do estresse.

— Tem que ter motivos melhores, não acha?!

A opção que ela ofereceu era cruel demais, eu imediatamente levantei a voz em protesto, mas ela só ignorou.

— Eu pensei que queda de cabelo era um dos maiores problemas que adolescentes na juventude enfrentavam?

— Pode ser verdade, mas…

— Eu topo. Quer dizer, eu tô tingindo o cabelo há tanto tempo, eu mereço. Valeu, Sai-chansensei!

Para o meu choque, a Miu parecia estar de boa com essa ideia, me forçando a engolir as reclamações.

— Naturalmente. É meu trabalho apoiar vocês pra que cresçam saudáveis e fortes. De qualquer forma, eu deixo o resto com vocês! — ela disse e saiu do quarto, deixando a Miu e eu pra trás.

— Agora, por onde começar…

Como o exorcista dela, eu tenho que exorcizar o demônio da Miu.

— A gente só precisa descobrir o meu desejo e conceder ele, né?

— Essa é uma parte, mas a gente também tem que descobrir o que tá acontecendo nos bastidores…

— Ei, ei, Aruha. Tem uma coisa que eu tô um pouco preocupada!

— Você não tá animada do nada?!

Apesar de ter acabado de descobrir que estava possuída por um demônio de verdade, ela parecia mais empolgada do que qualquer outra coisa. Por outro lado, é isso que faz dela a Miu no final. E gostasse ou não, nada podia começar se eu não escutasse o que ela tinha pra dizer.

— A gente vai fazer aquele show ao vivo no festival, lembra?

— É.

— Então, eu só não tenho certeza se consigo mesmo puxar isso. Eu me pergunto se o meu desejo pode estar relacionado a isso. Considerando que eu tô até causando problema pro Umi-senpai…

Eu fiquei um pouco surpreso de ouvir isso, mas depois de ter conhecido o Umi-senpai hoje e visto como ele age, eu conseguia ver que eles não estavam exatamente navegando em águas tranquilas.

Seja qual for o problema real, é verdade que o Umi-senpai provavelmente tá um pouco frustrado com ela e é isso que poderia estar causando o estresse que trouxe o demônio.

É plausível, mas ainda não decisivo o suficiente.

— O demônio tá tentando realizar um desejo que a própria pessoa não percebeu, lembra?

— Mas é pra ser importante, né?! Não tem nada mais importante pra alguém que vive de rock and roll do que o show ao vivo.

— H-Hm… será que realmente é assim?

Se o palco de uma modelo de moda é a passarela, então o único desejo de um músico seria dar um show.

— Mas ultimamente, a concentração de rock no meu sangue caiu drasticamente, o que impacta negativamente minha motivação.

— Esse é um conceito que eu nunca ouvi falar.

— Vai ter um show ao vivo de uma banda que eu gosto logo. Por que você não vem comigo? Assim, eu acho que consigo me esforçar mais nos ensaios de novo… e tenho certeza que vai conceder o meu desejo.

— Eu não acho que essa lógica funcione aqui.

— Lógica não se aplica a rock and roll. Foi o que o Kiyoshiro¹ disse!

— Como eu deveria saber disso?

Dito isso, se eu não verificar o que tá acontecendo ao redor dela, eu nunca vou fazer progresso.

Por que os exorcistas são sempre os que são arrastados pelas pessoas que estão tentando ajudar? Ou pode ser só a minha própria natureza falando.

Antes de ser sobre demônios e o que seja, eu só tenho tendência a ser empurrado bastante.

Se a Ioka é obcecada por roupas e a Miu ama absolutamente rock… então talvez, se tem alguma coisa que eu poderia ser apaixonado, seria exorcizar demônios?

Eu olhei pras orelhas da Miu. Elas nem deveriam existir em primeiro lugar, e ainda assim continuavam enfatizando a cabeça dela. Mas, mesmo sem toda essa conversa, eu só quero ajudar uma amiga. Porque é assim que eu genuinamente sentia.

— Bom, acho que posso ir junto.

— Eba! É uma promessa!

Mesmo apesar da aparência surreal dela, a empolgação nos olhos nunca mudou. Chegou a me fazer pensar que até exorcizar o demônio não ia ser grande coisa.

✩ ✩ ✩

Eu recebi a ligação depois que me despedi da Miu e cheguei em casa.

Como ela me fez ficar pra ajudar a se preparar e escutar música, já estava bem tarde da noite. Durante todo esse tempo, nada digno de nota aconteceu. Na verdade, eu quase tinha me acostumado com as orelhas dela se mexendo. Ela parecia quase mais empolgada do que o normal, mas definitivamente era melhor do que a atitude de sempre quando tentava me fazer escutar todas as músicas de rock favoritas dela.

Ao voltar pra casa, olhei ao redor do meu próprio quarto. Como eu lembrava, não tinha nada. Claro, isso significava que eu tinha o mínimo necessário, tipo uma cadeira, uma escrivaninha, uma cama e uma prateleira pra alinhar os cadernos de exercício. Eu até tinha alguns brinquedos e pelúcias de quando eu era bem mais novo. No entanto, de um ponto de vista objetivo, não parecia realmente o meu quarto. Eu só tinha todas essas coisas no quarto, mas não parecia que eu tinha feito a escolha de decorar assim.

Eu acabava de colocar o smartphone na escrivaninha vazia quando ele começou a vibrar. Mostrado na tela estava o nome do Shimizu-san. Eu pensei comigo mesmo que eu realmente era o Sr. Intrometido hoje, enquanto atendia a ligação.

— Rapaz, a gente pode conversar agora?

— Claro. Aconteceu alguma coisa?

Desde aquele evento na arena, o Shimizu-san periodicamente entrava em contato comigo assim. Dizia que gostaria de saber como a Ioka está, e ela não parece ser muito aberta com ele.

E a Ioka me deu permissão pra contar pra ele também.

Ela provavelmente não se dava ao trabalho de contar pra ele sobre cada detalhe pequeno. E por causa disso, eu acabei numa posição estranha de ser a pessoa que reporta pro empresário sobre como a modelo está. Ainda assim, a situação dessa vez era bem grave. Como ele não sabe, eu vou ter que contar.

— A Ioka tá agindo de forma estranha ultimamente. Você tem alguma ideia do que poderia ter causado isso?

A pergunta dele me fez pular. Eu não posso contar que as coisas estão um pouco estranhas entre a gente. E não tem como ele conseguir adivinhar isso, mesmo com os sentidos afiados. Eu me recompos e respondi calmamente.

— Eu acho que ela tá um pouco exausta ultimamente, sim. Mas ela tá indo pra escola direitinho.

— Entendi… Você ouviu sobre a nova loja da NarraTale?

— Sim, mais ou menos.

— Olha, ela disse que ia aparecer hoje porque não conseguiu da última vez, e o Tezuka Teruta até estava esperando pra vê-la.

— Ah, isso parece ótimo. Aposto que ela ficou feliz.

— Sobre isso… Ela não foi, aparentemente.

— O quê?!

Eu entrei em pânico. É verdade que eu priorizei cuidar da Miu, mas isso não significa que ela tinha que faltar também.

— Eu fiquei bem chocado, eu mesmo. Eu chequei a agenda dela e me certifiquei de que ela teria tempo, e o Sr. Tezuka só riu dizendo que ela provavelmente não estava com vontade, mas…

— Não combina nada com ela.

— Você concorda, né? Talvez ela realmente esteja tão exausta assim sem estar disposta a mostrar.

— Talvez…

— O Tezuka Teruta tá bem interessado na Ioka. E como designer-chefe da NarraTale, a influência dele é um trunfo valioso. Agora que ela tem mais trabalho, é a minha hora de brilhar como empresário dela, mas…

— E não tem como ela perder nenhum trabalho também.

— Eu sugeri pra ela tirar um tempo de folga, mas ela só queria o máximo de trabalhos possível sem me escutar… Mesmo eu avisando o tempo todo que destruir o corpo não vai ajudar a longo prazo. Ela nunca muda, de verdade…

— Eu também pedi pra ela ir com calma por um tempo.

— Ela tá comendo direito? Eu não me importo de levar comida todo dia, mas não quero me intrometer demais, ou ela vai acabar me odiando…

— Tenho certeza que seus sentimentos chegaram bem…

Eu tentei mostrar compaixão, mas pra ser perfeitamente honesto, ter o empresário aparecer todo dia pra trazer comida definitivamente era algo que poderia colocar muita pressão em você. Eu não sei se quero que ela agradeça mais ele, ou se gostaria que ele aliviasse um pouco.

— …O que realmente me preocupa é que ela ainda tá fazendo caminhadas regulares. Muita gente que a avista na cidade tira fotos e sobe nas redes sociais. Às vezes até em lugares que não têm nada a ver com roupa. Ela provavelmente não tá fingindo nada julgando pela personalidade, mas eu acho estranho.

Será que ele tem tendências de stalker? E tá usando essa habilidade ao máximo como empresário?

Ainda bem que ele tá usando pro lado certo. Mas deixando isso de lado, eu entendi o que ele estava tentando dizer.

— Então você quer dizer que o estresse pode estar pegando nela?

— É mais como uma teoria de coerência a essa altura — ele disse e suspirou uma vez. — Desculpa, eu sinto que fico te contando demais toda vez — ele suspirou de novo e então chegou à conclusão. — Eu acho que vou forçar ela a tirar uma folga. E vou fazer o meu melhor pra não entrar em contato com ela. Seria ótimo se você pudesse ficar perto dela durante esse tempo.

— Espera, calma. A gente não—

— Eu sei que você tem que tomar cuidado com quem tá olhando, mas se escolher o lugar certo, com certeza vai conseguir sair num encontro ou dois.

— Um encontro…

Por um breve momento, eu me perdi em pensamento e fiquei quieto. O Shimizu-san deve ter adivinhado meus sentimentos internos.

— Eu acho que não formulei isso da forma mais delicada. De qualquer forma, eu espero que ela possa conversar com você pra lidar com o estresse excessivo. É só isso.

— Mas não é isso.

— Como assim?

— Bem… Sempre que eu vou junto, é basicamente só relacionado a trabalho, ou sobre roupa, então eu não sei se ela consegue realmente relaxar quando eu tô por perto.

— Ahhh…

Parecia um pouco uma desculpa desesperada, mas o Shimizu-san soltou um gemido longo como se concordasse com a minha afirmação.

— Você consegue imaginar, né? Com a Ioka, é tudo sobre o trabalho dela.

— Talvez você pudesse convidar ela pra algum lugar que não tem nada a ver com o trabalho dela?

— Se a gente for no zoológico, ela vai falar de pelo. Se a gente for no cinema, ela vai falar das roupas e dos figurinos.

— …Você pode ter razão.

O Shimizu-san e eu suspiramos em uníssono. A gente até criou o mesmo barulho, como se fôssemos microfone e alto-falante. E tudo isso por causa de uma única garota.

— Mesmo assim, é melhor do que deixar ela sozinha. Só fica por perto dela, beleza?

— Eu vou… Mas não espera demais.

— Se me ajudar a facilitar o trabalho, eu faço o que for preciso. Mas, isso é uma coisa que eu simplesmente não consigo fazer sozinho.

— É uma coisa que você não consegue fazer?

— É. Eu preciso da sua força agora.

— Mas…

— Tô contando com você, rapaz — ele deixou essas palavras encorajadoras pra trás e finalmente desligou.

Será que realmente tem alguma coisa que eu poderia fazer pela Ioka? Soava bem pesado, ouvindo dele. Especialmente sendo o empresário dela. Eu me deitei na cama e olhei pro teto. As luzes de LED redondas brilhavam com uma luz branca igual a uma lua cheia. O Shimizu-san pode ter dito tudo isso, mas uma parte de mim acredita que seria mais benéfico se a Ioka passasse tempo com a Rosy em vez disso. Concedido, elas começaram com o pé esquerdo, mas depois de se conhecerem melhor, até viraram boas amigas. Elas podem ser um pouco distantes em termos de idade, mas como colegas modelos, podem aprender muito uma com a outra. Afinal, quem mais de perto observa a Ioka quando ela tá trabalhando provavelmente é a Rosy.

A Ioka parece estar tentando inventar motivos pra me arrastar por aí. Mas, por quê? Claro, eu consigo pensar em várias razões possíveis, que seriam todas bem convenientes demais pra mim. Eu gostaria de achar que consigo ser racional o suficiente pra não acreditar em fantasias desse tipo. E como prova disso, ela é ofuscante demais pra mim.

Mas… se tem alguma coisa que eu poderia fazer por ela… Se eu pudesse fazer alguma coisa pra ajudar a conceder o desejo dela, então… Ioka. Que tal a gente sair algum dia? Talvez em algum lugar que não tenha nada a ver com roupa.

No entanto, naquela hora, eu ainda não tinha percebido… que o demônio já estava bem ao lado dela.

Fim da leitura

Capítulo 15 concluído

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